Pesquisa Bibliográfica na Web of Science

(Originalmente publicado em 23 de novembro de 2011)

Durante a graduação foram poucas as vezes que ouvi falar sobre bases de dados internacionais. Só tive um entendimento um pouco melhor sobre como elas funcionavam porque fiz iniciação científica e tive que utilizá-las na prática. Ano passado também utilizei bases de dados quando fiz um trabalho de pesquisa bibliográfica (e mapeamento de periódicos) para um mestrando da pós-graduação em educação científica e tecnológica. Ele buscava artigos sobre um tema um tanto quanto específico: “erros no ensino de física no ensino médio”. Foi uma pesquisa bastante difícil, baseada principalmente em material similar “erros no ensino de química/matemática” e de temas relacionados. Finalizar esse trabalho foi uma grande aprendizagem pra mim.

O treinamento do EdnoteWeb que nos foi passado pela instrutora Deborah Dias, da Thomson Reuters, também pode ser feito pela Internet. Ela falou um pouco sobre como utilizar as bases de dados para fazer pesquisas, organizando também análises bibliométricas (infométricas), bibliográficas e até mesmo disseminação seletiva da informação (DSI). Pela plataforma ISI Web of Knowledge é possível acessar várias bases de dados ao mesmo tempo, tendo mais acesso às referências bibliográficas. O cadastro na Web of Science é gratuito com acesso remoto por 6 meses, utilizável em qualquer computador. Pelo que vi no site, a Web of Science (WS) é um produto de referência que está inserido na ISI WK. A questão do Acesso Livre e da recuperação do periódico/artigo depende diretamente dos periódicos selecionados pela CAPES. Às vezes é possível recuperar apenas a referência e não o artigo na íntegra.

Referente ao pagamento de artigos, é preciso levar em consideração algumas alternativas. Bibliotecas universitárias utilizam o COMUT, que pode recuperar o artigo em papel ou .pdf. Caso o COMUT não recupere o artigo, há também a opção de escrever para o autor, assim que achar sua referência de e-mail. A opção de pagamento pelo artigo deve ser deixada por último, em todos os casos. As grandes editoras de publicações acadêmicas tem a comunicação científica como algo rentável, quando o interesse dos autores hoje é que seu fator de impacto (índice H) aumente não só para que seu trabalho tenha mais visibilidade internacionalmente, mas também para que seu centro ou grupo de pesquisa continue recebendo mais privilégios e financiamento.

Sobre o modo de fazer pesquisa, a instrutora tem um método parecido com o que eu tenho. É possível partir de uma busca refinadíssima, encontrando poucos resultados, pra depois expandir a pesquisa,com auxílio de combinações e variáveis de operadores booleanos. O ideal é a partir daí recuperar uma quantidade razoável de material e ir refinando depois, com variações de termos e expressões, usando sinônimos, etc. que seria a parte “manual” da pesquisa. No entanto a base de dados da WS tem uma propriedade que eu ainda não tinha ouvido falar: Lemmatization, que é o processo de agrupar as diferentes formas flexionadas de uma palavra para que elas possam ser analisados ​​como um único item. Ao clicar nessa opção, a busca não levará em consideração as variações linguísticas, expande a recuperação de documentos. Pode acontecer de se recuperar muito lixo, mas é um bom risco a se correr quando a recuperação é insuficiente.

Ao ser perguntada sobre a quantidade de periódicos nacionais indexados na base, Deborah falou que existem mais de 100 revistas brasileiras na Web of Science. No entanto ela também falou sobre a importância de se aprender a língua inglesa e que até periódicos nacionais tem publicado apenas em inglês, pois assim teriam mais visibilidade internacional. É difícil encontrar periódicos nacionais que aceitem traduções de artigos, mas isso também me fez ter outro questionamento: por que não é do interesse dos periódicos/editoras produzirem edições bilíngues ou até multilingues (talvez) do conteúdo que disponibilizam?

Em relação aos campos de busca, pela palestra conseguimos entneder até onde a pesquisa pode atingir certo nível de detalhamento, com campo de busca para Grupos de Pesquisa (Group Author), para Afiliações (Address, projetos em conjunto, independentes de grupos de pesquisa e realizados por diferentes instituições) e também para Agências de Fomento (Funding Agency) o que pode ser interessante no sentido de fornecer dados sobre publicações para agências de fomento (que provavelmente implicará em mais investimentos em determinados setores, etc). Do mesmo modo, é possível realizar a mesma pesquisa no sentido inverso, por exemplo, analisando dados sobre a produção científica de cada país, observando assim quais áreas estão sendo mais direcionadas, fomentadas. No caso, esta seria uma questão de interesse político. A informação está ali, mas o uso que se faz dela podem ser muito variados.

Quando se realiza uma busca na WS, percebemos que automaticamente aparecem categorizações no canto esquerdo da tela, referentes às grandes áreas o “Web of Science Categories”. Resta saber se  conteúdo de periódicos e artigos faz jus à sua categorização ou não, como isso é definido, quais são os critérios, mas esta é mais uma curiosidade minha mesmo. Como é possível também fazer busca pela instituição, Deborah pesquisou e recuperou algumas instituição com sinonímia como por exemplo: USP, Universidade de São Paulo ou Universidade Estadual de São Paulo, ou University of São Paulo, etc. Logo, os dados não foram tão precisos quanto talvez devessem ser. Fiquei inquieta e perguntei a ela onde esses dados eram extraídos e ela me falou que é dos próprios documentos submetidos para a publicação e que esta é uma questão institucional que deveria ser analisada com mais cuidado.

Esta questão de padronização e normalização de metadados para periódicos científicos foi estudada minuciosamente pela prof. Gleisy Fachin na UFSC. Em sua tese, ela busca por uma ontologia para periódicos científicos, adaptando-a para uma normalização que seja o mais interoperável possível. Fui auxiliar de pesquisa desta professora fazendo traduções e pesquisa de alguns dados. Esta é uma questão bastante delicada, pois envolve instituições de pesquisa, departamentos e principalmente: gente. É difícil estabelecer uma política de informação para normalização de periódicos científicos quando existem muitos interesses conflitantes. Deborah ainda disse que o bibliotecário precisa ter criatividade e um pouquinho de abstração (o tal do feeling, uma certa sensibilidade) para saber diferenciar as variações linguísticas e assim conseguir dados mais próximos do que seria o exato.

Biblioteconomia ou Ciência da Informação?

Essa semana eu estou publicando aqui alguns conteúdos que estavam no meu antigo blog de biblio, o Dora Ex Libris. A maior parte das publicações é de 2011, quando eu estava terminando a graduação em biblioteconomia. Hoje encontrei um texto em que eu falava do meu tcc que entreguei em dezembro de 2011. Meu TCC foi um estudo sobre o tema de Organização da Informação (OI) na produção de teses e dissertações em Ciência da Informação no Brasil. Ele levantou algumas outras questões como as Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações (BDTDs), como estão organizadas em cada pós-graduação, quais softwares estão sendo mais utilizados, como é feita a armazenagem, representação e disponibilização desse tipo de material em acesso livre na Internet e etc.

Tive a ideia de republicar este post porque na época fui questionada por um colega do mestrado sobre o meu tema: “por que você está fazendo seu TCC de Biblioteconomia sobre Ciência da Informação? Por que não faz sobre bibliotecas?”. Essa é uma questão que é pertinente já há algum tempo. Muitos cursos de graduação no Brasil tomam uma coisa por outra e entendem a Ciência da Informação como uma evolução natural da biblioteconomia. Mas eu vou bater na tecla do hibridismo enquanto as bibliotecas físicas ainda existirem. Tem a discussão de que o curso de graduação precisa se modernizar etc., e talvez um dos impedimentos pra essa modernização seja justamente o mestrado: que também não tem nada de tecnologia e que é apenas uma continuação, mais teórica, do que se aprende na graduação. Não vejo uma coisa como sendo melhor ou superior à outra.

E defendo o hibridismo pois foi disso que o meu tcc tratou. Descobri no segundo semestre de 2009 que a parte que eu mais gosto na Biblioteconomia é a de Organização da Informação (leia-se, processamento técnico, técnicas de organização e representação da informação e do conhecimento, indexação, classificação, catalogação, criação de resumos, metadados, recuperação da informação). Em 2010 iniciei a execução de um projeto de pesquisa PIBIC sobre o conceito de OI a partir de material encontrado na base de dados LISA (Library and Information Science Abstracts). Uma base de dados dessa importância não deixa de ser uma referência para a área, bem como não deixa de ser um tipo de biblioteca virtual, se assim quisermos chamar. Pois bem.

Depois de ter analisado a literatura internacional, fiquei curiosa pra saber o que tem sido produzido referente à OI no Brasil. Eu poderia ter feito a análise a partir da produção nos periódicos científicos da área pois querendo ou não, divulgação científica lida diretamente com fontes de informação, e fontes de informação, ora veja, é assunto da Biblioteconomia também; mas achei mais interessante buscar pela produção da pós-graduação, uma vez que teses e dissertações são publicações mais importantes do que artigos de periódicos (é a partir das teses e dissertações que artigos são publicados na verdade, enfim).

Aí entra a questão das Bibliotecas (opa!) Digitais de Teses e Dissertações e de sua importância pra divulgação do que está sendo produzido em todo o Brasil, e de que modos as pós-graduações em CI se articulam (ou não) para preservar sua produção em ambiente online. Meu TCC não é especificamente sobre isso mas esse tema por si só, já dá um outro TCC inteiro. Bibliotecas Digitais (não vou nem entrar na questão terminológica aqui: repositórios, portais, BDTDs, etc.) são importantes pois acredito que seus usuários (nós, estudantes, pesquisadores e profissionais da biblioteconomia e de outras áreas) deveriam ter o acesso mais facilitado – a partir de qualquer computador – à produções de outros estados do Brasil. Por que continuar utilizando o COMUT se é possível com as tecnologias de hoje viabilizar um serviço deste tipo? Essa é só uma das questões, mas com certeza devem existir várias outras se persistirmos no assunto.

Pra mim, pesquisar conteúdo digital nunca fugiu do escopo da biblioteconomia. Pelo contrário: nunca foi tão alinhado ao que a biblioteconomia devaria ser. Pra mim parecia estranho evitar tratar do assunto Ciência da Informação na graduação e nunca houve escopo ideal: fiz o melhor que pude com o que tinha disponível na época. Não me parecia estranho também porque fiz disciplinas isoladas de mestrado e fui aprovada no mestrado da UFSC, mas nunca entendi nada disso como evolução e sim como mais um exercício – bem como toda pesquisa e projeto que nos envolvendo, por maior e mais importantes que sejam, sempre são recomeços. O que fiz foi tão importante quanto todos os outros trabalhos desenvolvidos pela minha classe – não houve melhor ou pior, mas são conteúdos e abordagens diferentes. A qualidade só foi julgada quando da entrega e também por diferentes motivos.

Ainda acredito que a pluralidade é mais importante do que ‘o que eu acho ser o melhor para a Biblioteconomia’ em detrimento de todos os outros tipos de estudo. Trabalhos de conclusão de curso geralmente refletem uma série de variáveis da vida da pessoa que o produz: seus interesses, suas paixões, seu foco (ou falta dele), sua rotina e seu ambiente de trabalho e também um pouco do que aprendeu em sala de aula. Tudo junto e misturado.

Seguem os títulos dos TCCs desenvolvidos pela Biblioteconomia da UFSC em 2011-2. Alguns já mudaram, outros permaneceram, mas basicamente a minha turma tratou destes temas:

  • Atuação dos Bibliotecários em Arquivos: um estudo de caso do arquivo central da Universidade Federal de Santa Catarina
  • O uso de informações estratégicas para geração de inteligência competitiva: um estudo nas agências de Publicidade de Florianópolis
  • Biblioteca Digital de Educação a Distância: favorecendo a Competência Informacional
  • Padrões de metadados para indexação fotográfica
  • A atuação do bibliotecário como disseminador de informação em bibliotecas públicas da grande Florianópolis
  • Relação entre o bibliotecário e o professor na Biblioteca Escolar
  • A potencialidade do uso das ferramentas da Web 2.0 em bibliotecas escolares no processo educativo como ferramentas para ampliar o acesso e disseminação da informação
  • A gestão de documentos no âmbito das instituições públicas do Estado de Santa Catarina
  • Ergonomia na Biblioteca Cruz e Souza (CESUSC)
  • O papel do Bibliotecário nas práticas e modelos para o desenvolvimento da competência informacional
  • Análise das publicações acerca de arquivologia nos últimos 10 anos
  • Análise do uso da coleção do ensino médio do SENAI de Tijucas/SC
  • Ergonomia e usabilidade no documento texto a digital
  • Organização da informação: abordagens nas teses e dissertações em Ciência da Informação no Brasil
  • Avaliação do Software de Automação de Biblioteca Pergamum
  • A importância dos livros de registros do Cartório do 2º Ofício de Imóveis de Florianópolis/SC: monumentos históricos
  • Atividades biblioterapêuticas para crianças
  • O Ensino de Biblioteconomia: uma análise do curso de Biblioteconomia da UFSC
  • Avaliação do Software Automotivo Doutor-ie na perspectiva do usuário
  • FRBR: uma revisão de literatura
  • Critérios para a preservação digital adotados pelos repositórios informacionais arrolados no ROAR
  • Formação e desenvolvimento de coleçõesem biblioteca especializada: análise da coleção da biblioteca do SEBRAE de Santa Catarina
  • Análise das Publicações Eletrônicas Brasileiras em Acesso Aberto na área de Educação Física
  • Arquivo em instituição pública
  • Indexação de imagens fotográficas na empresa Tempo Editorial
  • O uso da informação estratégica

Ainda sobre o plágio e outras questões

(Publicado originalmente em 9 de junho de 2011)

Quando o assunto de plágio foi tratado anteriormente, alguns questionamentos surgiram como “o que pode ser considerado cópia?”; “qual a diferença entre cópia e citação? E entre cópia e plágio?”. Estas questões levaram a outras de cunho mais filosófico tal como “se existe uma linha de pensamento por trás da cópia, até que ponto realmente trata-se de mera cópia?”. Acredito que fora do contexto filosófico isso seja um pouco mais difícil de ser aplicado, principalmente levarmos em consideração as hard sciences, que não são exatamente abertas a interpretações. Uma outra pergunta foi feita e pretendo desenvolve-la neste post: “por que determinados processos (mesmo que nocivos de modo geral) são legitimados e outros, mesmo sendo muito similares, condenados?”.

A sensação que muitos colegas descrevem ao fazer uma pesquisa com muitas citações é a de que estão costurando uma verdadeira “colcha de retalhos”.

Esta afirmação é nociva uma vez que compreendemos o conceito de citação mais como base de fundamentação teórica do que como o produto final ou principal da pesquisa. Trato este assunto apenas como pesquisadora da área de humanas, entendendo que esta situação pode ou não proceder igualmente nas áreas de exatas e biológicas. Acredito que se faz muito necessário que exista uma linha de pensamento que o leitor – outros pesquisadores da área – possa identificar como sendo nossa. É isso o que diferencia pesquisas que são meras colchas de retalhos, vazias de conteúdo e de discurso próprio (apenas uma repetição do que já vem sido dito por orientadores e autores consagrados), de pesquisadores comprometidos com seu avanço pessoal e de seu trabalho.

Compreendo que determinados artigos sirvam como ensaios e até como exercícios pela busca de uma literatura mais aprofundada sobre determinado tema. Mas já tive o desprazer de ler vários artigos no formato “colcha de retalhos” (onde era difícil enxergar o autor e sua opinião) que foram perfeitamente legitimados pela academia, enquanto o plágio é imediatamente banido e repudiado. Ambos os casos deveriam ser combatidos, mas o fato é que não são igualmente. A pesquisa medíocre tem um alto valor enquanto a anti-pesquisa é condenada sumariamente, sem direito a maiores explicações, caso seja comprovada. São processos diferentes que visam um mesmo, único e sagrado objetivo: mais publicações. E atingem igualmente uma mesma meta: o empobrecimento do que está sendo produzido a priori para uma comunidade, e a posteriori para a sociedade como um todo.

Entendemos que a CAPES divulga orientações de combate ao plágio, mas consideramos essa uma questão que precisa ser trabalhada talvez com um olhar mais holístico, e de preferência não apenas quando alguém chega em uma graduação. Às vezes não é questão apenas de “tomar medidas mais enérgicas” contra plagiadores, mas de conscientizar e transformar uma comunidade culturalmente. Na UFSC existe um grupo de pesquisa muito ativo na questão de promover palestras sobre plágio a toda a comunidade acadêmica, o Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação (GEDAI) que pertence à pós-graduação em Direito. Acredito que as iniciativas deste grupo de pesquisa promovem não apenas uma maior conscientização sobre a questão de plágio, mas também a outras questões que concernem Direitos Autorais, o que é fundamental em uma comunidade acadêmica.

É sabido que o plágio é um ato que tem tanto conseqüências éticas (advertência, retratação, expulsão) e legais (processuais, criminais, demissões por justa causa) caso seja comprovado. Apesar de plágio ser considerado crime de acordo com a lei de nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998 de Direitos Autorais, esta prática em ambiente acadêmico muito dificilmente acaba em processo penal. Na maioria das vezes são tomadas apenas medidas disciplinares como advertência verbal ou expressa e expulsão e/ou demissão em casos mais extremos. Só no ano de 2011, dois casos de plágio tiveram grande repercussão como o caso de um docente da USP que chegou a ser demitido e um caso mais recente envolvendo um docente da Unicamp.

A questão do publish or perish já nos é bastante conhecida. No entanto, existe outra questão que muitas vezes passa despercebida, que é a questão do próprio modelo tradicional de publicações acadêmicas, que independente das novas tecnologias, continua o mesmo. Embora hoje vários periódicos de alto nível veiculem seu conteúdo em plataformas online, o modelo tradicional de publicação científica, com todos os requisitos, critérios e santificado pela revisão de pares, é o único reconhecido, validado e aceito mundialmente, em se tratando de pesquisa de nível superior.

Para quem tem um interesse mais profundo acerca do tema de comunicação científica e publicações, recomendo a leitura de um artigo que ajudei a traduzir em 2009 chamado “Reinventando a Publicação Acadêmica Online”, publicado originalmente no periódico interdisciplinar First Monday. Os autores são muito pontuais quando descrevem o que chamam de Sistema de Intercâmbio de Conhecimento, demonstrando suas várias falhas. A partir do artigo podemos inferir que todo o rigor da publicação científica tradicional e da avaliação por pares não impedem erros graves – e plágios – na ciência. Em um editorial da revista Química Nova deste ano (a mesma onde ocorreu um caso de plágio) os próprios editores constataram que o mecanismo de avaliação pode ser falho.

Como foi dito no editorial citado, os pares são pesquisadores muito especializados: entendem muito das técnicas e metodologias. No entanto, têm dificuldade de acompanhar e estar a par de absolutamente tudo o que ocorre em uma comunidade científica, às vezes até internacionalmente. A explosão de informações que ocorreu na última década e as tecnologias de comunicação e informação tiveram grande impacto em vários setores, mas o modelo tradicional de comunicação científica e publicação acadêmica ainda resiste, e nos parece cada vez mais incompatível com a realidade atual.

Pesquisadores atualmente não têm escolha entre o publicar ou perecer justamente por conta deste modelo engessado, que ainda é o estabelecido. Espaços que sejam colaborativos, reservados para a inovação, criatividade e experimentação em ciência e tecnologia ainda permanecem fortemente marginalizados e não reconhecidos – ocorrendo em qualquer lugar que não dentro das universidades. Só nos resta imaginar até quando este mesmo modelo de publicação e reconhecimento da ciência como tal se sustentará e quantos casos de plágio e de publicações de péssima qualidade terão de acontecer para que este tipo de cultura comece a ser repensado.

Texto publicado em 09/06/2011 no site pósgraduando.com

Busca por imagem no Google

(Publicado originalmente em 30 de agosto de 2011)

Esses dias eu aprendi um truque mágico e quero compartilhar com quem ainda não conhece. Às vezes a linguagem (natural, controlada, o que for) não é suficiente pra nos ajudar a encontrar exatamente o que queremos, principalmente quando se trata de imagens, fotografias.  É difícil dizer o que se quer. É mais difícil ainda representar o que se conhece. Não preciso ir muito longe: sabe aquele meme engraçadinho que você não sabe o nome e nem mesmo a história? Ou aquela pintura linda que você encontrou por acaso no tumblr mas não faz a mínima idéia de onde é, quem é o artista e outras informações? Que nem essa imagem que encontrei ontem:

philip_govedare

Achei a imagem incrível, mas não sabia nada sobre ela e nem sobre outras imagens do mesmo artista, enfim, nenhuma informação além  do óbvio, “paisagem”, “aquarela” e “tons de azul”, que era simplesmente insuficiente pra encontrar o que eu quero nas galáxias de informações de páginas que o Google indexa. Às vezes eu não ligo, mas boa parte do tempo não saber das coisas meio que me angustia.  De uns tempos prá cá isso tem deixado de ser apenas uma angústia pessoal, mas uma necessidade de trabalho mesmo.. Mas enfim, eis o truque:

  1. Encontre uma imagem aleatória na internet, sem fazer a mínima idéia do que ou de quem seja.
  2. Salve esta imagem desconhecida em seu desktop ou em qualquer outro diretório.
  3. Abra o buscador do Google imagens.
  4. Arraste o ícone da imagem que foi salva até o campo de busca do Google imagens.
  5. Voilà.

É claro que algoritmos são tão imperfeitos quanto indexações humanas, por melhores e mais especializadas que elas sejam. A busca por um sistema  que seja perfeito é uma audácia inalcançável, mas as pessoas se divertem inventando possibilidades de organização e desorganização e é isso o que é interessante pra mim. Lógico que muito lixo vai ser recuperado e outras imagens que são apenas semelhantes, não representando exatamente o que você queria.

Muito dos primeiros links também não vão ter informações muito úteis sobre o artista em questão, mas se você persistir um pouco mais, pode acabar encontrando algo mais especializado, como por exemplo, o blog de uma ilustradora, que fala sobre o artista – Philip Govedare –  apresentando também outras obras dele. Sejam bem vindos ao futuro da  ausência total de palavras-chaves? É… É divertido acreditar que sim, apesar de ainda não estar tão certa disso… :)

Aprendi isso agora que estou tendo que indexar imagens que não faço idéia de onde foram tiradas e nem do que sejam – embora isso seja apenas parte do trabalho. Me convenço cada vez mais de que toda indexação é um profundo – e apaixonante – trabalho de pesquisa, apesar de ser tão desprezado por boa parte de quem estuda biblio. Me passam a imagem de uma praça, de cidade X, com uma fonte luminosa e uma torre.

Arrasta-se a imagem para o campo de busca e descobre-se uma miríade de outras informações: nome da praça, geolocalização, nome da torre, proximidade de outros locais, hotéis das redondezas, etc.. Informações inimagináveis, pode-se navegar por um mar quase que sem fim delas. Descubro mundos, memorizo o que vejo, vou pra vários lugares sem sair de onde estou.. É difícil entender como isso pode ser algo entediante. Bem como também é difícil se convencer de que a tecnologia é só um meio, e que o nosso fazer é bem humano.

Entendendo a identidade cultural na pós-modernidade de Stuart Hall com Shakira

Estou começando a ler a bibliografia requerida pro mestrado e preferi começar pelos livros de áreas que eu não conheço, pra mudar um pouco os ares né, é sempre bom. Tem pelo menos uns três livros de sociologia, dois deles sobre pós-modernismo e um chama-se “A identidade cultural na pós-modernidade” de Stuart Hall. É um livrinho deveras interessante e a questão de identidade sempre me deixa intrigada. O início do livro é bastante didático e depois alguns assuntos como globalização e conceito de nacionalidade são discutidos. Pois bem. No início autor trata rapidamente sobre três concepções de identidade que servem para embasar a argumentação do restante do livro. As concepções de identidade, para o autor, são:

a) O sujeito do Iluminismo: “indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação” (p. 10)

b) O sujeito sociológico: “A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com “outras pessoas importantes para ele”, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos (…) De acordo com esta visão, que se tornou a concepção sociológica clássica da questão, a identidade é formada na “interação” entre o eu e a sociedade”. (p. 11)

c) O sujeito pós-moderno: “(…) conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente (…) O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente” (p. 12-13)

Depois de ler isso, parei por um momento e gargalhei alto e sozinha no ônibus. E fiz isso porque derrepentemente rolou uma associação com este meme que apareceu no meu GReader esses dias:

shakira-evolution

Pronto.

Eu nunca mais vou esquecer das concepções de sujeito do Iluminismo, sujeito sociológico e sujeito pós-moderno de Hall (1998).

Obrigada, Internet.

Referência

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. 100 p.

Vale a pena fazer Iniciação Científica?

(Publicado originalmente em 5 de abril de 2011.)

Fazer pesquisa [não qualquer pesquisa, a pesquisa acadêmica, quadrada, certinha, careta, “científica”] é pra quem gosta e tem paciência (e perseverança!). Além disso a pessoa tem que ter aquele tipo de ‘ambição’ – que com certeza não é material, pois a bolsa simbólica é de R$360 (na época) – de querer ter um maior convívio acadêmico e curiosidade de entender como que funciona o modo de trabalhar de algum professor em específico ou entender melhor sobre os estudos que estão fazendo sobre algum tema muito específico da sua área.

Claro que é difícil encontrar um orientador que estude exatamente aquilo que você quer estudar, mas acredito que com uma primeira experiência em pesquisa, é mais simples ter uma noção de como as coisas são feitas, do que está ‘estabelecido’ (por assim dizer), e a partir daí você pode partir não só pra outras experiências, como também para experiências próprias, criando suas próprias pesquisas e projetos. Algumas das pessoas que fazem IC tendem a ir pro mestrado e seguir carreira acadêmica, mas isso também não é uma regra, bem como não é uma regra que ‘quem faz IC entra direto no mestrado’.

Alguém perguntaria ‘mas qual é a vantagem de se fazer uma Iniciação Científica?’. Vou tentar colocar isso em tópicos de desvantagens e vantagens.

Desvantagens

  • À primeira vista, não tem nenhuma vantagem. Primeira coisa: ganha-se muito pouco. Você nunca vai ter dinheiro pra absolutamente nada. Aceite este fato e se vire nos 30.
  • É trabalhoso. Tem muita coisa pra ler, bibliografia pra levantar. Você tem que coletar dados e organizá-los em uma planilha ou de alguma forma decente (e quando alguma coisa muda, você também tem que mudar, estar em constante atualização e ver como isso muda “a cara” da pesquisa, etc). Tem que escrever e não só isso, tem que saber escrever (jargões ‘científicos’ são opcionais).
  • Você corre o risco de ficar “preso” no “modo acadêmico” de fazer as coisas e achar que tudo no mundo tem que ser  feito desse jeito senão “não é bom”. Ou seja, você pode perder a criatividade e espontaneidade, que podem ser importantes (cruciais?) em algum momento da sua vida. Cuidado com isso. O modelo acadêmico é só um modelo, não é algo divino e nem uma verdade absoluta. “The truth is out there”.
  • Na verdade é um tanto quanto desgastante você ter que lidar com as disciplinas regulares do curso e ainda fazer em paralelo algo que é quase um mini-TCC. Haja! Tem que saber administrar o tempo pra acabar não tomando bomba em tudo e conseguir passar nas disciplinas regulares pelo menos com uma média satisfatória. Tem que entregar relatórios e existem prazos para essas entregas.
  • Além de ganhar pouco, você não pode “acumular bolsas”. Ou seja, tem que se dedicar integralmente às atividades acadêmicas e de pesquisa e não possuir qualquer vínculo empregatício/de estágio em nenhum outro lugar (isso me foi confirmado pelo Airton Costa, coordenador do BIP/PIBIC-UFSC e também pelo próprio site do CNPq quando da Norma Específica sobre o programa de IC, 2.2 b).

Opressor né? Oh, well. Se você não tiver muita certeza de que quer fazer pesquisa, nem tente, porque depois que já estiver na metade ou terminado vai ficar aquela sensação de ‘tempo perdido’ terrível. Se não é sua praia, sugiro que descubra o que você realmente gosta mesmo de fazer e se especialize nisso. Poupe o tempo de todo mundo. :D

Vantagens

  • Se você gosta de ficar enfiado em um laboratório, ou gosta de ficar sapeando pela universidade o dia todo (todo aquele discursinho romantizado de “viver a universidade”, ahah), ou gosta de ficar em casa mesmo no computador, a IC permite isso por não ter horários fixos. Claro que você tem que responder quando um orientador te chama ou te pede algo, mas pelo menos na minha experiência, você não tem obrigação de frequencia nenhuma na universidade. Se quiser trabalhar às 4 da manhã, ótimo, desde que você produza, tá valendo! (Nota: não sei como isso é em outros cursos, no meu é assim).
  • Você entende um pouco mais sobre o universo de publicações da área que você está pesquisando, consegue mais fontes, tem mais contatos pessoais (networking), tem mais chances de estar atualizado inclusive sobre fontes não-acadêmicas, tudo é válido se você busca e tem interesse (isso se você tiver um interesse genuíno no tema). Acho que a IC é um bom ponto de partida pra quem está meio perdido em relação ao que é pesquisa. Depois que você aprende a operacionalizar certas coisas, domina certos padrões/técnicas, certos “modos de fazer”, o resto fica mais simples. Mas lembre-se sempre: este é só UM modo (muito especializado) de fazer as coisas, não é o único.
  • Você aprende, com o tempo, a separar o joio do trigo e saber o que acatar do seu orientador e o que não acatar. Isso nem sempre é relativo ao projeto de pesquisa, mas sim à própria mentalidade acadêmica. Nem tudo deve ser acatado, acredite. Se você quiser ler X coisa, por mais que seu orientador diga “isso é besteira!”, LEIA. Se você quiser fazer uma tradução e seu orientador te perguntar “isso vale alguma pontuação?”, ignore e FAÇA. Não deixe ninguém te podar. Ao longo do tempo você vai percebendo essas sutilezas e aprendendo a lidar com elas. Acho isso positivo em relação a amadurecimento mesmo.
  • Se você fizer IC cedo (logo nos primeiros anos de curso), quando a época do seu TCC chegar, quando os seus colegas estiverem se descabelando, você vai estar mais tranquilo. Isso é quase certo. Aliás, se você tiver “jeito pra coisa” você pode se meter à besta e fazer uma das coisas mais legais EVER: ajudar os seus colegas a estruturarem seus TCCs! Ajudando eles você também aprende mais ainda.
  • Seu projeto de pesquisa – se bem finalizado, publicado, etc – na biblio da UFSC, conta como Disciplina Optativa / Extracurricular (só imprimir a papelada, pedir pro professor orientador dar uma nota e ir na coordenação preencher o formulário e entregar).
  • Os professores dizem que aluno com IC tem mais chances de entrar em um mestrado. Bem, depois que eu conseguir entrar em algum, vou ver se isso é verdade. Pra mim, processos seletivos de mestrado além de concorridos são bastante subjetivos. A gente nunca vai saber o que exatamente estão avaliando, então não sei se conto muito com isso . Fiz duas iniciações científicas na UFSC e fui aprovada no mestrado em 2011, mas não quis fazer. Então acho que vale a pena sim, pois os professores vão te conhecer melhor.

Grupos de Pesquisa em Linguagens Documentárias no Brasil

Ano passado fiz uma pesquisa que foi apresentada na disciplina de Pesquisa em Biblioteconomia (CIN 5015)  em 2010-1, ministrada pela prof. Edna Lúcia da Silva. Na época estava na monitoria da disciplina de Linguagens Documentárias e tive a ideia da pesquisa. Não acho que tenha ficado uma pesquisa boa o suficiente a ponto de fazer um .pdf padronizado certinho nas normas da ABNT e menos ainda para publicar nos meios tradicionais. Ainda assim, acho que ficou uma pesquisa legal e talvez relevante. Então resolvi publicar aqui o que foi feito, apesar de eu ter achado um estudo meio incompleto. Enfim… Não atualizei os dados que estão disponíveis aqui (eles são de 2010-1) e também não coloquei mais referências nem “melhorei” a pesquisa, só deixei ela como estava mesmo, como um retrato de algo que produzi há quase um ano atrás.  Hoje em dia escreveria muito mais coisa, mas não é esse o propósito. Publico-a aqui pra deixar registrado e compartilhar com quem também possa ter interesse pelo assunto.

Resumo

Foram coletadas informações no Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil (DGPB) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) [Nota: na época <http://dgp.cnpq.br/> e hoje <http://dgp.cnpq.br/diretorioc/>; aparentemente esta base de dados não está mais em funcionamento hoje, 26/05/2011]  referente aos Grupos de Pesquisa em Linguagens Documentárias no Brasil. Selecionados os grupos, eles foram analisados por região, evolução cronológica, quantidade de pesquisadores envolvidos e linhas de pesquisa. Os líderes dos grupos também tiveram sua produção  em LD analisada de acordo com o que foi disponibilizado pelos autores na Plataforma Lattes.

1 Introdução

O modo como representamos, organizamos e recuperamos os documentos passa por transformações, de acordo com a evolução das tecnologias e mudanças dos sistemas, de impresso para digital ou ainda de sistemas híbridos. Atualmente os produtos que resultam das Linguagens Documentárias (LD), como taxonomias, tesauros e ontologias estão sendo estudados de modo interdisciplinar, levando em conta a existência de documentos eletrônicos e digitais. Na CI, o estudo deste tema volta-se cada vez mais para questões de indexação, armazenamento e recuperação da informação, características principais dos processos de Linguagens Documentárias.

Inspirada no artigo “Grupos de Pesquisa sobre Recuperação da Informação no Brasil” publicado por Sales e Godoy Viera (2007), esta pesquisa fará um breve estudo sobre a população dos Grupos de Pesquisa na área de LD: sua distribuição geográfica, linhas de pesquisa, tempo de existência, atores envolvidos, líderes dos grupos e sua produção. O objetivo geral do trabalho é realizar o mapeamento no Diretório de Grupos de Pesquisa do Brasil (DGPB) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) os Grupos de Pesquisa que abarcam estudos em LD. Entre os objetivos específicos podemos citar a caracterização e análise das informações selecionadas e o levantamento da produção dos líderes de cada grupo de pesquisa.

2 Ciência da Informação e Linguagens Documentárias

A CI está classificada na Grande Área das Ciências Sociais Aplicadas, abarcando disciplinas como a biblioteconomia e a documentação, a museologia, a arquivologia e o jornalismo (LE COADIC, 2004). Entretanto, uma vez que a informação é o seu principal objeto de estudo, suas áreas de concentração podem abarcar conhecimentos de outras áreas, para que assim se fortaleça e aperfeiçoe. No Brasil, a CI conta com uma infra-estrutura, ainda em seu início, de ensino e pesquisa, uma vez que seu apoio institucional está em fase de implantação (ANDRADE, OLIVEIRA, 2008, p. 46).

Atualmente existem sete programas de pós-graduação em CI no Brasil e é possível identificar que a maioria teve o seu início, com programas de mestrado, na década de 70. Andrade e Oliveira (2008) acreditam que, para o desenvolvimento das atividades científicas, torna-se necessária uma infra-estrutura mínima composta por elementos básicos como: apoio às atividades de pesquisa, recursos humanos qualificados e canais de comunicação e intercâmbio científico. Como parte da infra-estrutura de apoio às atividades de pesquisa, a comunicação e o intercâmbio científico são essenciais, uma vez que é através destes processos que a ciência pode desenvolver-se e evoluir.

Na literatura, muito se fala sobre canais formais de comunicação, com grandes referências a periódicos científicos e toda a produção impressa. No que tange à comunicação voltada especificamente entre grupos de pesquisa, existe uma dificuldade em localizar literatura nacional. Em seu artigo Collaborative Information Seeking and Retrieval, Foster (2006), lista uma série de experimentos sobre recuperação colaborativa da informação entre os mais variados grupos de pesquisa, entre eles: a academia (universidade), a indústria, a medicina e entre os militares. Através de experimentos feitos com cada grupo, o autor grifa os diferentes modos de comunicação, de acordo com a cultura organizacional de cada um deles. Meadows (1999) acredita que mesmo que com todo o crescimento acelerado e explosão bibliográfica, o crescimento da ciência não ocorreu de forma caótica, pois os próprios cientistas encontram mecanismos para que o desenvolvimento da comunicação ocorra de forma relativamente ordenada. Esta “ordem” certamente advém de regras e práticas estabelecidas e seguidas pelas comunidades científicas e isso acontece tanto através do suporte de comunicação e suas plataformas, quanto das necessidades dos pesquisadores, como produtores e receptores de informação.

Na biblioteconomia, as Linguagens Documentárias representam uma parcela significativa do estudo referente ao processamento técnico, que abrange a catalogação (descrição do documento), a indexação  e resumo (representação do documento através de texto e palavras-chave) e a classificação (localização o documento no espaço físico). A definição de Linguagens Documentárias que utilizaremos nesta pesquisa vai ao encontro da definição de Lara (2004, p. 232):

A denominação linguagem documentária, além de referir-se ao conjunto dos diferentes tipos de instrumentos especializados no tratamento da informação bibliográfica (sistemas de classificação enciclopédicos ou facetados e tesauros), designa, de modo mais amplo e completo, a linguagem especialmente construída para organizar e facilitar o acesso e a transferência da informação.

A autora também define que a LD pode ser tanto um instrumento que realiza a mediação entre sistemas ou conjuntos informacionais e usuários, quanto ponte entre a linguagem do sistema e a linguagem do usuário (p. 233). Cintra et al (2002) entende que a função da LD é tratar o conhecimento dispondo-o como informação, pois compete a esta área de estudo transformar estoques de conhecimentos em informações adequadas aos diferentes segmentos sociais.

3 Área de Conhecimento, Grupos e Linhas de Pesquisa

Para um melhor entendimento do corpus da pesquisa, foi feita uma breve definição dos termos: Área de Conhecimento, Linha de Pesquisa e Grupos de Pesquisa. Referente a Área do Conhecimento e Grande Área, de acordo com a Nova Tabela das Áreas do Conhecimento a seguinte definição foi publicada em setembro de 2005 e até então está disponibilizada no site do CNPQ:

“A Constituição Federal, ao tratar, em seu Artigo 218, da Ciência e Tecnologia, refere-se a áreas de ciência. Entretanto, as agências públicas e a comunidade científica, consagraram a expressão áreas do conhecimento […] Por área do conhecimento entende-se o conjunto de conhecimentos interrelacionados, coletivamente construído, reunido segundo a natureza do objeto de investigação com finalidades de ensino, pesquisa e aplicações práticas. […] A grande área é a aglomeração de diversas áreas do conhecimento em virtude da afinidade de seus objetos, métodos cognitivos e recursos instrumentais refletindo contextos sóciopolíticos específicos”. (p. 2)

Borges-Andrade (2010, p. 164) define linha de pesquisa como um traço imaginário que determina o que será investigado num dado contexto ou realidade, limitando fronteiras do campo específico do conhecimento, oferecendo orientação teórica e estabelecendo procedimentos adequados ao processo. Segundo o mesmo autor, o programa ColetaCapes, que gera os relatórios dos Programas de Pós-Graduação, define uma linha de pesquisa como “um domínio ou núcleo temático da atividade de pesquisa do Programa, que encerra o desenvolvimento sistemático de trabalhos com objetos ou metodologias comuns” (p. 165).

De acordo com o que consta na página de perguntas freqüentes do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil uma linha de pesquisa “representa temas aglutinadores de estudos científicos que se fundamentam em tradição investigativa, de onde se originam projetos cujos resultados guardam afinidades entre si” (2011).

Para Grupos de Pesquisa a definição no mesmo site é a de “um conjunto de indivíduos organizados hierarquicamente em torno de uma ou, eventualmente, duas lideranças, cujo fundamento organizador dessa hierarquia é a experiência, o destaque e a liderança no terreno científico ou tecnológico; no qual existe envolvimento profissional e permanente com a atividade de pesquisa; cujo trabalho se organiza em torno de linhas comuns de pesquisa; e que, em algum grau, compartilha instalações e equipamentos”. UNESP, 2007 apud OLIVEIRA, 2009:

“O grupo deve ser constituído por, pelo menos, dois membros (docente, pesquisador, pós-doutorando) e, no mínimo, por dois alunos (iniciação científica, mestrando, doutorando). Todos os membros do grupo, inclusive os alunos, devem possuir Curriculum Lattes e proceder às atualizações conforme normas do CNPq” (p. 40)

Na definição encontrada sobre Grupos de Pesquisa, uma de suas características é a presença necessária de um ou mais líderes. Parte desta pesquisa também será dedicada a explorar a produção dos líderes, como amostragem das possíveis pesquisas realizadas por estes grupos. Grupos de Pesquisa abrigam pesquisadores da graduação e de programas de pós-graduação, contando diretamente com a liderança de doutores da área de estudo em específico. As pesquisas são desenvolvidas de acordo com a área de concentração e linha de pesquisa, sendo que também é possível que exista interdisciplinaridade, tendo em vista que o campo da Ciência da Informação é especialmente abrangente. Há também estudos voltados para áreas de comunicação, gestão, tecnologias e sistemas de informação e organização.

4 Metodologia

Esta pesquisa pode ser classificada como documental segundo Gil (2002), uma vez que constituir-se-á de páginas (documentos) a serem encontradas no Diretório dos Grupos de Pesquisa Brasil. O Diretório contém informações acerca dos Grupos de Pesquisa de todo o Brasil, fornecidas pelos próprios líderes dos grupos cadastrados. Dentre as informações que podem ser encontradas estão os integrantes dos grupos, as linhas de pesquisa, as áreas de conhecimento e também os currículos disponíveis na base de dados da Plataforma Lattes .

A coleta dos dados foi realizada entre os dias 10 e 20 de maio de 2010, adotando como estratégia a busca por grupo e frase exata. As estratégias de busca utilizadas foram “linguagem documentária” e “linguagens documentárias”. O corpus da pesquisa compõe-se das informações obtidas nas páginas individuais dos grupos de pesquisa, com variáveis como: distribuição nas diferentes regiões do Brasil, data de criação, linhas de pesquisa e atores participantes do processo. Posteriormente analisamos apenas os líderes e a sua produção corrente em LD isoladamente.

Segundo Oliveira (2009), o total de Grupos de Pesquisa em Ciência da Informação no Brasil, resume-se a 103 grupos. Referente à classificação temática dos Grupos de Pesquisa, podemos entender que o estudo das Linguagens Documentárias encontra-se na área de Organização do Conhecimento, e é o segundo tema com maior número de grupos de pesquisa (16), somando em 15,53% dos Grupos de Pesquisa em CI no Brasil. Ainda de acordo com a autora, estes grupos agregam temas como tesauros, listas de autoridade, catalogação e classificação, elaboração de resumos, indexação, revisão e padrões e protocolos. Cabe ressaltar que nem todos os grupos em Organização do Conhecimento tratam especificamente sobre LD. A apresentação e análise dos resultados obtidos na pesquisa são apresentadas na seção seguinte.

5 Resultados e Análise das Informações

Como resultado da busca no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, identificou-se 9 grupos de pesquisa em áreas similares e específicas das Linguagens Documentárias vinculadas ao CNPq. Com relação à Área de Conhecimento, todos os grupos pertencem à grande área da Ciência da Informação e todos fazem parte de instituições de Ensino Superior Públicas.

Referente ao ano de criação dos grupos de pesquisa, observa-se que o primeiro grupo foi criado na década de 80. Na década de 1990, mais 2 grupos foram criados e só a partir do ano 2000 é que a criação de grupos que se alinham nesta área de estudo entrou em ritmo ascendente, com a criação de 6 grupos de pesquisa entre o período de 2000 e 2009. O gráfico a seguir nos mostra o percentual da distribuição geográfica dos Grupos de Pesquisa em LD pelo Brasil, sendo que a sua maioria encontra-se na região sudeste.

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Gráfico 1 – Quantidade percentual de grupos de Pesquisa por Região

Sobre as Linhas de Pesquisa de cada um dos grupos, notamos que a sua quantidade não está relacionada diretamente ao número de universidades das regiões que contém os Grupos de Pesquisa.  Podemos entender que a nomenclatura das Linhas de Pesquisa serve também como forma de descrever os propósitos de investigação de cada grupo. Os nomes das Linhas de Pesquisa seguidas por cada grupo variam de acordo com seu foco e objetivo, onde notamos que alguns são mais gerais e outros específicos em relação à LD. É possível que a Linha de Pesquisa tenha relação com o respectivo Programa de Pós-Graduação da instituição em questão, mas isto também não é considerado regra.

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Tabela 1 – Relação das Linhas de Pesquisa de acordo com a região

Ao analisarmos os atores que foram encontrados nas páginas dos Grupos de Pesquisa, os dividimos entre Pesquisadores (líderes e outros professores-pesquisadores participantes) e Estudantes (alunos de graduação ou pós-graduação, seja de mestrado ou doutorado envolvidos em Grupos de Pesquisa). Neste caso a quantidade de pesquisadores envolvidos está diretamente relacionado com a região onde existem mais Grupos de Pesquisa no Brasil. Também podemos inferir pelos dados que especificamente na região norte e nordeste há um maior estímulo para que alunos  (de graduação e pós) engajem-se em projetos de Grupos de Pesquisa.

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Gráfico 3: Atores envolvidos em Grupos de Pesquisa em LD

Na segunda parte da pesquisa, verificamos a produção dos líderes dos Grupos de Pesquisa, que contabilizaram em 15. Alguns Grupos tinham até 2 líderes e muitas vezes os Grupos não estavam localizados apenas em uma instituição, mas contavam com a participação tanto de líderes quanto de pesquisadores de várias instituições, embora todos fossem relacionados específicamente com a área de CI. A produção foi dividida apenas entre artigos completos publicados em periódicos, capítulos de livros e livros, sendo apenas contabilizada a relação da produção em LD.

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Gráfico 4: Produção dos Líderes de Pesquisa em LD no Brasil.

Em síntese, compreendemos que a produção dos Grupos de Pesquisa em LD no Brasil não apenas tiveram início, bem como se proliferaram mais na região sudeste ao longo dos anos, especificamente no estado de São Paulo. Todos os grupos analisados são restritos a área de Ciência da Informação, o que os leva a ter vínculo com as Linhas de Pesquisa específicas dos programas de pós-graduação de suas instituições de origem (lembrando também que um Grupo de Pesquisa pode ter participantes – líderes e pesquisadores – de mais de uma instituição). A produção dos grupos em si não foi analisada, mas ao observarmos as Linhas de Pesquisa compreendemos que elas podem ir além do campo de análise e linguagens documentárias, tendo um escopo mais abrangente.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, M. E. A.; OLIVEIRA, M. A Ciência da Informação no Brasil. In: OLIVEIRA, Marlene de (Coord.). Ciência da informação e Biblioteconomia: novos conteúdos e espaços de atuação. Belo Horizonte: UFMG, 2008. Cap. 3, p. 45-60

BORGES-ANDRADE, J. E. Em busca do conceito de linha de pesquisa. Revista de Administração Contemporânea, v. 7, n. 2, 2003.

CINTRA, A. M. M. et al. Para entender as linguagens documentárias. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Polis, 2002. 92 p.

FOSTER, J. Collaborative information seeking and retrieval. In: CRONIN, Blaise (ed.). Annual Review of Information Science and Technology. Medford: Information Today, Inc., 2006, v.40, p.329-356.

LARA, M. L. G. Linguagem Documentária e Terminologia. Transinformação, Campinas, v.16, n.3, p.231-240, set./dez.2004.

LE COADIC, Y.-F. A Ciência da Informação. Brasília: Briquet de Lemos, 2004. 124 p.

MEADOWS, A. J. A comunicação científica. Brasília: Briquet de Lemos, 1999, 268 p.

OLIVEIRA, M. Grupos de Pesquisa em Ciência da Informação no Brasil. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, v.2, n.1, 2009.

SALES, R. GODOY VIERA, A. F. Grupos e Linhas de Pesquisa sobre recuperação da informação no Brasil. Revista Biblios, n.28, 2007. Disponível em: Acesso em: 27 abr 2010.

(Publicado originalmente em 27 de abril de 2011.)