O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra

Publicado originalmente no Leia Mulheres.

“Alguém que amei uma vez me deu uma caixa cheia de escuridão.
Levei anos para entender que isto, também, era um presente.”
– Mary Oliver

Desde a primeira vez que li o título “O inventário das coisas ausentes”, sabia que teria que lê-lo algum dia. É um livro curto, de linguagem bastante fluída. A sinopse do livro pode ser a história que o narrador-escritor conta sobre como conheceu Nina, personagem central da trama. Na verdade são várias as histórias que se sobrepõem e se intercalam ao longo das épocas e que, de um modo ou de outro, levam até Nina. Durante a trama não é possível ter muita noção de linearidade e cabe a quem lê tentar encaixar as épocas e fatos.

Em dado momento, Nina abandona o narrador e antes de desaparecer o deixa com 17 diários. O registro, embora aparentemente desprezado pelo narrador, tem um papel importante no livro: a partir deles que as histórias são contadas. No entanto, Nina retorna e depois de anos, um reencontro acontece. A primeira parte do livro tem uma certa vivacidade, que está atrelada à personagem da Nina. Mesmo os acontecimentos mais tristes e dolorosos são transmitidos de maneira leve, com um certo humor.

A segunda parte, trata-se do livro que o narrador escrevia na primeira parte, quando conheceu Nina. É o encontro de um pai com um filho depois de 23 anos de separação. O pai, com uma doença terminal, um sujeito completamente rústico e bronco entrega ao filho 17 diários sobre sua vida. No texto, o filho é sempre referido como “o menino”, mesmo que já se trate de um homem de 46 anos. Ambos os personagens, pai e filho, são analfabetos emocionais que não sabem distinguir nem falar sobre o que sentem.

Embora o perfil deste pai tenha sido delineado de forma a entendermos que trata-se de uma pessoa esclarecida, que lutou por ideais políticos e tem uma casa com biblioteca, não é difícil inferir que trata-se de um sujeito afetivamente enrustido e recalcado. A existência desse pai revela na verdade a gênese do machismo, onde o rito de passagem para “tornar-se homem” necessariamente passa por um processo de desumanização: não sentir dor, nem fome, nem cansaço, nem vontade de ir embora ou chorar.

O “menino” então passa não só a desejar a morte do pai como, mais tarde, o desejo de aniquilar ativamente tudo o que possa lembrá-lo, mesmo que palidamente. E é justamente aí que a ficção confunde-se com a realidade do livro. O narrador descreve o corpo atlético de Nina, sobre como ela gosta de sair diariamente pela manhã para correr 10 quilômetros. Coincidentemente, a mesma quantidade de quilômetros que o pai jogava na cara do “menino” que ia a pé, para a escola, diariamente quando criança.

É possível inferir que de certo modo o narrador-escritor podia enxergar esse odioso pai refletido em Nina, em seus detalhes. E a desprezasse por isso. Pois enxergar isso o fazia sentir ainda mais fragilizado, invalidado e deslegitimado enquanto essa ficção, essa construção, “homem”. E é a partir desse ódio retroalimentável, sustentável até, que o machismo e a misoginia emergiam em alguns parágrafos do livro. Neste sentido, Nina que é aparentemente uma mulher livre, muitas vezes incomoda o narrador, que, ao menos uma vez, pensou em matá-la.

Sobre o final do livro, minha primeira impressão é a de que ele foi primoroso, para só depois eu entendê-lo quase que como uma afronta. Só depois me toquei das linhas e mais linhas, vírgulas e mais vírgulas para só então, e talvez, a história acabar com o derradeiro ponto final. Até o último momento, uma violência.

Ao terminar esse livro, me veio em mente uma imagem que me intriga há algum tempo. Nunca havia parado para pensar de forma consciente sobre violência e o final do livro fez com que essa imagem ficasse ainda mais nítida. Ao ver o que acontece, senti como se eu tivesse arqueado e atirado uma flecha para frente, no alvo, e assim que ela o acertou, me acertou também. Em cheio. No peito. Foi devastador. E não parecia que seria.

Jamais parece.

Manoel de Barros

“A ciência pode classificar e nomear todos os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.”

A Nova Desordem Digital (2007), David Weinberger

“Como vimos, a primeira característica do conhecimento tradicional é que, assim como existe apenas uma realidade, existe um conheicmento, o mesmo para todos. Quando duas pessoas têm idéias contraditórias sobre algo factual, achamos que apenas uma pode ter razão. Isso porque presumimos que o conhecimento seja uma representação precisa da realidade e que o mundo real não pode se contradizer. Tratamos idéias que contestam essa visão do conhecimento com desdém. Rotulamos estas como “relativismo” e as consideramos obra do diabo; fazemos pouco delas chamando-as de “pós-modernas” e presumimos que não passam de papo-furado de pseudo-intelectual francês. Dizemos “deixa pra lá” como licença para parar de pensar.

A segunda é presumirmos que, assim como a realidade não é ambígua, o conhecimento deve ser exato. Se algo não está claro para nós, é porque não entendemos a questão. Talvez não estejamos 100% certos sobre qual o maior rio do mundo, se o Nilo ou o Amazonas, mas estamos seguros de que um deles o é. Reciprocamente, se não há possibilidade de certeza – “O que é mais gostoso: beterraba ou rabanete?” -; dizemos que não é questão de conhecimento.

A terceira é que, como o conhecimento é tão grande quanto a realidade, ninguém pode compreendê-lo. Sendo assim, precisamos de pessoas que exerçam o papel de filtro, usando sua formação, sua experiência e seu raciocínio claro. Chamamos esses indivíduos de experts e damos a eles carta branca para que afastem as informações erradas e nos forneçam dados precisos.

A quarta éque os experts atingem esse status ao trabalhar em instituições sociais. Pessoas dessas instituições fazem o melhor para serem honestas e úteis, mas, enquanto os humanos não atingem o status de divinais, nossas organizações inevitavelmente estarão sujeitaas a influências corruptíveis. O fato de alguns grupos receberem recursos financeiros pode determinar as convicções de uma sociedade, e tais recursos geralmente são dados por pessoas que sabem menos que os especialistas: o destino de um centro de pesquisas de DNA pode estar nas mãos de congressistas que não sabem a diferença entre um ribossomo e um trombone.

O modo como organizamos o conhecimento tem sido determinado, em grande parte, por essas quatro propriedades do conhecimento. Tentamos estabelecer um quadro contextual único e abrangente para o conhecimento, com categorias claras e amplas o suficiente para que especialistas possam colocar cada coisa em seu lugar. As instituições cresceram para manter a estrutura conceitual do conhecimento. Sua capacidade de certificar especialistas e afiançar o conhecimento tornou-as poderosas e, às vezes, ricas. Portanto, quando a miscelânea de terceira ordem é digital, não física, não mais temos de concordar com uma única estrutura conceitual. As coisas têm seus respectivos lugares, não um único lugar. Chegamos ao ponto em que podemos criar nossas próprias categorias, de acordo com nossa forma de pensar. Os experts podem ser úteis, mas, na era da miscelânea, eles e suas instituições não mais estão encarregados de nossas idéias.” (p. 101-102)

Deus da Indecisão

Estava traduzindo um texto quando de repente me deparo com a frase:

This Janus-like stance might seem difficult enough in a stable world, but the reality of library naming practices is made much worse by time, by technology, by the nature of language, and by social change.

Procurei o que viria a ser Janus pois mitologia nunca foi meu forte, infelizmente. Notei que Janus na verdade é Jano em português também. Aí pude entender melhor o conceito de Jano e o que o autor quis dizer ao utilizá-lo, naquele contexto. Janeiro veio de Jano, que é o deus dos términos e começos. Deus das portas. Deus da indecisão. Duas cabeças que não falam a mesma língua. Uma cabeça que olha para o passado e outra que olha para o futuro.

No texto o autor trata sobre o processo de indexação e de como a nomeação (e consequente representação) de determinados itens é designada através de significados, e de como os significados são estabelecidos pelo uso, e de como o uso é modificado pelo tempo. De como o bibliotecário precisa ter uma postura como a de Jano para atuar no processo de indexação, olhando para termos inscritos não como se fossem estáticos, esculpidos em pedra para toda a eternidade. Mas enxergar a linguagem pela sua natureza e outras variáveis tais como a tecnologia, a cultura, a história, as mudanças sociais, o tempo…

Me sinto um pouco assim com a minha própria vida. Sinto que uma postura de Jano me ajudaria um bocado, em vários sentidos. Embora a indecisão, por algumas vezes, faça um certo tipo de morada e pareça permanente.

Que Jano me proteja.

Herdando uma biblioteca

Hoje depois do almoço passei na BS-CED pra ficar de bobeira. Tinha uma hora pra perder lá. Fui direto pra seção de literatura ver se achava algum livro legal e peguei por acaso um que tinha o título “Herdando uma Biblioteca”. Gostei da capa, gostei da textura das folhas, li as orelhas e achei interessante então por que não? É um livro pequeno, acho que consigo ler em uns 3 dias, se fizer isso continuamente. Não posso mais retirar livros da biblioteca porque já entreguei a negativa na biblioteca central e ainda não fiz pedido como aluna regressa. Enfim.

Primeiro li uma matéria sobre o ensino superior no Brasil da Carta Capital e depois comecei a ler o livro que tinha pego. Me identifiquei muito com o livro, desde as primeiras páginas. Parece que são pequenas histórias e memórias de como um leitor se tornou leitor. Ou melhor, de como lutou contra uma série de empecilhos para se tornar leitor. É uma história bastante pessoal, mas não duvido que mais pessoas se identifiquem, como aconteceu comigo:

Em casa, havia a pressão moralista da ética do trabalho de meu padrasto – a leitura fora das minhas atividades escolares seria uma forma disfarçada de vadiagem, combatida com a fúria de quem ganhava com muito esforço o dinheiro para nossa sobrevivência. (p. 15)

O autor é de Peabiru no Paraná e diz que desde pequeno é leitor e visitava a biblioteca pública. Confesso que é difícil imaginar como acontece o processo de gosto pela leitura num período de ditadura militar no interior do Brasil.. Hoje a gente tem acesso a tantas coisas, que imaginar um período de escassez é muito complicado. Mas Miguel conta a sua história e diz que preferia a biblioteca pública à escola pois “nela não havia conteúdos predefinidos, nem o desejo de me moldar” (p. 17).

Dá até uma certa ponta de inveja da forma que Miguel se relaciona e se apropria da biblioteca, é bonito de se ler:

Ali eu estava em contato com grandes homens, fazia-me contemporâneo deles, vivendo uma outra vida, distante daquela que a família e a escola insistentemente me impunham. (…) Eu meio que me sentia dono de tudo. (p. 18)

Acho que é pra esse sentido de apropriação e é pra esse lugar que uma biblioteca deve levar as pessoas, mesmo.

Não me lembro de o autor ter citado algum bibliotecário que o auxiliasse a sentir assim. Acho que uma das poucas vezes que uma bibliotecária foi mencionada, era a de sua biblioteca escolar. E ela fazia tricô durante o expediente. A relação que o autor tem com os livros e com a literatura ficou evidente quando ele fala sobre o roubo de livros. Tive uma professora que me dizia não se importar com o roubo de livros, pois isso significava que o leitor tinha “pego amor” ao livro… E isso é bem verdade.

Esse livro tem uma frase que me conquistou a terminar de lê-lo: “Roubar livros que nos solicitam amorosamente é uma forma de herder à força uma biblioteca que nos foi negada” (p. 20). Eu bem que sempre achei que todo bibliófilo é meio cleptomaníaco, rs. Olhei o relógio e vi que já estava no meu horário. Uma hora passou voando. A leitura desse livro foi quase que como uma conversa. Parei a leitura na página 31. O próximo capítulo é o “Herdando uma Biblioteca III”.

Este é o segundo livro de literatura que leio este mês. Acho este um bom sinal.

SANCHES NETO, Miguel. Herdando uma biblioteca. Rio de Janeiro: Record, 2004. 140 p.

Desordenar para reorganizar

“A arte pode transformar o mundo ou não, como muitas outras coisas, como as idéias e a política. Mas não acho que ela tenha uma proeminência nesse aspecto. Ela pode transformar o mundo simplesmente por fazer parte dele. Ela está aí. Agora, essa crença de que a arte transformaria radicalmente o mundo, que criaria um novo homem, que nos traria uma espécie de iluminação — não acredito nisso. Por que é importante ler? Não sei. Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados. Eu saio de um livro sempre muito comovida, ou tocada, ou agressiva. Sempre me transformo de alguma maneira. Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.

Beatriz Bracher, em ntrevista ao jornal Rascunho, suplemento da Gazeta do Povo

Via abrapira.tumblr

O tempo certo de ler certos livros…

(Publicado em 17 de julho de 2011)

Lembro que há muito tempo atrás (provavelmente 2003 ou 2004)  eu tive um professor que me recomendava livros pra ler. Naquela época eu já lia algumas coisas, mas nada parecido – nem de longe – com as coisas que ele me passava. Os livros deste professor (que era, aliás, é um misto de filósofo com jornalista e psicólogo) eram difíceis, a linguagem pesada, expressões que eu não conhecia e não sabia o que significavam. A complicação era tanta que eu ficava me sentindo muito burra e ficava desestimulada, apesar de achar que as leituras poderiam ser proveitosas e interessantes.

Um dia me vi obrigada a ser honesta, cheguei para o professor e disse sem muito constrangimento “desculpe mas esses livros que o senhor me recomenda não são pra mim, não consigo lê-los… talvez quando eu for mais velha eu os entenda, mas agora, pra mim, está muito difícil”. Falei isso do lado de um colega sabichão que riu da minha ignorância na minha cara (não liguei, estou acostumada). O professor não riu, me entendeu e disse “sim, cada pessoa tem seu tempo, só não se esqueça que esses livros existem” e depois explicou para o meu colega que o fato de eu ter reconhecido aquilo não era ruim, nem vergonhoso.

Não lembro que idade eu tinha na época mas quando minha mãe veio me dar A Pedra Filosofal do Harry Potter eu já estava quase na metade do Crime e Castigo do Dostoiévski. Li o primeiro capítulo do livro do Harry Potter e devolvi o livro pra minha mãe, dizendo pra ela dar pra alguma criança que ela conhecesse porque não gostei. “Mas todo mundo está lendo isso!”. Pois é mãe, eu não estou (minha mãe nunca soube me ler). Não terminei também o Crime e Castigo porque depois da metade do livro, aquele português que eu lia já tinha se tornado obviamente russo e a leitura estava lamacenta e pesada. Quem tinha febres e delírios de ler aquilo era eu. Enchi o saco e pensei “qualquer dia desses volto”. E nunca mais voltei, abandonei totalmente.

Me decepcionei com adaptações para filmes depois que li O Nome da Rosa e vi que o filme não passa nem um terço das emoções quando da leitura do livro. Apesar de que achei muito razoável e condizente a adaptação d’O Perfume do Patrick Suskind. Uma frustração secreta: nunca consegui ler O Senhor dos Anéis. E nunca conseguirei. Pois para ler a saga inteira é preciso muito mais do que mera persistência: é preciso uma devoção da qual simplesmente não disponho. Sofri do início ao fim lendo A Metamorfose. Todo mundo me falou que o Apanhador no Campo de Centeio era o livro mais lindo do mundo e eu apenas o achei um livro pobre e imbecil (a história é ridícula a única cena mais ou menos é a do tal do campo de centeio e só)  e fui apedrejada pra sempre por isso, mas tudo bem. Enfim… Sinto falta de literatura, ela é mais divertida do que a gente pode imaginar.

Mas como eu dizia antes, sempre achei isso de “cada um tem seu tempo” uma bobagem sem tamanho: era muito mais fácil (cômodo?) assumir que eu era ignorante e ficar por isso mesmo. Certo que existem textos ruins mesmo, mas só podemos fazer esse julgamento depois que conhecemos mais textos, mais referências, pra que uma comparação possa ser feita: as histórias nos envolvem de modos diferentes em diferentes contextos das nossas vidas. Hoje dependendo do caso eu entendo, com certa dificuldade até, que “não é a leitura que está chata, mas que talvez aquele não seja o momento” e às vezes não é o momento por uma série de motivos diferentes, não dá pra simplesmente se fazer uma lista disso. É bem difícil sacar isso…

Hoje reli um texto que tinha lido em março deste ano e tinha achado completamente bobo e meio infrutífero na época. “Não tem nada que eu quero aqui, que texto mais nada a ver!”. Na época eu queria uma resposta pronta, algo que eu pudesse usar naquele momento, que sanasse uma dúvida imediata que eu tinha, algo que me auxiliasse a entender aquele assunto imediatamente. Li, reli umas três vezes, “que texto mais raso, não vai direto ao ponto, não tem nada aqui” e o mimimi usual. Reli o texto hoje e o achei ótimo, muito esclarecedor e que me trouxe muitas outras referências interessantes que me podem ser úteis em algum outro momento. Não parecia o mesmo texto, mas… Vai ver sou eu quem mudei. Retrocedi? Melhorei? Não sei.

Mas parece que as coisas são assim mesmo, e às vezes demora até a gente entender e reconhecer que talvez as coisas não sejam bem assim como a gente quer e pensa. Me parece que se assumir ignorante e se dar por satisfeita com isso é quase tão cômodo (e nocivo) quanto ser uma ignorante arrogante.

Elogio à leitura e à literatura

Algumas vezes me perguntei se, em países como o meu, com poucos leitores e tantos pobres, analfabetos e injustiças, e onde a cultura é privilégio de tão poucos, escrever não seria um luxo solipsista. Mas estas dúvidas nunca sufocaram minha vocação e segui sempre escrevendo, mesmo em períodos em que trabalhos para sobrevivência imediata absorviam quase todo meu tempo. Acredito que fiz certo. Se para a literatura florescer numa sociedade fora preciso alcançar primeiro a cultura erudita, a liberdade, a prosperidade e a justiça, ela nunca teria existido. Ao contrário. Graças à literatura, às consciências que formou, aos desejos e às aspirações que incutiu, ao desencanto da realidade com que regressamos de uma viagem a uma bela fantasia, a civilização é, agora, menos cruel do que quando os contadores de histórias começaram a humanizar a vida com suas fábulas. Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos, mais conformistas, menos inquietos e rebeldes, e o espírito crítico, motor do progresso, sequer existiria. Tal como escrever, ler é protestar contra as adversidades da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizê-lo e, talvez, sem sequer sabê-lo, que a vida tal como é não nos basta para preencher nossa sede do absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos a ficção para poder viver, de alguma maneira, as muitas vidas que quiséramos ter, quando apenas dispomos de uma única.

(…)

A literatura é uma falsa representação da vida, que, sem dúvida, nos ajuda a compreendê-la melhor, a nos guiar pelo labirinto em que nascemos, transcorremos e morremos. Ela nos compensa dos reveses e das frustrações que nos inflige a vida real e, graças a ela, deciframos, pelo menos parcialmente, o hieróglifo que costuma ser a existência para a grande maioria dos seres humanos, principalmente para nós, aqueles que alentamos mais dúvidas do que certezas e confessamos nossa perplexidade diante de temas, como a transcendência, o destino individual e coletivo, a alma, o sentido ou a falta de sentido da história, o mais aqui e mais ali do conhecimento racional.

(…)

Esse processo, nunca interrompido, se enriqueceu, com o nascimento da escrita e das histórias; além de ouvir, puderam ler e alcançar a permanência que lhes confere a literatura. Por isto, há que repetir, sem tréguas, até convencer as novas gerações: a ficção é mais do que entretenimento, mais do que um exercício intelectual que aguça a sensibilidade e desperta o espírito crítico. (Grifo meu)

LLOSA, M. V. Elogio à Leitura e à Literatura. Tradução por: Maria das Graças Targino, dez. 2010 / jan. 2011. Versão em PortuguêsOriginal em Espanhol.

Qual a diferença entre Ciência da Comunicação e Ciência da Informação?

“A ciência da informação se constituiu como disciplina no espaço do meio entre a biblioteconomia e as comunicações. A área de comunicações nunca se propôs a trabalhar a comunicação científica no interior da produção científica; ela sempre visou a comunicação científica nos meios de massa; a área de comunicações trabalha com as notícias de ciência nos jornais e na tevê, por exemplo. Mas nunca foi sua preocupação entender a produção científica enquanto uma rede de citações. Isso fez a ciência da informação. Das comunicações a ciência da informação absorveu a questão mesma do processo de comunicação; entendeu já no início que a informação flui por um processo de comunicação, concentrando-se no processo de comunicação na ciência. Como este processo passa por canais, a ciência da informação passou a ser a ciência destes canais” (MOSTAFÁ, 1996, p.2, Grifo Nosso)

MOSTAFÁ, S.P. Ciência da informação: uma ciência, uma revista. Ciência da Informação, Brasília v. 25, n. 3, 1996. Disponível em: <http://revista.ibict.br/index.php/ciinf/article/view/448/407>. Acesso em: 19 nov 2011.

As palavras e as coisas*

por Aldo Barreto

Nossa comunicação não passa de um jogo de palavras. Palavras podem ser inventadas arbitrariamente e seu sentido fruto de convenção depende do uso que fazemos delas. O objeto de estudo da ciência da informação tem sido um constante construir de novas palavras e conceitos . A explanação teórica e conceitual das práticas já utilizadas vem correndo atrás das aplicações mutantes pelas tecnologias, mas ainda sem um consenso ou entrosamento. Mas não podemos inventar sentidos a nosso bel prazer. Apesar dos estudos sociais nos mostrarem que:

“… o elemento explicativo é a importância atribuída à presença, nas sociedades humanas, de sistemas simbólicos e sígnicos que passaram a perceber-se como, em grande parte, programando “de fora” a ação humana…. Como os processos de criação de significados, a partir dos signos e das mensagens (verbais e não-verbais) que permitem difundi-los, dependem de como sejam decodificados, pensou-se que o conhecimento humano fosse necessariamente relativo: os significados dependeriam de um processo de interpretação inescapavelmente marcado por sistemas de poder e por interesses que nunca são universais, estão sempre ligados a grupos delimitados.”**

Existe um fascínio por novas versões do mesmo significado e em um mundo de memória fraca há que contar e recontar a união entre as palavras e as coisas para evitar a palavra clandestina que quer renomear o que já foi dito mil vezes.

Este é o caso do conceitos cujo significados re-usados querem indicar um sistema de poder e a união com grupos delimitados como é o caso do conceito de capital cognitivo. O conceito parece indicar a acumulação de cognições prévias o que secularmente temos denominado de “memória”.

Um outro caso seria “engenharia da informação” que se define como o estudo da natureza da informação, dos artefatos que a manipulam e do papel de ambos na dinâmica social incluindo o desenvolvimento das tecnologias da informação. Disso trata a ciência da informação e suas ligações. O Marketing da informação vem substituir a disseminação da informação e assim outros casos.

É conhecida a história do indivíduo que por novidade gostava de trocar o nome das coisas. Assim chamou a cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, e assim continuou. As coisas começaram de fato a mudar em sua cabeça. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Com o tempo ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém. Retirou-se para casa e só falava consigo mesmo.

A substituição de conceitos busca significado em outras áreas, de modo livre e desordenado, sem instrumentos e métodos para refletir e ordenar novos nomes. Uma bagunça mistura sem coerência dando nomes novos para idéias já estabelecidas e convencionadas em códigos de comunicação.

Há sempre o perigo, como na história acima, de se ficar sem interlocutor ou de se decidir não falar mais nada, ou o que é pior, não entenderem mais nada do que falarmos em nossa área de conhecimento.

* “As palavras e as coisas” é titulo de conhecido livro de Michel Foucault

** “Mudanças de rumo na metodologia dos estudos sociais” de Ciro Flamarion Cardoso, DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação – v.5, n.5, out/04

Fonte: Lista de Discussão Lexias. Grifo nosso.

Sugestão para uma organização de biblioteca, por Noemi Jaffe

sugestão para uma organização de biblioteca: livros que começam com o artigo definido, “o” e “a” e que, por isso, são difíceis de classificar em ordem alfabética; livros cujos personagens parecem inteligentes e auto-irônicos, mas que no fundo são só chatos; livros que seria melhor nunca ter lido; livros que você sabe que são muito interessantes mas que nem por isso vai dispender o tempo necessário para lê-los (como a ascensão e a queda de algum império antigo); livros de nacionalidades malucas, como gana e uzbequistão, países cuja única oportunidade de figurarem juntos é nesta biblioteca; livros que se sentem sozinhos e que por isso é melhor colocá-los juntos para eles ficarem mais felizes.

postado por Noemi.

O mito da serendipidade

“Ao andar pelas prateleiras da biblioteca (um microcosmo do universo bibliográfico) e dar uma olhada, um usuário pode repentinamente deparar-se com o livro que precisa e dar o crédito de sua sorte à serendipidade. Mas tal achado seria serendipitoso apenas se os livros fossem colocados nas estantes aleatoriamente, considerando que, na verdade, eles estão ordenados de acordo com um sistema rigoroso de relacionamentos semânticos, que como uma mão invisível guia o buscador em seu achado “de sorte”. (SVENONIUS, 2000, p.19)

SVENONIUS, E. The Intellectual Foundations of Information Organization. Cambridge: The MIT Press, 2000. 255 p.

 

Taí um livro que eu gostaria de voltar a ler com calma e atenção. Provavelmente vou utilizá-lo pro artigo final da pós, pois faz todo o sentido.