Por que você deveria se cercar com mais livros que jamais terá tempo pra ler

Prateleiras (ou e-readers) inflacionados indicam coisas boas sobre a sua mente

Por Jessica Stillman, para a Inc.com

Uma vida inteira de aprendizagem vai te ajudar a ser mais feliz, ganhar mais e até mesmo se manter mais saudável, dizem os especialistas. Além disso, muitos dos nomes mais inteligentes do mundo dos negócios, desde Bill Gates até Elon Musk, insistem que a melhor forma de ficar mais inteligente é lendo. Então o que você faz? Você vai lá e compra livros, vários deles.

Mas a vida é ocupada e intenções são uma coisa, ações, outra. Logo você percebe que suas estantes (ou seu e-reader) estão transbordando de títulos que você pretende ler um dia, ou livros que você deu uma lida uma vez mas então os abandonou. Seria isso um desastre com o seu projeto de se tornar uma pessoa mais inteligente e sábia?

Se você nunca conseguiu ler nenhum livro de fato, então sim. Você pode querer ler sobre truques para colocar mais leitura na sua vida frenética e porque vale a pena comprometer algumas horas por semana a um aprendizado. Mas se simplesmente a sua ação de ler livros não acompanha de nenhum modo a sua ação de comprá-los, tenho boas notícias pra você (e para mim, pois eu definitivamente me encaixo nessa categoria): sua biblioteca inflacionada não é um sinal de fracasso ou ignorância, é uma medalha de honra.

Por que você precisa de uma “antibiblioteca”

Esse é o argumento que o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb faz em seu bestseller A lógica do Cisne Negro. O blog eternamente fascinante Brain Pickings garimpou e sublinhou a seção em um post particularmente adorável. Taleb inicia suas reflexões com uma piada sobre a lendária biblioteca do escritor italiano Umberto Eco, que continha um impressionante total de 30 mil volumes.

Eco realmente leu todos esses livros? Claro que não, mas esse não era o objetivo de cercar-se com tanto conhecimento potencial mas até então nãorealizado. Por ter um constante lembrete de todas as coisas que ele não sabia, a biblioteca de Eco o mantinha intelectualmente faminto e perpetuamente curioso. Uma crescente coleção de livros que você ainda não leu pode fazer o mesmo por você, Taleb escreve:

Uma biblioteca particular não é um apêndice impulsionador de ego, mas uma ferramenta de pesquisa. Livros já lidos são bem menos valorosos que os não lidos. A biblioteca deveria conter tanto do quanto você não sabe quanto os seus meios financeiros, as taxas de hipoteca, e o atual mercado imobiliário apertado te permitir que você coloque lá. Você acumulará mais conhecimento e mais livros ficando mais velho, e o crescente número de livros não lidos nas estantes olharão para você de forma ameaçadora. De fato, quanto mais você sabe, maior fica a estante de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca.

Uma antibiblioteca é um lembrete poderoso de nossas limitações – a vasta quantidade de coisas que você não sabe, ou sabe pela metade ou algum dia irá perceber que está errado sobre. Viver com esse lembrete diariamente pode fazer com que você se atente para o tipo de humildade intelectual que melhora a tomada de decisões e impulsiona o aprendizado.

“As pessoas não andam por aí com anti-currículos te falando que não estudaram ou não tiveram experiência (é trabalho de seus competidores fazer isso), mas seria legal se fizessem isso”, diz Taleb.

Por que? Talvez porque seja um fato psicológico bem conhecido que os mais incompetentes sejam mais confiantes de suas habilidades e os mais inteligentes são cheios de dúvidas (sério, é chamado de efeito Dunning-Kruger). É igualmente bem estabelecido que quanto mais você admite rapidamente que não sabe coisas, mais rápido você as aprende.

Então pare de brigar consigo mesmo por comprar livros demais ou por ter uma lista de livros “para ler depois” que você nunca poderia terminar nem em três vidas. Todos esses livros que você não leu são na verdade um sinal da sua ignorância. Mas se você souber o quão ignorante é, você estará bem à frente da vasta maioria das pessoas.

Design Thinking e design de taxonomia

por Claire Brawdy, para o site Enterprise Knowledge

Na minha experiência, descobri que qualquer esforço para um design de sucesso em taxonomia nasce de um forte entendimento das necessidades do usuário final – dificilmente uma tarefa simples. Um dos modos que trabalhei para lidar com este desafio foi incorporar o Design Thinking em nosso processo de design de taxonomia.

A IDEO define Design Thinking como uma abordagem de resolução de problemas centrada em pessoas que centraliza suas necessidades, as de tecnologia e do negócio para resolver problemas complexos com soluções inovadoras. O processo é quebrado em fases, que podem ocorrer em paralelo e serem repetidos com frequência. Esse post explica como nós na Enterprise Knowledge integramos cada fase durante o design de taxonomia.

Por que Design Thinking? Aqui na EK, observamos várias situações onde os esforços para o design de taxonomia sofrem de uma falta de aceitação e alinhamento, resultando em estagnação pois os usuários não estão adotando e usando a taxonomia. Esta metodologia visa estas questões pois prevê oportunidades para compreender totalmente os usuários e suas necessidades, e reforçar que você esteja realmente realizando o design para eles. Usar esta abordagem assegura que o design de taxonomia é apoiado pelos usuários e que combina findability (encontrabilidade) e usabilidade.

Empatizar

Para começar, você precisa ter um profundo conhecimento do problema que precisa ser resolvido e remover quaisquer premissas que você tiver. Isso envolve empatizar com usuários, observando e interagindo com eles para compreender suas experiências e motivos. Descobrimos que isso geralmente faz falta nas iniciativas de design de taxonomia, onde os stakeholders do projeto não estão alinhados com os objetivos, ou claramente não entendem o “porque” de uma taxonomia.

Existem muitas abordagens que você pode ter para cumprir este objetivo. Na Ek, conduzimos entrevistas e grupos de foco, e facilitamos workshops de taxonomia. Entrevistas e grupos de foco podem te ajudar a aprender quais são as lutas dos seus usuários em relação à busca e descoberta de informações. Seja consciente de quem você está entrevistando e que tipos de perguntas está fazendo. Você está entrevistando uma gama de usuários, representando diferentes níveis de experiência e diferentes áreas de expertise? Você está fazendo perguntas tendenciosas baseadas no que você assume que os problemas sejam?

Workshops são incrivelmente valorosos particularmente pois eles dão a oportunidade de envolver usuários de negócios de verdade nas fases iniciais, mitigando o risco de presumir incorretamente requerimentos de design. Enquanto entrevistas e grupos de foco indiscutivelmente oferecem os mesmos benefícios, participantes de workshops podem se tornar seus defensores mais fortes para o design de taxonomia, uma vez que eles estão verdadeiramente envolvidos desde o início. Além das entrevistas, grupos de foco e workshops, considere desenvolver personas colaborativamente e mapas de empatia para identificar diferenciadores de usuários e necessidades usuários chave. Juntas estas ferramentas vão te ajudar a desenhar insights chave a partir de seus usuários finais.

Definir

O estágio de Definir envolve analisar e sintetizar toda a informação colhida anteriormente para definir os principais problemas que afetam seus usuários finais. Nesta fase, você precisará definir claramente todas as necessidades dos usuários.

Na EK, ao invés de focarmos em criar uma declaração de problemas, nós mudamos o foco para a criação de uma declaração de resultados. Em resumo, estamos pedindo aos usuários finais para que respondam a pergunta, “o que esta taxonomia permitirá que usuários finais façam/realizem?”. Fazer este tipo de pergunta nos permite facilmente capturar as expectativas e desejos dos usuários finais e termos a certeza de que estamos entregando um produto que funciona para eles. Bem como criar um declaração de problema efetivo, criar a declaração de resultados simultaneamente foca os usuários finais das suas necessidades específicas e cria um senso de possibilidade que permite que os membros de equipes mudem de ideias na fase de Idealizar.

Idealizar

Munido com os insights dos usuários e declarações claras de problemas/resultados, você pode progredir para a fase de Idealizar para identificar alternativas ao entendimento do problema e subsequentemente, novas soluções.

Aqui é onde você pode talvez começar a se movimentar rumo ao campo de metadados iniciais e avaliar identificação e priorização, mantendo em mente a declaração de resultados já mencionada. Enquanto é importante iniciar esta fase com critérios levando em conta características de taxonomias de sucesso em negócios, também é importante ter uma gama de ideias potenciais e ter a certeza de que tudo está ao menos capturado. O conjunto resultante de campos de metadados e valores correspondentes pode dar uma visão geral de alto nível das características importantes de conteúdo que podem precisar estar refletidas na taxonomia.

Prototipar e Testar

A fase de Prototipar nos oferece a oportunidade de testar nossas potenciais soluções através de versões reduzidas e econômicas do produto ou suas características específicas. A fase Testar final envolve uma testagem rigorosa do produto completo. A taxonomia em papel tende a ser abstrata. Nossa prototipação e abordagens de teste trazem o contexto real do negócio ao esforço de design de taxonomia para nossos usuários finais.

Os campos de metadados que são identificados na fase de Idealizar podem ajudar a formar uma “taxonomia iniciante” que será testada posteriormente e elaborada de forma a se tornar uma taxonomia de negócio verdadeiramente efetiva. Uma forma que lidamos com esta fase aqui na EK é através de card sorting, uma técnica para descobrir como usuários finais categorizam a informação, que por sua vez ajudam a validar partes de um design de taxonomia. O exercício também pode ajudar a identificar quais categorias precisam de ajustes baseados no feedback de usuários.

No final da fase de prototipagem, o time terá uma melhor ideia das limitações da taxonomia, os problemas que existem e um melhor entendimento de como usuários reais agiriam, pensariam e se sentiriam enquanto estivessem interagindo com o produto final. No design de taxonomia, o teste do produto completo é contínuo, com alterações e refinamentos sendo considerados e feitos através de uma governança de taxonomia para melhor refletir os usuários finais e a evolução de suas necessidades.

Conclusão

O progresso no esforço do design da sua taxonomia começa com um entendimento claro dos seus usuários finais. É por isso que o Design Thinking pode ser incrivelmente útil na construção de uma taxonomia que irá ao encontro das reais necessidades de sua organização e seus usuários finais. Essa metodologia colaborativa, flexível e interativa nos permite rapidamente identificar, construir e testar o produto rumo ao sucesso.

Claire Brawdy tem foco em entregas Ágeis para gestão do conhecimento e esforços para design de taxonomia. Claire gosta de colaborar com seus clientes para desenvolver uma compreensão compartilhada de necessidades e gestão.

Sense Making

Traduzido originalmente do post Sense Making, do site de David Lankes.

Sense-making” e “sensemaking” podem ter a mesma pronúncia, serem escritas quase da mesma forma e baseadas em perspectivas construtivistas similares, mas elas não se tratam da mesma coisa. Quando tratamos de indivíduos tentando criar sentido de seu próprio mundo e seu ambiente, duas ideias principais lideram a discussão. A primeira é o “Sense-Making” como cunhado por Brenda Dervin (Dervin & Nilan, 1986) e a segunda é “sensemaking” criada por Karl E. Weick (Weick, 1995).1 Sensemaking de acordo com Weick será a abordagem adotada, mas por conta da similaridade na terminologia e para remover a possibilidade de confusão, a abordagem de Dervin merece uma breve revisão primeiro.

Sense-Making de acordo com Dervin tem foco no indivíduo enquanto ele ou ela se move através do espaço e do tempo. Enquanto isso ocorre, lacunas são encontradas onde o indivíduo deve “fazer sentido” da situação para se movimentar, física ou cognitivamente, através da lacuna. Os componentes-chave neste processo são a situação, a lacuna e os usos. A situação é o contexto do usuário, a lacuna é quem previne o movimento e o uso é a aplicação do sentido que é construído (Dervin, 1999). Neste sentido, a abordagem de Dervin é monádica porque ela se foca no indivíduo e no sentido que o indivíduo faz enquanto ele ou ela tenta superar a lacuna.

jigsaw

Isto entra em contraste com Weick, que se foca no sensemaking de grupo como pelo menos diádico mas mais geralmente triádico ou poliádico. Em outras palavras, Weick se foca em múltiplas pessoas trabalhando junto para criarem sentido. Embora este contraste entre o grupo e o indivíduo seja significante, a abordagem de Dervin tem as mesmas raízes filosóficas que Weick. Dervin (1999) afirma: “descrevi Sense-Making como abordagem construtivista, enquanto agora eu descrevo como pós-construtivista, ou modernista pós-moderna” (p. 730). Embora Weick e Dervin ambos tenham sido associados com construtivismo, Dervin não liga diretamente o sensemaking de Weick ao seu próprio Sense-Making mas como uma das muitas “abordagens paralelas” (Dervin et al., 2005).

Existem muitos usos do termo sense making enquanto fenômeno na literatura (escrito em uma miríade de jeitos diferentes) que não tem relação alguma à Metodologia de Sense Making. Por exemplo o Sensemaking de Weick (Weick, 1995) em organizações que olham a vida organizacional examinando o fenômeno [de] Sensemaking (Dervin, 1999, p. 729).

Embora Dervin não ligue Weick ao seu trabalho, ambos seguem uma abordagem construtivista. Isso é demonstrado especialmente pela conceitualização de Weick de ambiguidade (Weick & Sutcliffe, 2001, p. 10). Em contraste à Dervin, os principais trabalhos de Weick citam Dervin ou traçam suas conceitualizações ao seu trabalho (Weick, 1969, 1993, 1995, 2003, 2005, 2006, 2007; Weick & Roberts, 1993; Weick & Sutcliffe, 2001; Weick, Sutcliffe, & Obstfeld, 2005; Wenger, 1999, 2001, 2005a, 2005b; Wenger, McDermott, & Snyder, 2002; Wenger & Snyder, 2000; Wenger, White, Smith, & Rowe, 2005). Existem outras abordagens construtivistas que poderiam ser consideradas, tal como Habermas. No entanto, como um pesquisador sob a supervisão de Brenda Dervin colocou: “sugiro que a atual corrente baseada nas teorias de Habermas de prática de ação comunicativa e esfera pública possa ser muito limitada para descrever a prática comunicativa baseada em ambientes online” (Schaefer, 2001, p. ii). Em resumo, a visão de Weick de sensemaking enquanto atividade de grupo é mais relevante para comunidades de bibliotecas do que a abordagem monádica de Dervin, que se foca mais em Sense-Making individual. No entanto, a discussão agora tem seu foco em Weick.

Image property of the Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, NY.
Convergence, 1952 by Jackson Pollock

A estrutura teórica para a perspectiva organizacional deste estudo será a de sensemaking enquanto descrito por Karl E. Weick em Sensemaking in Organizations (Weick, 1995) e Managing the Unexpected: Assuring High Performance in an Age of Complexity (Weick & Sutcliffe, 2001). Estas obras foram prenunciadas em seu primeiro livro,The Social Psychology of Organizing (Weick, 1969). Sensemaking teve o seu fundamento em vários estudos de caso significativos onde Weick investigou situações complexas para compreender como as pessoas tentaram fazer sentido a partir de informações aparentemente contraditórias. A maior parte do trabalho de Weick era em “organizações do setor público”, com apenas algumas poucas organizações “comerciais” (Weick, 2006, p. 1733). Infelizmente, ele não escreveu sobre os setores sem fins lucrativos ou bibliotecas. Dois exemplos importantes de sua abordagem são estudos da cabine de pilotagem de um porta aviões (Weick & Roberts, 1993) e com bombeiros em combate a incêndios (Weick, 1993). Sensemaking não tem uma definição rigorosa per se, mas existem vários exemplos de Weick.

A ideia básica de sensemaking é que a realidade é uma realização contínua que emerge de esforços para se criar ordem e fazer um sentido retrospectivo do que ocorre (Weick, 1993, p. 635)

Sensemaking é sobre a ampliação de pequenas pistas. É uma busca por contextos na qual pequenos detalhes se encaixam e fazem sentido. São pessoas interagindo para extraírem intuições. É uma alteração contínua entre detalhes e explicações com cada ciclo dando e adicionando forma e substância ao outro. (Weick, 1995, p. 133). Falar sobre sensemaking é tratar sobre a realidade enquanto uma realização contínua que toma forma quando as pessoas fazem um sentido retrospectivo das situações nas quais elas encontram a si mesmas e suas criações. Há uma forte qualidade reflexiva neste processo. Pessoas fazem sentido das coisas por enxergarem um mundo no qual elas já impuseram o que acreditam. Em outras palavras, pessoas descobrem suas próprias invenções. É por isso que o sensemaking pode ser compreendido como uma invenção e interpretações compreendidas como descobertas. Estas são ideias complementares. Se sensemaking é entendido como um ato de invenção, então também é possível argumentar que os artefatos que ela produz incluem jogos de linguagem e textos (Weick, 1995, p. 15).

95b221081eedb138d109e5b122b3556d

Sensemaking tem a ver com tanto com autoria quanto com interpretação, criação bem como descoberta. (Weick, 1995, p. 8) Sensemaking organizacional é primeiro e principalmente sobre a questão: como algo se torna um evento para membros de uma organização? Segundo, sensemaking é sobre a pergunta: o que o evento significa? (Weick et al., 2005, p. 410)

O construtivismo é em parte revelado em Weick por sua ênfase no uso de gerúndios se opondo a substantivos (Gioia, 2006) e a não utilização do termo “é” mas ao invés disso fornecer afirmações descritivas sobre algo ou alguém (Weick, 2007). Descrevendo a perspectiva de Weick, Dervin diz: “Não existe tal coisa como organização. Existe apenas o organizar” (Dervin, 2003, p. 116). A questão em ambos os casos é se deslocar do ponto onde se enxerga a realidade como uma coleção de entidades fixas e estáticas (substantivas) para o ponto onde se enxerga a realidade enquanto entidades sempre mutáveis. “É sobre o ‘processo de tornar-se’ ao invés do ‘estado das coisas’ (Gioia, 2006, p. 1711). “Agora quando você pensa em termos de verbos e gerúndios, isso muda a forma que você fala sobre e compreende fenômenos… A conversa muda quando você põe ênfase em verbos e gerúndios. E esta é uma das principais razões de porque, quando você tem um ponto de vista ‘Weickiano’, você não consegue evitar em enxergar as coisas de forma diferente” (Gioia, 2006, p. 1711).

Estas descrições de sensemaking tratam de criação, compartilhamento, interação, atividade cíclica e pessoas engajando-se para criar uma melhor compreensão de seu mundo e seu trabalho. Weick identifica sete características distintas do processo de sensemaking:

  1. Baseado em construção de identidade
  2. Retrospectiva
  3. Ativação de ambientes sensíveis
  4. Social
  5. Continuidade
  6. Focado em e por intuições extraídas
  7. Dirigido por plausibilidade ao invés de precisão (Weick, 1995, p. 17)

Tendo fornecido uma breve visão geral do que é sensemaking, é hora de examinar suas partes constituintes.

The Son of Man, 1946, by Rene Magritte
The Son of Man, 1946, by Rene Magritte

Construção de Identidade

A questão de identidade começa com a icônica questão de Weick: “como posso saber o que penso até que eu veja o que falo (1995)? Nesta afirmação, todos os quatro pronomes são “eu”. Sensemaking começa com o indivíduo e o sentido que o indivíduo faz da situação.2 Esta discussão com o próprio eu é o primeiro passo que então permite que alguém faça sentido com os outros. Sensemaking é um processo complexo pelo qual o indivíduo, através de interação com o eu e o outros, define seu eu. “A armadilha é que o sensemaker é singular e nenhum indivíduo nunca age como um único sensemaker. Ao invés disso, qualquer sensemaker é, nas palavras de Mead (1934), ‘um parlamento de eus’ (Weick, 1995, p. 18). Isso segue a lógica de Pask e a teoria da conversação como descrito na discussão sobre conversação. Isso é conversação com o eu. Da mesma forma citando Knorr-Cetina (1981, p. 10), Weick identifica a compreensão que “o indivíduo é uma construção discursiva tipificada” (Weick, 1995, p. 20). Mesmo quando os indivíduos estão “sozinhos”, eles estão engajando-se porque cada indivíduo é uma coleção de eus. Em outras palavras, nenhum indivíduo é verdadeiramente um sensemaker solitário. Embora isso possa parecer que simplesmente leve à esquizofrenia, “quanto mais eus aos quais eu tenho acesso, maior quantidade de significados eu devo ser capaz de extrair e impôr em qualquer situação” e “menor é a probabilidade que eu me encontre totalmente surpreso” (Weick, 1995, p. 24). “Assim, as identidades especificam relações que são centrais à natureza social do sensemaking entre atores diversos” (Weber & Glynn, 2006, p. 1646). Construção de identidade é sobre como fazer sentido das entidades, indivíduos e organizações na situação sensemaking. Essas identidades são construídas olhando para o que foi dito anteriormente, como a questão inicial implica. Não pode haver sentido antes que a conversação comece. Na terminologia de Weick, este aspecto do sensemaking é a retrospectiva.

The Tree of Monkeys, 1984, Keith Harring
The Tree of Monkeys, 1984, Keith Harring

Retrospectiva

Sensemaking é contínuo e retrospectivo, fazendo sentido do que aconteceu (Gioia, 2006; Weber & Glynn, 2006; Weick, 1995). Não é uma atividade prospectiva. Indivíduos fazem sentido do que as pessoas disseram e fizeram e no entanto não podem fazer sentido sobre o que ainda não foi dito ou feito (o futuro). Sensemaking envolve o desenvolvimento retrospectivo contínuo de imagens plausíveis que racionalizam o que as pessoas estão fazendo” (Weick et al., 2005, p. 409). Em resumo, indivíduos consideram e contemplam as conversações, artefatos e acontecimentos e tentam fazer sentido deles. É o processo de participar disso que ocorreu, olhando a partir do agora para o passado, reconhecendo que é sujeito à falibilidade da memória e pode ser muito enganoso (Weick, 1995). Embora esse processo pareça sem solução, humanos ainda assim são capazes de navegar o mundo apesar da fraqueza da incompletude da habilidade individual de compreender o que aconteceu. Isso leva à necessidade de outras vozes em auxiliar no sensemaking descrito acima. O “quanto mais eus aos quais eu tenho acesso, maior quantidade de significados eu devo ser capaz de extrair e impôr em qualquer situação” e “menor é a probabilidade que eu me encontre totalmente surpreso” (Weick, 1995, p. 24).

Yayoi Kusama, Infinity Mirrored Room, 2010
Yayoi Kusama, Infinity Mirrored Room, 2010

Ativação de ambientes sensíveis

Sensemaking é uma combinação de “ação e cognição juntos” (Weick, 1995). Weick refere-se a isso como “atuação” (enactment). Isso diz respeito ao fato de que indivíduos participem em seu ambiente. Enquanto eles estão criando seu ambiente, eles também estão fazendo sentido dele. Pessoas estão fazendo sentido de ambientes dinâmicos “não algum tipo de ambiente monolítico, singular, fixo que existe destacado de e externo à essas pessoas” (Weick, 1995, p. 31). O indivíduo é parte do ambiente através do processo de co-construção dele com outros sensemakers. É por isso que sensemaking não é apenas interpretação. Interpretação é sobre ler um “texto”. Sensemaking envolve não apenas compreensão do texto mas também sua criação. Atuação é a insistência teimosa de que as pessoas agem de modo a desenvolver um sentido do que deveriam fazer a seguir. Atuação é sobre duas questões: qual é a história? E agora? Quando as pessoas agem a fim de responder estas questões, a sua atuação tipicamente codetermina a resposta (Weick, 2003). Sensemaking não é simplesmente interpretação porque ela também inclui “as formas que as pessoas geram o que interpretam” (Weick, 1995, p. 13). O sensemaker cria o ambiente e o ambiente cria o sensemaker. A partir desta perspectiva, indivíduos nunca podem ser completamente neutros ou objetivos sobre si mesmos ou sobre seu processo de sensemaking. “Se isto é oscilação ontológica, que seja. Parece funcionar.” (Weick, 1995).

'The Girl frisking a Soldier', by Banksy
‘The Girl frisking a Soldier’, by Banksy

Social

Sensemaking é “tanto uma atividade individual e social” e não é claro se estas são separáveis porque esta atividade é uma “tensão durável na condição humana” (Weick, 1995, p. 6). É um processo individual e coletivo ao mesmo tempo. Sensemaking reconhece que “o contexto social é crucial… porque ele vincula as pessoas às ações que elas então terão que justificar, afeta a saliência da informação, e provê normas e expectativas que limitam as explicações” (Weick, 1995, p. 53). Como Weick diz, “sentido pode estar nos olhos de quem vê, mas quem vê vota e a maioria governa” (Weick, 1995, p. 6). “O que é especialmente interessante é que ela tenta fazer sentido de como outras pessoas fazem sentido das coisas, uma determinação complexa do que é rotina numa vida organizacional” (Weick et al., 2005, p. 413). Isso se trata essencialmente de sistemas cibernéticos de segunda-ordem como descritos por Pask, sistemas que observam sistemas (Pask, 1975a, 1975b, 1976). Isso é o indivíduo conversando com o eu sobre a conversação com outros. Em todo caso, a conversação é ao menos diádica porque dois ou mais lados estão envolvidos. A partir desta perspectiva, sensemaking é mais significante (em oposição a Dervin) para o contexto organizacional que afeta o processo de sensemaking na biblioteca. A organização ou biblioteca afeta o sensemaking porque: “(1) instituições primam pelo sensemaking por proverem pistas sociais; (2) instituições editam o sensemaking através de processos de feedback social; (3) instituições engatilham sensemaking, colocando mosaicos para sensemaking através de contradição e ambivalência endógena” (Weber & Glynn, 2006, p. 1648). Porque bibliotecas consistem de indivíduos que estão constantemente criando novos “sentidos” de suas situações, o processo como um todo é contínuo. Isso acontece no contexto da biblioteca entre sua equipe, membros e outras partes interessadas.

Espiral de Aloe Vera
Espiral de Aloe Vera

Continuidade

“O sensemaking nunca começa. O motivo pelo qual ele nunca começa é que a pura duração nunca termina” (Weick, 2006, p. 43). O sensemaker pode apenas viver o aqui e o agora. Para o sensemaker, o “agora” nunca começou realmente, e contanto que haja consciência, ele nunca termina. Alguém está sempre no processo de criação de sentido. A partir deste ponto de vista, sensemaking não possui pretérito. Pessoas estavam criando sentido, estão criando sentido e estarão criando sentido mas nunca totalmente criaram sentido de algo. Sensemaking é claramente sobre uma atividade ou um processo…” e não apenas uma consequência (Weick, 1995, p. 13). Enquanto as pessoas estão fazendo sentido, há sempre novos estímulos que afetam o processo e o sentido. “O contraste entre a descoberta e a invenção está implícito na palavra sentido. Sentir algo soa como um ato de descoberta. Mas para se sentir algo, deve haver algo lá para criar a sensação. E o sensemaking sugere a construção daquilo que então se torna sensível” (Weick, 1995, p. 14). Embora a vida providencie o estímulo para sensemaking, o motivo pelo qual o sentido deve ser criado é porque há uma lacuna, um problema ou uma dissonância cognitiva contínua. Como Weick diz, “meu único contato com o real parece ter sido a minha dissertação em 1961 sobre dissonância cognitiva” (Weick, 2006, p. 1734). Isto é, “a interrupção, o inconsistente, o inexplicável”, que faz com que alguém tenha que fazer sentido da situação (Weick, 2006, p. 1734). Uma vez que esta dissonância é um evento recorrente, ela leva à “interação recíproca de busca da informação, atribuição de significado e ação” (Thomas, Clark, & Gioia, 1993, p. 240). Problemas são “construídos a partir dos materiais da situação problemática, que são intrigantes, perturbadoras e incertas” (Weick, 1995, p. 9). Para o sensemaker resolver a dissonância ou situação problemática, ele ou ela irá buscar por dicas no contexto ambiental como parte do processo de sensemaking. Este é um processo contínuo pois os problemas estarão sempre presentes contanto que haja movimento através do tempo e espaço.

Focado em e por intuições extraídas

Quando o sensemaking é aplicado, é essencial olhar não apenas ao ato de decisão por si só mas às circunstâncias ou contexto que resultaram nesta ação. Compreender as circunstâncias do contexto nos leva a perguntar “como” a situação se deu ao invés de “por que” uma decisão foi tomada (Weick et al., 2005). Isso irá ajudar a identificar as dicas que informaram o processo de sensemaking. O contexto não fornece não apenas as sugestões, mas contém os padrões de uso das sugestões. A cultura organizacional pode enfatizar certas fontes para sugestões e ignorar outras. Deste modo, a organização diz ao sensemaker onde procurar por sugestões. Em termos de Wenger, as fontes de localização de sugestões são o resultado de reificação uma vez que padrões são construídos através de participação. Para colocar de outro modo, “o contexto social é crucial para o sensemaking porque ele vincula a pessoas que elas então devem justificar, que limita explicações (Weick, 1995, p. 53). O contexto nos ajuda a determinar onde as pessoas estão direcionando o foco de suas intenções, onde as sugestões estão vindo. Na biblioteca, essas sugestões são criadas através de esquemas de classificação, notação, metadados, catálogos e todos os outros meios que as bibliotecas usam para guiar, direcionar e instruir seus usuários.

quote-intuition-is-the-art-peculiar-to-the-human-mind-of-working-out-the-correct-answer-from-isaac-asimov-48-61-59
“Intuição é a arte, peculiar à mente humana, de buscar pela resposta correta a partir de dados que são, por si sós, incompletos ou até mesmo, talvez, errôneos”.

Plausibilidade ao invés de precisão

Quando olhamos para o processo de sensemaking extraído a partir de sugestões, devemos relembrar que “sensemaking é dirigido por plausibilidade ao invés de precisão” (Bansler & Havn, 2006, p. 61). A precisão é secundária à plausibilidade por vários motivos. Primeiro, as pessoas estão constantemente filtrando as sugestões que afetam sua tomada de decisão. Segundo, pessoas tendem a ligar sugestões atuais com sugestões anteriores e construir sentido presente em sentido feito no passado. Terceiro, pessoas geralmente não disponibilizam do tempo necessário para rigor antes de agirem. O sentido delas precisa apenas ser bom o suficiente para o próximo passo. Finalmente, a precisão é mais relevante para curtas durações e para questões específicas do que para circunstâncias globais (Weick, 1995). Resumindo, a explicação do processo de sensemaking deve “fazer sentido” não necessariamente “ser preciso”.

Sensemaking se trata de narrativas que são socialmente aceitáveis e críveis… Seria ótimo se essas narrativas sociais também fossem precisas. Mas em um mundo pós-moderno e equívoco, imerso em políticas de interpretação e conflito de interesses e habitado por pessoas com identidades múltiplas e variantes, uma obsessão por precisão parece infrutífera e também não muito prática. (Weick, 1995, p. 61).

Enquanto em processo de sensemaking, as pessoas “lêem nas coisas os significados que gostariam de ver; eles coletam objetos, expressões, ações e daí em diante com significado subjetivo o que as ajuda a fazer com que seu mundo seja inteligível para si mesmos” (Frost & Morgan, 1983). Quando em processo de sensemaking as pessoas não estão se esforçando para ter precisão mas ao invés disso por plausibilidade e sentido. Se parece plausível e é suficiente para fornecer o significado necessário para seguir adiante, isto é preciso o suficiente para que a pessoa aja. Se esta é ou não a “ação correta” trata-se de uma outra questão. Isto foi visto no incêndio de Mann Gulch. Um plano de fuga fez sentido para a maioria dos bombeiros. Embora o plano para fuga tenha feito sentido para eles, ele não era preciso e os levou à morte. O plano preciso não fez sentido. Este é um exemplo principal de indivíduos agindo a partir da sensibilidade, do que faz sentido, ao invés de precisão (Weick, 1993). Então, quando estamos tentando entender o que aconteceu, precisamos considerar o que foi plausível aos sensemakers mesmo se o sentido deles era ou for impreciso.

Resumo

Sensemaking nas organizações e bibliotecas é um processo contínuo que nunca se inicia e nem se finaliza, contanto que a organização continue a existir. “Primeiro, o sensemaking ocorre quando um fluxo de circunstâncias organizacionais se torna em palavras e categorias salientes. Segundo, organizar-se está incorporado em textos escritos e falados. Terceiro, ler, escrever, conversar e editar são ações cruciais que servem como meio através do qual a mão invisível das instituições forma a conduta…” (Weick et al., 2005, p. 409).

Através deste processo de sensemaking, decisões são feitas levando ao comportamento. No entanto, sensemaking e tomada de decisão não são a mesma coisa. A diferença entre tomada de decisão e sensemaking é que “o primeiro nos leva a culpar os mau atores que fizeram más escolhas enquanto o último ao invés disso se foca em boas pessoas lutando para fazer sentido de uma situação complexa” (Eisenberg, 2006, p. 1699). O objetivo da biblioteca então deveria ser ajudar as pessoas a fazerem sentido das fontes que a biblioteca possui, sejam essas fontes humanas, digitais ou artefatuais. Este é um processo contínuo que nunca cessa e requer conversação entre todos os atores envolvidos com a biblioteca. Requer que os bibliotecários adotem essa dinâmica, processo de conversação e compreender que a biblioteconomia trata sobre facilitação de sensemaking e não sobre atingir um estado estático onde todo idem finalmente tem “a etiqueta correta” e está “no lugar correto”.

Notas

  1. Como os termos da terminologia de Dervin e Weick são muito próximos, “Sense-Making” será usado quando se refere ao conceito de Dervin e “sensemaking” será usado com referência ao conceito de Weick. Isso segue as convenções de cada autor.
  2. Enquanto isso é paralelo à ideia de Dervin, Weick não relaciona isso ao trabalho dela. Enquanto o leitor pode observar similaridade entre Sense Making e sensemaking, esta discussão não buscará esta linha de raciocínio uma vez que Dervin e Weick mesmos não a buscam.

Artefatos Relacionados

Bansler, J., & Havn, E. (2006). Sensemaking in technology-use mediation: Adapting groupware technology in organizations. Computer Supported Cooperative Work, 15(1), 55–91.

Dervin, B. (1999). On studying information seeking methodologically: The implications of connecting metatheory to method. Information Processing and Management, 35(6), 727–750.

Dervin, B. (2003). Given a context by any other name: Methodological tools for taming the unruly beast. In B. Dervin, L. Foreman-Wernet, & E. Lauterbach (Eds.), Sense-making methodology reader: Selected writings of Brenda Dervin (pp. 111–132). Cresskill, NJ: Hampton Press.

Dervin, B., Fisher, K. E., Durrance, J., Ross, C., Savolainen, R., & Solomon, P. (2005). Reports of the demise of the “user” have been greatly exaggerated: Dervin’s sense-making and the methodological resuscitation of the user-looking backwards, looking forward.Proceedings of the American Society for Information Science and Technology, 42(1).

Dervin, B., & Nilan, M. (1986). Information needs and uses. Annual Review of Information Science and Technology, 21, 3–33.

Eisenberg, E. M. (2006). Karl Weick and the aesthetics of contingency. Organization Studies, 27(11), 1693.

Frost, P., & Morgan, G. (1983). Symbols and sensemaking: The realization of a framework. In L. R. Pondy, P. J. Frost, G. Morgan, & T. C. Danderidge (Eds.), Organizational symbolism (pp. 207–237). Greenwhich, CT: JAI Press.

Gioia, D. A. (2006). On Weick: An appreciation. Organization Studies, 27(11), 1709– 1721.

Knorr-Cetina, K. (1981). The microsociological challenge of macro-sociology: Toward a reconstruction of social theory and methodology. In K. Knorr-Cetine & A. V. Cicourel (Eds.), Advances in social theory and methodology: Toward an integration of micro-and macro-sociologies (pp. 1–47). Boston: Routledge & Kegan.

Mead, G. H. (1934). Mind, self, and society: From the standpoint of a social behaviorist. Chicago, IL: University of Chicago Press.

Pask, G. (1975a). Conversation, cognition and learning: A cybernetic theory and methodology. New York: Elsevier Publishing Company.

Pask, G. (1975b). The cybernetics of human learning and performance: A guide to theory and research. Hutchinson, KS: Hutchinson Educational.

Pask, G. (1976). Conversation theory: Applications in education and epistemology. New York: Elsevier.

Schaefer, D. J. (2001). Dynamics of electronic public spheres: Verbing online participation. Unpublished dissertation, Ohio State University, Columbus, OH.

Thomas, J. B., Clark, S. M., & Gioia, D. A. (1993). Strategic sensemaking and organizational performance: Linkages among scanning, interpretation, action, and outcomes. Academy of Management Journal, 36(2), 239–270.

Weber, K., & Glynn, M. A. (2006). Making sense with institutions: Context, thought and action in Karl Weick’s theory. Organization Studies, 27(11), 1639.

Weick, K. E. (1969). The social psychology of organizing. Reading, MA: Addison-Wesley.

Weick, K. E. (1993). The collapse of sensemaking in organizations: The Mann Gulch disaster. Administrative Science Quarterly, 628–652.

Weick, K. E. (1995). Sensemaking in organizations. Thousand Oaks, CA: Sage Publications.

Weick, K. E. (2003). Enacting an environment: The infrastructure of organizing. Debating organization: Point-counterpoint in organization studies. In R. Westwood & S. R. Clegg (Eds.), Debating organization: Point-counterpoint in organization studies (pp. 184–194). Oxford: Blackwell Publishing.

Weick, K. E. (2005). Managing the unexpected: Complexity as distributed sensemaking.Uncertainty and Surprise In Complex Systems: Questions On Working With The Unexpected, 51.

Weick, K. E. (2006). Faith, evidence, and action: Better guesses in an unknowable world.Organization Studies, 27(11), 1723–1736.

Weick, K. E. (2007). The generative properties of richness. The Academy of Management Journal, 50(1), 14–19.

Weick, K. E., & Roberts, K. H. (1993). Collective mind in organizations: Heedful interrelating on flight decks. Administrative Science Quarterly,357–381.

Weick, K. E., & Sutcliffe, K. M. (2001). Managing the unexpected: Assuring high performance in an age of complexity. San Francisco: Jossey-Bass.

Weick, K. E., Sutcliffe, K. M., & Obstfeld, D. (2005). Organizing and the process of sensemaking. Organization science, 16(4), 409.

Wenger, E. (1999). Communities of practice: Learning, meaning, and identity. New York: Cambridge University Press.

Wenger, E. (2001). Support communities of practice: A survey of community-oriented technologies. San Juan, CA: Self-published report.

Wenger, E. (2005a). Communities of practice in 21st-century organizations: Guide to establishing and facilitating intentional communities of practice. Quebec: CEFRIO.

Wenger, E. (2005b). Communities of practice: A brief introduction. Retrieved May 5, 2009, from http://www.vpit.ualberta.ca/cop/doc/wenger.doc

Wenger, E., McDermott, R. A., & Snyder, W. (2002). Cultivating communities of practice: A guide to managing knowledge. Boston, MA: Harvard Business School Press.

Wenger, E., & Snyder, W. M. (2000). Communities of practice: The organizational frontier. Harvard Business Review, 78(1), 139–146.

Wenger, E., White, N., Smith, J. D., & Rowe, K. (2005). Technology for communities. In E. Wenger (Ed.), Communities of practice in 21st-century organizations: Guide to establishing and facilitating intentional communities of practice. Quebec: CEFRIO.

Bibliotecários: o marketing digital precisa das habilidades de vocês

por Laurel Norris, para o CMS Wire

A American Library Association (ALA) postou 2,386 empregos de bibliotecários em 2015.

Hoje em dia a ALA nem sempre posta todo trabalho disponível. Mas com o National Center for Education Statistics dizendo que 6,983 pessoas possuíram uma graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação no ano acadêmico de 2012-2013, podemos dizer que existe um desequilíbrio entre o número de graduados e o número de trabalhos bibliotecários tradicionais disponíveis.

Esse desequilibrio contribuiu para que a revista Fortune incluísse a Ciência da Informação como um dos 15 piores graduações para empregos em sua lista de 2016?

Talvez, mas nem tudo está perdido.

Se você possui habilidades modernas de biblioteconomia como desenvolvimento de taxonomia, gestão de sistemas web, análise de dados, arquitetura e literacia da informação, você está qualificado para trabalhar em vários departamentos de marketing.

Pessoas com graduação em Ciência da Informação estão fazendo gestão de conteúdo, dando forma à estratégias de marketing e organizando ativos digitais para companhias no mundo todo.

Como conseguir um trabalho em Marketing com habilidades de biblioteconomia

Os melhores conselhos para bibliotecários que buscam carreira no marketing ou em qualquer outra área, vem da taxonomista do Etsy Jenny Benevento.

“As empresas precisam de um certo conjunto de habilidades e o que acontece é que coincidentemente essas são as habilidades que você tem quando você se forma em biblioteconomia – mas eles não necessariamente colocam a palavra biblioteconomia num anúncio de vaga. Vários bibliotecários esperam até que alguém peça por um bibliotecários ou algo muito específico”, ela explica.

“Uma das principais habilidades bibliotecárias são pesquisa e palavras-chave. Minha recomendação é utilizar essas habilidades e buscar vagas através de palavras-chaves de coisas nas quais você é bom em sites de emprego – não apenas em sites de empregos da área, mas de qualquer área.”

Outro benefício de listas suas habilidades em palavras-chaves está no fato de que talvez você comece a perceber habilidades as quais você não tem – especialmente se esta é uma indústria nova pra você. Para Benevento, é uma oportunidade para expandir. “Talvez você não consiga aquele emprego em específico, mas veja anúncios de vagas e tente perceber que tipos de habilidades são colocadas juntas. Se existem habilidades complementares que você não tem, aprenda-as”.

Ela leva as palavras-chaves um pouco além e usa palavras-chaves que representam suas habilidades em seu perfil no LinkedIn.

“Eu coloco talvez cinco termos para o que eu faço no primeiro parágrafo do meu perfil do LinkedIn, como taxonomia, tesauro e metadados, apenas descrevendo minhas habilidades no máximo de palavras-chave possíveis… Tantas pessoas entram em contato comigo pelo LinkedIn e se você for pensar em quem está realizando buscas no LinkedIn, são recrutadores e head hunters que não necessariamente entendem de metadados ou taxonomia. Eles apenas buscam esses três termos e chamam a primeira pessoa que aparece. Basicamente o que estou dizendo é: use suas habilidades bibliotecárias para aparecer através do SEO”.

O talento da Benevento para se otimizar na busca de recrutadores a levou a uma invejável carreira em marketing, estratégia de conteúdo e taxonomia.

Pensando fora da caixa da biblioteca

Benevento não é a única graduada em biblioteconomia a desenvolver uma carreira fora do papel bibliotecário tradicional. Durante uma discussão que aconteceu no encontro anual de 2016 do Special Libraries Association (SLA), três bibliotecários discutiram suas carreiras como criadores de conteúdo e editores. Vamos das uma olhada em suas carreiras.

Caitlin Nitz é diretora de marketing de conteúdo na agência de estratégia digital Blue State Digital. Depois de concluir biblioteconomia ela começou uma graduação em propaganda, trabalhando para a Association of National Advertisers. Lá era levantou e compilou apresentações de marketing para compartilhar como parte do Marketing Knowledge Center de 9 mil itens. Mais tarde ela atuou como gestora do Centro antes de se mudar para a área de estratégia de conteúdo e então o seu atual papel.

Liz Aviles começou no mundo de marketing e conteúdo em 1999 com “potty postings” na agência de marketing Upshot, onde ela ainda trabalha. Os potty postings eram planilhas de uma página de informações que ela e o time dela compartilhavam nos banheiros. As habilidades de Aviles de curadoria, análise e identificação de informação importante garantiram a ela seu atual papel como vice presidente de inteligência de marketing.

Hillary Rengert começou sua carreira como bibliotecária no ramo da rua 96 do sistema de bibliotecas públicas de Nova Iorque. Depois de dois anos, ela se tornou bibliotecária de pesquisa e em 2004 ela se juntou ao eMarketer como pesquisadora sênior. Ela agora é a Vice Presidente de pesquisa da organização.

Onde estão os trabalhos hoje

Ainda sem saber como começar sua busca? As seguintes vagas oferecem boas oportunidades para bibliotecários em marketing. Enquanto essas vagas foram listadas recentemente, incluí uma pequena descrição caso elas sejam encerradas.

  • Gestor de Mídia, Marca, BuzzFeed — Esta vaga é um bom exemplo do que Benevento chama de cluster de habilidades. O BuzzFeed está em busca de alguém com experiência em bibliotecas de bases de dados digitais, arquivos e tagging – e também conhecimento de padrões de dados de vídeos específicos e opções de arquivos. Se você tem as habilidades e interesse em vídeo, procure por oportunidades de estágio ou trabalhos freelance para se preparar para um trabalho assim.
  • Coordenador de Ativos Digitais, Memorial Sloan Kettering Cancer Center — Um papel admnistrativo de ativos digitais clássico, o coordenador de ativos digitais é responsável por gerir copyrights e diretrizes de direitos, determinando e aplicando metadados aos ativos, e apoiando usuários dos mesmos. As habilidades requeridas estão alinhadas com profissionais de biblioteca, como gestão da informação, comunicação e organização.
  • Especialista em Conteúdo Digital, Dignity Health — Esta vaga combina vários conjuntos de habilidades: sistemas de gestão (DAM e sistemas de conteúdo), avaliação analítica, habilidades arquivísticas, gestão de projetos e marketing. Com algumas adições, treinamento em taxonomia, catalogação e auditoria de sistemas é um bom lugar para começar a adicionar mais habilidades em desenvolvimento de conteúdo e métricas.
  • Coordenador de Ativos Digitais, New Balance — A principal responsabilidade do Coordenador de Ativos Digitais é manter o sistema de DAM rodando. Isso inclui administração de usuários, gestão de ativos no sistema, manter a qualidade da marca, atender aos direitos legais dos ativos e fazer relatórios de avaliação.
  • Assistente Técnico em Imagens, The Getty — Embora não seja tecnicamente uma vaga de marketing (e com um museu), eu incluo essa vaga temporária no museu Paul J. Getty Museum porque é um exemplo de como ganhar habilidades complementares. As principais atividades incluem coisas como compilação de arquivos digitais, catalogá-los, aplicar convenções de nomeação e tarefas pós-processamento. Embora conhecimento em Adobe Photoshop e correção digital de cor estejam listadas, nenhuma experiência é necessária. Um ótimo trabalho para começar a construir uma nova habilidade profissionalmente.

Os motivos pelos quais os bibliotecários no mercado deveriam buscar a área de marketing estão bem claros. Habilidades em taxonomia, metadados, sistemas para web, análise de dados, arquitetura e literacia da informação são apenas algumas que você pode oferecer e que possui alta demanda.

Imagem “Librarian” (CC BY-SA 2.0) por valkyrieh116

Aqui estão todos os dados que o Pokemon Go está coletando do seu telefone

A companhia por trás do jogo está colecionando dados dos jogadores. E definitivamente está conseguindo pegar todos.

sub-buzz-1106-1468259502-9

sub-buzz-5926-1468349136-2Originalmente postado em 11 de julho de 2016 às 3:38 p.m.
Atualizado em 12 de julho de 2016 às 3:20 p.m.
por Joseph Bernstein, reporter do BuzzFeed News

Atualização: em um anúncio anexado ao primeiro patch do jogo, lançado hoje, a Niantic disse que “consertou o escopo de conta do Google”. Usuários de iOS que fizeram log off e log in no jogo de novo com o Google verão a tela ao lado, com as duas permissões que agora o jogo requere: ID de usuário do Google e endereço de e-mail.

Nos últimos cinco dias delirantes desde o seu lançamento americano, o Pokémon Go se tornou uma sensação econômica e cultural. Baixado por milhões de pessoas, o jogo aumentou o valor de mercado da Nintendo em U$ 9 bilhões (e contando), deu um belo exemplo de realidade aumentada enquanto formato de jogo do futuro e fez acontecer uma quantidade inimaginável de encontros na vida real completamente estranhos, assustadores e aleatórios.

E enquanto milhares de usuários andam pelo país colecionando Pikachus e Jigglypuffs, o spin-off da Alphabet, a Niantic Inc. que desenvolveu o jogo está colecionando informações sobre os colecionadores. E está definitivamente conseguindo pegar todas.

Como a maioria dos aplicativos que trabalham com GPS nos smartphones, Pokémon Go pode dizer uma série de coisas sobre você baseado na sua movimentação enquanto joga: onde você vai, quando você foi lá, como você conseguiu chegar lá, por quanto tempo ficou e quem mais estava por lá. E, como vários desenvolvedores que construíram estes apps, a Niantic mantém essa informação.

De acordo com a política de privacidade do Pokémon Go, a Niantic pode colecionar – entre outras coisas – seu endereço de email, endereço de IP, a web page que você estava usando antes de fazer login no Pokémon Go, seu username e sua localização. E se você utiliza a sua conta Google para se logar e usa um dispositivo iOS, a menos que você especificamente revogue isso, a Niantic tem acesso à toda a sua conta no Google. Isso significa que a Niantic pode ter acesso ao seu e-mail (leitura e escrita), documentos de Google Drive e mais. (Também significa que se os servidores da Niantic forem hackeados, quem quer que tenha hackeado estes servidores potencialmente também terá acesso à toda a sua conta no Google. E você pode apostar que toda essa popularidade do jogo fez com que ele se tornasse um alvo para hackers. Dado o número de crianças jogando, isso é meio assustador). Você pode checar que tipo de acesso a Niantic tem à sua conta Google aqui.

A empresa também pode compartilhar essa informação com outras, incluindo a Pokémon Company que desenvolveu o jogo, “provedores de serviços terceirizados” e “terceiros” para conduzirem “pesquisa e análise, perfil demográfico e outros propósitos similares”. Pode também, pela política, compartilhar qualquer informação que colete com a aplicação da lei em resposta à uma reivindicação legal para proteger seus próprios interesses, ou bloquear “atividades ilegais, antiéticas ou juridicamente acionáveis”.

Agora, nenhuma destas disposições de privacidade são únicas por si sós. Apps baseados em localização como o Foursquare ou Tinder podem e fazem coisas similares. Mas mapa de dados bloco a bloco incrivelmente granular do Pokémon Go, combinado com sua afluente popularidade, pode logo se tornar, se já não for, o gráfico social baseado em geolocalização mais detalhado já compilado.

E está tudo, ou ao menos a maior parte, nas mãos da Niantic, uma pequena companhia de desenvolvimento de realidade aumentada com intensas raízes no vale do Silício. As origens da companhia datam desde a startup de visualização de dados geoespaciais Keyhole Inc., a qual o Google adquiriu em 2004; teve papel crucial no desenvolvimento do Google Earth e do Google Maps. E embora a Niantic seja uma derivada da Alphabet do final do ano passado, a empresa-mãe do Google ainda é um dos seus principais investidores, assim como a Nintendo, que é dona da maior parte das ações na Pokémon Company. De fato, o Google ainda tinha posse da Niantic quando o desenvolvedor lançou o seu primeiro jogo, Ingress, que foi o que a Niantic usou para coletar as locações para os Pokéstops e ginásios gerais do Pokémon Go.

Em uma declaração ao Gizmodo na segunda à noite, a Niantic disse que eles começaram a trabalhar em um erro e verificaram com o Google que nada além das informações básicas de perfil tinham sido acessadas.

Recentemente descobrimos que o processo de criação de conta no Pokémon GO no iOS erroneamente requere permissões de acesso completo para a conta do usuário do Google. No entanto, o Pokémon GO acessa apenas as informações básicas de perfil do Google (especificamente, seu User ID e e-mail) e nenhuma outra informação de conta é ou tem sido acessada ou coletada.

Uma vez que descobrimos este erro, nós começamos a trabalhar em uma reparação de erro no cliente para requerer permissão apenas para informações básicas de perfil do Google, alinhado com os dados que acessamos de verdade. O Google verificou que nenhuma informação tem sido recebida ou acessada pelo Pokémon GO ou pela Niantic.

O Google em breve reduzirá a permissão do Pokémon Go para apenas os dados básicos de perfil necessários e para que os usuários não precisem tomar ações nenhuma.

Dado o fato de que o Pokémon Go já tem milhões de usuários e que já atraiu a atenção da aplicação da lei, parece provável que em algum momento a polícia vai tentar fazer com que a Niantic libere informações dos usuários. E se o histórico do Google servir para qualquer indicação – um relatório feito no início do ano mostrou que a companhia cumpriu 78% dos pedidos de aplicação da lei para dados de usuários – eles provavelmente estão preparados para cooperar.

Salvem os mantenedores

por Lee Vinsel e Andrew Russell, para a Aeon.co

O capitalismo se destaca na inovação mas está falhando na manutenção e
para a maioria das pessoas é a manutenção o que mais importa

Inovação é uma ideologia dominante da nossa era, adotada nos Estados Unidos pelo Vale do Silício, Wall Street e a elite política de Washington DC. Uma vez que a busca por inovação inspirou tecnólogos e capitalistas, ela também provocou críticas que suspeitam que os mascates da inovação superestimam radicalmente a inovação. O que acontece depois da inovação, argumentam, é mais importante. A manutenção e o reparo, a construção de infraestruturas, o trabalho mundano que providencia a sustentação e o funcionamento de infra estruturas eficientes, simplesmente tem mais impacto nas vidas diárias das pessoas do que a vasta maioria das inovações tecnológicas.

Os destinos das nações em lados opostos na Cortina de Ferro ilustram os bons motivos que levaram à ascensão da inovação enquanto conceito de buzzword e organização. Ao longo do percurso do século XX, sociedades abertas que celebraram a diversidade, a novidade e o progresso performaram melhor do que sociedades fechadas que defendiam a uniformidade e a ordem.

No final dos anos 60 em face à guerra do Vietnã, a degradação ambiental, os assassinatos de Kennedy e King e outras frustrações sociais e tecnológicas, ficou cada vez mais difícil para muitos ter fé no progresso moral e social. Para substituir o progresso, a ‘inovação’, um conceito menor e moralmente neutro surgiu. A inovação providenciou uma forma de celebrar as realizações de uma era high-tech sem esperar muito dela em relação à questões de melhorias sociais e morais.

Antes dos sonhos da Nova Esquerda terem sido destruídos por massacres em My Lai e Altamont, economistas já tinham se voltado para a tecnologia para explicar o crescimento econômico e o alto padrão de vida em democracias capitalistas. Começando nos anos 50, os proeminentes economistas Robert Solow e Kenneth Arrow descobriram que explicações tradicionais – mudanças na educação e no capital, por exemplo – podiam não ser responsáveis por parcelas significativas de crescimento. Eles pensaram na hipótese de a mudança tecnológica ser o fator X escondido. Sua busca caiu como uma luva com todas as maravilhas tecnológicas que foram consequências da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e a mania pós-Sputinik por ciência e tecnologia, e a visão pós-guerra de abundância material.

O importante livro de Robert Gordon, The Rise and Fall of American Growth (A Ascenção e Queda do Crescimento Americano, em tradução livre), oferece uma história mais abrangente desta era de ouro na economia Americana. Como Gordon explica, entre 1870 e 1940, os Estados Unidos experimentaram um período sem precedentes – e provavelmente irrepetível – de crescimento econômico. Aquele século viu uma série de novas tecnologias e novas industrias sendo criadas, incluindo a elétrica, química, telefonia celular, automóveis, rádio, televisão, petróleo, gás e eletrônicos. A demanda por uma variedade de novos equipamentos de casa e utensílios de cozinha, que, normalmente, tornam a vida mais fácil e mais suportável, impulsionou o crescimento. Após a Segunda Guerra Mundial, os americanos trataram as novas tecnologias de consumo como procurações para o progresso social – mais famosamente, no ‘Kitchen Debate’ de 1959 entre o vice-presidente norte americano Richard Nixon e o premier soviético Nikita Kruschev. Críticos se questionaram se Nixon tinha sido sábio em apontar aparelhos modernos tais como liquidificadores e máquinas de lavar como emblemas da superioridade americana.

Mesmo assim, o crescimento estava fortemente amarrado à melhoria social contínua. Uma vez que industrias mais velhas amadureceram e declinaram, ‘novas industrias associadas com novas tecnologias’ teriam ascendido para tomarem seus lugares.

Ainda, essa necessidade para novas indústrias emergentes se tornou problemática uma vez que os Estados Unidos foi em direção aos tempos difíceis dos anos 70 e início dos anos 80. Setores econômicos inteiros, a indústria automobilística, por exemplo, se desvalorizou. Um novo termo – ‘política de inovação’ – surgiu, designado para estimular o crescimento econômico por apoiar mudança tecnológica, particularmente em face à competição econômica internacional com o Japão. O Vale do Silício, um termo que tinha acabado de surgir no fim dos anos 70, se tornou o exemplo de inovação nesta época.

No início dos anos 80, livros lançaram o Vale do Silício como uma terra de engenhosidade tecnológica quase mágica começaram a chegar ao mercado. A política de inovação focou-se mais e mais em ‘sistemas de inovação regional’ e ‘clusters de inovação’. Qualquer lugar era potencialmente o próximo Vale do Silício de X. Esse tema de localidade chegou em sua apoteose no livro de 2002 de Richard Florida, The Rise of the Creative Class (A Ascenção da Classe Criativa, em tradução livre), que argumentou que regiões sucediam por tornarem-se os tipos de lugares que os tipos comedores de granolas, andadores de bicicleta, criadores de código criativos queriam viver. O livro usou a palavra ‘inovação’ mais de 90 vezes e idealizou o Vale do Silício pesadamente.

Nos anos 90, acadêmicos e audiências populares também redescobriram o trabalho de Joseph Schumpeter. Schumpeter era um economista austríaco que defendeu a inovação e seu termo parceiro, empreendedorismo. Schumpeter visualizou o crescimento econômico e a mudança no capitalismo como um ‘vendaval de destruição criativa’, no qual as novas tecnologias e práticas de negócio ultrapassaram ou destruíram completamente as antigas. O pensamento neo-Schumpeteriano às vezes nos levou a uma montanha de academicismo dúbio e pensamento mágico, mais notavelmente, o tomo de 1997 de Clayton M Christensen, The Innovator’s Dilemma: The Revolutionary Book that Will Change the Way You Do Business. Agora em boa parte desconsiderado, o trabalho de Christensen exerceu tremenda influência, com sua ênfase em tecnologias ‘disruptivas’ que subjugou indústrias inteiras para fazer fortunas.

Na virada do milênio, no mundo dos negócios e da tecnologia, a inovação se transformou em um fetiche erótico. Exércitos de jovens magos da tecnologia aspiravam se tornar disruptivos. A ambição pela disrupção na busca pela inovação transcendeu a política, recrutando tanto liberais quanto conservadores. Políticos conservadores poderiam estripar o governo e cortar impostos em nome do fomento ao empreendedorismo, enquanto liberais poderiam criar novos programas voltados para patrocinar pesquisas. A ideia era vaga o suficiente para fazer quase qualquer coisa em seu nome sem sentir o mínimo de conflito, contanto que você entoasse o mantra repetidamente: INOVAÇÃO!! EMPREENDEDORISMO!!

Um consultor profissional em inovação aconselhou seus clientes a banirem a palavra em suas companhias. Ele disse que era só uma ‘palavra para esconder a falta de substância’

Alguns anos depois, no entanto, era possível detectar tremores de dissidência. Em um ensaio ácido entitulado ‘Innovation is the New Black‘ (Inovação é o Novo Preto, em tradução livre), Michael Bierut, escrevendo no Design Observer em 2005, lamentou a ‘mania de inovação, ou ao menos pela infinita repetição da palavra “inovação”’. Logo, até mesmo publicações de negócio começaram a levantar a questão de valor inerente. Em 2006, o The Economist notou que oficiais chineses tinham feito da inovação um ‘buzzword nacional’, ao mesmo tempo em que presunçosamente reportou que o sistema educacional da china ‘salienta a conformidade e faz pouco para patrocinar o pensamento independente’, e que as novas frases de efeito do Partido Comunista ‘em sua maioria acabam afundando em poças de retórica’. Mais tarde naquele ano a Businessweek alertou: ‘inovação está em grave perigo de se tornar uma buzzword superestimada. Estamos fazendo nossa parte aqui na Businessweek’. De novo na Businessweek, no último dia de 2008, o crítico de design Bruce Nussbaum retornou ao tema, declarando que a inovação morreu em 2008, morta por excesso de uso, mau uso, estreiteza, incrementalismo e fracasso em evoluir… No final, “inovação” provou ser fraca tanto tática quanto estrategicamente em face à economia e tumulto social’.

Em 2012, até o Wall Street Journal entrou em um ato de depredação da inovação, notando que ‘o Termo Começou a Perder Sentido’. Na época, contou-se ‘mais de 250 livros com “inovação” no título… publicados nos últimos três meses’. Um consultor profissional de inovação que foi entrevistado aconselhou seus clientes a banirem a palavra em suas companhias. Ele disse que era apenas ‘uma palavra para esconder a falta de substância’.

Surgiram evidências de que regiões de intensa inovação também possuem problemas sistêmicos com desigualdade. Em 2013, protestos surgiram em São Francisco por conta da gentrificação e estratificação social simbolizada pelos ônibus do Google e outros ônibus privados. Esses ônibus traziam empregados high-tech de suas casas caras, urbanas e modernas aos seus campus suburbanos exuberantes, sem expô-los à inconveniência do transporte público ou às vastas populações de pobres e sem teto que também chamam o Vale do Silício de casa. O sofrimento dramático e desnecessário exposto por tais justaposições de desigualdade econômica parece ser uma característica, não um bug de regiões altamente inovadoras.

A trajetória da ‘inovação’ a partir de seu núcleo, que valorizou a prática de publicizar sociedades distópicas, não é completamente surpreendente, em certo nível. Há um sentimento formuláico: um termo ganha popularidade porque ele ressoa em conjunto com o zeitgeist, alcança o status de buzzword, e então sofre de superexposição e cooptação. Agora mesmo, a fórmula trouxe à sociedade um questionamento: depois que a ‘inovação’ foi exposta como mercenarismo, há uma melhor forma de caracterizar relacionamentos entre sociedade e tecnologia?

Existem três formas básicas de responder esta questão. Primeiro, é crucial entender que tecnologia não é inovação. Inovação é apenas uma pequena parte do que acontece com tecnologia. Essa preocupação com a novidade é infeliz porque ela falha em levar em consideração as tecnologias de uso muito difundido, e obscurece a quantidade de coisas à nossa volta que são bem velhas. Em seu livro, Shock of the Old (2007), o historiador David Edgerton examina a tecnologia atual. Ele percebe que objetos comuns, como o ventilador elétrico e várias partes dos automóveis, permaneceram virtualmente não modificadas por um século ou mais. Quando temos essa perspectiva mais ampla, podemos contar diferentes histórias com ênfases geográficas, cronológicas e sociológicas drasticamente diferentes. As histórias mais mofadas sobre inovação focam-se em homens brancos e prósperos sentados em garagens em uma pequena região da Califórnia, mas seres humanos no Sul Global também vivem com tecnologias. Quais delas? De onde eles vem? Como são produzidas, utilizadas, consertadas? Sim, objetos de novidade preocupam os privilegiados e podem gerar grandes lucros. Mas os contos mais memoráveis de astúcia, esforço e preocupação que as pessoas direcionaram em relação às tecnologias existem bem além das mesmas velhas anedotas sobre invenção e inovação.

Segundo, por abrirmos mão da inovação, nós podemos reconhecer o papel essencial das infraestruturas básicas. ‘Infraestrutura’ é um termo bem mais não glamouroso, o tipo de palavra que teria sumido do nosso léxico há muito tempo se não apontasse para algo de importância social imensa. Notavelmente, em 2015 ‘infraestrutura’ veio ao foro de conversações em várias caminhadas da vida Americana. Na véspera de uma colisão fatal da Amtrak perto da Philadelphia, o presidente Obama lutou com o Congresso para passar o projeto de lei de infraestrutura que os Republicanos estavam bloqueando, mas finalmente aprovaram em dezembro de 2015. ‘Infraestrutura’ também se tornou o foco de comunidades acadêmicas em história e antropologia, aparecendo até mesmo 78 vezes no programa do encontro anual da Associação Antropológica Norte Americana. Artistas, jornalistas e até mesmo comediantes fizeram parte da luta, mais memoravelmente com o esquete hilário de John Oliver estrelando o Edward Norton e Steve Buscemi em um trailer para um blockbuster imaginário no mais enfadonho dos temas. No começo de 2016, o New York Review of Books trouxe ‘a mais séria e passiva palavra’ para a atenção de seus leitores, com um ensaio deprimente entitulado ‘A Country Breaking Down‘ (‘Um país deteriorando-se’, em tradução livre).

Apesar das recorrentes fantasias sobre o fim do trabalho, o fato central da nossa civilização industrial é a ocupação, muito do qual recai muito longe do domínio da inovação

O melhor dessas conversas sobre infraestrutura saem de questões técnicas estreitas para engajarem-se em implicações morais mais profundas. Fracassos em infraestrutura – acidentes de trem, falhas em pontes, alagamentos urbanos, etc. – são manifestações de e alegorias para o sistema político disfuncional americano, sua desgastada rede de segurança social e seu permanente fascínio por coisas brilhantes, novas e triviais. Mas, especialmente em alguns redutos do mundo acadêmico, um foco nas estruturas materiais do dia a dia pode ter uma reviravolta bizarra, como exemplificado em um trabalho que forneça ‘agência’ à coisas materiais ou embrulhe um fetichismo de comodity na linguagem de teoria da alta cultura, marketing escorregadio e design. Por exemplo, a série ‘Object Lessons’ da Bloomsbury possui biografias e reflexões filosóficas sobre coisas construídas por humanos, como a bola de golfe. Que vergonha seria se a sociedade americana amadurecesse ao ponto da superficialidade do conceito de inovação se tornasse algo claro, mas a resposta mais proeminente fosse uma fascinação igualmente superficial com bolas de golfe, geladeiras e controles remotos.

Terceiro, focar-se em infraestrutura ou em coisas velhas e já existentes ao invés de novas nos lembram da centralidade absoluta do trabalho que existe para manter todo o mundo funcionando. Apesar de fantasias recorrentes sobre o fim do trabalho ou a automação de tudo, o fato central de nossa civilização industrial é a ocupação e a maior parte desta ocupação recai fora do domínio da inovação. Inventores ou inovadores são uma pequena parcela – talvez algo entre um por cento – dessa força de trabalho. Se dispositivos devem render dinheiro, corporações precisam de pessoas para manufaturá-lo, vendê-lo e distribuí-lo. Outra importante faceta do trabalho tecnológico surge quando as pessoas usam de fato um produto. Em alguns casos, a imagem do ‘usuário’ poderia ser um indivíduo como você, sentando no seu computador, mas em outros caso, usuários finais são instituições – companhias, governos ou universidades que lutam para fazer as tecnologias trabalharem de modos que seus inventores ou criadores jamais imaginaram.

As menos apreciadas e desvalorizadas formas de trabalho tecnológico são também as mais banais: aqueles que reparam e mantém tecnologias que já existem, que foram ‘inovadas’ há muito tempo atrás. Essa mudança na ênfase envolve o foco nos constantes processos de entropia e des-fazer – que o acadêmico de mídia Steven Jackson chama de ‘pensamento do mundo destruído’ – e o trabalho que fazemos é deixá-los mais lentos ou detê-los, ao invés da introdução de coisas novas. Em anos recentes, acadêmicos produziram um número de estudos sobre pessoas que realizam este tipo de trabalho. Por exemplo, a pesquisadora em estudos da ciência Lilly Irani examinou os trabalhadores de baixa renda que higienizam informação digital na web, incluindo trabalhadores indianos que checam propagandas ‘para filtrar pornografia, álcool e violência’. Por que não estender este estilo de análise para pensar mais claramente sobre assuntos tais como ‘cyber segurança’? A necessidades de programadores e escritores de código no campo da cybersegurança é óbvia, mas deveria ser igualmente óbvio que vulnerabilidades fundamentais em nossas cyber estruturas são protegidas por guardas que trabalham em turnos de coveiros e equipes que reparam cercas e leitores de cartão de identificação.

Podemos pensar em trabalho que precisa de manutenção e reparo como o trabalho dos mantenedores, aqueles indivíduos os quais o trabalho mantém a existência ordinária seguindo, ao invés de introduzirem coisas novas. Uma breve reflexão demonstra que a grande maioria do trabalho humano, de lavanderia e remoção de lixo à trabalho de zeladoria e preparação de comida, é deste tipo: de manutenção. Essa percepção tem implicações significantes para relações de gênero na e acerca da tecnologia. Teóricas feministas argumentaram por muito tempo que obsessões com novidades tecnológicas obscurescem todo o trabalho, incluindo trabalho de casa, que mulheres, desproporcionalmente, fazem para manter a vida nos trilhos. Trabalho doméstico tem ramificações financeiras imensas mas fica fora amplamente da contabilidade econômica, como Produto Interno Bruto. Em seu clássico livro de 1983 More Work for Mother, Ruth Schwartz Cowan examinou tecnologias domésticas – tais como máquinas de lavar louça e aspiradores de pó – e como eles se encaixam no trabalho incessante das mulheres de manutenção doméstica. Uma de suas descobertas mais interessantes foi que as novas tecnologias de manutenção doméstica, que prometiam diminuir a carga de trabalho, literalmente criaram mais trabalho para as mães uma vez que os padrões de limpeza aumentaram, deixando as mulheres perpetuamente incapazes de lidar com tudo.

Não há sentido em manter a prática de uma adoração de herói onde meramente muda o cast de heróis sem confrontar os problemas mais profundos

Nixon, errado em tantas coisas, também estava errado em apontar eletrodomésticos como indicadores auto-evidentes do progresso americano. Ironicamente, o trabalho de Cowan encontrou ceticismo de acadêmicos homens que trabalhavam com a história da tecnologia, de quem o histórico era um panteão masculino de inventores: Bell, Morse, Edison, Tesla, Diesel, Shockley, e por aí vai. Um foco renovado sobre a manutenção e reparo também tem implicações além das políticas de gênero que o More Work for Mother trouxe à luz. Quando eles colocam a obsessão com inovação de lado, acadêmicos podem confrontar vários tipos de trabalhos de baixa renda performados por vários norte americanos negros, latinos e outras minorias étnicas e raciais. A partir desta perspectiva, lutas recentes sobre o aumento do salário mínimo, inclusive para trabalhadores de fast food, podem ser vistos como argumentos pela dignidade de ser um mantenedor.

Organizamos uma conferência para trazer o trabalho dos mantenedores em um foco mais claro. Mais de 40 acadêmicos responderam a chamada para artigos perguntando ‘O que está em jogo se retirarmos a academia da inovação e ao encontro da manutenção?’ Historiadores, cientistas sociais, economistas, administradores, artistas e ativistas responderam. Todos querem falar sobre a tecnologia fora da sombra da inovação.

Um tópico de conversação importante é o perigo de mover-se muito triunfantemente da inovação para a manutenção. Não há motivo em manter a prática de adoração de herói onde meramente muda-se o cast de heróis sem confrontar um dos problemas mais profundos subjacentes à obsessão por inovação. Um dos problemas mais significantes é a cultura dominada por homens na tecnologia, manifestado em recentes constrangimentos tais como a flagrante misoginia no ‘#GamerGate’ há alguns anos atrás, bem como a persistente diferença entre salários entre homens e mulheres exercendo o mesmo trabalho.

Há uma necessidade urgente de contarmos mais direta e honestamente com nossas máquinas e nós mesmos. Ultimamente, enfatizando a manutenção envolve ir de buzzwords para valores, e de meios para fins. Em termos formais econômicos, ‘inovação’ envolve a difusão de novas coisas e práticas. O termo é completamente agnóstico sobre essas práticas serem boas ou não. Crack, por exemplo, era um produto muito inovador nos anos 80, que envolvia uma grande quantidade de empreendedorismo (chamado ‘traficar’) e gerava muito retorno. Inovação! Empreendedorismo! Talvez este ponto seja cínico, mas chama nossa atenção para uma realidade perversa: o discurso contemporâneo trata a inovação como um valor positivo por si só, quando ele não é.

Sociedades inteiras vem falar sobre inovação como se fosse um valor inerentemente desejável, como amor, fraternidade, coragem, beleza, dignidade ou responsabilidade. Fazem adorações sobre inovação no altar da mudança, mas raramente se perguntam sobre a quem beneficia, e com qual fim? O foco na manutenção provê oportunidade para fazer perguntas sobre o que realmente queremos das nossas tecnologias. Com o que realmente nos importamos? Que tipo de sociedade queremos viver? Isso nos ajudará a chegar lá? Devemos mudar de meios, incluindo tecnologias que sustentam nossas ações do dia a dia, para fins, incluindo os vários tipos de benefícios e melhorias sociais que a tecnologia pode oferecer. Nosso mundo cada vez mais desigual e temeroso agradeceria.

Lee Vinsel é professor assistente de estudos de ciência e tecnologia no Stevens Institute of Technology em Hoboken, New Jersey. Ele está trabalhando no livro Taming the American Idol: Cars, Risks, and Regulations.

Andrew Russell é professor associado e diretor do programa em estudos da ciência e tecnologia no Stevens Institute of Technology em Hoboken, New Jersey. Ele é o autor do Open Standards and the Digital Age (2014) e co-editor do Ada’s Legacy (2015).

O valor no desenvolvimento de uma taxonomia para lojas online

por Craig Fox para a PinnacleCart

Tendo uma pequena loja, apenas o fato de manter o controle de inventário e estoque da sua loja online pode tomar 90% do seu tempo disponível – considerar o uso de taxonomia para a sua loja online pode parecer como qualquer outra tarefa pra lista de ‘fazer depois’. No entanto, gerir e revisar a taxonomia de sua loja online pode te ajudar a desenvolver conteúdo, otimizar SEO, desenvolver um plano de vendas e criar oportunidades naturais de vendas cruzadas e aumento de vendas.

Então, o que é taxonomia? Taxonomia é um termo técnico que se refere à classificação de itens. Em qualquer site isto seria considerado o agrupamento de conteúdo para o mapa do site; em e-commerce isso significa identificar em categorias agrupamentos naturais e específicos de produtos da loja.

Se você vende sapatos online as categorias naturais podem ser:

  • Sapatos esportivos
  • Sapatos sociais
  • Sapatos casuais
  • Botas

Essas categorias seriam divididas no futuro em sub-categorias dependendo do tipo de conhecimento que você tiver de seus clientes. Uma versão poderia ser:

  • Sapatos sociais
    • Sapatos Sociais Femininos
    • Sapatos Sociais Masculinos
    • Sapatos Sociais Infantis

 

Ou talvez a sua loja online apenas atenda mulheres e você criaria sub-categorias assim:

  • Sapatos Sociais
    • Salto Alto
    • Plataforma
    • Anabella
    • Sandálias

 

Ou talvez você gostaria de começar por materiais – couro, camurça, tecido; ou por estação – verão, outono, inverno, primavera. Tudo depende do conhecimento que você tiver de seus clientes, suas preferências de compra, as quais você pode identificar a partir de dados anteriores, termos de busca do seu software deanalytics ou até mesmo a partir de pesquisas feitas com clientes.

Agrupamentos específicos de produtos de lojas online podem ser taxonomias que você cria para dar apoio à uma venda ou grupo de consumidores em específico – tais como “Sandálias de Verão”, “Básicos da Moda” ou “Estilos Mais Populares Para Pés Largos”. Estas são coleções que você fará a curadoria manualmente baseado no seu conhecimento do produto ou em dados sobre vendas e padrões de compras dos clientes, que você pode obter a partir da plataforma da sua loja online.

Uma vez que você criou uma taxonomia lógica baseada nas informações dos clientes, você pode começar a trabalhar otimizando suas páginas de categoria para SEO orgânico, identificando as principais palavras-chaves para aquele grupo que deve aparecer na página. Use sua pesquisa de termos para guiar o modo como você nomeará a página, como você estruturará sua URL e o conteúdo que você criará para a página, incluindo cópia, imagens e vídeos.

Enquanto você cria suas categorias e as popula com os produtos apropriados, você começará a ver os padrões de lacunas naturais ou estoque excessivo em certas categorias. Faça com que essa informação seja insumo para o seu plano de vendas – procure novos produtos para preencher categorias sazonais ou categorias populares e volte-se para aqueles que não estão vendendo bem, ou mova alguns itens para uma seção promocional. Se você sempre faz um grande esforço para fazer a gestão do aumento de vendas e vendas cruzadas, sua taxonomia organizada fará com que você selecione os produtos apropriados num estalar de dedos. Até que você tenha tempo pra revisar seus dados de venda para determinar padrões de compra comuns, você pode utilizar os grupos de produtos para preencher essas lacunas.

Deus da Indecisão

Estava traduzindo um texto quando de repente me deparo com a frase:

This Janus-like stance might seem difficult enough in a stable world, but the reality of library naming practices is made much worse by time, by technology, by the nature of language, and by social change.

Procurei o que viria a ser Janus pois mitologia nunca foi meu forte, infelizmente. Notei que Janus na verdade é Jano em português também. Aí pude entender melhor o conceito de Jano e o que o autor quis dizer ao utilizá-lo, naquele contexto. Janeiro veio de Jano, que é o deus dos términos e começos. Deus das portas. Deus da indecisão. Duas cabeças que não falam a mesma língua. Uma cabeça que olha para o passado e outra que olha para o futuro.

No texto o autor trata sobre o processo de indexação e de como a nomeação (e consequente representação) de determinados itens é designada através de significados, e de como os significados são estabelecidos pelo uso, e de como o uso é modificado pelo tempo. De como o bibliotecário precisa ter uma postura como a de Jano para atuar no processo de indexação, olhando para termos inscritos não como se fossem estáticos, esculpidos em pedra para toda a eternidade. Mas enxergar a linguagem pela sua natureza e outras variáveis tais como a tecnologia, a cultura, a história, as mudanças sociais, o tempo…

Me sinto um pouco assim com a minha própria vida. Sinto que uma postura de Jano me ajudaria um bocado, em vários sentidos. Embora a indecisão, por algumas vezes, faça um certo tipo de morada e pareça permanente.

Que Jano me proteja.

Imagens de Bibliotecários na Ficção Científica e Fantasia, por Marcia J. Meyers

(Originalmente  publicado em 29 de maio de 2011)

Encontrei esse estudo em 8 de março de 2011, através de um tumblr da Pop Library. A pesquisa estava em acesso livre, disponível para download na base de dados ERIC (Education Resources Information Center). Resolvi me engajar nessa tradução porque acredito que outros estudantes também possam estar interessados no tema. Descritores (oferecidos pela autora): Autores; Caracterização; Fantasia; Ficção; Futuros (da Sociedade); Cientistas da Informação; Bibliotecários; Desenvolvimento de Biblioteca; Serviços Bibliotecários; Revisões de Literatura; Romances; Ficção Científica; Diferenças de Gênero; Estereótipos.

Em seguida publicarei aqui a lista comentada feita pela autora, que contém 27 itens, sendo 26 livros e 1 filme. O .pdf com a pesquisa na íntegra pode ser encontrado no meu Slideshare.

Amazon: de nada! :)

Quaisquer erros de tradução encontrados tanto por aqui quanto no .pdf, favor entrar em contato (e corrigir de preferência) via comentários. Obrigada.

Legenda:

* Obras que mencionam bibliotecários apenas em passagens
** Obras que contém uma cena memorável
*** Obras onde bibliotecários tem papéis principais

Asimov, Isaac. The Second Foundation (New York: Street and Smith, 1948). ***

Este é o volume três na trilogia da Fundação que mais tarde tornou-se uma série de futuros-distantes. O bibliotecário Homir Munn um dos cinco conspiradores da sinopse central, é um gago descrito como “frouxo”, “tímido” e “introvertido”. Quando chamado para uma missão fora do planeta Munn diz “não sou um homem de ação; e nem um herói de televisão. Sou um bibliotecário”. Quando ele retorna para revelar os resultados de sua pesquisa, Munn não mais gagueja e comporta-se com tanta auto-confiança que torna-se suspeito por seus co-conspiradores. Eles sujeitam Munn a uma análise cerebral que revela que alguém adulterou a sua mente. Ele é preso, amordaçado e não tem mais um papel principal na história. O comportamento estereótipo dá a imagem deste bibliotecário uma avaliação geral negativa. Asimov transmite que bibliotecas e bibliotecários são elementos importantes na sociedade do futuro. A série Foundations ganhou um o Special Hugo Award pela melhor série de 1966.

Bear, Greg. Eon (New York: Bluejay Books Inc. 1984). *

A história começa em 2000 quando um grande asteróide oco repentinamente começa a orbitar a Terra. O asteróide, que já tinha sido habitado, agora é deserto. A cidade do asteróide tem uma excelente e moderna biblioteca bem como terminais nos aposentos particulares dos habitantes de antes. Mais para o final da história a heroína é raptada e transportada em um milhão de quilômetros para a sociedade avançada que construiu o asteróide. Ela não tem permissão ao amplo acesso de seus dados mas oferecem-na uma pedagoga (bibliotecária) para ajudá-la com buscas e instruí-la. As bibliotecas asteróides, que contém informações chocantes para os pesquisadores, são elementos-chave neste romance estimulante.  As maravilhosas máquinas de bibliotecas certamente provêm uma visão positiva; entretanto, a breve referência àqueles que criaram essas bibliotecas resulta numa imagem neutra dos bibliotecários. A história é continuada na seqüência Eternity, que não menciona bibliotecários.

Brin, David. Sundiver (New York: Bantam, 1980). ***

Este é o primeiro livro que se tornou eventualmente uma dupla trilogia. Em 2246, a Terra é única na galáxia por ter erguido a si mesma e dois clientes – golfinhos e chimpanzés – sem orientação de uma civilização patrona. O diretor da biblioteca alienígena Branch estabelecida na Terra, Bubbaeub da espécie Phil, é um dos alienígenas mais importantes na Terra. Seu bibliotecário assistente é Culla da espécie Pring. A biblioteca opera em uma taxa exigente para a base de serviços. Ambos bibliotecários extraterrestres participam em uma investigação de formas de vida desconhecidas próximas do Sol. Os personagens e os relacionamentos entre as várias espécies são muito bem desenvolvidos. Os bibliotecários projetaram uma imagem negativa mista no romance porque ambos tornaram-se vilões!

Dick, Phillip K. Counter-Clock World (Boston: Gregg Press, c1967, 1979). ***

Um romance irônico e contemporâneo desenvolvido num mundo que começou a viver de trás pra frente em 1986. A biblioteca desta história tem o objetivo de expurgar a informação ao invés de estudá-la ou preservá-la. Os vívidos personagens incluem Mavis McGuire, bibliotecário chefe na People’s Topical Library, que tem uma equipe de 100 pessoas. Mrs. McGuire é vista como “megera”, “hostil” e “má” pelos usuários e por subordinados como administradora superiora – respeitada mas temida. Ela torna-se a vilã com agentes, incluindo crianças que cresceram no serviço da biblioteca e cometiam crimes em nome dela. As manipulações de Mrs. McGuire e sua filha eventualmente resultam na evacuação da biblioteca um pouco antes de sua destruição, com um canhão atômico de uma população com ódio. Esse complexo romance de ressurreição tem uma biblioteca de anti-informação e uma bibliotecária-chefe com uma imagem muito negativa.

Edghill, Rosemary. The Empty Crown (New York: Guild America Books, 1998). ***

Esta trilogia, escrita por uma bibliotecária, inclui três histórias de tesouros da terra de Chandrakar – The Sword of Maiden’s Tears, The Cup of Morning Shadows e o The Cloak of Night and Daggers.  Ruth, a heroína de trinta anos, é uma estudante de biblioteconomia sensível que encontra um senhor elfo machucado nas ruas de Nova Iorque. Ele é Rohannahn Melior da Casa dos Silêncios Prateados em Chandrakar, e ele deve encontrar a espada que os ladrões levaram dele ou a raça humana no Mundo de Ferro da Terra estará condenada. Ruth, que se torna biblioteária, e Melior solucionam este e outros problemas com a ajuda inteligente de amigos bibliotecários. Suas aventuras coloridamente escritas acontecem na Terra e continuam através de um portal na biblioteca em Chandrakar. A autora transmite uma imagem positiva dos bibliotecários. Os personagens apenas brevemente gastam seu tempo na biblioteca mas são frequentemente tidos como muito heróicos.

Forward, Robert. L. Dragon’s Egg (New York: Ballantine, 1980). *

Este conto trata das eras de 500,000 A. C. até 2050 D. C. de acordo com o desenvolvimento, descoberta, comunicação com e educação de e do chella fascinante que mora numa estrela de nêutron chamada “Ovo de Dragão”.  As espécies de um mundo baseado em nêutron têm dificuldade de se comunicar com humanos de um mundo baseado em elétrons porque o chella vive 100 anos a cada hora humana. A biblioteca chella contém pratos de tato que as espécies do tipo ameba lêem pressionando seus poros nas “páginas”. Quando confrontados com problema de barulho, a bibliotecária-chefe, que é membro do Conselho, faz com que os usuários fiquem quietos. O bibliotecário torna-se mais brando quando percebe que o barulho do usuário era causado quando ele percebeu que a formação do Ovo do Dragão causou a gênese dos homo sapiens. Essa história de ficção de hard science desenvolve belissimamente uma civilização inteira. A breve aparição bibliotecária resulta em uma imagem plana e neutra. Uma seqüência foi publicada em 1985 chamada Starquake.

Gerrold, David. Chess With a Dragon (New York: Walker, 1987). *

Gerrold é o pseudônimo de Jerrold David Friedman, o autor do clássico Star Trek “The Trouble with Tribbles“. Neste livro humanos da Terra caíram inadvertidamente em um grande débito intergaláctico por fazer o download de informação de alto valor do InterChange. Alguns críticos culpam os bibliotecários, referidos como hackers, por esse desastre da informação. O InterChange é descrito como o pesadelo bibliotecário uma vez que ele armazena registros completos de mais de 6 mil espécies, algumas com mais de meio milhão de anos de dados. A biblioteca é tão vasta que ninguém pode catalogá-la ou fazer o download do índice completo do computador. Os humanos eventualmente encontram uma solução inteligente ao seu dilema com a ajuda de Rh/attes, uma espécie nada atraente de “espiões” ou “delatores” que fornecem excelentes serviços de recuperação da informação por um preço. Os bibliotecários humanos, que não são completamente descritos, apresentam uma imagem de algum modo incompetente e negativa.

Gibson, William. Neuromancer (New York: Ace, 1984). *

O Cyberpunk é introduzido à ficção científica com um protagonista que protege sua consciência dentro e fora de uma rede de informação de computador. Há uma quebra na biblioteca de pesquisa Sensel/Net onde um construto tinha que ser fisicamente recuperado. Uma bibliotecária de rosto branco é encontrada encolhida entre dois armários. Suas bochechas estão molhadas e seus olhos brancos aterrorizados em reação à ameaça hoaxed utilizada para o arrombamento. A bibliotecária aparece muito brevemente e deixa apenas uma imagem neutra. Esse romance ganhou o Hugo Award e o Nebula Award em 1984.

Heinlein, Robert A. Friday (New York: Holt, Rinehart and Winston, 1982). **

Friday, uma super-mulher artificial, trabalha como uma mensageira secreta. Como parte de seu treinamento avançado, Friday deve reportar-se à bibliotecária-chefe. As chaves no terminal da biblioteca dão a ela acesso à biblioteca local e às principais bibliotecas tais como Harvard e o Museu Britânico sem necessidade de uma ligação humana ou de rede. Os livros em papel podiam ser lidos diretamente na tela do terminal se assim desejado. Sua pesquisa leva à Informação sobre a Morte Negra que é importante na trama. Ela aprende a lidar com o sistema praticamente sozinha uma vez que o bibliotecário está muito ocupado para mostrar o terminal a ela ou para responder perguntas. Entretanto, eventualmente ele disse a ela que ela poderia ter a mesma informação da biblioteca no terminal em seu quarto! Essa história de ação nos fornece uma visão breve porém memorável do futuro onde o bibliotecário tem um comportamento negativo de serviço.

Herbert, Frank. Direct Descent (New York: Ace Books, 1980).***

A biblioteca Galactica ocupa quase toda a superfície do planeta Terra no século 81. A biblioteca, o repositório de todas as coisas registradas de todo governo na história da galáxia, tem uma equipe de 8 mil pessoas auxiliadas por robôs. Pesquisadores do local recuperam imagens de páginas de materiais na coleção em telas de televisão. Os bibliotecários diretores e sua equipe encaram de forma inteligente o dilema de como preservar a biblioteca enquanto ainda aderem ao Código da Biblioteca que é o de obedecer todas as ordens diretas do governo que está no poder. Nos dois casos apresentados neste livro, o governo no poder está tentando destruir a biblioteca! O autor de Duna criou uma imagem muito positiva de uma biblioteca do futuro baseada em papel e de bibliotecários espirituosos.

Keller, David H. The Eternal Conflict (Philadelphia: Prime Press, 1949).***

Um psiquiatra e médico escreve sobre o conflito entre os sexos. O personagem principal é uma mulher, que é imortal, inteligente e poderosa. Em busca de satisfação, ela cria um castelo e traz a ele através das eras um bibliotecário e um matemático ancião. Com a ajuda da mulher, o bibliotecário cria sua biblioteca dos sonhos de um milhão de volumes, completa com arquivos de cartão. Quando ele não está jogando damas com o matemático, o bibliotecário tenta ajudar a mulher encontrar satisfação. O bibliotecário, caracterizado ao longo do romance, serve como figura paterna que projeta uma imagem positiva de serviço bibliotecário.

Laidlaw, Marc. The Third Force: A Novel of Gadget (New York: Simon & Schuster, 1996).***

A heroína é um membro da resistência e a bibliotecária-chefe da biblioteca Imperial; entretanto, essa posição não a concede liberdade de possuir cada documento na coleção nesta sociedade totalitarista. Uma identificação de impressão digital é requerida para a recuperação da informação. Todas as buscas são automaticamente gravadas e reportadas ao Departamento de Análise de Registros. Os códigos de identificação em cada livro estão sujeitos à mudança, e os livros são constantemente reorganizados pelo sistema de recuperação automática para que localizações de livros não possam ser memorizadas. Antes do final do livro a heroína deixa seu posto na biblioteca porque ela vê que a biblioteca é “uma cripta para o conhecimento agora. Ninguém pode pegar um livro emprestado sem temer por sua vida”. Essa novela baseada em um jogo de computador (Gadget) apresenta uma imagem positiva de uma bibliotecária preocupada e uma visão dramática da inutilidade de repositórios de conhecimento neste futuro potencial.

MacDonald, George. Lilith (London: Chatto and Winders, 1875).**

Uma grande biblioteca ocupa a maior parte do quarto do térreo na casa do herói. Mr. Raven, o bibliotecário antigo, aparece em intervalos regulares na biblioteca. Um dia o herói segue Mr. Raven em um mundo-espelho onde ele se torna um pássaro mas continua a dar recomendações e conselhos. Durante a jornada do herói no mundo-espelho, a perversa Lilith aparece, bem como Adam (também conhecido como Mr. Raven), a esposa de Mr. Raven Eva e uma figura materna chamada Mara. Este romance de sonho vitoriano é complexo e por muitas vezes confuso. Retrata bem uma biblioteca particular grande de antigamente e tem uma imagem positiva do bibliotecário inteligente (Mr. Raven, Adam) que remonta ao início dos homens.

McCaffrey, Anne. Dragonsdawn (New York: Ballantine Books, 1988).*

No futuro distante, seis mil colonos viajam em três espaçonaves por quinze anos para sua nova casa em Pern. A bibliotecária e historiadora oficial da colônia (General Cherry Duff) insiste que registros de todas as culturas étnicas devam ser levadas a Pern porque é impossível saber quando a informação será valiosa. Ela nota que a informação “não ocupa muito espaço nos chips que temos”. Vulcões ativos forçam os colonos a evacuarem o local de sua terra que está enterrado em poeira vulcânica. O prédio com a interface para a espaçonave recebe um selo de prova de calor. Quando o prédio enterrado é escavado, o computador (SEVIA – Sistema de Enderaçamento de Voz de Inteligência Artificial) é redescoberto no romance Os Renegados de Pern e muito utilizado no romance All the Weyrs of Pern. O autor menciona a biblioteca e o bibliotecário em uma passagem mas projeta uma imagem positiva com um bibliotecário de alto status que estabelece uma base de conhecimento excelente para os colonos de Pern.

McDevitt, Jack. Eternity Road (New York: HarperPrism, 1997).*

Esta história acontece na América do Norte depois que uma praga misteriosa destruiu o mundo. Livros são raros e apenas seis livros conhecidos sobreviveram ao desastre da praga. A heroína herda um livro de Mark Twain do líder da primeira expedição à legendária Haven na qual seu irmão morreu. Ela oferece o livro à biblioteca pública e decide buscar Haven. Uma cena próxima do fim da história ilustra vividamente a importância da biblioteca de Haven onde os livros são cuidadosamente colocados em gavetas em gabinetes. Esses livros redescobertos ajudam a estimular o crescimento da civilização. Essa aventura em ritmo acelerado dramatiza a importância de livros, bibliotecas e conhecimento. A profissão fica com uma imagem negativa quando o autor menciona em uma passagem que o papel do bibliotecário é copiar livros.

McMullen, Sean. Voices in the Light: Book One of Greatwinter (North Adelaide, South Australia: Aphelion Publications, 1994). ***

Este é o primeiro livro de uma trilogia. No século 39 na Austrália, a bibliotecária chefe chamada de Highliber, controla uma rede de bibliotecas e bibliotecários espalhados em várias nações. Ela é uma líder muito forte que mata pessoas em duelos sobre as modernizações em suas bibliotecas. Uma reorganização da biblioteca, a primeira em 505 anos, acontece pelo propósito de estabelecer um novo serviço Calculador que atua em funções do tipo computador usando ábacos e centenas de componentes humanos uma vez que não há eletricidade. Em relação a operar o Calculador, bibliotecários têm torres de comunicação Beamflash para administrar, aulas para ministrar, livros pra distribuir e colecionar e cerimônias para realizar. O autor, que é obviamente familiar tanto com o público e com aspectos de serviços técnicos de biblioteconomia, criou uma visão positiva e excitante onde as bibliotecas ainda são importantes e os bibliotecários lideram o avanço na civilização.

Miller, Walter M. Jr. A Canticle for Leibowitz (New York: J. B. Lippincott Company, 1959). **

A história acontece ao longo de vários séculos começando no século XXXII da Terra depois de uma guerra nuclear. Apenas alguns barris de livros originais e poucos textos copiados à mão, re-escritos pela memória, sobreviveram. Os monges replicaram práticas medievais em seu trabalho para preservar o conhecimento científico, que incluíam cópias, iluminuras e proteção de suas coleções. Os raros volumes em sua coleção são acorrentados para prevenir a remoção. Quando os monges reinventam as luzes elétricas, eles acabam com a biblioteca e o bibliotecário monge pergunta onde eles deveriam colocar uma biblioteca mecânica. Com outra guerra nuclear a espreita, padres selecionados e suas coleções escapam em uma nave espacial para Alpha Centauri. Esse é um romance brilhante sobre o futuro distante que sublinha a importância da preservação do conhecimento. Se monges são considerados bibliotecários, então é transmitida uma boa imagem; o bibliotecário/monge que é especificamente identificado transmite uma imagem mais inquieta, negativa. Esse romance ganhou o Hugo Award em 1961. Uma seqüência foi feita recentemente entitulada Saint Lebowitz and the Wild Horse Woman (New York: Bantam, November 1997).

Parsons, Rich and Keaveny, Tony. Colin the Librarian (Great Britain: Michael O’Mara Books Limited, 1993). ***

Colin foi promovido de auxiliar para assistente de bibliotecário na biblioteca Central de Clacton três anos depois de ter deixado a escola. Ele tem apenas 21 anos, não é muito alto, tem cabelo preto salpicado com caspa e ainda não se barbeia. O ponto focal de sua vida é a noite de sábado com jogos de RPG dos Amigos da Conqueror Society. Colin é visitado na biblioteca por Karp, o conquistador, que o envolve em aventuras no planeta Threa. Colin tem muito conhecimento sobre as Crônicas de Threa, o que é útil em suas aventuras. Eventualmente, ele é co-autor do quarto volume das Crônicas, que quando concluída com sucesso torna-se sua passagem de volta para a mesa de circulação da biblioteca. Colin é retratado negativamente como o herói fracote nesta paródia britânica de Conan, o Bárbaro.

Pratchett, T. The Light Fantastic (Buchinghamshire: Colin Smythe, 1986). **

O romance Discworld vividamente descreve o acidente mágico que transforma o bibliotecário chefe na universidade Unseen em um orangotango. Em sua mutação, o bibliotecário continua a exercer suas funções, o que não é fácil em uma biblioteca mágica onde as estantes brilham com magia e emitem cheiros azuis. Estranhas criaturas são atraídas pelo vazamento mágico entre os livros. Em uma cena incrível, o bibliotecário que é incapaz de falar, segura a mão de um usuário enquanto caminham até uma estante para localizar um livro. Ser um orangotango faz com que fique fácil para o bibliotecário escalar o topo das estantes para recuperar um livro, e o usuário o recompensa com uma banana. Essa fantasia nos dá uma perspectiva humorística em um futuro alternativo. O bibliotecário não-humano tem uma imagem positiva.

Sargent, Pamela. Earthseed (New York: Harper & Row, 1983). *

No futuro distante, uma espaçonave automatizada da Terra educa crianças para serem colocadas em um planeta não-habitado parecido com a Terra. A espaçonave opera uma biblioteca física bem equipada que contém microcircuitos com milhões de livros. A biblioteca também tem um cubo que dispõe hologramas da Terra. Uma vez que as crianças são deixadas no planeta, a espaçonave vai embora mas diz aos colonos que os deixou uma biblioteca para ajudá-los a construir uma civilização. A biblioteca da colônia tem ficas em microfichas, leitores e um bibliotecário — uma pequena caixa de metal que recomenda livros com uma voz macia. Entre os personagens principais, um deles parece viver na biblioteca, luta com suas dúvidas interiores e com outros colonizadores neste livro para jovens adultos. A biblioteca e a nave “bibliotecária” transmitem uma imagem positiva; entretanto, o bibliotecário caixa de metal deixado para os colonos cria apenas uma imagem neutra.

Soylent Green. MGM/UA Home Video, 1973, rated PG, aproximadamente de 1 hora e 37 minutos. **

Neste provocante filme ecológico que ocorre no ano de 2022 em Nova Iorque, com população de 40 milhões, Charles Heston começa como um detetive investigando o assassinado de um membro do conselho Soylent. Existe uma cena memorável na biblioteca (Exchange) que parece ser a maior fonte de informação de Nova Iorque. A respeitada bibliotecária do Exchange é chamada de “vossa excelência”. A bibliotecária é muito voltada para serviços, e a informação que ela oferece provoca uma grande reviravolta na trama. Stanley R. Greenberg escreveu o roteiro ou o filme que é vagamente baseado no livro Make Room! Make Room! de Harry Harrison (Boston: Gregg Press, c1966). Esse livro transmite uma visão muito positiva e impressionante de serviços de informação modernos onde os bibliotecários parecem ter uma grande quantidade de poder.

Stephenson, Neal. Snow Crash (New York: Bantam, 1992). **

Este romance cyberpunk acontece num futuro próximo principalmente em Los Angeles e o Metaverso, um universo gerado por computador. As cenas e personagens são descritos de modo inovador e vívido. O herói, Hiro Protagonist, um correspondente freelance da Central Intelligence Corporation (CIC) faz o upload de informações para a Biblioteca do Congresso que se fundiu com o CIC. Quando clientes encontram uso para algo na biblioteca, o fornecedor freelance consegue uma compensação. Cerca de 99% da informação na biblioteca não é utilizada; então nosso herói também trabalha como entregador de pizza da Máfia. O bibliotecário, um programa de software da CIC, aparece como um homem grisalho de cerca de cinqüenta anos, com barba e óculos. Em um momento, o herói diz ao bibliotecário para que pare de andar tão suavemente em seus sapatos de sola rastejantes. Embora suas contribuições muito enciclopédicas pareçam alongar a trama por auxiliar o herói a solucionar o mistério do metavirus chamado snow crash, o estereótipo comum cria uma imagem negativa para o bibliotecário. Este livro em ritmo acelerado estava na lista de leituras recomendadas no curso de Biblioteconomia da universidade de Kentucky no verão de 1997.

Tiptree, James Jr. The Starry Rift (New York: A Tom Doherty Associates Book, 1986). **

Tiptree é o pseudônimo de Alice Sheldon. Esse livro contém três romances do futuro distante sobre a área de espaço conhecida no Rift; cada parte do livro é introduzida pelo assistente do bibliotecário chefe, que é um anfíbio. O bibliotecário localiza a informação de modo entusiasmado para ajudar os dois jovens Comenors em sua pesquisa na grande biblioteca central da Universidade de Deneb. Os aliens apreciam o conselho e os materiais uma vez que cada novo texto é cuidadosamente colocado em invólucros à prova de água. No final, os aliens querem dedicar seu artigo ao bibliotecário por sua iluminação especial em ajudá-los ao invés de dizer para buscarem as coisas sozinhos. Tiptree cria uma imagem favorável e positiva de bibliotecários.

Van Vogt, A. E. The World of Null-A (New York: Simon and Schuster, 1984; Columbus, Ohio, Ariel Press, 1970). **

A primeira do que se tornou uma série de romances, essa história de não-Aristetolismo acontece na Terra e em Vênus em 2560. Para encontrar sua verdadeira identidade, o herói, Gossayn, deve aprender a entender e usar todo o poder de sua mente. Perto do final do livro, o herói requere uma conexão visual à fonobiblioteca mais próxima. O bibliotecário robô do atendimento dispõe e discute informações pertinentes em como Gossayn pode treinar a parte extra de seu cérebro. O herói encontra a informação que ele precisa em detalhes fornecidos pelo bibliotecário e consegue dominar seus poderes mentais super-humanos. Nesta pequena participação o bibliotecário-máquina, um especialista em armazenagem e recuperação da informação, encontra três dos quatro critérios para criar uma imagem positiva.

Vinge, Vernor. A Fire Upon the Deep (New York: Tom Doherty Associates, 1992). ***

Um grupo de pesquisa humano usa uma velha biblioteca para criar uma rede e liberta um poder do mal que pode destruir a galáxia. Depois de estudar para se tornar uma bibliotecária na Universidade de Sjandra, Ravna ganha uma bolsa de trabalho e estudo 20 mil anos luz no arquivo Relay, um ponto central de uma rede/arquivo de um milhão de mundos. Como a única humana no Relay, Ravna tem a responsabilidade de orientar Phan Nuwen, um homem reconstruído. Eles recebem a missão de destruir o poder mal da galáxia o que os leva a encontrar várias espécies incluindo o vividamente descrito Tines — aliens parecidos com cães que funcionam melhor em conjuntos. A competente bibliotecária tem um papel principal nesta vasta aventura galáctica que enfatiza a interação de aliens e humanos em vários níveis. É criada uma imagem muito positiva das habilidades técnicas e humanas da bibliotecária.

Wolfe, Gene. The Shadow of the Torturer (New York: Simon and Schuster, 1980). **

Neste futuro, a civilização está declinando e a sociedade opera no sistema de castas. O personagem principal é um membro da casta de torturadores. Em nome de uma de suas vítimas o torturador visita a biblioteca, onde ele encontra brevemente o bibliotecário. A primeira parte da história tem algumas cenas bem feitas da biblioteca que conhecemos nos livros e seus procedimentos, incluindo uma maravilhosa contabilidade do recrutamento de crianças em idade muito nova para tornarem-se bibliotecários. Essa história, volume um de um livro de quatro volumes Book of the New Sun, ganhou o prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica em 1981. A biblioteca e o bibliotecário aparecem apenas rapidamente, revelando uma imagem neutra e tradicional.

Zahn, Timothy. A Coming of Age (New York: Bluejay, 1984). **

A heroína adolescente quer aprender a ler mesmo que ler seja restrito a adultos. Em sua jornada de leitura, ela visita a biblioteca onde o primeiro piso é destinado a crianças com vídeo games e exposições sobre a natureza. No piso superior existe a sala adulta com estantes altas, cores quietas e passos ainda mais quietos. A bibliotecária alta explica firmemente a ela porque crianças não podem tocar nos livros. Embora a bibliotecária esteja sorrindo, seu comportamento e a atmosfera da biblioteca convencem a heroína que ela terá de aprender a ler em outro lugar. Quando ela aprende de fato a ler, acontecem problemas entre a heroína e a professora, mas isso também permite que ela tenha um papel principal na história. Este conto de poder e dinheiro no planeta Tigris têm um tema interessante onde as crianças possuem habilidades de telecinese. O leitor fica com uma impressão negativa da bibliotecária que oferece um tipo de serviço de modo a proteger a sua coleção.

Que tipo de ciência pode ser a Ciência da Informação?, por Michael K. Buckland

“Cada especialidade acadêmica desenvolve sua própria cultura de conhecimento, linguagem, valores e estruturas sociais. Em conseqüência eles são necessariamente mais ou menos diferentes um do outro em escopo e potencialmente incompatíveis, ou ao menos dissonantes. É possível que nenhuma especialidade prefira uma cultura unificada (epistemologia, terminologia) para sua própria cultura nativa que evolui, então uma tensão é de ser esperada entre um desejo pelos benefícios da compatibilidade com outras especialidades e o desconforto de lidar com as culturas mais ou menos estrangeiras de outras especialidades.”

[…]

“Pelas razões especificadas neste artigo, a ciência da informação preocupa-se com engajamento cultural. Abordagens formais e quantitativas são extremamente valorosas, mas o campo em si mesmo é incorrigivelmente cultural. Métodos formais e quantitativos, embora úteis, nunca podem ser mais do que papéis auxiliares altamente valorizados. Caracterizar a recuperação da informação e bibliometria como ciências do artificial é uma descrição, não uma crítica. (…)  No final, podemos ver que nossos argumentos têm de algum modo uma forma circular. Uma vez que escolhemos reconhecer a noção central de informação como relacionadas à aprendizagem e ao conhecimento existem conseqüências. Primeiro, há uma separação das zonas essencialmente livres de conhecimento ocupadas pela ciência da computação, física da informação e tecnologia da informação. Segundo, qualquer noção de estudos da informação envolvendo o que e como sabemos, pode ser apenas um questionamento cultural. Terceiro, aceitar o contexto cultural da ciência da informação deveria nos levar a contribuições mais realistas e mais efetivas para nossa sociedade permeada por documentos”.

Buckland, M. (2011), What kind of science can information science be?. Journal of the American Society for Information Science and Technology. doi: 10.1002/asi.2165

Texto Original disponível em: <http://people.ischool.berkeley.edu/~buckland/whatsci.pdf>

Texto Traduzido disponível em: <http://www.slideshare.net/doritchka/que-tipo-de-cincia-pode-ser-a-cincia-da-informao>

Sobre a CDD

A CDD deveria ser vista como o sonho do administrador de biblioteca ao invés do sonho dos usuários de biblioteca. Ela não foi criada para nenhuma coleção específica e deve ser vista como um compromisso entre coleções diferentes e interesses acadêmicos correspondentes. Para minimizar a carga de trabalho nas bibliotecas, o sistema é conservador no sentido de que ele geralmente prefere evitar mudanças estruturais. Em outras palavras, a consistência interna em relação a diferentes edições geralmente teve prioridade comparado à atualização do sistema a fim de torná-lo mais de acordo com a sociedade onde ele está inserido. O usuário não tem uma visão detalhada e realística sobre as relações entre as disciplinas e campos de conhecimento, mas o administrador de biblioteca tem um sistema no qual a maioria dos livros já estão classificados por outras bibliotecas ou agências e no qual é usado tanto para arranjo na estante quanto para busca no catálogo. O administrador de biblioteca pode contratar pessoas dos cursos de biblioteconomia, que conhecem o sistema e podem aplicar esse conhecimento em todas as bibliotecas usando a CDD. O sistema está apoiando, no entanto, interesses profissionais. Ele provavelmente representa uma racionalização do trabalho de biblioteca mais do que qualquer coisa. Sua principal qualidade pode ser que represente um padrão e não um sistema otimizado para busca ou recuperação para qualquer interesse particular. Devemos lembrar que o que hoje é chamado de Biblioteconomia e Ciência da Informação (Library and Information Science, LIS), foi denominado economia de bibliotecas (library economy) em 1876 quando o sistema foi publicado pela primeira vez, o que também é um indicador dos objetivos administrativos ao invés de acadêmicos do sistema. Isso também pode explicar porque sistemas criados com base em princípios mais modernos não conseguiram influenciar a prática nas bibliotecas. (p. 88)

B. Hjørland. What is Knowledge Organization (KO)? Knowl. Org. 35 (2008) No.2/No.3

Arquivamento é a nova arte popular

por Kenneth Goldsmith

Edredons de Gee´s Bend

O teórico digital Rick Prelinger proclamou que o arquivamento é a nova arte popular, algo que é amplamente praticado e tem inconscientemente se tornado integrado na vida de muitas pessoas, potencialmente transformando uma necessidade em um trabalho artístico. Agora, num primeiro pensamento parece errado: como pode o armazenamento e a categorização dos dados digitais (ou analógicos) serem uma arte popular? A arte popular não é justamente o contrário, algo que é predicado em relação à manufatura subjetiva de um objeto em uma declaração única e pessoal, muitas vezes uma que expressa um ethos mais amplo de toda uma comunidade? Precisamos pensar nos, vamos dizer, magníficos edredons de Gee’s Bend produzidos por gerações por um grupo de mulheres negras americanas que vivem em uma cidade isolada no Alabama. Cada edredom é único, enquanto carrega a marca desta comunidade em específico. Ou as espetaculares visões cósmicas de alguém como Rev. Howard Finster, cujas obsessivas e emocionais pinturas e esculturas religiosas feitas à mão, podiam apenas surgir do gênio único de Finster mesmo.

Do mesmo modo que a criação de edredons, o arquivamento emprega a costura obsessiva de vários pedaços pequenos em uma visão mais ampla, uma tentativa pessoal de colocar ordem em um mundo caótico. Isso não está muito distante das criadoras de edredons aos colecionadores de selos ou colecionadores de livros. Walter Benjamin, como um colecionador obcecado, escreveu sobre a proximidade entre o ato de colecionar e criar em seu artigo Unpacking My Library” (Desempacotando Minha Biblioteca): “Entre as crianças, colecionar é apenas um processo de renovação; outros processos são a pintura de objetos, o corte de figuras, a aplicação de decalques – toda a gama de modos infantis de aquisição, desde tocar as coisas até dá-las nomes”. Em termos benjaminianos, todos esses impulsos – fazer, colecionar e arquivar – podem ser construídos como práticas populares.

Adicionemos a isto a organização de materiais digitais. O advento da cultura digital tornou cada um de nós arquivistas inconscientes. Do momento que utilizamos o comando de “salvar como” quando estamos compondo documentos eletrônicos, nossos impulsos arquivistas começam. “Salvar como” é um comando que implica réplica; e a replicação requere considerações arquivísticas mais complexas: onde eu salvo a cópia? Onde o original está salvo? Qual a relação entre os dois? Arquivo os dois ou deleto o original?

Quando nossas máquinas ficam em rede, torna-se ainda mais complicado. Quando pegamos este documento e os enviamos para um amigo ou professor, nosso programa de e-mail automaticamente arquiva uma cópia tanto do e-mail que enviamos bem como uma duplicata do anexo, salvando-o em uma pasta de “itens enviados”. Se um mesmo documento é enviado para um listserv, então o mesmo processo de arquivamento está ocorrendo em dezenas – talvez até mesmo centenas – de máquinas, desta vez arquivadas como “itens recebidos” em cada um desses sistemas de e-mail. Quando nós, como membros deste listserv, abrimos este anexo, precisamos decidir se – e então onde – salvá-lo.

Eu poderia continuar, mas você entendeu meu ponto. Escrever em uma plataforma eletrônica não é apenas escrever, mas também atua como arquivamento; os dois processos são inseparáveis.

Ou tome o “simples” ato de ouvir música. Se olharmos mais de perto a isto que fazemos automaticamente todos os dias sem pensar, perceberemos que não é tão simples. Vamos dizer que eu quero tocar um CD no meu computador. No momento em que eu o insiro, uma base de dados é chamada (Gracenote) e começa a salpicar o meu disco com ID3 tags, úteis para quando eu decido ripar o disco para MP3. O processo de arquivamento começou. Diferente de um LP, onde tudo precisava ser feito era colocar o disco em uma vitrola e ouvir a música, o processo de MP3 requere que eu me torne um bibliotecário. As tags de ID3 tornam possível que eu localize rapidamente meu artefato dentro do arquivo MP3. Se o Gracenote não achá-lo, eu devo preencher estes campos – artista, álbum, faixa, etc. – sozinho.

O iTunes automaticamente armazena esses MP3 no meu diretório do “iTunes Music”, criando dois novos folders – o primeiro sendo de nomes de artistas e o segundo de nomes de álbuns. Dentro da pasta de álbuns, eu percebo que essas faixas tem números e nomes, bem como portam suas tags ID3. Se eu transfiro essas MP3s para o programa do iTunes, ele automaticamente cria outra base de dados com todas essas informações, buscando também a arte da capa do álbum e assim por diante. E ainda posso decidir que eu não quero meus arquivos de acordo com o esquema do iTunes e armazenados no meu HD, que está rapidamente ficando sem espaço. Ao invés disso, eu armazeno todas as minhas MP3 em um HD externo imenso, organizado por um esquema que faz sentido pra mim, que envolve um outro nível de transferência e arquivamento. Quando eu quiser dividir minhas playlists ou MP3s com outras pessoas, eu devo arquivá-las em um nível totalmente diferente.

Marc Dennis, Coleopterus Collections #3, 2007

Tudo isso precisa de um backup constante, que ainda cria um novo nível de arquivamento. Ninguém quer perder seus dados. Uma vez que eu tenho vivido online nos últimos quinze anos, arquivar o meu trabalho – meus documentos, minha correspondência, minhas coleções e por aí vai – tornou-se tão importante quanto a criação de novos artefatos. Uma vez que perdi muitas informações ao longo dos anos, eu religiosamente faço backups: alguns drives tem backups bem redundantes, duas ou três vezes.

Claramente, tudo isso está longe – e com muito trabalho extra – do ato de meramente ouvir música. Na verdade, eu passo muito mais tempo adquirindo, catalogando e arquivando meus artefatos hoje em dia do que de fato desfrutando deles. Os modos nos quais a cultura está distribuída e arquivada tornou-se profundamente mais intrigante do que o fato cultural em si mesmo. O que experimentamos é uma inversão do consumo, na qual nos envolvemos de modo mais profundo com os atos de aquisição sobre o quê estamos adquirindo; chegamos a preferir as garrafas aos vinhos.

Qual a diferença entre uma mera adega e uma vinoteca?

Nosso impulso primário, então, transformou-nos de criadores para colecionadores e arquivistas, provando mais uma vez a profecia de Walter Benjamin: “Se minha experiência pode servir de evidência, é mais provável que um homem devolva um livro emprestado do que o leia”. E a não-leitura de livros, você contestará, deveria ser característico de colecionadores? Isso é novidade pra mim, você pode dizer. Não é novidade nenhuma. Especialistas vão concordar comigo quando eu disser que esta é a coisa mais velha do mundo. Basta citar a resposta que Anatole France deu a um filisteu que admirava sua biblioteca e então terminou com a pergunta padrão, ‘E você leu todos esses livros, Monsieur France?’ ‘Nem um décimo deles. Eu suponho que você não use sua porcelana de Sèvres todos os dias?'”.

Publicado originalmente em no blog Harriet, sob o título ‘Archiving is the New Folk Art’, do site Poetry Foundation, em 19 de abril de 2011.