Entrevista: bibliotecária “fora da caixinha”

Nesta semana recebi algumas perguntas de um pessoal da graduação em biblioteconomia da FESPSP. Eles estão criando um seminário sobre bibliotecários “fora da caixinha” e quiseram saber sobre a minha formação acadêmica e sobre carreira. Pessoalmente não curto muito esse termo “fora da caixinha”, como se fosse algo especial ou algo a ser celebrado… Acho meio bobo. Sem falar que ele causa uma ansiedade danada nas pessoas e, muito contra-intuitivamente, não as faz dar o melhor de si (justamente pela ansiedade que causa, etc.). Não me considero “fora da caixinha” mesmo porque ainda faço uma porção de coisas bastante operacionais e dentro da caixinha ainda, só que de modo sensivelmente diferente e com outras perspectivas e linha de pensamento… E qualquer outra pessoa pode fazer isso, se tiver intenção o suficiente. Eu poderia falar muito mais sobre isso, mas prefiro deixar pra dizer algumas coisas pessoalmente, apenas. Enfim…

Por fora bela viola, por dentro gatinha na caixinha, etc…

De qualquer modo, seguem minhas respostas:

  • Ao analisar seu perfil, nas plataformas sociais LinkedIn e Facebook percebemos que sua atuação abrange atividades que muitas vezes nem ouvimos falar na graduação, como por exemplo: elaboração de basic content; SKUs; compliance; framework, etc. Fale-nos um pouco da sua formação acadêmica e como se deu a escolha pelo ramo que atua no momento (e-commerce). A educação continuada é um diferencial para quem pretende seguir neste nicho? Pode citar quais cursos extracurriculares realizou e ainda pretende fazer para se aprimorar?

Biblioteconomia é minha segunda graduação e resolvi fazer porque me identificava muito com a área. Sobre a escolha da área em específico que estou no momento, acredito mais que fui escolhida do que o oposto. Não estava buscando ativamente trabalhar com Internet, a oportunidade apareceu pra mim e resolvi aceitar o convite. Sobre educação continuada, ela é realmente importante, mas não chega mais a ser considerada exatamente um diferencial pelo mercado. Supõe-se que as pessoas naturalmente invistam em suas carreiras. O diferencial nem sempre está na técnica, mas em nossa personalidade. Em relação a cursos extracurriculares, fiz inglês na Cultura Inglesa desde pequena e durante a graduação em biblioteconomia fiz duas disciplinas do mestrado como aluna especial. Fora isso, tenho um blog (indexadora.wordpress.com) onde escrevo vez e outra algumas considerações sobre a área, a profissão, etc. Também já escrevi para o Bibliotecários Sem Fronteiras (bsf.org.br) por algum tempo.

  • Comente um pouco sobre como funciona a empresa na qual você trabalha e o no que seu trabalho impacta.

Além das livrarias megastores e da editora, o Grupo Saraiva tem investido no e-commerce também. Atualmente, estou na Saraiva Online como Especialista em Taxonomia. Trabalho em conjunto com a equipe de User Experience (UX) e isso tem impacto direto nos produtos de interfaces, seja no desktop ou em mobile. A minha parte do trabalho é focada em dois sistemas bem importantes na Arquitetura da Informação: o sistema de organização e o sistema de nomenclatura. Meus colegas de bancada estão mais envolvidos com o sistema de navegação (layout, etc.) e também de busca (SEO), mas os trabalhos são bem interdependentes.

  • Como são os usuários/clientes? Como se dá o processo de estudo desses usuários?

Pela minha experiência, existem vários tipos de clientes. Meus clientes diretos são meus colegas de equipe, pessoas que vão avaliar meu trabalho e com quem vou trabalhar mais diretamente – isso inclui gestores também. Outro tipo de cliente são as diferentes áreas da empresa: áreas comerciais, qualidade, etc. Pessoas para quem mostrarei meu trabalho e tentarei chegar em um consenso, tentando ajuda-las ao mesmo tempo que defendo a experiência do usuário. E existem os clientes da Saraiva propriamente ditos, que é sempre uma incógnita que tentamos desvendar através de trabalhos, estudos e pesquisas como analise de Persona, Testes A/B, Card Sorting, etc.

  • Pode nos contar mais detalhadamente sobre as atividades que desempenha?

Considero meu trabalho hoje basicamente como mediação da informação, mesmo. Resumindo bastante, posso dizer que trabalho com pesquisa em UX, realizo mapeamento de conteúdo (sortimento, tipologia de produtos) a ser trabalhado e organizado; Também trabalho com normalização da nomenclatura dos tipos de produto e faço isso baseada em pesquisas de benchmarking (pesquisa na concorrência); Para a organização, também realizo pesquisas de Card Sorting que é uma técnica que verifica que tipos de padrões de organização podem surgir e a partir do cruzamento com outros dados, consigo sugerir uma estrutura de organização customizada para a companhia, de acordo com o que for mais adequado ao seu modelo de negócio.

  • Quais são os desafios e/ou dificuldades enfrentadas diariamente no exercício das atividades realizadas? O que há de interessante nestas atividades que exerce?

Curiosamente, justamente o que há de desafiante e difícil é, ao mesmo tempo, o que há de mais interessante nas atividades que faço: as pessoas. As pessoas com quem lido diariamente, suas ideias, seus interesses e objetivos. Saber lidar com as pessoas, suas expectativas e frustrações, é a parte mais tem me feito aprender, que mais me mantém humilde e é a parte que considero mais interessante no trabalho – por mais difícil que muitas vezes isso seja. Temos muito o que aprender, sempre.

  • Quais são as competências e habilidades que você acredita que o bibliotecário (a) deve possuir/desenvolver para desempenhar as atividades que você realiza?

Acho que as pessoas, de modo geral, precisam ser verdadeiras e honestas consigo mesmas em primeiro lugar. A principal habilidade para ser bem-sucedido – na minha opinião – em qualquer ambiente é o auto-conhecimento. Muitas vezes, não se trata de competência e habilidade técnica, mas justamente de características que não são ensinadas em universidades: empatia, paciência, parcimônia, jogo de cintura, mediação, postura profissional, posicionamento. Essas características são parte da vida, não podem ser ensinadas, também não podem ser aprendidas – se a pessoa se recusa, continuamente, a compreender seu lugar no mundo. De nada adianta ser excelente, no que quer que você faça, se te falta empatia. Se você não consegue alcançar o outro. Ou se você é tímido, não consegue ir até a mesa de outra pessoa para pedir algo, conversar, mostrar seu trabalho. Se você é incapaz de receber críticas sem levar isso para o lado pessoal, de forma passional.

  • Quais dicas você dá para os graduandos e ou veteranos que desejam ingressar neste ramo de atuação?

Vejam se o trabalho, como um todo, tem a ver com a sua personalidade. Se é essa mesmo a sua verdadeira vontade. Se você é capaz de se adaptar, se entende que precisará trabalhar em conjunto, de forma colaborativa. Se entende que o cliente, as pessoas de modo geral, devem ser prioridade pois é com elas que se está lidando, mais diretamente. As técnicas ajudam, mas elas são só isso: técnicas. E elas mudam e são superadas e modificadas ao longo do tempo.

  • Você trabalha com uma equipe multidisciplinar e/ou há mais bibliotecários no local?

A equipe que eu trabalho hoje é multidisciplinar, tem pessoas com vários backgrounds e formações. Mas no último trabalho que tive, trabalhei brevemente com uma colega bibliotecária (oi, Ana Marysa) que estava na equipe de UX.

  • Para você, o que é bibliotecário “fora da caixinha”? Você considera que o mercado está aquecido para contratação de bibliotecário (a) inovadores, ou seja, “fora da caixinha”?

Para mim, bibliotecários “fora da caixinha” são os que conseguem fazer com que seus piores defeitos trabalhem ao seu favor. E há uns 2 ou 3 anos atrás eu diria que o mercado está aquecido, mas na atual conjuntura econômica pela qual o país passa, eu não afirmaria isso com tanta certeza assim. De qualquer modo, é preciso saber vender seu próprio peixe, ter um bom networking, saber cultivar relacionamentos e principalmente saber quem se é e o que se quer. Nada disso é trivial, mas se for feito com certa consistência, as chances de sucesso tendem a ser maiores.

Bibliotecários: o marketing digital precisa das habilidades de vocês

por Laurel Norris, para o CMS Wire

A American Library Association (ALA) postou 2,386 empregos de bibliotecários em 2015.

Hoje em dia a ALA nem sempre posta todo trabalho disponível. Mas com o National Center for Education Statistics dizendo que 6,983 pessoas possuíram uma graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação no ano acadêmico de 2012-2013, podemos dizer que existe um desequilíbrio entre o número de graduados e o número de trabalhos bibliotecários tradicionais disponíveis.

Esse desequilibrio contribuiu para que a revista Fortune incluísse a Ciência da Informação como um dos 15 piores graduações para empregos em sua lista de 2016?

Talvez, mas nem tudo está perdido.

Se você possui habilidades modernas de biblioteconomia como desenvolvimento de taxonomia, gestão de sistemas web, análise de dados, arquitetura e literacia da informação, você está qualificado para trabalhar em vários departamentos de marketing.

Pessoas com graduação em Ciência da Informação estão fazendo gestão de conteúdo, dando forma à estratégias de marketing e organizando ativos digitais para companhias no mundo todo.

Como conseguir um trabalho em Marketing com habilidades de biblioteconomia

Os melhores conselhos para bibliotecários que buscam carreira no marketing ou em qualquer outra área, vem da taxonomista do Etsy Jenny Benevento.

“As empresas precisam de um certo conjunto de habilidades e o que acontece é que coincidentemente essas são as habilidades que você tem quando você se forma em biblioteconomia – mas eles não necessariamente colocam a palavra biblioteconomia num anúncio de vaga. Vários bibliotecários esperam até que alguém peça por um bibliotecários ou algo muito específico”, ela explica.

“Uma das principais habilidades bibliotecárias são pesquisa e palavras-chave. Minha recomendação é utilizar essas habilidades e buscar vagas através de palavras-chaves de coisas nas quais você é bom em sites de emprego – não apenas em sites de empregos da área, mas de qualquer área.”

Outro benefício de listas suas habilidades em palavras-chaves está no fato de que talvez você comece a perceber habilidades as quais você não tem – especialmente se esta é uma indústria nova pra você. Para Benevento, é uma oportunidade para expandir. “Talvez você não consiga aquele emprego em específico, mas veja anúncios de vagas e tente perceber que tipos de habilidades são colocadas juntas. Se existem habilidades complementares que você não tem, aprenda-as”.

Ela leva as palavras-chaves um pouco além e usa palavras-chaves que representam suas habilidades em seu perfil no LinkedIn.

“Eu coloco talvez cinco termos para o que eu faço no primeiro parágrafo do meu perfil do LinkedIn, como taxonomia, tesauro e metadados, apenas descrevendo minhas habilidades no máximo de palavras-chave possíveis… Tantas pessoas entram em contato comigo pelo LinkedIn e se você for pensar em quem está realizando buscas no LinkedIn, são recrutadores e head hunters que não necessariamente entendem de metadados ou taxonomia. Eles apenas buscam esses três termos e chamam a primeira pessoa que aparece. Basicamente o que estou dizendo é: use suas habilidades bibliotecárias para aparecer através do SEO”.

O talento da Benevento para se otimizar na busca de recrutadores a levou a uma invejável carreira em marketing, estratégia de conteúdo e taxonomia.

Pensando fora da caixa da biblioteca

Benevento não é a única graduada em biblioteconomia a desenvolver uma carreira fora do papel bibliotecário tradicional. Durante uma discussão que aconteceu no encontro anual de 2016 do Special Libraries Association (SLA), três bibliotecários discutiram suas carreiras como criadores de conteúdo e editores. Vamos das uma olhada em suas carreiras.

Caitlin Nitz é diretora de marketing de conteúdo na agência de estratégia digital Blue State Digital. Depois de concluir biblioteconomia ela começou uma graduação em propaganda, trabalhando para a Association of National Advertisers. Lá era levantou e compilou apresentações de marketing para compartilhar como parte do Marketing Knowledge Center de 9 mil itens. Mais tarde ela atuou como gestora do Centro antes de se mudar para a área de estratégia de conteúdo e então o seu atual papel.

Liz Aviles começou no mundo de marketing e conteúdo em 1999 com “potty postings” na agência de marketing Upshot, onde ela ainda trabalha. Os potty postings eram planilhas de uma página de informações que ela e o time dela compartilhavam nos banheiros. As habilidades de Aviles de curadoria, análise e identificação de informação importante garantiram a ela seu atual papel como vice presidente de inteligência de marketing.

Hillary Rengert começou sua carreira como bibliotecária no ramo da rua 96 do sistema de bibliotecas públicas de Nova Iorque. Depois de dois anos, ela se tornou bibliotecária de pesquisa e em 2004 ela se juntou ao eMarketer como pesquisadora sênior. Ela agora é a Vice Presidente de pesquisa da organização.

Onde estão os trabalhos hoje

Ainda sem saber como começar sua busca? As seguintes vagas oferecem boas oportunidades para bibliotecários em marketing. Enquanto essas vagas foram listadas recentemente, incluí uma pequena descrição caso elas sejam encerradas.

  • Gestor de Mídia, Marca, BuzzFeed — Esta vaga é um bom exemplo do que Benevento chama de cluster de habilidades. O BuzzFeed está em busca de alguém com experiência em bibliotecas de bases de dados digitais, arquivos e tagging – e também conhecimento de padrões de dados de vídeos específicos e opções de arquivos. Se você tem as habilidades e interesse em vídeo, procure por oportunidades de estágio ou trabalhos freelance para se preparar para um trabalho assim.
  • Coordenador de Ativos Digitais, Memorial Sloan Kettering Cancer Center — Um papel admnistrativo de ativos digitais clássico, o coordenador de ativos digitais é responsável por gerir copyrights e diretrizes de direitos, determinando e aplicando metadados aos ativos, e apoiando usuários dos mesmos. As habilidades requeridas estão alinhadas com profissionais de biblioteca, como gestão da informação, comunicação e organização.
  • Especialista em Conteúdo Digital, Dignity Health — Esta vaga combina vários conjuntos de habilidades: sistemas de gestão (DAM e sistemas de conteúdo), avaliação analítica, habilidades arquivísticas, gestão de projetos e marketing. Com algumas adições, treinamento em taxonomia, catalogação e auditoria de sistemas é um bom lugar para começar a adicionar mais habilidades em desenvolvimento de conteúdo e métricas.
  • Coordenador de Ativos Digitais, New Balance — A principal responsabilidade do Coordenador de Ativos Digitais é manter o sistema de DAM rodando. Isso inclui administração de usuários, gestão de ativos no sistema, manter a qualidade da marca, atender aos direitos legais dos ativos e fazer relatórios de avaliação.
  • Assistente Técnico em Imagens, The Getty — Embora não seja tecnicamente uma vaga de marketing (e com um museu), eu incluo essa vaga temporária no museu Paul J. Getty Museum porque é um exemplo de como ganhar habilidades complementares. As principais atividades incluem coisas como compilação de arquivos digitais, catalogá-los, aplicar convenções de nomeação e tarefas pós-processamento. Embora conhecimento em Adobe Photoshop e correção digital de cor estejam listadas, nenhuma experiência é necessária. Um ótimo trabalho para começar a construir uma nova habilidade profissionalmente.

Os motivos pelos quais os bibliotecários no mercado deveriam buscar a área de marketing estão bem claros. Habilidades em taxonomia, metadados, sistemas para web, análise de dados, arquitetura e literacia da informação são apenas algumas que você pode oferecer e que possui alta demanda.

Imagem “Librarian” (CC BY-SA 2.0) por valkyrieh116

Contexto e postura: um olhar sobre a profissão

(Texto originalmente publicado em 10 de fevereiro de 2011)

A seguir, dois textos de pessoas um pouquinho mais esclarecidas do que eu, sobre o profissional bibliotecário e seus contextos. O primeiro texto é do prof. Francisco das Chagas de Souza e o segundo texto é da colega Claudiane Weber, que que é bibliotecária na BU/UFSC. Foi a Claudiane que me enviou os textos por e-mail e achei tão interessante que decidi também compartilhar por aqui. Todos os grifos são meus.

Colegas bibliotecários (as) e estudantes de Biblioteconomia,

Uma das coisas mais estimulantes que encontro é ver/ler/ouvir a discussão sobre a profissão de bibliotecário. Isso porque todo o meu tempo de reflexão, desde quando cursava a graduação, que foi de 1976 a 1978, o mestrado que conclui em 1982 e o doutorado que conclui em 1994, pautou-se em tentar entender como se discute uma profissão, um espaço profissional, sem discutir e tentar compreender antes a sociedade que nos abriga: suas filosofias, as relações que as pessoas vivem, as subjetividades que as pessoas têm, os valores que carregam….

Assim, sempre tentei combater a delimitação da educação biblioteconômica ao conteúdo técnico; mas mesmo tentando combater esse enfoque vejo algo que força o ensino por esse caminho e, nos últimos anos com um peso acentuado. Trata-se: 1. de um amplo mercado “escravagista” de estágios remunerados; estaginhos que servem para as empresas e orgãos governamentais reduzirem custos de pessoal evitando os encargos trabalhistas da contratação de auxiliares de serviços. E fico triste ao verificar, Brasil afora, a avidez com que os estudantes de Biblioteconomia correm em busca desses “estágios”. Traduzindo: o estudante de Biblioteconomia, em sua maioria depende economicamente desses estágios e nesses estágios ele quer mostrar que sabe algo que sirva, ou seja, alguma técnica, pois parece que para a maioria saber filosofia, sociologia, psicologia social, politica, história, literatura … não é saber; muitos até dizem, por ai, que isso é perfumaria, ou seja, não é necessário;

2. De que não há tempo para “estudar”. A grande maioria dos estudantes de Biblioteconomia, por conta de tais “estágios”, vêm à universidade que no caso da UFSC, deixa de se catacterizar como universidade para o Curso de Biblioteconomia pois por esse ser oferecido à noite a UFSC é pouco mais que blocos de salas de aulas. Ora, vir às salas de aula, ouvir aulas, cumprir tarefas em grupos nessas salas é estudar? É refletir sobre a realidade e intuir soluções? Como? Numa circunstância como essa faltam os estudos sobre o contexto. É por isso, até pela semelhança como o tópico 1, que há uma enorme cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transformar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.

Diante de tudo isso, é que pessoas de outras áreas, onde se estuda mais o contexto, onde se constroi melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais, sempre estarão mais bem preparadas para a direção de bibliotecas, pois o bibliotecário na maior parte de sua formação e atuação pensa que a sociedade deveria valorizar o seu saber operacional. E esse é o grande erro! Quando um médico, engenheiro, economista conversa politicamente não tenta fazer valer o seu discurso de médico, de engenheiro, de economista… Lideres, diretores e dirigentes de empresas, associações, sindicatos e órgãos de governo – executivo e legislativo – são políticos, compreendem e formulam o discurso político. É claro que alguns bibliotecários há que fazem esse discurso, mas são pouquíssimos.

Enquanto os estudantes de Biblioteconomia se preocuparem majoritariamente com operacional: catalogação, classificação, etc. … o choro será esse e para esse choro a sociedade prestará pouca atenção. Nos meus 27 anos de ensino de Biblioteconomia vi poucos egressos da Biblioteconomia da UFSC que carregam as convicções necessárias para construir o discurso contextual, que têm uma noção da construção do discurso político. Uns serão bons técnicos e recebem valorização como tal e os demais, são os demais: nem bons técnicos, nem políticos. Se a universidade puder mudar os valores e as limitações individuais que mudemos, pois em principio foram os bibliotecários que buscaram a universidade como espaço para desenvolver o ensino e formação de bibliotecários. Os bibliotecários do século XIX, no caso sob a liderança de Melvil Dewey nos EEUU, “cavaram” um espaço na universidade para nela instalar o Curso de Biblioteconomia e isso se reproduziu desde então.

Quer dizer, o ensino de Biblioteconomia existe como ensino superior porque bibliotecários com a compreensão de um contexto social e econômico justificaram para os dirigentes universitários que ela teria o dever social de abrigar Curso de Biblioteconomia. Demonstar esse dever da universidade, tecer os argumentos adequados é discurso para além do técnico; é discurso político. Se os bibliotecários que se “formaram” no Brasileiro perderam isso, pois isso deu-se aqui também, com Laura Russo, Marta Carvalho, Etelvina Lima, Alvaceli Braga …. foi mais por conta da correria dos “estágios remunerados”. Mas é possível mudar no Brasil inteiro esse quadro. Levará tempo quanto mais tarde começar a ser feito. Dependerá muito do comprometimento dos estudantes em quererem, buscarem e fazerem com que seu futuro não seja construído centralmente sobre o discurso operacional.

Att.

Francisco C. Souza
UFSC – Ciência da Informação

“Biblioteca”, 1955, por Maria Helena Vieira da Silva

O Ser Humano é posto pela vida para realizar plenamente o potencial de natureza que lhe é intrínseco. Uma das coisas mais importantes na vida, é ter um projeto onde investir o próprio potencial e a própria vontade. Uma amizade, um amor, a família, são sempre garantidos e regados pela eficiência da ação; uma coisa alimenta a outra.

Somente a construção da pessoa, do indivíduo, para a ação, pode transformar a associação, o conselho regional, o sindicato, ou mesmo levar ao local “onde se constrói melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais”.

Inicialmente, é necessário ter amor pelo trabalho, ao que o local de trabalho oferece, e isso não é servilismo, é um modo de ganhar a si mesmo, a própria carreira, o próprio avanço. Esta é a escola objetiva da vida. A vida é um projeto que Você mesmo constrói.

Infelizmente, apenas uma minoria entre os jovens está interessada no conteúdo intrínseco do trabalho, esta minoria é representada por aqueles que olham o trabalho não simplesmente como um meio para viver e para mudar o próprio bem-estar material, mas como um âmbito de expressão da própria personalidade.

Sobre a “cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transfromar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.”

Devemos ter a BIBLIOTECA como Centro de FORMAÇÃO, como a raiz da palavra emprega, Formar para a Ação. Isso significa para o estudante de Biblioteconomia, aprender a operação do real que as pessoas/bibliotecários de sucesso fazem. É, obter o compartilhamento de conhecimentos tácitos, àqueles que não conseguimos transformar em manuais, em apostilas ou mesmo “xerocar”.

Formar para a ação um indivíduo, passa também pelos cursos de Biblioteconomia, bem como das Bibliotecas Universitárias. É aliar a teoria à pratica e vice-versa. Porém, nada disso acontece se o mesmo não tomar para si a responsabilidade de querer. Não é com assistencialismo que se resolve, e, sim com uma pedagogia que cultive a competência pessoal, que estimule o brio de sentir-se responsável por si mesmo.

Sentir-se responsável por si mesmo, implica um exercício cotidiano de escolha e de atuação num estilo de vida: não é apenas viver biologicamente, permanecendo e repetindo o ciclo biológico, mas é exercitar o ofício de viver, rumo a um ganho mental, de personalidade, e de conhecimento.

E a formalização do conhecimento, não está alicerçada no técnico, mas está baseada principalmente na capitalização do savoir-faire. Isto é, no saber fazer. Ir em busca do conhecimento, de saber e saber fazer, para aprender de fato e realizar o que precisa ser realizado. E a biblioteca universitária pode contribuir na integração do conhecimento, a habilidade e a atitude no saber, saber fazer e o fazer.

Alguns colegas citavam o Líder. Este é o elo fundamental. “O Líder é o centro operativo de diversas relações e funções, é aquele que sabe individuar a proporção de como se movem as relações da vida e sabe aplicar, a cada situação, a fórmula justa para resolver e realizar econômica, política e socialmente.” (Dicionário de Ontopsicologia).

Para liderar, conhecer a história clássica humana, a filosofia, a psicologia, são cardinais, para compreender os acontecimentos da sociedade contemporânea. Para Meneghetti (2008)*, é imprescindível uma profunda formação cultural, que implica saber a cultura do seu país e do seu ambiente. Também uma cultura específica, ou seja, se sou bibliotecário, devo ter cultura teórica e prática. Prática significa que devo conhecer de modo manual, concreto, o objeto do meu trabalho. E por último, experiência nas relações diplomáticas. Devo ser um artista no saber orquestrar as relações com os diversos agentes do meu contexto. Que se constrói por meio das relações com as pessoas.

Mas afinal, Líder, se nasce ou se torna? Um pouco de se nasce e muito se torna (Meneghetti, 2008). E, para mim, para tornar-se Líder, é necessário responsabilidade. É encontrar o meu core business, descobrir qual é a minha vantagem competitiva. Colocar o foco principal onde se pode ser mais forte, usando o meu conhecimento para desenvolver o próprio protagonismo. E, se terá como resultado, saúde, autonomia econômica, sabedoria e boas relações sociais. Por isso, e concluindo, liderar é ser um leitor transparente da própria psicologia, é saber construir a harmonia de relações entre todos, para que exista um nível máximo de produção de valores e de coisas.

Claudiane Weber
Bibliotecária – UFSC

*Meneghetti, Antonio. A Psicologia do Líder. Recanto Maestro: Ontopsicologica Editrice, 2008.

Um robô vai roubar seu trabalho?

Saiu dia 11 de setembro agora na BBC uma matéria interativa chamada “Um robô vai roubar seu trabalho?” (Will a robot take your job?).

Esse link apareceu pra mim semana passada no Twitter e é claro que a primeira coisa que fiz foi colocar “Librarian” (bibliotecário/a) no search deles. A estimativa dessa pesquisa é verificar a porcentagem que as profissões selecionadas têm de serem automatizadas em cerca de 20 anos. Achei que viria 99,99% de chance de bibliotecários serem automatizados, mas não: foi 52%, o que não deixa de ser uma porcentagem considerável.

bibliotecários-automatização
Curti os bonequinhos andróides.

Achei curioso bibliotecários estarem quase que exatamente no meio do caminho, de acordo com essa pesquisa. Em um outro quadro abaixo desse tem as estatísticas que mostram que a estimativa é de que no Reino Unido hoje trabalhem cerca de 20 mil bibliotecários. Mas fiquei inquieta com a resposta apenas para bibliotecários e fui verificar profissiões relacionadas na lista que eles disponibilizam bem no finalzinho da matéria.

  • Book-keeper, payroll manager or wages clerk = 97% (guardadores de livros)
  • Library clerk = 96.7% (atendentes de biblioteca)
  • Archivist or curator = 38.3% (arquivista ou curador)

Parece haver uma diferença entre trabalhos que lidam com o mundo físico (guarda de livros propriamente dita, entre outros procedimentos) e trabalhos que lidem com informação independente de suporte. De acordo com a pesquisa, o que tem maior probabilidade de ser automatizado são os trabalhos braçais e repetitivos, bem como os mais arriscados como por exemplo, ter que ficar confinado em lugares muito apertados ou ainda manipular objetos pequenos (construção de automotivos e cirurgias complicadas, por exemplo).

Os dados desta pesquisa são baseados no artigo “O futuro do trabalho: quão suscetíveis à automação são os empregos?”. Para os autores, trabalhos como os de assistência social, enfermagem, terapia e psicologia estão entre as profissões menos prováveis de sofrerem automação uma vez que cuidar e auxiliar outras pessoas envolve empatia, uma habilidade que é crucial para o trabalho. Já algoritmos sofisticados estão desafiando várias vagas de apoio administrativo, particularmente em serviços legais e financeiros.

Acho interessante ler sobre isso porque retorna à questão do futuro da área, uma vez que acreditam o processamento técnico vai acabar e a guarda e a organização de material físico também vai acabar sendo substituída – caso ainda exista. E a pesquisa corrobora com a ideia de que trabalhos que envolvam gestão da inovação e criatividade, que sejam relevantes e ajudem as pessoas, têm menos chances de serem substituídos por máquinas.

De qualquer modo, ainda há muito trabalho a ser feito. :)

Como seu trabalho molda sua identidade

Texto publicado originalmente no The Book of Life (School of Life), sob o título How Your Job Shapes Your Identity, capítulo 2 da série Trabalho: Os infortúnios do trabalho.

Quando conhecemos novas pessoas, somos tentados a perguntar: ‘o que você faz?’. Estamos levando em conta a ideia de que a nossa identidade está muito ligada às nossas atividades diárias. Mas a forma que a questão é respondida tende a bloquear as conseqüências práticas de nossos trabalhos. Aí um dentista irá explicar como ele faz para evitar placas de tártaro; um advogado corporativo irá mencionar uma fusão com a qual ele está ocupado e que está nos noticiários recentemente; um técnico de som em um estúdio irá detalhar como eles religam um equipamento, instalam novos bits de roteadores e contatos com ISPs complicados no mundo todo.

No entanto, o que é mais revelador, mas mais esquivo, são os requerimentos psicológicos e consequência do trabalho – que tipos de mentalidades um trabalho gera, o que realizar o trabalho requer da sua vida interior, como nos expande e (crucialmente) nos limita.

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© Flickr/Ernesto De Quesada

Nossa cultura geralmente contorna todo este território. Se nos perguntam: ‘qual é o caráter psicológico do seu trabalho?’ as respostas podem parecer muito diferentes. O dentista pode dizer: ‘lido muito com evasão e fraqueza de vontade; assim sendo, pessoas inteligentes e confiáveis vivem cancelando consultas o tempo todo, culpando seus horários. Quando elas aparecem, sentam na minha cadeira e mentem repetidamente pra mim sobre o quanto eles passam o fio dental e quebram todas as promessas que fizeram pra mim na última vez sobre cuidarem de seus dentes. Sou diariamente confrontado com o quão difícil adultos acham fazer coisas bem básicas que são de seu próprio interesse. Isso pode fazer de mim uma pessoa um pouco severa’.

O advogado corporativo pode responder: ‘sou diariamente confrontado com a agressividade e impaciência de meus clientes. Eles querem tudo pra ontem. Ninguém se importa com a vida particular de ninguém. Observo muita ambição crua – nada me surpreenderia em relação a capacidade humana por duplicidade’.

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© Flickr/Penn State

O engenheiro de som pode dizer: ‘problemas aparecem o tempo todo, mas você pode sempre ter certeza que encontrará uma solução se for cuidadoso e metódico. Podem ter existido sete possíveis causas para um problema e você precisa checar cada uma delas. Mas definitivamente será uma destas. Eu amo tecnologia nesse sentido, as coisas são interligadas e lógicas’.

Nós categorizaríamos trabalhos em termos de seus perfis psicológicos – de acordo com quais traços de natureza humana eles enfraquecem ou reenforçam:

Paciência versus impaciência: seu trabalho te treina para instintivamente priorizar o que está acontecendo agora mesmo e relegar o que pode acontecer daqui alguns anos como não sendo seu problema (enfermeira de emergência, editor de notícias)? Ou te faz criar o hábito de esquematizar suas preocupações na escala de anos a fio? (engenheiro aeronáutico, funcionário público responsável pela construção de uma estação elétrica)

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© Flickr/Royal Navy Media

Suspeito versus confiante: seu trabalho aguça seu senso de que algumas questões reais podem ser muito diferente das que são evidentes? Você está em um ambiente no qual as pessoas costumam manter suas cartas escondidas ou mentem deslavadamente (jornalista, comerciante de antiguidades, consultoria de gestão)? Ou será que seu trabalho geralmente te envolve com pessoas que são muito abertas sobre suas verdadeiras preocupações (psicoterapia, instrutor de esqui, controle de tráfego aéreo)?

Especulativo versus concreto: o trabalho é focado em como as coisas poderiam ser ou em atenção à forma que elas costumam ser? Será que você é recompensado por ter imaginado coisas que outras pessoas não tenham pensado o suficiente (pesquisador think tank, poeta, futurologista) ou por cuidadosa atenção aos detalhes práticos? (logística de frutas frescas, carpinteiro)

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© Flickr/wwwupertal

Buscador de consenso versus independente: alguns tipos de trabalho ensinam a habilidade de fundir-se com o ponto de vista coletivo (professor de escola, representante de férias); outros convidam o primeiro plano de um ponto de vista pessoal, uma tomada incomum em coisas onde não fazer o que os outros estão fazendo pode ser uma vantagem fundamental (treinador de tênis, empresário).

Otimista versus pessimista: como o trabalho o incentiva a ver aspectos positivos e talvez evitar deter-se sobre as desvantagens (marketing, coaching pessoal, sommelier) ou o leva a um hábito de colocar em primeiro plano os perigos, as armadilhas e iminente catástrofes? (contadores, assessores internos)

Focado em finanças versus abrigado de finanças: você pode estar em um ambiente onde o status varia enormemente de acordo com o dinheiro (advogado, executivo corporativo) e onde é instintivo pensar em termos de custos e margens de lucro; ou o dia a dia de trabalho realmente não envolvem tais considerações de forma alguma? (acadêmico, professor)

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Dignidade é frágil versus um status sólido: um artista é geralmente exposto a repulsas profundas; coisas que eles colocaram a sua alma podem muito bem acabar sendo desprezadas ou ignoradas. Mesmo que eles sejam muito bons no que fazem, eles podem não ter nenhum sucesso de público tangível. O décimo primeiro melhor poeta no Reino Unido ganhou 6.117 libras esterlinas no último exercício, em royalties, avanços, pequenos subsídios e taxas de aparição pública. Outros trabalhos significam que uma aplicação razoável e habilidade certamente serão bem recompensados: cada bacharel em ciência veterinária tem como garantia um emprego bem remunerado.

Melhor natureza versus pior natureza: alguns trabalhos, embora difíceis, continuamente o relembram da preciosidade da vida (enfermeira, parteira) enquanto outros você está sempre encontrando os lados menos admiráveis da natureza humana (polícia, direito familiar).

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© Flickr/Thomas Hawk

Lógico versus hierarquia casual: em alguns postos de trabalho, é claro o que você precisa fazer para seguir em frente e como ocorre a promoção (piloto de linha aérea, mestre); em outros trabalhos (produção de televisão, política), as regras são muito menos resolvidas e estão vinculadas com acidentes de amizade e de alianças fortuitos. No primeiro caso, há uma calma e firmeza para a alma. No último, existe uma ansiedade constante – e falta de confiança.

Estar numa industria decadente versus emergente: existem indústrias onde parece que a época de ouro foi no passado; provavelmente é menos divertido trabalhar nelas agora do que antigamente (editoração, televisão, serviço diplomático). Ou está toda a indústria em crescimento, com todos os tipos de novos empreendimentos altamente rentáveis emergindo (mídia social, tecnologia)? Você tende a trabalhar em torno de pessoas que sentem que pode conquistar o mundo ou que sentem que o mundo está prestes a vencê-los?

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© Flickr/United Nations Information Centres

Estar em um ambiente psicológico particular, todos os dias durante anos tem um impacto muito grande sobre os nossos hábitos mentais. Isso influencia o que supomos que outras pessoas são, forma a nossa visão da vida e, gradualmente, molda quem somos. A psicologia incutida pelo trabalho que fazemos não fica apenas no trabalho. Nós a levamos conosco para o resto de nossas vidas.

Somos geralmente muito cientes de que isso pode acontecer… Em locais distantes. Entendemos que um aristocrata francês em 1430 terá uma visão especial moldada pelo fato de que eles têm vivido sua vida em uma hierarquia social muito estrita, cercado por uma ética de guerreiro; ou que alguém de uma vila de pescadores do século XIX em nas Ilhas Ocidentais da Escócia, que passou anos lutando contra tempestades em Benbecula, terá têm um caráter profundamente marcado pela sua vida profissional. Nós não somos diferentes. A única diferença é que nós achamos muito mais difícil de perceber o que aconteceu no nosso caso, porque – é claro – a nossa perspectiva parece natural para nós, embora não seja nada disso. Pode demorar um encontro com um alienígena (na forma de alguém de um campo muito diferente) para nos levar a notar isso.

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© Flickr/Krocky Meshkin

Às vezes podemos entender os efeitos do trabalho sobre nossa personalidade em situações sociais. Se você perguntar a um advogado, “como você acha que os carros serão como em 2035?” Eles podem ficar intrigados sobre porque você iria querer exercitar o cérebro dessa forma. Qual é o ponto de especular sobre algo atualmente incognoscível? Obviamente, as coisas vão evoluir de maneiras inesperadas. Mas ainda haverá leis e tribunais e regulamentos. E nós podemos lidar com isso quando acontecer.

Se você perguntar a um acadêmico, “quanto você ganha por hora?” ou “qual é o retorno financeiro em suas investigações sobre a história da gramática sueca?”, eles vão achar essa pergunta tendenciosa. ‘Porque você está perguntando isso? O que isso importa?’ apesar de você acreditar que estas sejam perguntas legítimas. Ou, se você for questionar um trader de commodities sobre como seu trabalho beneficia os outros a questão pode acabar parecendo a ele estranhamente ingênua: o que faria você pensar que o objetivo desse trabalho fosse qualquer outra coisa senão a vantagem pessoal do indivíduo em questão?

Estamos amplamente conscientes de que a forma como as pessoas aprendem a pensar no trabalho pode ser rastreada em seu caráter doméstico e social. O professor de escola primária trata os seus filhos como alunos, o professor acadêmico se torna uma tagarela em jantares, o político não pode deixar de fazer discursos como casamentos.

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© Flickr/Tommy Wells

Mas estas são as pontas do iceberg, existem vários outros casos:

  • O técnico é profundamente calmo e tranquilizador. Provavelmente, eles sentem que todos os problemas da vida são um pouco como os problemas técnicos que têm dominado no trabalho. A maioria das coisas podem ser corrigidas, se você não entrar em pânico e trabalhar a partir de uma lista de verificação.
  • O executivo de TV tem um senso muito frágil do eu. Eles são bastante agressivos quando pensam que estão no topo, mas se dobram rapidamente quando sentem os ventos se movendo contra eles.
  • O dentista se torna mandão. Eles estão tão acostumados a censurar pessoas por serem negligentes consigo mesmas que isso se torna um hábito.
  • O escritor freelancer, que está sempre tendo que moldar a contragosto o seu trabalho com as demandas de outros, torna-se acostumado a sentir incompreendido e subestimado. No trabalho, as melhores partes de sua ambição tem de ser subordinadas: a sua escrita sobre arquitetura venezuelana fica marginalizada mas seu anúncio na moda para diamantes rosa tem um mercado pronto. Eles estão sempre à espera de serem mal interpretados, e tornam-se hiper alertas para quaisquer sinais de que isso pode estar acontecendo.

O trabalho pode ser muito bom pras pessoas. A mentalidade criada no trabalho pode estar criando aspectos para o eu que não foram apropriadamente desenvolvidos antes. Em um escritório onde rapidez e exatidão são crucialmente importantes, alguém que é levemente desatento pode adquirir um corretivo à sua fraqueza inicial. Um ambiente onde o compromisso parece natural pode ser altamente educacional para a pessoa que tem investido tempo demais em fazer valer os seus próprios pontos de vista.

Mas trabalho pode estreitar nossas personalidades também. Quando uma certa extensão de questões e modos de pensar se tornam arraigados, significa que outros podem começar a parecerem estranhos e até mesmo ameaçadores. Uma pessoa que se acostumou demais a implementar as ideias de outros – e talvez seja muito habilidoso nisso – pode achar profundamente desconfortável ser colocada no centro de atenção e perguntada o que ele/ela acha que os grandes objetivos deveriam ser. Eles perderam totalmente o hábito de se questionarem sobre isso. Um administrador de escolas pode ser muito afiado quando se trata em como você reorganizaria o quadro de pessoal, mas se você perguntar para ele ‘para que serve educação?’ soa desconcertante, como se perguntasse para que serve grama ou por que Londres é na Inglaterra e não na Escócia?

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© Flickr/Ozan Hatipoglu

Além disso, algo muito moral e sério pode ameaçar o executivo de TV. Ou um inquérito sobre os pontos de vista sobre a Revolução Francesa pode poderia ameaçar um personal trainer. Sente-se que tais questões são dolorosas, porque eles são lembretes de que um teve que renunciar, a fim de tornar-se focado em um determinado trabalho. Ao dar uma grande parte da vida de alguém a um determinado tipo de trabalho, entende-se que – necessariamente – a pessoa não foi capaz de fazer jus a outras áreas em potencial. Perdeu-se o poder de se envolver com questões que podem ter parecido uma vez intrigantes.

A idéia geral de que o trabalho nos molda aplica-se, naturalmente, a si mesmo. Mas precisamente porque certas atitudes e hábitos podem vir a parecerem naturais, é difícil perceber que isso aconteceu. Há uma questão fundamental que podemos nos perguntar: de que forma pode a minha própria personalidade ter sido moldada (para melhor ou para pior) por meu trabalho (assim como é importante entender como se foi moldado pela infância)? Há uma pergunta autobiográfica pungente: se eu tivesse trabalhado com algo diferente, eu teria sido uma pessoa diferente? E a resposta deve ser afirmativa. Contidos em outros caminhos de carreira estão outras versões plausíveis de si mesmo – que, se contempladas, revelam importantes, mas atualmente subdesenvolvidos, elementos de personalidade. Ela dá origem à mais complicada das perguntas: onde estão os outros pedaços de mim …?

Ter em mente como o nosso trabalho nos molda significa que nós deveríamos julgar as outras pessoas mais lentamente em relação ao que elas são. Talvez seja o trabalho delas, não ‘elas’ que as tenha feito quem são – que as tenha feito tão nervosas, raivosas ou entediantes. É o ambiente de emprego que deveríamos culpar, não elas. O executivo de televisão nem sempre foi assim, o advogado corporativo não nasceu como é hoje em dia. Eles podem ter sido outras pessoas. Nossas identidades são vulneráveis à nossos trabalhos. E isso pode abrir as avenidas da compaixão.

Haverá futuro? Já está tendo

Eu ia fazer este comentário no post do Gustavo no BSF, O futuro da biblioteconomia (Oi Gustavo!), mas ele ficou muito longo então decidi publicá-lo aqui. Algumas afirmações que o Gustavo fez me inquietaram e eu resolvi inventar de pensar sobre elas.

O que faz um bibliotecário que uma máquina não pode fazer melhor (ainda)?

Coloquei o ainda entre parenteses porque se a gente for pensar em ficção científica, no futuro não haverá o que as máquinas não façam melhor que nós. Inclusive emular afetos (alguém lembra do filme “Her”?)

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Pareço apaixonado, mas estou aqui, pensando em quando não vou mais precisar catalogar, classificar e indexar.

Enquanto este dia não chega, minha resposta pessoal e atual é a seguinte: nossa semântica ainda é superior a das máquinas e temos a capacidade de imaginar e dar significado às coisas do mundo (dados, informações e principalmente afetos). Uma máquina – ainda – não é dotada de afetividade. Regras não se criam sozinhas: ainda são criadas e entendidas por humanos para assim serem ensinadas às máquinas que as executam (mesmo em se tratando de inteligência artificial).

O que não pode acontecer é a catalogação, classificação e indexação serem superestimadas (já traduzi texto sobre isso também, Ontologias são superestimadas, do Clay Shirky) em detrimento do contexto e do significado. Mas acredito que podemos continuar estudando essas disciplinas e entendê-las em outros contextos, para que elas nos possam ser úteis e para que possamos trabalhar com elas de uma forma que seja melhor aproveitável. E acredito que isso possa ser feito.

Se isso deixar de ser, vamos supôr: se essas “matérias duras” deixarem de ser efetivamente estudadas e ministradas, a área não corre o risco de descaracterizar-se e se tornar um curso genérico? Vai virar uma administração/gestão apenas? Vai virar soft programming? Vai virar o quê? Uma área interdisciplinar sem denominação definida? O que vocês têm para substituir, efetivamente, a biblioteconomia? Gestão da Informação? Várias tentativas de acabar com a biblioteconomia tem sido realizadas ao longo dos anos e até então não vi nada acontecendo.

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A biblioteconomia acabou. O mundo está automatizado. Ninguém mais precisa de livros, nem de mediação para absolutamente nada. O que nos resta? O que será de nós?

Sou a favor da crítica, mas não gosto de discursos muito apocalipticos. “A internet matou a TV”, “O rádio morreu”, “a biblioteconomia acabou”. Prefiro dar tempo ao tempo e só afirmar coisas quando elas efetivamente acontecem, jamais antes disso. Imperativos forçados não são suficientes pra explicar um contexto que geralmente é mais complexo do que conseguimos imaginar. Ou talvez sou eu que sempre insito em ver o copo sempre meio cheio. Ouço que “a biblioteconomia está com os dias contados” desde que tive a intenção de fazer o curso, há coisa de 10 anos atrás. Estou esperando até agora o curso acabar e curiosamente vejo o oposto: não termina, mais turmas são formadas e a profissão, apesar de todos os pesares, está sendo popularizada. Pessoalmente, acho isso positivo.

Toda vez que alguém cria uma ontologia morrem vagas de bibliotecários.

Desculpe mas eu discordo.

Bibliotecários podem saber programar? Sim e pode ser excelente quando sabem. Mas bibliotecários não são programadores.

E discordo porque o que tenho vivenciado profissionalmente é bem diferente do que o que essa frase diz. Bibliotecários – se bem formados e que tenham um interesse real na profissão – possuem o mindset necessário para conversar de igual pra igual com outros profissionais de tecnologia, oferecendo insights que geralmente não são o foco de quem é de TI, por exemplo. É uma questão de perfil profissional: programadores entendem ontologias e a própria organização de dados e de informação de forma completamente diferente de bibliotecários, desconsiderando uma série de fatores de busca e pesquisa por parte dos usuários (User Experience é parte disso).

Catalogação, classificação e indexação não devem parar de ser ensinadas. Devem ser MELHOR ensinadas. E isso é dramaticamente diferente.

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Classificação, catalogação e indexação são atividades que podem ser utilizadas em outros contextos, não apenas em bibliotecas.

Programadores são de exatas: se preocupam com o input e raramente se preocupam com o output, com a outra ponta humana que busca a informação. Eles estão bem mais preocupados com definições de regras e de aterem-se a elas do que nós, inclusive. A definição de regras pra um algoritmo jamais é imparcial e é enviesada pela visão de mundo de quem o cria. Se essa é uma visão exclusiva de TI, ela torna-se quadrada e tendenciosa, desconsiderando outros aspectos importantes na busca e no que chamam de encontrabilidade da informação.

Bibliotecários e outros profissionais (que entendem de SEO e também linguística) podem fazer a ponte com programadores entre algo que é estático e exato e torná-lo mais acessível, explorando outras possibilidades. No meu trabalho observo isso diariamente e minha equipe desenvolve pesquisa justamente para refinar e melhorar o que seria uma ontologia (ou taxonomia, enfim), tendo em vista principalmente a otimização do negócio.

Novamente: organização da informação, hoje, mais do que jamais foi, é trabalho de bibliotecário sim!

Ainda mais se considerarmos o meio digital. Ouviram falar que a Apple contratou curadores humanos para substituir o aplicativo de recomendações? Por que uma empresa de tecnologia de ponta faria isso? Meu chute é porque humanos ainda são relevantes para humanos.

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Aprender uma coisa não impede que você continue aprendendo outras e inclusive aprendendo melhor.

Pode não ser o trabalho tradicional de bibliotecário como o conhecemos (como já escrevi no BSF o post Bibliotecários Lato e Strictu Sensu), mas posso dizer com toda a certeza que se eu não tivesse um verdadeiro interesse em compreender de fato as teorias sobre organização da informação, eu jamais teria insumos suficientes pra entender e fazer o que faço hoje em dia. Jornalismo não me ensinaria o que Biblioteconomia me ensinou, por exemplo.

Acredito que o currículo do curso precisa mudar? Sim, bastante.

Acredito que existe tecnofobia na biblioteconomia? Existe muito.

Mas também isso não me inviabilizou em nenhum momento em ter interesse pelo assunto.

O que acontece, hoje, é o que o aluno de biblioteconomia ao invés de poder aprender sobre tecnologia logo durante a graduação, precisa ter um duplo-esforço: aprender apenas a teoria na graduação, aprender sobre tecnologia apenas no mercado e literalmente se virar pra fazer a ponte entre estes dois mundos. Isso é tanto um desafio (pois a pessoa inevitavelmente acaba aprendendo mais coisas e inclusive se desanimando com o curso no meio do caminho) quanto uma bela de uma gambiarra acadêmica (pois os cursos definitivamente já precisariam estar atualizados e ter melhor qualidade).

Devemos estudar mais psicologia e menos linguagens documentárias.

Discordo novamente.

Uma coisa não exclui nem mesmo invalida a outra. Devemos estudar mais psicologia E melhores linguagens documentárias, pois elas estão interligadas.

Devemos estudar sobre qualquer assunto que nos interesse (inclusive catalogação, classificação e indexação, se assim o quisermos) e agregue ao que já temos domínio. Não acho bom vetar nenhum estudo (por mais inútil que ele pareça) mas sim direcioná-lo de forma explorar possibilidades futuras. Aprendizagem é isso.

As especializações em várias áreas (aqui em São Paulo, na FESPSP tem Gestão Arquivística, Gestão da Informação Digital – que estou concluindo -, Gestão de Serviços de Informação entre outros e no SENAC tem Gestão da Comunicação em Mídias Sociais e Gestão Estratégica do Conhecimento e Inovação; inclusive em outros cursos, nem precisa ser em Ciência da Informação) e educação continuada na área – ExtraLibris Cursos e Class Cursos – estão aí pra isso mesmo. Nenhum profissional realmente interessado vai se limitar e se contentar apenas com o pouco que foi aprendido na graduação: isso faz parte da horizontalização e amplitude do conhecimento. No entanto, essa é uma escolha estritamente pessoal.

Minha escolha é não adotar uma postura pessimista em relação às minhas escolhas, verificar o que pode ser melhorado e tentar participar e discutir sobre isso sempre que possível.

Uma vida além do “faça o que você ama”

por Gordon Marino, para o New York Times

Orientandos ansiosos e preocupados muitas vezes vem até o meu escritório me pedindo para ajudá-los a ponderar referente às suas vidas após o término da graduação. Alguns dias atrás, um calouro veio se consultar comigo porque ele estava preocupado se deveria se tornar um médico ou um professor de filosofia. Alguns minutos depois, ele confessou nervosamente que ele também tinha pensado em dar uma chance para a stand up comedy.

Como conselheiro vocacional, minha reação automática sempre foi “o que você mais ama fazer?”. Às vezes eu até mesmo fazia um sermão sobre como é importante a distinção entre o que pensamos que devemos amar fazer e aquilo que realmente amamos fazer.

Mas “faça o que você ama” é sabedoria ou papo furado?

Em um artigo muito discutido no Slate no início do ano, a escritora Miya Tokumitsu argumentou que o ethos de “faça o que você ama” tão onipresente em nossa cultura é na verdade elitista porque menospreza o trabalho que não é feito com amor. Também ignora a ideia que o trabalho por si só possui um valor inerente e, mais importante, rompe a conexão tradicional entre trabalho, talento e dever.

Quando estou fora do campus e informalmente aconselho adolescentes pobres de Northfield, Minnesota, uma cidade de cerca de 20 mil habitantes, o tema não é “faça o que você ama”. Muitos deles estão acostumados a entregar jornais às 5 da manhã, atirar telhas durante todo o dia e carregar caminhões por toda a noite. Eles estão acostumados a fazer o que for para ajudar suas famílias. Para eles, a noção de fazer o que se ama ou achar significado no que se faz não é a primeira coisa que se vem em mente; e nem deveria ser. Pensamos juntos e consideramos, “O que você faz de melhor?” ou “Que trabalho melhoraria as perspectivas da sua família?”. Talvez ser licenciado como soldador ou eletricista? Talvez ser militar? Paixão e significado podem entrar na conversa com o entendimento de que eles afiam o seu foco e te fazem ter mais sucesso.

Meu pai não amava o que fazia. Ele trabalhou com algo que detestava para que pudesse nos mandar para a faculdade. Será que ele era tão pouco esclarecido e equivocado ao colocar o bem estar dos outros acima de seus interesses pessoais? Pode-se argumentar que a sua ideia de realização pessoal seria cuidar de sua família, mas novamente, como muitos outros menos afortunados, ele odiava o seu trabalho mas cerrava seus dentes e o fazia bem.

Poderia-se, eu suponho, argumentar que meu pai tornou sua necessidade em virtude, ou que cuidar o melhor que se pode da sua família é realmente uma forma de serviço em benefício próprio. Mas se colocar de escanteio, deixando de lado suas próprias paixões em benefício de um número maior de pessoas, seja a família ou a sociedade, não é algo que acontece naturalmente com alguém.

Nem todos tomam esse caminho. Você deve conhecer o conto do Dr. John Kitchin conhecido como Slomo, que abandonou a carreira médica por sua verdadeira paixão – andar de patins pelo calçadão da praia de San Diego. Mas será que é ético para o médico deixar de lado o seu estetoscópio e amarrar os cadarços do seu patins?

Pensadores tão profundos quanto Kant têm se confrontado com essa questão. Antigamente, antes da morte de Deus, os crentes acreditavam que seus talentos eram dádivas às quais eles estavam compelidos a dever utilizar em favor dos outros. Em seu tratado sobre ética, “Fundamentos da metafísica da moral”, Kant pondera: suponha que um homem “ache em si mesmo um talento que pode torná-lo um homem útil em muitos aspectos. Mas ele se encontra em circunstâncias confortáveis e prefere uma indulgência que lhe dê prazer ao invés de suportar as dores de ampliar suas capacidades naturais”. Ele deveria sucumbir à indulgência?

Kant bufa, não – que uma pessoa não admita que seu talento enferruje em prol de um prazer externo deveria ser uma lei universal da natureza. “Como um ser racional” ele escreve “ele necessariamente quer que suas faculdade sejam desenvolvidas, uma vez que elas o servem, e têm sido dada a ele para todos os tipos de propósitos”.Para Kant, seria irracional conceber um mundo onde respeitassem a lei do “faça o que você ama”.

Talvez, diferentemente de Kant, você não acredita que o universo esteja nadando em propósitos. Então o “faça o que você ama” ou o “faça o que tem mais significado pra você” são o primeiro e o último mandamento? Não necessariamente.

A fé de que as coisas que gostamos ou não ou que o nosso senso de significado por si sós deveriam decidir o que eu faço são a parte e o todo do evangelho da realização pessoal. A filosofia sempre esteve certa em nos instruir que podemos estar errados em relação ao nosso entendimento de felicidade como de qualquer outra coisa. O mesmo vale para a noção de realização pessoal. Suponha que a verdadeira realização pessoal aconteça na forma de desenvolver-se em um “ser humano maduro”. Isto é claro para não mencionar que devemos evitar o trabalho que amamos justamente porque o amamos. Isso seria absurdo. Para alguns, uma harmonia feliz existe ou se desenvolve na qual eles acham prazer em utilizar seus talentos de uma forma responsável, ou orientada de outro modo.

Os paradigmas universalmente reconhecidos da humanidade – os Nelson Mandelas, Dietrich Bonhoeffers e Martin Luther Kings – não organizaram suas vidas em torno de realizações pessoais e listas. Eles, sem dúvida, acharam um senso de significado em seus heróicos atos de auto-sacrifício, mas não fizeram o que fizeram no sentido de alcançar esse senso de significado. Eles fizeram – como o meu pai e como alguns adolescentes daquela cidade – o que eles sentiram que precisavam fazer. 

Dr. King ensinou que toda vida é marcada por dimensões de comprimento, largura e altura. O comprimento se refere ao amor próprio, largura o amor à comunidade e ao cuidado com outros e altura ao transcendente, a algo maior que si mesmo. A maioria das pessoas concordaria com a prescrição do Dr. King de que realização pessoal requere que a pessoa seja capaz de relacionar-se com algo maior que si mesmo. Tradicionalmente, este algo “maior” era um código para Deus, mas o que quer que seja o transcendente, ele demanda obediência e a vontade de submergir e remodelar nossos desejos.

Talvez você goste de correr maratonas. Talvez você pense em seus exercícios de rotina como uma forma de aperfeiçoamento pessoal. Mas se o seu “algo maior” é, digamos, a justiça e a igualdade, esse tipo de ideal pode fazer com que você delegue muitas das horas em que passaria batendo a faixa do seu próprio recorde, fazendo a tutoria de crianças em algum centro de juventude. Nossos desejos não devem ser os árbitros finais de nossa vocação. Às vezes devemos fazer o que odiamos, ou o que mais precisamos fazer, e fazer isso da melhor forma que pudermos.

Gordon Marino é professor de filosofia no St. Olaf College e editor do “The Quotable Kierkegaard”.