SEO para LinkedIn é tema de minicurso no Seminário FESPSP 2017

#SeminarioFESPSP

03/10/2017

Dora Steimer explicou para os alunos presentes como criar um perfil mais atrativo na plataforma.

Técnicas de SEO para utilização na rede social profissional LinkedIn foram o tema do minicurso “Curso Básico de SEO para LinkedIn”, ministrado pela bibliotecária Dora Steimer. A aula aconteceu na terça-feira, 3 de outubro, durante o Seminário FESPSP 2017. Neste ano estamos discutindo As Incertezas do Trabalho. Confira aqui a programação do evento.

LinkedIn é a maior rede social profissional atualmente, sendo frequentemente utilizada por headhunters e profissionais de RH na busca por talentos. Este minicurso teve como objetivo auxiliar na criação de um perfil campeão no LinkedIn e ajudar a compreender como os metadados podem te ajudar a ser visto e encontrado nessa grande rede social profissional. Entre as abordagens tratadas, foram discutidas: indexação e SEO (como as palavras podem te ajudar a se posicionar melhor na recuperação do motor de busca da rede), postura e imagem profissional online (branding), criação de posts relevantes e gestão de conteúdo, monitoramento de empresas, vagas de trabalho e networking online.

Seminário FESPSP 2017
Tradicional no calendário de eventos de pesquisas acadêmicas, o Seminário FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) na edição 2017 discutirá as Incertezas do Trabalho, em um momento singular na política nacional e no cenário global, em meio a discussões de Reformas Trabalhistas e Previdenciárias em vários países e à aproximação de uma 4ª Revolução Industrial, que já está mudando a forma como lidamos com o trabalho, de formas positivas e negativas. As Conferências, os minicursos, os grupos de trabalho e as reuniões da Cicla das 5 acontecerão entre os dias 2 e 5 de outubro, no campus FESPSP (Rua General Jardim, 522 – Vila Buarque – São Paulo/SP). Saiba mais sobre a programação e as inscrições aqui.

Entrevista: bibliotecária “fora da caixinha”

Nesta semana recebi algumas perguntas de um pessoal da graduação em biblioteconomia da FESPSP. Eles estão criando um seminário sobre bibliotecários “fora da caixinha” e quiseram saber sobre a minha formação acadêmica e sobre carreira. Pessoalmente não curto muito esse termo “fora da caixinha”, como se fosse algo especial ou algo a ser celebrado… Acho meio bobo. Sem falar que ele causa uma ansiedade danada nas pessoas e, muito contra-intuitivamente, não as faz dar o melhor de si (justamente pela ansiedade que causa, etc.). Não me considero “fora da caixinha” mesmo porque ainda faço uma porção de coisas bastante operacionais e dentro da caixinha ainda, só que de modo sensivelmente diferente e com outras perspectivas e linha de pensamento… E qualquer outra pessoa pode fazer isso, se tiver intenção o suficiente. Eu poderia falar muito mais sobre isso, mas prefiro deixar pra dizer algumas coisas pessoalmente, apenas. Enfim…

Por fora bela viola, por dentro gatinha na caixinha, etc…

De qualquer modo, seguem minhas respostas:

  • Ao analisar seu perfil, nas plataformas sociais LinkedIn e Facebook percebemos que sua atuação abrange atividades que muitas vezes nem ouvimos falar na graduação, como por exemplo: elaboração de basic content; SKUs; compliance; framework, etc. Fale-nos um pouco da sua formação acadêmica e como se deu a escolha pelo ramo que atua no momento (e-commerce). A educação continuada é um diferencial para quem pretende seguir neste nicho? Pode citar quais cursos extracurriculares realizou e ainda pretende fazer para se aprimorar?

Biblioteconomia é minha segunda graduação e resolvi fazer porque me identificava muito com a área. Sobre a escolha da área em específico que estou no momento, acredito mais que fui escolhida do que o oposto. Não estava buscando ativamente trabalhar com Internet, a oportunidade apareceu pra mim e resolvi aceitar o convite. Sobre educação continuada, ela é realmente importante, mas não chega mais a ser considerada exatamente um diferencial pelo mercado. Supõe-se que as pessoas naturalmente invistam em suas carreiras. O diferencial nem sempre está na técnica, mas em nossa personalidade. Em relação a cursos extracurriculares, fiz inglês na Cultura Inglesa desde pequena e durante a graduação em biblioteconomia fiz duas disciplinas do mestrado como aluna especial. Fora isso, tenho um blog (indexadora.wordpress.com) onde escrevo vez e outra algumas considerações sobre a área, a profissão, etc. Também já escrevi para o Bibliotecários Sem Fronteiras (bsf.org.br) por algum tempo.

  • Comente um pouco sobre como funciona a empresa na qual você trabalha e o no que seu trabalho impacta.

Além das livrarias megastores e da editora, o Grupo Saraiva tem investido no e-commerce também. Atualmente, estou na Saraiva Online como Especialista em Taxonomia. Trabalho em conjunto com a equipe de User Experience (UX) e isso tem impacto direto nos produtos de interfaces, seja no desktop ou em mobile. A minha parte do trabalho é focada em dois sistemas bem importantes na Arquitetura da Informação: o sistema de organização e o sistema de nomenclatura. Meus colegas de bancada estão mais envolvidos com o sistema de navegação (layout, etc.) e também de busca (SEO), mas os trabalhos são bem interdependentes.

  • Como são os usuários/clientes? Como se dá o processo de estudo desses usuários?

Pela minha experiência, existem vários tipos de clientes. Meus clientes diretos são meus colegas de equipe, pessoas que vão avaliar meu trabalho e com quem vou trabalhar mais diretamente – isso inclui gestores também. Outro tipo de cliente são as diferentes áreas da empresa: áreas comerciais, qualidade, etc. Pessoas para quem mostrarei meu trabalho e tentarei chegar em um consenso, tentando ajuda-las ao mesmo tempo que defendo a experiência do usuário. E existem os clientes da Saraiva propriamente ditos, que é sempre uma incógnita que tentamos desvendar através de trabalhos, estudos e pesquisas como analise de Persona, Testes A/B, Card Sorting, etc.

  • Pode nos contar mais detalhadamente sobre as atividades que desempenha?

Considero meu trabalho hoje basicamente como mediação da informação, mesmo. Resumindo bastante, posso dizer que trabalho com pesquisa em UX, realizo mapeamento de conteúdo (sortimento, tipologia de produtos) a ser trabalhado e organizado; Também trabalho com normalização da nomenclatura dos tipos de produto e faço isso baseada em pesquisas de benchmarking (pesquisa na concorrência); Para a organização, também realizo pesquisas de Card Sorting que é uma técnica que verifica que tipos de padrões de organização podem surgir e a partir do cruzamento com outros dados, consigo sugerir uma estrutura de organização customizada para a companhia, de acordo com o que for mais adequado ao seu modelo de negócio.

  • Quais são os desafios e/ou dificuldades enfrentadas diariamente no exercício das atividades realizadas? O que há de interessante nestas atividades que exerce?

Curiosamente, justamente o que há de desafiante e difícil é, ao mesmo tempo, o que há de mais interessante nas atividades que faço: as pessoas. As pessoas com quem lido diariamente, suas ideias, seus interesses e objetivos. Saber lidar com as pessoas, suas expectativas e frustrações, é a parte mais tem me feito aprender, que mais me mantém humilde e é a parte que considero mais interessante no trabalho – por mais difícil que muitas vezes isso seja. Temos muito o que aprender, sempre.

  • Quais são as competências e habilidades que você acredita que o bibliotecário (a) deve possuir/desenvolver para desempenhar as atividades que você realiza?

Acho que as pessoas, de modo geral, precisam ser verdadeiras e honestas consigo mesmas em primeiro lugar. A principal habilidade para ser bem-sucedido – na minha opinião – em qualquer ambiente é o auto-conhecimento. Muitas vezes, não se trata de competência e habilidade técnica, mas justamente de características que não são ensinadas em universidades: empatia, paciência, parcimônia, jogo de cintura, mediação, postura profissional, posicionamento. Essas características são parte da vida, não podem ser ensinadas, também não podem ser aprendidas – se a pessoa se recusa, continuamente, a compreender seu lugar no mundo. De nada adianta ser excelente, no que quer que você faça, se te falta empatia. Se você não consegue alcançar o outro. Ou se você é tímido, não consegue ir até a mesa de outra pessoa para pedir algo, conversar, mostrar seu trabalho. Se você é incapaz de receber críticas sem levar isso para o lado pessoal, de forma passional.

  • Quais dicas você dá para os graduandos e ou veteranos que desejam ingressar neste ramo de atuação?

Vejam se o trabalho, como um todo, tem a ver com a sua personalidade. Se é essa mesmo a sua verdadeira vontade. Se você é capaz de se adaptar, se entende que precisará trabalhar em conjunto, de forma colaborativa. Se entende que o cliente, as pessoas de modo geral, devem ser prioridade pois é com elas que se está lidando, mais diretamente. As técnicas ajudam, mas elas são só isso: técnicas. E elas mudam e são superadas e modificadas ao longo do tempo.

  • Você trabalha com uma equipe multidisciplinar e/ou há mais bibliotecários no local?

A equipe que eu trabalho hoje é multidisciplinar, tem pessoas com vários backgrounds e formações. Mas no último trabalho que tive, trabalhei brevemente com uma colega bibliotecária (oi, Ana Marysa) que estava na equipe de UX.

  • Para você, o que é bibliotecário “fora da caixinha”? Você considera que o mercado está aquecido para contratação de bibliotecário (a) inovadores, ou seja, “fora da caixinha”?

Para mim, bibliotecários “fora da caixinha” são os que conseguem fazer com que seus piores defeitos trabalhem ao seu favor. E há uns 2 ou 3 anos atrás eu diria que o mercado está aquecido, mas na atual conjuntura econômica pela qual o país passa, eu não afirmaria isso com tanta certeza assim. De qualquer modo, é preciso saber vender seu próprio peixe, ter um bom networking, saber cultivar relacionamentos e principalmente saber quem se é e o que se quer. Nada disso é trivial, mas se for feito com certa consistência, as chances de sucesso tendem a ser maiores.

Mestrado acadêmico

A última vez que eu tinha tentado mestrado foi em 2011 e foi um tanto quanto traumatizante pra mim. Foi assim porque eu queria muito passar e eu estava certa – e as pessoas à minha volta estavam certas – da minha aprovação. Foi devastador, mas tive que engolir e digerir o tal do orgulho ferido e simplesmente seguir em frente. E fiz isso porque, enfim, não havia outra coisa a ser feita no momento. Hoje resolvi parar pra tentar lembrar do zeitgeist da minha vida naquela época – há cinco anos atrás – e realmente, foi um ano bastante conturbado pra mim, em vários sentidos. Estava saindo de um relacionamento falido e indo ao encontro de um futuro incerto com muito, muito medo mesmo, sem saber o que estava por vir direito. Depois de um ano emocionalmente inviável, na época da prova eu estava completamente vulnerável. E aí deu no que deu, né? Fiquei no medo, na defensiva e não passei, óbvio.

Tive que tomar decisões difíceis no final de 2011, tais como desistir do mestrado em que havia sido aprovada e vir para São Paulo sem nenhuma perspectiva de absolutamente nada. Fiquei tão constrangida com a situação toda que tentei me convencer depois de que talvez o mestrado não fosse pra mim, mesmo, que era melhor eu trabalhar e seria isso. Vim pra cá pra trabalhar, trabalhei sempre na minha área e com o que mais gostava – organização e gestão da informação – e dois anos depois de formada fiz uma especialização. Queria voltar a fazer pesquisa, não tinha coragem ainda pra aceitar ser reprovada no mestrado de novo, mas achava que precisava de uma titulação melhor. Foi uma alternativa razoável, para o momento. Além disso tudo também tive que saber ponderar e filtrar tudo o que me diziam – que é a parte mais difícil de todas. “Faça pós em outra área”, “faça pós fora do país”, “mestrado é perda de tempo, faça só cursos”, etc. Tive que analisar tudo em seu devido contexto e também separadamente.

E a ideia de tentar mestrado continuava me assombrando, me assombrou por cinco anos na verdade. Esse é o tipo de coisa das quais ouvimos um certo tipo de chamado e não conseguimos ignorar. Foi assim antes na graduação em biblioteconomia e foi assim agora, também. Como tinha recém terminado a especialização no final de 2015 pensei comigo mesma “agora quero descansar por uns 2 anos, vou só trabalhar e depois penso em mestrado”. Nesse meio tempo também abriu o mestrado profissional, mas eu queria o acadêmico, mesmo, desde sempre e não mudei muito de ideia em relação a isso. E neste ano foi só chegar o mês de setembro que lá estava eu lendo o edital e considerando tentar o mestrado acadêmico novamente. Ia fazer pra testar, pra perder o medo da prova e de escrever… Enfim, já contava com a minha reprovação desta vez.

Conversei com alguns amigos sobre o projeto e me vi tendo que fazer alguns vários reajustes e aceitar algumas coisas. Duas mudanças pra mim foram as mais drásticas: mudar a linha de pesquisa e a orientadora, que era algo que eu tinha quase que completamente idealizado na minha cabeça e tive que flexibilizar um pouco mais. Eu realmente acreditava que o meu projeto só se encaixava na linha de pesquisa de Organização da Informação e só aceitaria ser orientada pela professora que eu queria… E as coisas não funcionam bem assim, desse jeito. Na verdade flexibilização foi meio que palavra de ordem, pra quase tudo: o meu projeto também mudou bastante e basicamente estava menos “fechado” e com várias lacunas a mais, cheio de “fios soltos”, com espaço para dúvidas e re-interpretação, apesar de bem estruturado. Depois de tê-lo terminado eu lia e não conseguia achá-lo bom de verdade, apenas razoável. Percebi também que estava completamente enferrujada com a escrita acadêmica, but oh well… Lá se foram cinco anos, não? Anyway. 

Me inscrevi e lá se foi meu projeto. Esperei muito ansiosamente pelo dia da prova e estava com muito medo de que o tema fosse tão espinhoso quanto tinha sido em 2011. Só que este ano não foi tanto, o enunciado foi uma frase do Canclini, bem de humanas, nada espinhosa e que me permitiu escrever sem maiores problemas de acordo com a bibliografia que tinha sido passada. Inclusive na bibliografia um dos textos que li, felizmente, era excepcionalmente bom e completo (e muitíssimo bem escrito) e foi nele mesmo que me baseei para fazer a prova. Saí da prova sem sentir nada, também, nem que fui bem, nem que fui mal. Só sabia que tinha feito o meu melhor naquele momento. E confesso que até me emocionei um pouquinho com pelo menos uma das coisas (totalmente piegas e bem clichês) que escrevi na prova. Não acreditei quando vi que passei na prova, fiquei um pouco em choque, mas imaginei que a entrevista seria mais sossegada. E foi mesmo… Sequer me recordo de qualquer momento estranho da entrevista e tenho a impressão – talvez ilusória – que ouvi mais elogios que o contrário sobre meu projeto. Terminou, desci pra fumar um cigarro e fui embora. Fiz ainda a prova de proficiência em inglês (risos) porque o diploma que eu tenho é muito antigo e não aceitariam. Enfim…

O resultado saiu no último dia 20/12, eu fui aprovada e ainda não sei o que fazer com essa informação. A ficha ainda não caiu direito por aqui. Talvez caia no dia da matrícula ou na aula inaugural. Às vezes fico com a impressão de que “demorei demais” pra tentar o mestrado de novo, que estou fazendo ele muito velha… Ou ainda, que tive que lower my standards tanto no projeto quanto na prova, como se eu não fosse boa o suficiente, quando na verdade não se trata de nada disso. Também me assombra a questão de conciliar trabalho e vida acadêmica e de saber priorizar as coisas. E de lembrar que eu terei, novamente, de abrir mão de algumas coisas para conseguir outras. Enfim, achei que ia ser um mar de rosas simplesmente ter sido aprovada, mas a verdade é que isso só me tirou da minha zona de conforto e me fez questionar ainda mais pesadamente uma série de outras coisas que volta e meia eu me pego pensando. Acredito que essa sensação e esse sentimento vão perdurar por pelo menos uns dois anos, agora. Bom, que venham e que assim seja.

 

Traduções sobre taxonomia

Semana passada fui em um encontro no Tea Connection com três amigas bibliotecárias: a Ana, Carol e Bia. Todo mundo saiu do trabalho e foi pra lá, tomar chás gelados frescos, comer comidinhas deliciosas, conversar sobre n coisas e… Falar de trabalho. Não acho cafona falar de trabalho, eu gosto e acho meio bobo quando me recriminam (ou quando eu me auto-recrimino) por isso. Acho importante, mesmo porque fala-se muito pouco sobre o que fazemos. Ou praticamente não se fala. O trabalho fica sempre no operacional, realizamos a entrega e quando menos percebemos estamos cansadas demais para dar dois passos para trás, enxergar a big picture e pensar e discutir sobre todo o processo. Compartilhar, mesmo. É uma parte importante!

Estava conversando sobre isso com a Carol, pois fiz uma pesquisa sobre “taxonomia para e-commerce” na internet e recuperei muita coisa mesmo, interessantes e nem tanto mas absolutamente todas em inglês. Em português, não existe quase nada sobre o termo em específico e é bem difícil também encontrar qualquer coisa sobre taxonomia para projetos ou para internet. O conteúdo que encontrei só pelo termo principal ou tem a ver com biologia ou é extremamente teórico e não trata em nada sobre estudos de caso efetivos, projetos realizados, etc. Pensei que se existe tanto conteúdo em inglês, por que não começar a traduzir isso tudo, inicialmente? Mesmo porque, em relação à escrever conteúdo autoral sobre nossos próprios estudos de caso, é preciso ter certo cuidado para não entrar em questões de decisões de negócio, etc.

Mas de resto: projetos, processos e metodologias, sinceramente não vejo problema algum, pelo contrário. É até interessante que seja compartilhado. A maioria do conteúdo é gringa, nos identificamos com esses conteúdos e acredito que precisamos partir de algum ponto. Criamos então uma lista em conjunto de tradução de artigos que podem nos auxiliar nesse sentido. Alguns serão traduzidos ipsis litteris, em outros apenas nos basearemos para criarmos nossos próprios posts com conteúdo autoral. Acredito que este possa ser um bom começo. À princípio são artigos sobre taxonomia voltadas para arquitetura da informação e e-commerce, mas como as meninas são todas de AI-UX, talvez a temática do conteúdo se expanda com o tempo. O primeiro post que pretendo traduzir é o Retail taxonomy: it’s not taxidermy, and it’s important da Season Hughes.

Conselhos do meu eu de 40 para meu eu aos 30 anos

Publicado originalmente em MatadorNetwork.com.

EM JANEIRO FAÇO 40 ANOS. É hora de refletir na década passada e ver se me tornei mais sábio. Gostaria de acreditar que sim.

1. 30 anos não é “velho”
E 40 também não é. Mas é uma década a mais que 30. Se você ainda é saudável, agradeça.

2. Não se case só por medo de ficar só
Foi difícil pra você ter relacionamentos aos 20 (ou seja, você não teve muitos). Mas isso não significa que você deve se apegar à ideia de casamento, não ao menos quando existem vários sinais (ela não te acha engraçado, te ridiculariza, não gosta quando você toca violão) te dizendo que o relacionamento inteiro está errado. Já sei que você ouviu isso um milhão de vezes, mas você vai achar a pessoa certa para você. Não se case.

3. Se você não achar a pessoa certa pra você, tudo bem
Você não dispõe do luxo de saber que eventualmente terminará com alguém que combina muito com você, que ri e dança com você, que tem orgulho de você, que te apóia em tudo o que você faz, mas você deveria saber que é tudo bem ficar só. Você é completo.

4. Ame-se primeiro
Algum dia alguém vai te dizer isso: “a forma que você trata os outros é um reflexo de como trata a si mesmo” e isso vai ressoar por dentro de você. Reconheça que se você for duro consigo mesmo, será com os outros. Ame-se completamente, sem julgamentos, se quiser ter a esperança de fazer o mesmo para os outros.

5. Pare de beber
Ao menos por um tempo. Álcool sempre foi uma muleta social te fazendo sentir menos desconfortável em festas, jantares e eventos. Você sabe que pelo menos três drinks já consegue dançar. E se eu te dissesse que ficar sóbrio é muito mais potente do que qualquer coisa que você pudesse tomar? Além diso, não ter ressaca com cada memória intacta da noite passada é incrível. Ressacas não são o emblema de honra que você pensa que são, e elas não te fazem parecer legal.

6. Aprenda a render-se mais
Você gosta de controle. Mas aqui está um segredo: você tem menos disso do que imagina. Observe alguém que teve boa parte da vida mapeada apenas pra suas ideias irem para o brejo em uma noite de conversa desagradável. Você acha qeu sabe onde estará em 5 anos? Em 2 anos? Em seis meses? Pense de novo. Você não sabe.

7. Seja mais adaptável
Render-se é assustador, não? É por isso que existem tantos motoristas sentados no assento de trás. Apegar-se à noção de completo controle é completamente exaustivo. Te fará ansioso (você já está ansioso?). Construa sua resiliência. Ser adaptável às mudanças das circunstâncias te trará paz bem mais rápido do que lutar contra isso, buscando o controle. Como Bruce Lee disse “… você coloca água num copo, ela se torna o copo, coloca água em uma garrafa, ela se torna a garrafa, você coloca num bule, se torna o bule… Seja água, amigo”.

8. Seja vulnerável
Eu sei que TED Talks não eram tão populares 10 anos atrás como eram hoje e você não poderia conhecer Brene Brown naquela época. Mas ela está certa. Se você quer se conectar com as pessoas – de verdade – seja vulnerável. Para parafraseá-la, esses muros que você constrói para manter as pessoas do lado de fora? São as mesmas que te mantém trancado por dentro.

9. “Seja homem” é totalmente ridículo
Não se sinta mal. Não é sua culpa que o ambiente onde você cresceu era tóxico o suficiente para vir com ideias de masculinidade e sexualidade. Quaisquer ideia que você tenha sobre o que signifique “ser um homem”, não importa o quanto seus amigos te ridicularizem, esqueça isso. Seja um ser humano com empatia e que se importa, completamente.

10. Fique confortável com seu corpo
É o único que você tem e não é necessário ter vergonha dele. Quanto mais cedo você aceitá-lo, mais seguro se tornará.

11. Julgue menos
Não que você se livre disso aos 40, mas trabalhe bastante para isso. Saiba que existem várias formas de viver uma vida. O que você pensa ser “certo” hoje mudará e eventualmente você se encontrará em algum outro lugar completamente inesperado, vivendo uma vida completamente diferente.

12. Seja mais compreensivo com as pessoas
Se você entrar em uma conversa ou debate acalorado com os outros, ao invés de tentar convencê-los do seu ponto de vista, tente entender de que lugar eles estão vindo. Todo mundo tem suas próprias experiências ao crescer – onde foram criados, como eram suas casas, quais foram suas influências. Não há um jeito de dizer que se você tivesse nascido no lugar deles, talvez tivesse uma forma diferente de ver as coisas. Não se aprisione em sua razão.

13. Faça yoga
É muito mais que “alongamento” e não é apenas para mulheres. Com uma prática regular e intencional você ganhará força no corpo e na mente, ficará flexível (literalmente e figurativamente) e enxergar o mundo de forma aberta.

14. Apenas ouça e esteja lá para os outros
Nem toda situação precisa de “um conserto”. Nem todo o espaço precisa ser preenchido com conversa. Pare de dar conselhos. Apenas ouça.

15. Comprar coisas usadas não significa que você seja pobre
Apenas significa que você está reutilizando coisas que estão em perfeito estado. E evitar o máximo possível a produção de lixo.

16. Simplifique
Verifique as coisas que você tem. Se você tem roupas ou coisas que não usou em um ano, doe ou venda. Agilize sua vida.

Sobre o deslumbramento

Já há algum tempo eu queria fazer um post sobre deslumbramento. Não sabia se o fazia em meu blog pessoal ou por aqui. Ainda não sei bem porque, postá-lo aqui me pareceu mais adequado. O deslumbramento, como um monte de coisas na vida, dependendo para o lado que pende, pode ser bom ou ruim. Sempre fui bastante deslumbrada, talvez porque seja do interior do Brasil. São Paulo pra mim parecia uma cidade infinita e aterrorizante quando eu era mais nova e vinha visitar. É sempre um assombro ver um prédio muito alto, ver prédios muito antigos e pessoas com hábitos diferentes dos seus, mesmo que levemente.

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Arranha céus da Avenida Paulista, em São Paulo

Já há algum tempo tenho pensado sobre o brilho nos olhos (por falta de termo mais adequado) que o deslumbramento provoca. Brilho nos olhos pode ser muita coisa: ambição, ganância, vontade, inspiração, querer.. Pode ser várias coisas ao mesmo tempo, coisas realmente difíceis de nomear. Uma biblioteca grande, uma quantidade absurda de livros reunida num só lugar, de forma não só adequada, mas bela mesmo, era algo que me enchia os olhos, quando era pequena. Ainda acontece, mas não mais com a mesma afetação de quando nunca se viu nada na vida e se é tão pequena, fisicamente inclusive.

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Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro

Tenho tentado rascunhar algumas respostas para o que me causa deslumbre hoje em dia e essa é uma das coisas mais difíceis que tenho empreendido até então. Quero acreditar que isso, esse sentimento, independa de algum contexto mais externo à mim – onde moro, o que faço, coisas que gosto. É ruim pensar que o deslumbre precisa ser necessariamente condicionante. Se as condições precisam ser sempre favoráveis para que exista o deslumbramento, talvez ele seja só mais uma ficção funcional, um entretenimento – e não algo que te transforme, verdadeiramente. Algo que te faça querer não mais, não melhor: mas outra coisa. Que te põe em movimento.

 

 

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Trilha de estrelas, 10 de agosto de 2012, por Daniel Lowe.

Acredito que o deslumbramento pode nos fazer melhor enquanto pessoas uma vez que ele nos remete a um sentimento de insignificância. Da mesma forma que a meditação, através da contemplação, dissolve um pouco do que é o ego. Mas essa insignificância acaba nos remetendo na verdade ao todo, à singularidade, porque querendo ou não, estamos aqui e fazemos parte disso tudo. Então não é tanto uma questão de se deslumbrar com algo externo: com uma coisa, um lugar, uma pessoa, uma ocasião… Quando isso ocorre, na verdade, nos deslumbramos com um espelho de nós mesmos. E do que, principalmente, podemos vir a ser.

A importância de olhar pela janela

Texto original: The Importance of Staring out the Window, pelo The Book of Life

Temos a tendência a nos reprovarmos por olharmos pela janela. Você deveria estar trabalhando, ou estudando ou riscando tarefas da sua lista de “para fazer”. Pode quase ser uma definição de tempo desperdiçado. Parece não produzir nada, servir a nenhum propósito. Equacionamos isso com tédio, distração, futilidade. O ato de encostar seu queixo na mão perto de uma janela de vidro e deixar seus olhos passearem no meio da distância normalmente não é de um alto prestígio. Não saímos por aí dizendo: ‘tive um dia ótimo: o ponto alto foi ter olhado pela janela’. Mas talvez numa melhor sociedade, este seja justamente o tipo de coisas que as pessoas diriam umas às outras.

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Gustave Caillebotte, Jovem em sua janela, 1875: buscando trazer glamour e um melhor status à uma atividade que, por séculos tem sido condenada e denegrida por moralistas, professores, empregadores, parentes – e nossas próprias consciências que se culpam.

O objetivo em se olhar pela janela é, paradoxalmente, não descobrir o que está acontecendo lá fora. É, na verdade, um exercício de descoberta dos conteúdos de nossas próprias mentes. É fácil imaginar que sabemos o que pensamos, o que sentimos e o que acontece em nossas cabeças. Mas raramente o fazemos completamente. Existe uma grande quantidade do que nos faz quem somos que continua inexplorada e sem uso. Seu potencial continua inexplorado. É tímido e não emerge sob a pressão de questionamento direto. Se fizermos da forma correta, olhar pela janela pode nos oferecer um modo de escutarmos as sugestões e perspectivas mais caladas de nossos eus interiores mais profundos.

Minimum usage fee is GBP 35 Mandatory Credit: Photo by Cultura/REX (2982331a) Model Released - Male passenger looking out of aeroplane window VARIOUS

Platão sugeriu uma metáfora para a mente: nossas ideias são como pássaros voando em volta do aviário que é nosso cérebro. Mas para que esses pássaros possam repousar, Platão entendeu que precisávamos sde períodos de calma sem propósito aparente. Olhar pela janela oferece esta oportunidade. Vemos o mundo acontecendo: um ramo de plantas está se curvando com o vento, uma torre cinza agiganta-se através da garoa. Mas não precisamos responder a isso; não temos intenções abrangentes e então as partes mais experimentais de nós mesmos tem uma chance de serem ouvidas, como o som dos sinos de igrejas na cidade quando o tráfego de carros diminui à noite.

Lembrando de partes negligenciadas de si mesma.

O potencial de sonhar acordado não é reconhecido pelas sociedades obcecadas com produtividade. Mas alguns de nossos melhores insights aparecem quando paramos de tentar ter tanto propósito e ao invés disso, respeitamos o potencial criativo de sonhar. Sonhar acordado com janelas é um ato de rebeldia estratégico contra as demandas excessivas das pressões imediatas (mas em última análise insignificantes) – em favor da difusa, mas muito séria, busca pela sabedoria do eu profundo inexplorado.

WASHINGTON - MARCH 26: In this handout provide by the White House, U.S. President Barack Obama looks out the Green Room window prior to the

Ciclo de vida da informação e documentação

(Originalmente publicado em 22 de outubro de 2011)

Man has to awaken to wonder — and so perhaps do peoples.
Science is a way of sending him to sleep again.

L. W.

Quando nos tornamos fluentes em uma determinada linguagem passamos a sonhar com ela. Mas embora dominemos determinada língua, são raras as vezes que sonhamos com ela. Para nos tornarmos fluentes em uma língua, no conhecimento e apropriação de outra cultura, devemos estar imersos nesta mesma cultura e isso é um tanto quando desafiador de ser produzido artificialmente. É preciso vivenciar a linguagem e a cultura e, dependendo de cada pessoa, isso às vezes demora algum tempo. Percebo hoje que o conceito de fluência tem outros significados, bem mais profundos e que envolvem muito mais coisas, que o de domínio.

Acho que já disse por aqui que sonhava que estava fazendo buscas na CDD e buscando uma notação ideal para alguma coisa, que é claro, nunca encontrava. Isso aconteceu justamente quando eu estava tentando aprender a linguagem da CDD. Pra alguns pesadelo, pra outros, um sonho divertido mesmo. No meu caso esse sonho me mostrou várias coisas sobre mim mesma, que descobri depois. Mas a CDD é algo palpável, é uma linguagem (não um conceito) e não me foi surpreendente ter sonhado com isso. Hoje sonhei com um conceito um pouco menos tangível por assim dizer. Sonhei com o tal “ciclo de vida da informação”, o qual tanto falam nas disciplinas de gestão do curso.

“Nossa, que nerd! Essa garota é tão bitolada que além de só estudar sobre isso ainda sonha com a parada”. Ledo engano. Ontem foi um dos raros dias em que não estudei nada de nada, fui pro bar comemorar o aniversário do namorado de uma amiga, voltei pra casa e fiz absolutamente qualquer coisa (inclusive ver horas de vídeos toscos no youtube) que não tinham nada a ver com o que estudo. Ontem foi quase que um day-off. Não deveria, mas foi – eu tava merecendo. Pois bem. Alguns autores acreditam que o ócio criativo é necessário para que as ideias apareçam mais espontaneamente, então talvez seja isso. Quem ainda não ouviu falar/leu sobre o ciclo de vida da documentação (ou cadeia da informação) provavelmente vai ouvir e/ou ler em algum momento até o final do curso, que é basicamente isso aqui:

Claro que o conceito de ciclo de vida da documentação muda de autor pra autor, etc., mas o básico é isso aí. O conceito é utilizado na arquivologia também, pra designar os processos, que diferem em alguns aspectos da biblioteconomia, mas de modo geral acho que é possível usar essa imagem pra ilustrar. Adaptei essa imagem deste blog, mas fiz uma pequena mudança. Pra mim a organização vem ANTES do armazenamento porque simplesmente não faz sentido armazenar primeiro pra organizar depois (me parece como retrabalho). No caso do sonho que tive hoje, além de eu sonhar com esse ciclo, apareceram mais duas palavras no meio dessa cadeia: reconhecer e habitar.

Fiquei um tanto quanto perplexa com estas palavras quando acordei e num primeiro momento achei que elas não tinham nada a ver com nada. Elas me parecem destoantes demais pra constar em um ciclo de vida de processamento técnico. Mas lá elas estavam, perturbando meu sono: reconhecer e habitar. E elas persistiram nos meus pensamentos durante o dia, tanto que pensei “mas que diabos, talvez se encaixem mesmo.. por que não arriscar uma interpretação?”. E cá estou.

Talvez “reconhecer” se encaixe no início do ciclo, pois é bem diferente de criar, adquirir e selecionar. Reconhecer não é mecânico nem automático, requer faro, manha, experiência. Requer percepção e até mesmo, em alguns casos, sensibilidade. Reconhecer requer o tal do feeling e talvez um bom timing também. Reconhecer é uma parte tão sutil do processo todo que sequer parece parte do processo, de modo algum. Mas talvez seja. E talvez seja bom prestar atenção nisso. Reconhecer algo que seja de nossa responsabilidade. Reconhecer lacunas que precisem ser preenchidas. Reconhecer uma informação que poderá ser relevante para um grande número de pessoas. A partir do reconhecimento é que é possível criar, adquirir, selecionar, etc.

Sobre “habitar”, outra palavra ainda mais esdrúxula, tenho mais dificuldade para interpretar onde se encaixaria. Talvez no final do ciclo, onde existe uma bifurcação entre eliminar e preservar. Habitar é fazer moradia. Algumas pessoas são capazes de morar a vida inteira no mesmo lugar e de lá jamais sair. Já outras, compreendem melhor o que é a efemeridade e se deslocam, vez e outra ou não tem um lugar fixo. Talvez habitar tenha a ver também com a própria fluência à qual me referi. Sobre estar envolvido, estar imerso, sobre vivenciar. Isso extrapola, em muito, o processamento de material no ciclo de vida: isso tem a ver com a nossa própria vida em si. Talvez esse ciclo não tenha um fim propriamente dito, mas se retroalimente, constantemente. Seja contínuo nas suas transformações, na evolução da preservação. Habitar talvez seja isso: poder se sentir em casa… E também ter sempre pra onde voltar.

Por que escolhi biblioteconomia?

Estes dias, depois de ter me deparado com este post pelo Greader, pensei nos motivos de eu ter escolhido biblioteconomia. Foi uma escolha difícil e lenta mesmo por que foi pensada por tempo demais (abençoados são os que fazem escolhas sem precisar pensar demais!). Já disse isso aqui e repito: fiz biblioteconomia por teimosia, mesmo. E sempre quis desenvolver um texto sobre isso então acho que agora é a oportunidade.

Lembro-me que, nos anos anteriores da minha opção pela biblioteconomia, fui constantemente desestimulada por vários colegas da área. Me diziam (e ainda dizem) o que já venho ouvindo há praticamente uns 8 anos: que o curso era ruim, ultrapassado, que a área ia deixar de existir em 5 anos, que a ‘raça’ dos bibliotecários era chata, que não havia futuro, que ganhava-se pouco, que não havia reconhecimento e várias outras coisas desmotivadoras – tudo isso independente onde eu pensasse em fazer o curso, seja na melhor ou pior universidade. O discurso ainda não mudou muito, acredito. Quando fui prestar vestibular novamente em 2007 não tive coragem de marcar “Letras/Inglês” ou “Filosofia” por que sentiria que estaria me traindo profundamente se fizesse isso. Acho que esse é o “chamado que não conseguimos ignorar” do qual Ortega Y Gasset fala no livro Missão do Bibliotecário, o que também pode ser chamado de ‘vocação’. O curso é precário e tem mil defeitos? Ok. Challenge Accepted.

Eu já tinha cursado jornalismo e então muita gente também me dizia “mas por que você não vai direto pro mestrado?” e hoje eu percebo que isso teria sido a maior estupidez de toda a minha vida (e isso é bastante coisa, acreditem: sou uma screwup por natureza). Terminei o curso de jornalismo completamente verde e despreparada, sem muita noção de nada na verdade..  E desde antes da época do jornalismo eu já pensava em fazer biblioteconomia. Por que? Bem, me parecia uma profissão pacata, onde eu não precisava entrar em contato com muita gente e ficaria enfurnada em algum lugar com um computador catalogando livros eternamente, rs. Ah, doce engano… Lembrando disso hoje percebo o quanto mudei nesse sentido. Claro que tem gente que curte isso ainda, mas não é mais o meu caso.

Que o intelectualismo não está mais atrelado a profissão de bibliotecário não é de hoje, apesar de muita gente dizer que entra no curso por que “gosta muito de ler” (o que acho fofo!). Muita gente enxerga o curso e o ofício da biblioteconomia, apenas como uma oportunidade de carreira mesmo e trata o que vai exercer como profissão com uma impessoalidade impressionante. Bem.. As pessoas são diferentes, mesmo. Lembro que no início do curso me foi passado um artigo do prof. Francisco (1998), com uma pesquisa que eu acho que precisaria ser refeita e reavaliada em todos os cursos de biblioteconomia. Nesta pesquisa, o professor fez um perfil do ingressante e do formando onde podemos perceber que as motivações para se concluir ou se desistir do curso são as mais variadas possíveis. Isso de one size fits all é ilusão.

A expressão ‘desempenhar função’ me inquieta um pouco, mas isso é pessoal mesmo, admito. Entendo que hoje ninguém é insubstituível, não importando se é ou não um excelente profissional. Mas acho que é uma questão muito pessoal mesmo sentir-se apenas uma pecinha sem importância no meio de uma grande engrenagem, ao invés de sentir-se realmente parte de uma comunidade ou de algo. Acho que talvez esse seja o tal do dilema do “copo meio cheio ou meio vazio”.

Acho que até concordo com a frase “não é necessário gostar do que se faz pra desempenhar uma função”, pois de fato, não é necessário mesmo, absolutamente. São várias as pessoas no mundo – tantas que nem conseguimos imaginar – que vão todos os dias pra um emprego que detestam pra apenas sobreviver por mais um dia, pois aprendemos (nos resignamos?) que é assim que devemos sobreviver a uma vida desprovida de significado (eu disse significado – sendo que somos nós que fornecemos isso a ela – e não sentido, o que é bem diferente).

Desempenhar uma função – independente de qual ela for – pode ser bom, assim como também tem gente que acha que “salvar o mundo” e/ou “lutar e conquistar algo” pode ser bom. Entre o cinismo total e irrestrito e o idealismo meio lunático, prefiro os idealistas por que pelo menos eles me parecem mais abertos à conversação, apesar de serem meio malucos. Para mim, “desempenhar uma função” não é o suficiente por que considero que há baixa interação de modo geral e que também fica mais difícil  (não impossível, só mais difícil) provocar alguma mudança quando as pessoas estão muito ensimesmadas, muito especializadas. Mas enfim, esta sou eu.

Não acho que eu seja ‘a pessoa que mais contribua’ ou que eu seja ‘uma peça importante desempenhando minha função’ nem nada e nem sou melhor do que ninguém: apenas gosto, muito, do que faço e algumas pessoas tendem a considerar isso como um diferencial.  Outras me dizem que isso é ‘sorte’. Pra mim, é só natural mesmo.

Acho que as mesmas críticas que eu ouço há 8 anos são necessárias, simplesmente por que são todas verdade (depois de ter entrado no curso, apenas constatei isso). Dizer que o curso é ruim, que os professores parecem acomodados ou desmotivados, apontar as dificuldades (que sabemos que ‘não irão mudar’), é necessário. Entendemos que existem picaretagens aos montes, mas isso não se limita ao nosso curso, mas a todo um “sistema formal de ensino-aprendizagem” que praticamente nos condena a isso. O buraco é bem mais embaixo do que imaginanos e o bicho é bem mais feio do que pintam. São vários os ‘vetores invisíveis’ que nos pressionam a agir não da forma que queremos, mas da forma que nos fazem acreditar que “precisamos” ou que nos fazem conformar.

O que conta quando você vai prestar vestibular, não é o que você quer ou gosta de fazer, nem sua vocação, mas o quanto você consegue pontuar e memorizar, ou como alguns preferem chamar, sua “inteligência”.  Sinceramente, não acredito no discurso de “suei muito pra estar aqui” por que ele me parece um engodo: algo que gostamos muito de acreditar, mas que nem é verdade. Acho que isso, na realidade, me soa mais como um “já me esforcei o suficiente  antes pra poder ser medíocre o quanto eu quiser agora e pro resto da minha vida”. A nossa vida se resume a uma eterna “luta” por espaço e depois disso, uma eterna acomodação. Seria isso mesmo desejável? Por que? Acho que é algo a se pensar.

Realmente, não tive nenhum professor “instigante” no curso de biblioteconomia. Tive professores muito bons e outros não tão bons assim, tive disciplinas que poderiam ter sido abordadas de forma melhor e mais aprofundada, mas que não me desanimaram. Nem esperava por isso na verdade.. Entrei no curso com uma baixa expectativa. Na verdade, entrei no curso pensando que não aguentaria chegar até o fim. Mas depois acabei ficando muito preocupada comigo mesma tentando descobrir o que eu gostava de verdade pra, a partir disso, entender meu caminho ali dentro e  hoje, mesmo estando na “reta final” confesso que ainda está bastante difícil.

Acho engraçado como alunos de biblio tendem a achar outros cursos muuuito melhores, como sei lá, Jornalismo, ou qualquer coisa de Letras (a grama do vizinho é sempre mais verde, etc). Talvez por que nessas aulas os alunos sejam mais expostos a dados (atualidades, filosofia, história, literatura, humanidades etc. e tal) do que a metadados, que é a parte que todos consideram a mais escrota da biblioteconomia e que curiosamente para mim, é a parte mais fantástica de todas – afinal, alguém tem que achar isso legal né? O que eu acho mais interessante quando observo hoje meus colegas de classe é perceber o quanto eles estão transformados, e como e o quanto aprenderam a gostar do curso, mesmo com todas as dificuldades. Acredito mesmo que serão todos bons profissionais, independente do tipo de carreira que resolverem seguir.

Entendo que é difícil mesmo fazer a pergunta do post quando estamos a ponto de nos inscrever num vestibular, mesmo por que quando somos obrigados a ir pro ensino superior ainda estamos bem perdidos na nossa vida pra tomar uma decisão dessa magnitude. Mas é sempre interessante lembrar que ninguém se forma sozinho e que, também, a universidade não forma ninguém: quem se forma é a própria pessoa. Pessoalmente acho que hoje, mais do que nunca, o “ensino superior” deve servir como apoio teórico e não como base de / para nada. Mas essa mentalidade é compreensível uma vez que saímos de um ensino médio ultra-acomodados, e agora imaginamos que boa parte do sucesso da nossa formação é uma obrigação alheia e não algo que deveria ser uma busca por satisfação pessoal… O que eu acho… Estranho.

Não entrei na biblioteconomia pra ser entretida, nem “seduzida” (credo!) e muito menos “educada”. Universidade, pra mim, não é um centro de adestramento. Ouço a reclamação de que “a universidade não nos prepara mais pro mercado”,  então quer dizer que viramos todos produtos agora, é isso? Uma caixa de tomatinhos todos iguais? Acho curioso. Confesso sim que entrei no curso para entender como funcionam as técnicas. Mas o resto assumo como sendo de minha conta e responsabilidade: buscarei de várias outras formas e ninguém pode me ajudar com isso (e, paradoxalmente, muita gente pode me ajudar com isso: inclusive de outros cursos). Entendo que a vida – de modo geral – não é nada estimulante. Mesmo. Que dirá de um curso como esse, de ciências sociais aplicadas, das humanidades, onde pra encontrar o que é “humano” precisamos olhar mais de uma vez, com muito cuidado e atenção.