Isto não é uma biblioteca

(Publicado originalmente em 14 de outubro de 2011)

Sabemos que quanto mais tentamos conceitualizar algum objeto de estudo, menos este objeto se torna definido e mais seu significado se torna plural e múltiplo. Ou ao menos a sua definição é quase que para sempre relativa ao tempo em que existiu/existe, à sua aplicação em determinado contexto, ao tipo de cultura de sua área ou domínio de atuação, entre outras variáveis que podem vir a existir.

Hoje de tarde deparei-me com dois textos que apareceram na timeline do G+: um da Carta Capital [As bibliotecas sem leitores] compartilhado pelo colega Marcos Ouchi da Ufscar e outro do Phil Bradley [A library is not..], compartilhado pelo perfil da biblioteca da Escuela Técnica Superior de Ingenieros de Telecomunicación, da Universidad Politécnica de Madrid. Os textos tratam sobre bibliotecas de modos dramaticamente diferentes o que é evidente tendo em vista seus autores: a) um jornalista brasileiro que só entende um pouco sobre bibliotecas através de números de estatísticas, acadêmicos e outras pessoas envolvidas com educação e b) um bibliotecário militante norte-americano. De qualquer modo vou tentar escrever algo sobre os dois textos que li e o que achei sobre suas particularidades.

Achei curioso o texto “Bibliotecas sem leitores” aparecer categorizado na seção “Política” e posso até dizer que isso me surpreendeu um pouco. Já o texto, nem tanto.. Nada diferente da mesma lamentação que ruminam há alguns anos: “a maioria das bibliotecas públicas vive às moscas” e o já então clichê “brasileiro não gosta de lerdevidamente justificado por números de pesquisas estatísticas, etc. Criar um dia da leitura como modo de estimular a leitura? Talvez estimule a venda de livros, mas a leitura, sinceramente, não vejo como. E reclamações mais pontuais e específicas como a pouca quantidade de bibliotecas e o parco horário de funcionamento das mesmas. A biblioteca-vítima da reportagem foi a biblioteca pública Roberto Santos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

No texto do Bradley ele comenta sobre características dos bibliotecários que infelizmente chegam a ser mais lamentáveis que os  estereótipos:

Por várias razões – bibliotecários não são bem conhecidos por venderem seu próprio peixe e por bradarem aos quatro cantos sobre o que fazem e talvez isso ocorra por buscarmos sempre consenso e acordo ao invés de discórdia e desacordos.

Acho uma graça, mesmo, as bibliotecárias recepcionarem as velhinhas que ainda frequentam a biblioteca por carência emocional, afetiva, etc. Mas também acho igualmente importante, principalmente em se tratando de biblioteca pública, que a biblioteca (e consequentemente os bibliotecários) não espere passivamente pela visitação e apreciação por parte do público, mas sim que busque conhecer de fato as necessidades da comunidade onde está inserida. De que adianta uma biblioteca temática de cinema em um bairro onde talvez existam outras necessidades? Claro que quem teve a idéia de biblioteca temática teve a melhor das intenções, mas sempre bom perguntar: é útil a quem e em que contexto?

Já disse que bibliotecários não podem e não devem ser definidos por coisas como o que trabalham […] mas sim pelo que conseguem alcançar. Deveríamos ser definidos pelo efeito que temos em nossa sociedade e em nossas comunidades. […] Nosso papel não se encontra em estantes, em nossos computadores, em nossos prédios ou até mesmo em nossa história, mas no que FAZEMOS. E isso não é ‘etiquetar livros’. Isso é nos definir, mais uma vez, em termos de artefatos que nós podemos ou não usar (usamos cada vez menos).

Com esse parágrafo o Bradley conseguiu me explicar brevemente que o discurso “biblioteca/bibliotecário é importante” pode ser um tanto quanto vazio. Muitas vezes me parece que as bibliotecas e os bibliotecários são importantes apenas em sua própria área e em seu próprio domínio de conhecimento. No texto da Carta Capital, de acordo com o censo da FGV, “65% dos visitantes enxergam a estrutura como uma fonte de pesquisas escolares, 26% a utilizam para pesquisas em geral e somente 8% para o lazer”. Por que a biblioteca não pode ser vista como um espaço não só de pesquisa, leitura e fruição, mas também como espaço propício para discussão e melhoria de algum bairro, alguma comunidade ou até da vida mesmo de algumas pessoas?

O que define hoje uma biblioteca? A excelente organização do catálogo, da coleção ou do acervo? Os bibliotecários que nela trabalham? O meio onde está inserida? As pessoas que a frequentam? O conjunto todo? Onde exatamente está a biblioteca?

É claro que cada tipo de biblioteca tem uma missão diferente. Tudo parece sempre muito lindo quando se fala das bibliotecas estrangeiras, no caso, da de New York e de como “as instituições estão sempre se adaptando ao cenário a seu redor para fortalecer os laços com a comunidade” e como aqui no Brasil esse tipo de coisa não acontece, etc. Essa baixa-auto estima brasileira sempre me irritou, mas tem irritado um pouco mais há algum tempo. Entendo que a questão não é meramente estabelecer laços, mas talvez um pouco mais consistente que isso: dar suporte e suprir necessidades locais de informação que uma determinada comunidade possa vir a ter, seja qual for essa demanda.

Bibliotecários estão aqui para ajudar suas comunidades, e um ataque à uma biblioteca é um ataque a uma comunidade. Pode não parecer, e claramente para vários políticos não parece, mas é exatamente o que é. Porque é dizer que o benefício que as pessoas conseguem através de suas bibliotecas/bibliotecários em questões tais como aprender a ler, conseguir emprego, achar serviços sociais que os protejam de algum modo, em dar a oportunidade às pessoas de aprender ou simplesmente curtir um bom livro – nada disso importa. E quando eles dizem que nada disso importa o que eles estão dizendo na verdade é ‘esta comunidade não importa’ e ‘esta pessoa não é importante’. – Bradley.

É fato que bibliotecários brasileiros nunca serão tão militantes quanto parecem ser os americanos e se existem talvez sejam raros e eu não os conheço. Isso é tanto uma bênção quanto uma maldição. A “militância” só parece existir por assim dizer, para garantir vagas em concursos públicos entre outros espaços – o que não deixa de ser um tipo de legítimo de luta. Fora isso me parece que a passividade e a complacência permanecem e os bibliotecários continuam com o estigma de serem apolíticos e meio que descomprometidos, o que particularmente acho bem pior do que o estereótipo de mulher idosa de cóque pedindo silêncio.

Os problemas começam quando a biblioteca/os bibliotecários não são vistos como parte da espinha dorsal de uma comunidade. Uma vez que isso acontece, se torna lógico pensar em cortá-la. As decisões de conselhos e prefeitos com cérebros pequenos são uma confusão total, quando vistos da forma que enxergamos as bibliotecas. Eles as vêem como uma fonte que não é parte de uma comunidade. – Bradley.

Também é muito fácil dizer que o cenário internacional, idealizado, perfeito, onde as coisas dão certo sempre é mesmo muito “distante da realidade brasileira”. Não acho que seja bem assim. No primeiro semestre vi muitas notícias sobre fechamento de bibliotecas nos EUA e na Inglaterra. E então? Não tá fácil pra ninguém, não é só por aqui.

E por que esta não me parece exatamente uma realidade tão distante quando percebo iniciativas – geralmente (infelizmente talvez) isoladas, mas consistentes – como a de criação de bibliotecas comunitárias  tais como a Bicicloteca e a Barracoteca (só pra citar as mais recentes que vi este ano)? Não acho que quem crie uma bicicloteca ou uma barracoteca tenha muitos recursos, bem como também não acho que quem tenha essa iniciativa queira meramente colecionar (classificar, catalogar, indexar, etc) livros. Quem tem essas iniciativas não são nem mesmo bibliotecários e eles querem mais do que tudo isso: querem criar comunidades, criar significado. Mas também é claro que isso não é preocupação e muito menos prioridade de nenhum governo – no mundo inteiro.

Contexto e postura: um olhar sobre a profissão

(Texto originalmente publicado em 10 de fevereiro de 2011)

A seguir, dois textos de pessoas um pouquinho mais esclarecidas do que eu, sobre o profissional bibliotecário e seus contextos. O primeiro texto é do prof. Francisco das Chagas de Souza e o segundo texto é da colega Claudiane Weber, que que é bibliotecária na BU/UFSC. Foi a Claudiane que me enviou os textos por e-mail e achei tão interessante que decidi também compartilhar por aqui. Todos os grifos são meus.

Colegas bibliotecários (as) e estudantes de Biblioteconomia,

Uma das coisas mais estimulantes que encontro é ver/ler/ouvir a discussão sobre a profissão de bibliotecário. Isso porque todo o meu tempo de reflexão, desde quando cursava a graduação, que foi de 1976 a 1978, o mestrado que conclui em 1982 e o doutorado que conclui em 1994, pautou-se em tentar entender como se discute uma profissão, um espaço profissional, sem discutir e tentar compreender antes a sociedade que nos abriga: suas filosofias, as relações que as pessoas vivem, as subjetividades que as pessoas têm, os valores que carregam….

Assim, sempre tentei combater a delimitação da educação biblioteconômica ao conteúdo técnico; mas mesmo tentando combater esse enfoque vejo algo que força o ensino por esse caminho e, nos últimos anos com um peso acentuado. Trata-se: 1. de um amplo mercado “escravagista” de estágios remunerados; estaginhos que servem para as empresas e orgãos governamentais reduzirem custos de pessoal evitando os encargos trabalhistas da contratação de auxiliares de serviços. E fico triste ao verificar, Brasil afora, a avidez com que os estudantes de Biblioteconomia correm em busca desses “estágios”. Traduzindo: o estudante de Biblioteconomia, em sua maioria depende economicamente desses estágios e nesses estágios ele quer mostrar que sabe algo que sirva, ou seja, alguma técnica, pois parece que para a maioria saber filosofia, sociologia, psicologia social, politica, história, literatura … não é saber; muitos até dizem, por ai, que isso é perfumaria, ou seja, não é necessário;

2. De que não há tempo para “estudar”. A grande maioria dos estudantes de Biblioteconomia, por conta de tais “estágios”, vêm à universidade que no caso da UFSC, deixa de se catacterizar como universidade para o Curso de Biblioteconomia pois por esse ser oferecido à noite a UFSC é pouco mais que blocos de salas de aulas. Ora, vir às salas de aula, ouvir aulas, cumprir tarefas em grupos nessas salas é estudar? É refletir sobre a realidade e intuir soluções? Como? Numa circunstância como essa faltam os estudos sobre o contexto. É por isso, até pela semelhança como o tópico 1, que há uma enorme cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transformar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.

Diante de tudo isso, é que pessoas de outras áreas, onde se estuda mais o contexto, onde se constroi melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais, sempre estarão mais bem preparadas para a direção de bibliotecas, pois o bibliotecário na maior parte de sua formação e atuação pensa que a sociedade deveria valorizar o seu saber operacional. E esse é o grande erro! Quando um médico, engenheiro, economista conversa politicamente não tenta fazer valer o seu discurso de médico, de engenheiro, de economista… Lideres, diretores e dirigentes de empresas, associações, sindicatos e órgãos de governo – executivo e legislativo – são políticos, compreendem e formulam o discurso político. É claro que alguns bibliotecários há que fazem esse discurso, mas são pouquíssimos.

Enquanto os estudantes de Biblioteconomia se preocuparem majoritariamente com operacional: catalogação, classificação, etc. … o choro será esse e para esse choro a sociedade prestará pouca atenção. Nos meus 27 anos de ensino de Biblioteconomia vi poucos egressos da Biblioteconomia da UFSC que carregam as convicções necessárias para construir o discurso contextual, que têm uma noção da construção do discurso político. Uns serão bons técnicos e recebem valorização como tal e os demais, são os demais: nem bons técnicos, nem políticos. Se a universidade puder mudar os valores e as limitações individuais que mudemos, pois em principio foram os bibliotecários que buscaram a universidade como espaço para desenvolver o ensino e formação de bibliotecários. Os bibliotecários do século XIX, no caso sob a liderança de Melvil Dewey nos EEUU, “cavaram” um espaço na universidade para nela instalar o Curso de Biblioteconomia e isso se reproduziu desde então.

Quer dizer, o ensino de Biblioteconomia existe como ensino superior porque bibliotecários com a compreensão de um contexto social e econômico justificaram para os dirigentes universitários que ela teria o dever social de abrigar Curso de Biblioteconomia. Demonstar esse dever da universidade, tecer os argumentos adequados é discurso para além do técnico; é discurso político. Se os bibliotecários que se “formaram” no Brasileiro perderam isso, pois isso deu-se aqui também, com Laura Russo, Marta Carvalho, Etelvina Lima, Alvaceli Braga …. foi mais por conta da correria dos “estágios remunerados”. Mas é possível mudar no Brasil inteiro esse quadro. Levará tempo quanto mais tarde começar a ser feito. Dependerá muito do comprometimento dos estudantes em quererem, buscarem e fazerem com que seu futuro não seja construído centralmente sobre o discurso operacional.

Att.

Francisco C. Souza
UFSC – Ciência da Informação

“Biblioteca”, 1955, por Maria Helena Vieira da Silva

O Ser Humano é posto pela vida para realizar plenamente o potencial de natureza que lhe é intrínseco. Uma das coisas mais importantes na vida, é ter um projeto onde investir o próprio potencial e a própria vontade. Uma amizade, um amor, a família, são sempre garantidos e regados pela eficiência da ação; uma coisa alimenta a outra.

Somente a construção da pessoa, do indivíduo, para a ação, pode transformar a associação, o conselho regional, o sindicato, ou mesmo levar ao local “onde se constrói melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais”.

Inicialmente, é necessário ter amor pelo trabalho, ao que o local de trabalho oferece, e isso não é servilismo, é um modo de ganhar a si mesmo, a própria carreira, o próprio avanço. Esta é a escola objetiva da vida. A vida é um projeto que Você mesmo constrói.

Infelizmente, apenas uma minoria entre os jovens está interessada no conteúdo intrínseco do trabalho, esta minoria é representada por aqueles que olham o trabalho não simplesmente como um meio para viver e para mudar o próprio bem-estar material, mas como um âmbito de expressão da própria personalidade.

Sobre a “cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transfromar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.”

Devemos ter a BIBLIOTECA como Centro de FORMAÇÃO, como a raiz da palavra emprega, Formar para a Ação. Isso significa para o estudante de Biblioteconomia, aprender a operação do real que as pessoas/bibliotecários de sucesso fazem. É, obter o compartilhamento de conhecimentos tácitos, àqueles que não conseguimos transformar em manuais, em apostilas ou mesmo “xerocar”.

Formar para a ação um indivíduo, passa também pelos cursos de Biblioteconomia, bem como das Bibliotecas Universitárias. É aliar a teoria à pratica e vice-versa. Porém, nada disso acontece se o mesmo não tomar para si a responsabilidade de querer. Não é com assistencialismo que se resolve, e, sim com uma pedagogia que cultive a competência pessoal, que estimule o brio de sentir-se responsável por si mesmo.

Sentir-se responsável por si mesmo, implica um exercício cotidiano de escolha e de atuação num estilo de vida: não é apenas viver biologicamente, permanecendo e repetindo o ciclo biológico, mas é exercitar o ofício de viver, rumo a um ganho mental, de personalidade, e de conhecimento.

E a formalização do conhecimento, não está alicerçada no técnico, mas está baseada principalmente na capitalização do savoir-faire. Isto é, no saber fazer. Ir em busca do conhecimento, de saber e saber fazer, para aprender de fato e realizar o que precisa ser realizado. E a biblioteca universitária pode contribuir na integração do conhecimento, a habilidade e a atitude no saber, saber fazer e o fazer.

Alguns colegas citavam o Líder. Este é o elo fundamental. “O Líder é o centro operativo de diversas relações e funções, é aquele que sabe individuar a proporção de como se movem as relações da vida e sabe aplicar, a cada situação, a fórmula justa para resolver e realizar econômica, política e socialmente.” (Dicionário de Ontopsicologia).

Para liderar, conhecer a história clássica humana, a filosofia, a psicologia, são cardinais, para compreender os acontecimentos da sociedade contemporânea. Para Meneghetti (2008)*, é imprescindível uma profunda formação cultural, que implica saber a cultura do seu país e do seu ambiente. Também uma cultura específica, ou seja, se sou bibliotecário, devo ter cultura teórica e prática. Prática significa que devo conhecer de modo manual, concreto, o objeto do meu trabalho. E por último, experiência nas relações diplomáticas. Devo ser um artista no saber orquestrar as relações com os diversos agentes do meu contexto. Que se constrói por meio das relações com as pessoas.

Mas afinal, Líder, se nasce ou se torna? Um pouco de se nasce e muito se torna (Meneghetti, 2008). E, para mim, para tornar-se Líder, é necessário responsabilidade. É encontrar o meu core business, descobrir qual é a minha vantagem competitiva. Colocar o foco principal onde se pode ser mais forte, usando o meu conhecimento para desenvolver o próprio protagonismo. E, se terá como resultado, saúde, autonomia econômica, sabedoria e boas relações sociais. Por isso, e concluindo, liderar é ser um leitor transparente da própria psicologia, é saber construir a harmonia de relações entre todos, para que exista um nível máximo de produção de valores e de coisas.

Claudiane Weber
Bibliotecária – UFSC

*Meneghetti, Antonio. A Psicologia do Líder. Recanto Maestro: Ontopsicologica Editrice, 2008.

Tipos de Bibliotecários – O que faz um bibliotecário?

(Texto publicado originalmente em 8 de janeiro de 2011 no blog Doraexlibris)

The offered me the office, offered me the shop
They said I’d better take anything they’d got
(…)
Career opportunities are the ones that never knock
Every job they offer you is to keep you out the dock
(The Clash – Carreer Opportunities)

Uma das perguntas que mais redirecionam aqui pro blog é: o que faz quem trabalha em biblioteca? Ou ainda: quem trabalha em biblioteca? Certo dia resolvi me questionar “o que um bibliotecário faz, exatamente, numa biblioteca?” e me pareceu ser tanta coisa ao mesmo tempo que pensava ser sempre necessário uma bela de uma equipe pra dar conta de tudo (e muitas vezes é mesmo). Mas acho que isso depende diretamente do tamanho da biblioteca em questão. É fato que só um bibliotecário pode dar conta de uma biblioteca pequena ou mais especializada, com a diferença é que é mais trabalhoso fazer tudo sozinho. Mas em bibliotecas de médio ou grande porte, tipo empresariais ou universitárias, acho que um bibliotecário apenas – ou dois – deve complicar o meio de campo. Para isso também ainda existem os técnicos em biblioteconomia: enquanto os bibliotecários cuidam de questões gerenciais e de estratégia, os técnicos podem realizar a manutenção e cuidar das questões práticas da biblioteca.

Imagino que as pessoas escolham o curso de biblioteconomia por vários motivos, sendo o principal deles prestar concurso, claro. Digo isso pois quando os professores perguntavam para gente na primeira fase o que pretendíamos com o curso, essa foi a resposta que mais ouvi e noto agora na sétima fase que ainda existem colegas preparando-se para concursos. Outras o escolhem pelos mais variados motivos, sendo as respostas mais comuns: porque já trabalham (ou trabalharam) em bibliotecas e querem se especializar pra entrar no mercado de trabalho de vez, porque não sabem bem o que vão fazer da vida, porque gostam de ler e também porque são tímidas e tentam o curso achando que vão trabalhar apenas com livros, sem precisarem interagir com muitas pessoas. Devem existir outros motivos, mas eles são menos comuns e eu não os conheço. Mas depois de algum tempo de curso as pessoas descobrem coisas, fazem alguns estágios, têm experiências diferentes e acabam se encontrando (ou não). Isso de se encontrar é uma questão um pouco mais difícil e complicada, pois é uma questão extremamente pessoal.

No blog Bilingual Librarian da Stephanie Rocio, ela menciona brevemente no post “Então você quer ser bibliotecário?” que existem tipos diferentes de bibliotecários (catalogadores, de referência, circulação,  para adolescentes e bibliotecários escolares).  Acho que aprendi sobre os diferentes tipos de bibliotecas (públicas, escolares, acadêmicas, especializadas), mas não sei se isso foi o suficiente, pois queria saber mais especificamente sobre os profissionais mesmo por exemplo: que tipos e quantos profissionais bibliotecários trabalhariam dentro de uma biblioteca universitária por exemplo?

No site do DirectoryM encontrei um breve post falando sobre os tipos de bibliotecários, mas ele também foi muito voltado mais para os tipos de bibliotecas do que para os profissionais em si, então às vezes me parece que há uma certa confusão nesse sentido. De qualquer modo, vou tentar listar aqui alguns tipos de bibliotecários que eu imagino que existam, seja pelo tipo de biblioteca em que trabalham ou pela sua atividade específica dentro da biblioteca. Espero não esquecer de nenhum tipo, mas caso esqueça, os comentários podem me ajudar a atualizar o post e melhorá-lo.

Tenho uma idéia para outros posts que é a de entrevistar alguns dos meus colegas que fazem estágio já há algum tempo – e também pessoas que conheço que trabalham na área – e perguntar como é feita a divisão do trabalho nas bibliotecas em que atuam, quais são as práticas, etc. A listagem que fiz aqui não é um texto original, mas sim uma mistura de textos que encontrei na Wikipédia e em outros sites, junto com opiniões minhas. Ao longo da graduação (ou às vezes até mesmo antes dela, se você tiver sorte, acho) imagino que a gente acabe se identificando com algum dos tipos de bibliotecários que listei. Às vezes não nos identificamos com nenhum deles, às vezes com vários, mas aí a história é outra.

A Evolução dos Bibliotecários

Segue a lista:

Bibliotecários Acadêmicos ou Universitários – Seriam – deveriam ser – a continuação dos bibliotecários escolares, nas bibliotecas universitárias. Bibliotecários acadêmicos geralmente coordenam  uma série de atividades referentes ao ambiente universitário (eventos, palestras, oficinas, cursos) e organizam as informações, desenvolvendo coleções de acordo com o curriculum universitário. Geralmente as bibliotecas universitárias são as maiores, desenvolvendo-se até mesmo em biblioteca setoriais, formando um sistema de bibliotecas, pra melhor abarcar o acervo de acordo com os departamentos e/ou centros de ensino. Além dos serviços correntes que existem em bibliotecas – acervo especializado de livros raros e históricos, teses e dissertações, serviço de referência, etc. – algumas bibliotecas deveriam preocupar-se com a questão de liberdade intelectual, apesar de me parecer que isto – infelizmente – ainda não é uma questão para as bibliotecas universitárias no Brasil, acontecendo mais nos Estados Unidos.

Bibliotecários de Ação Cultural – A ação cultural é mais frequente em bibliotecas públicas e também em centros culturais. O bibliotecário que atua com Ação Cultural, é consciente de sua dimensão educativa e política e visa transformar e operar mudanças na realidade da comunidade onde está inserido. Além da comunidade, seu relacionamento também pode se estender a movimentos sociais, engajando-se em projetos amplos com o objetivo de integrar a comunidade como um todo. Enquanto o bibliotecário de Instrução ensina e auxilia os usuários, o bibliotecário de Ação Cultural faz a mediação entre a comunidade e o projeto a ser desenvolvido, tratando usuários não como receptores apenas, mas como sujeitos da criação cultural. É interessante o papel de desalienação da cultura de massa e busca de uma identidade cultural própria, que pode surgir de uma idéia do bibliotecário de Ação Cultural. Em seu papel de líder, o agente deve recorrer às possíveis fontes de recursos a fim de viabilizar a implementação dos projetos, seja através de órgãos governamentais ou entidades privadas, valendo-se das leis de incentivo à cultura. Tirei estas informações do texto Ação Cultural: possibilidades de atuação do bibliotecário.

Bibliotecários no BiblioCamp 2015.

Bibliotecários de Desenvolvimento de Coleções – Acho que estes são os mais ‘administradores’ e/ou gestores dos bibliotecários e acredito que este tipo de planejamento geralmente é feito pelo bibliotecário-chefe, que também tem outras atribuições e responsabilidades. Meio raro ter uma equipe ou uma pessoa que lide exclusivamente com isso, mas talvez exista e eu desconheça. Tem gente que acha que o desenvolvimento de coleções compete apenas ao bibliotecário, outros que acham que compete à comunidade, aos usuários da biblioteca em questão e né, claro, eu sempre acho que tem uma terceira via e que tudo deve ser equilibrado. A seleção de livros, periódicos, fontes eletrônicas e outros materiais precisa de um monitoramento. Posições que lidam com orçamento são complicadas e todos os planos para aprovação tem que ser muito bem justificados para que alguma decisão que envolva certos recursos seja acatada.

Bibliotecários Escolares – Desde o início do curso nos dizem que precisamos trabalhar na biblioteca que mais tem a ver com o nosso perfil de personalidade. Para se trabalhar em uma biblioteca escolar, não tem muito jeito: pré-requisito básico é gostar de crianças e pré-adolescentes. Geralmente bibliotecários escolares trabalham em conjunto com professores – e às vezes também de forma muito parecida, como professores – estimulando a leitura e ajudando as crianças com o uso de ferramentas da internet. As atividades de um bibliotecário escolar são coordenadas de acordo com o currículo, embora não devam ater-se apenas a ele. Uma biblioteca escolar tem acervo especial com material diferenciado  – gibis, revistas para crianças, etc – e programas voltados para crianças, focando também a interação com os pais.

Bibliotecários Especiais Bibliotecários especiais são diferentes de bibliotecários especializados por suas preocupações serem ainda mais específicas. Bibliotecários especiais estendem seus serviços e benefícios a outras parcelas da comunidade, provendo serviços informacionais e culturais para grupos de minorias, tais como pessoas com deficiências (auditiva, visual, mental, etc), estrangeiros, alguns grupos de movimentos sociais, comunidades desamparadas ou de baixa renda, prisioneiros e transgressores, sem teto e comunidades rurais.

Bibliotecários Especializados – Trabalham em bibliotecas de medicina, odontologia, direito, artes, em grandes acervos de fotografias ou em bibliotecas de empresas particulares. Tive uma experiência de 4 meses em uma biblioteca de uma empresa de engenharia e percebi que é um trabalho que demanda um alto nível de comprometimento com a empresa ou área com a qual você está lidando, sendo necessário um alto senso de cultura organizacional, enxergando a área específica na qual você está trabalhando de um modo mais sistêmico, holístico mesmo. Ou seja, o trabalho de gerenciamento da biblioteca é importante? Sim, é, mas o bibliotecário especialista não deve focar-se apenas nele se quiser ser bom. Basicamente, qualquer área do conhecimento pode ter seu próprio bibliotecário, basta a pessoa ter interesse pela área em questão e ser motivada.

Bibliotecários de Instrução Auxiliam com o letramento informacional de usuários em aulas presenciais e/ou através da criação de objetos de aprendizagem online. Instruem usuários a encontrar, avaliar e usar a informação efetivamente, usarem determinados programas e bases de dados, ou indicam quais são as normas (ABNT, Vancouver, etc.) mais utilizadas e aceitas para apresentação de pesquisas ou trabalhos acadêmicos. São mais comuns em bibliotecas acadêmicas.

Bibliotecários de Processamento Técnico – Estes seriam os profissionais que trabalham “nos bastidores” da biblioteca, com catalogação, classificação e indexação de todos os materiais do acervo.  Por ser um trabalho muito recluso, repetitivo e que lida com  uma série de materiais auxiliares (AACR2, CDD, CDU, Cutter-Sanborn), ele tende a ser menosprezado por quem tem uma personalidade mais ativa e crítica, como coisa que “qualquer pessoa ensinada pode fazer”. Concordo que até pessoas não ensinadas podem trabalhar com processamento técnico, mas a maioria  – dada a oportunidade – simplesmente não se dará a este trabalho (ao menos não numa biblioteca física, rs). Quem é bibliotecário faz isso por que gosta, por que acha curioso descrever itens diferentes, porque acha o processo de classificação algo criativo, por mais que aparentemente não seja.  E quem considera estas coisas inúteis é porque talvez tenha preocupações muito mais nobres que estas. Pessoalmente, considero este tipo de serviço o núcleo, pois se eles não existissem tais como são, a biblioteconomia provavelmente se descaracterizaria e se tornaria outra coisa que talvez ainda não exista (que é o que provavelmente acontecerá, algum dia). Aliás, foi justamente aprender como funciona o processamento técnico que me motivou a fazer o curso de biblioteconomia. Mas também acredito que organizar informação é apenas mais uma parte de todo um processo e não o processo principal ou ainda, o menos importante. É apenas essencial  – pra não dizer, o mínimo – para uma biblioteca (física) que se pretende razoavelmente organizada.

Bibliotecários de Referência ou de Pesquisa– Trabalham diretamente com o público, com pessoas de todas as idades e vários tipos de materiais. Ajudam as pessoas a realizar levantamentos bibliográficos para uma pesquisa e encontrarem as informações que precisam, muitas vezes através de uma conversa estruturada,  tipo uma entrevista de referência. A ajuda pode tomar forma de pesquisa sobre uma questão específica, promovendo um uso mais direcionado de bases de dados e outras fontes eletrônicas de informação. O bibliotecário de referência ainda pode obter materiais especializados de outras fontes ou prover acesso a materiais delicados ou raros.

Bibliotecários de Restauração – Alguns cursos – inclusive o curso de biblioteconomia da UFSC, há alguns anos – ofereciam disciplinas optativas de restauração de livros, especificamente. Esta disciplina não consta mais no currículo e também tem se tornado rara nos cursos de graduação talvez pelo baixo interesse e também por conta dos materiais de restauro, que são caros. Mas por incrível que pareça, ainda tem gente que faz restauração de livros. Algumas pessoas nem chamariam de bibliotecários, mas talvez bibliófilos-restauradores que entendem de técnicas de restauração de livros antigos. As pessoas que trabalham com isso compreendem que, além do apego sentimental aos livros – que muita gente ainda tem –  questões como a preservação e a memória também tem sua relevância, em alguns contextos.

Bibliotecários de Sistemas – Desenvolvem, reparam e mantém os sistemas de bibliotecas, fornecendo bases para a organização das informações a partir do computador, sejam elas feitas por bibliotecários ou usuários. O trabalho de um bibliotecário de sistemas pode incluir o catálogo, bem como outros sistemas relacionados, tendo como principal foco a qualidade na recuperação das informações e auxílio no desenvolvimento de interfaces amigáveis que auxiliam na autonomia de usuários, na busca por informações. Para este tipo de bibliotecário, conhecimentos de informática (bancos de dados, sistemas operacionais, programação, software livre, etc.) não são apenas desejáveis como inatos – não aprende-se isso no curso de biblioteconomia: usa-se o que já se aprendeu (de um modo ou outro, às vezes com autodidatismo mesmo) para aplica o que já se sabe ao que se aprende ao longo do curso de biblioteconomia. Mas isto é só o que eu acho, enfim…  Tudo o que escrevi aqui encontrei em um pdf. da FURG, que fala um pouco sobre o bibliotecário de sistemas.

Bibliotecários Virtuais – Ou em inglês, os weblibrarians (pois pessoalmente não gosto da palavra cibertecário). Como exemplo de biblioteca virtual que me lembro de primeira, é a  Biblioteca Virtual do  Governo do Estado de São Paulo, onde trabalham os colegas @weblibrarian e a @refazioli. De acordo com a descrição que encontrei, bibliotecários virtuais administram bases de dados e trabalham para organizar e preservar uma série de informações que encontramos disponíveis online. Esses bibliotecários são tipicamente classificados como Arquitetos da Informação e este tipo de trabalho pode ser bastante inovador, principalmente quando aplicado em conjunto com bibliotecas físicas. Eles podem desenvolver meios novos e incomuns de arquitetura de informação e linkar dados de uma fonte com outra.

Biblioterapeutas – As áreas interdisciplinares que corroboram com a Biblioterapia geralmente são a enfermagem e também a psicologia.  A biblioterapia pode ser conceituada como a prescrição de materiais de leitura com função terapêutica. A prática biblioterapêutica pode ser utilizada como um importante instrumento no restabelecimento psíquico de indivíduos com transtornos emocionais. O foco do biblioterapeuta é bastante  voltado para os pacientes que estão sendo atendidos, e as atividades de biblioteca (administração, processamento, gestão), apesar de também serem importantes, ficam sempre em segundo plano.

Ainda existe também a discussão de bibliotecários que trabalham como arquivistas e documentalistas, – e na Wikipédia também diz que arquivistas podem ser “bibliotecários especializados que lidam com material arquivístico, tais como manuscritos, documentos e gravações, embora isso varie de país para país, e existam outras rotas para a profissão de arquivista” –  e toda aquela discussão sobre os “profissionais da informação”, que trabalham nas “unidades de informação”, mas acho que este não é o propósito deste post.

Entendam que este não é um post que define nada… Estes tipos de bibliotecários não são “definitivos” como a táuba(sic) dos dez mandamentos não.

Só criei este o post por que 1. Sou curiosa 2. Notei que algumas pessoas procuram e acham o blog por expressões de busca como “o que faz um bibliotecário” ou “tipos de bibliotecários”, 3. Notei que não havia nenhum post com informações suficientes sobre isso. Simples assim.

O que há em um nome?

Stat rosa pristina nomine; nomina nuda tenemus

Hoje rolou no Jornal Nacional a notícia sobre a reinauguração da biblioteca Mário de Andrade, dia 25, em Sampa. Acho que todo mundo já está sabendo e sorte de quem mora em Sampa ou estará por lá nessa época pra conferir como ficou o prédio (gostaria muito mesmo de estar lá). No Twitter, logo depois da notícia, observei duas reações: uma de horror, pelo curador do acervo de obras raras não estar usando luvas de proteção enquanto manuseava uma obra (confesso que também hiperventilei de horror na hora, ahaha!) e outra por não terem mencionado a palavra “bibliotecário” pra designar as pessoas que trabalham na Mário de Andrade.

Como foi notado pelo colega @masoju, três pessoas foram entrevistadas: um administrador (Márcio Botelho, não consegui localizar nada online), um curador de obras raras (Bruno Sant’Ana, a.k.a. Rizio Bruno Sant’Ana) e um supervisor do acervo (@willok). Como notou outro colega @otimeia, “Certeza que o cara da pauta pensou “bibliote… Ninguém sabe o que é isso! Coloca administrador!”. Mas essa discussão, a do “reconhecimento do profissional bibliotecário”, depois da discussão sobre o “estereótipo” é bem recorrente em trabalhos dos colegas em eventos e etc.

Aí o que acontece é que os bibliotecários se ajunta tudo e fica tudo bem brabo,  TODOS CHORA, xingam muito no Twitter e mandam um mega e-mail de repúdio pra Globo – com assinaturas e tudo –  dizendo que eles não reconhecem a nobre, fantástica,  magnânima, excelentíssima, maravilhosa, tchimaish (sem ironia aqui) profissão de bibliotecário! Mesma coisa aconteceu com a coitada que inventou de dizer que a presidente Dilma era uma “bibliotecária solteirona”. Gente carente de atenção. Pois bem. Essa discussão do reconhecimento bibliotecário é um pouco superestimada demais. Sinceramente, fica parecendo que a classe não tem absolutamente nenhuma questão mais importante pra se preocupar do que zelar o nome (e fazer reserva de mercado, mas aí é outra história..).

“Eu sou Bibliotecário!!! Com B maiúsculo!!!”

Olha, eu acharia ainda mais legal se você me falasse que fosse Despachante  (com D maiúsculo) e ainda tivesse orgulho disso. Às vezes fica me parecendo que esses surtos de orgulho-bibliotecário estão muito ligados mesmo a uma carência de atenção e uma baixa auto-estima enrustidíssima. Não preciso dizer que quem se garante – como profissional competente, de verdade – não precisa disso né? Enfim.

Administrador, curador, supervisor de acervo? Olha, já me impressiona o suficiente essa notícia ter rolado no JN. Acredito que se fosse qualquer biblioteca fora do eixo Rio-São Paulo, ninguém jamais se daria o trabalho nem mesmo de mencionar a reinauguração, ainda mais no jornal mais assistido do país. E muito provavelmente, as pessoas que assistiram nem se lembram mais das profissões – de qualquer matéria – que foram mencionadas (a não ser que sejam aficcionadas e revejam todas as notícias no site do JN). Talvez os únicos que tenham reparado que a palavra “bibliotecário” não constava na definição do jornal, tenham sido os próprios bibliotecários e estudantes de biblioteconomia. Pois é.

Quando será que vão parar de se apegar à palavras como “biblioteconomia” e “bibliotecário”? Acho que não tão cedo. Pelo menos não até a nova geração tomar conta e as coisas começarem a mudar, efetivamente. Pelo menos até começarem a lidar com problemas reais de verdade. Ah, claro, também existe o “profissional da informação”, que é um termo que só é usado na biblio e na CI – fora delas, ninguém faz idéia do que seja um “profissional da informação” e, com muito esforço, poderiam chutar que trata-se de jornalismo ou algo relacionado. Ainda existe muita discussão acerca disso, principalmente sobre os nomes do curso “Gestão da Informação”, “Informação e Documentação” e “Biblioteconomia”.

Mas lembrem-se, e lembrem-se sempre: um nome é apenas um nome.

Querem reconhecimento? Reclamem menos e promovam iniciativas melhores. Demarquem seu espaço com talento e criatividade próprios. Lutem por causas que se atenham à nossa profissão como um todo e também – e principalmente – às pessoas que precisam de nós (e frequentemente não sabem disso). Não fiquem de histeria por algo por algo tão movediço quanto a linguagem. Apenas façam um bom trabalho.

Não importa se você é curador, gestor, empreendedor, supervisor de acervo, bibliotecário ou técnico/auxiliar de biblioteca. Apenas faça um bom trabalho e gaste energia por motivos mais desafiadores, do que apenas promover o reconhecimento de um nome.

Isso deve bastar.

(Originalmente publicado em 23 de janeiro de 2011. Imagem de Alessandro Crea, do Flickr.)

Cientista da informação? Mesmo?

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Quando digo que sou formada em biblioteconomia, as pessoas que não tem muito contato com bibliotecas fazem várias perguntas. A que todo mundo conhece e que todos os estudantes da área já estão cansados de ouvir é o famoso “biblioquê?“. A segunda pergunta é “mas quem se forma nisso faz o quê mesmo?”. A terceira “Ah! Mas então você é biblioteconomista!”, quase, na trave. E os que sabem um pouco mais perguntam “você é bibliotecária onde?”.

Tinha escrito que um nome é só um nome antes. Mas querendo ou não, nomes designam uma série de coisas. Eu não sabia se eu ia, efetivamente, trabalhar como bibliotecária depois de formada. Vários colegas bacharéis se formam e vão trabalhar no mercado de Arquitetura da Informação, por exemplo, ou de Análise/Métricas de Mídias Sociais, ou com estatística de dados. São bacharéis em biblioteconomia, mas que não precisam de CRB. São bibliotecários de alma, mas não de carteirinha.

O que é mais importante?

O contexto é importante. Categorias e classes apenas importam no contexto em que importam. Caso eu fizesse o mestrado, seria apenas uma bacharel em biblioteconomia – pois, para mim, bibliotecário é quem atua e para o CRB é quem tem CRB. Para o mercado, bibliotecário é quem tem experiência ou procedência de uma boa faculdade. Caso eu me formasse mestre em ciência da informação, me consideraria mestre em Ciência da Informação.

Este ano pretendo fazer uma pós latu sensu e devo me tornar especialista, caso tenha sucesso. A Ciência da Informação é uma grande área, mas vinculada a ela ou não, posso continuar pesquisando ‘a informação’ de modo a melhor se adequar aos meus interesses profissionais no momento. Posso ser pesquisadora vinculada à uma instituição de ensino superior ou pesquisadora independente, que é o que acredito que faço quando traduzo artigos e escrevo posts para este blog.

Vejo até hoje muitos graduandos utilizando o termo ‘cientistas da informação’ para se definirem, mas talvez as únicas pessoas que tenham ‘alvará’ para se denominar assim sejam os mestrandos e doutorandos em CI. No Brasil, não há uma graduação em Ciência da Informação propriamente dita, mas em Biblioteconomia apenas (isso explica bem o quadrinho). Há apenas uma graduação em Gestão da Informação na UFPR e ela não forma bibliotecários. Nem cientistas da informação. 

Sobre esse termo, imagino que seja apenas um nome pretensioso demais para definir algo que é muito mais simples: pesquisadores com interesse em informação de uma determinada área; ou com interesse na gestão ou fluxo de informação de um determinado ambiente ou serviço. Particularmente quando leio o termo “ciência” o que me vem imediatamente em mente são as hard sciences: química, física, etc., onde existem os cientistas propriamente ditos.

Vamos pesar no estereótipo agora: aqueles mesmo, que usam jalecos, tem cabelos esquisitos, vivem enfurnados em laboratórios com substâncias raras e utilizadas com propósitos específicos, em ambientes ultra controlados e se comunicam com demonstrações e símbolos. Nem melhores, nem piores, mas bastante diferentes das áreas de humanas. De qualquer modo o nome já existe e está consolidado enquanto área dentro da grande área das Ciências Sociais Aplicadas. Mas sim, é sempre bom lembrar que existem ciências e ciências. 

E fazer ciência, infelizmente, ainda é pra poucos.