Bibliotecárias e bibliotecários que a gente não conhece

(Originalmente publicado em 5 de março de 2011)

Agora a pouco estava de bobeira no Twitter quando uma ‘amiga virtual’ de Curitiba, a @rocares, me twitta dizendo que Inezita Barroso é formada em biblioteconomia. Não sabia de quem se tratava até então, mas o primeiro vídeo que me apareceu foi o da Marvada Pinga, o que eu acho que tem tudo a ver com o pessoal que faz biblio que eu conheço (ahah):

Me identifico com caipirices e moda de viola por que de onde eu venho (Campo Grande/MS) isso é muito típico apesar de eu conhecer pouquíssimos artistas, só os mais famosos como Almir Sater e a Helena Meirelles (artistas que não tem como ser sul-mato-grossense e não conhecer). Não que eu adore ou goste desse tipo de música, mas ao ouvir música deste tipo o que sinto é quase um bem estar, eu reconheço o que ouço e me vem uma sensação boa de “me sentir em casa”, apesar de eu não ser lá exatamente muito apegada às ‘minhas raízes’.

Mas voltando ao Twitter, em seguida, o colega @Leonardo_Assis me repassou ainda mais informações sobre a Inezita-bibliotecária:

“Sim, ela é bibliotecária. Fez o curso da prefeitura organizado pelo Rubens Borba de Moraes no final da década de 30. Como todo profissional, ela se decepcionou com a profissão devido ao não reconhecimento das bibliotecas no país. No entanto, foi nesse período de bibliotecária que ela rodou o país de carro buscando reunir registros de música popular e essa pesquisa feita por ela serviu para o sucesso posterior. Em uma palestra, Inezita disse que tem uma coleção de música enorme e que está negociando doar para uma biblioteca de São Paulo. Acredito que sem essa organização de pesquisa ela não seria quem foi. Para terminar: a Inezita cantou quando da inauguração do Sistema de Bibliotecas São Paulo em 1983, organizado pelo @LuisMilanesi.”

Imagino que deve existir bem mais bibliotecários e bibliotecárias que eu não conheça. A medida que eu for descobrindo, vou postando por aqui.

Imagens de Bibliotecários na Ficção Científica e Fantasia, por Marcia J. Meyers

(Originalmente  publicado em 29 de maio de 2011)

Encontrei esse estudo em 8 de março de 2011, através de um tumblr da Pop Library. A pesquisa estava em acesso livre, disponível para download na base de dados ERIC (Education Resources Information Center). Resolvi me engajar nessa tradução porque acredito que outros estudantes também possam estar interessados no tema. Descritores (oferecidos pela autora): Autores; Caracterização; Fantasia; Ficção; Futuros (da Sociedade); Cientistas da Informação; Bibliotecários; Desenvolvimento de Biblioteca; Serviços Bibliotecários; Revisões de Literatura; Romances; Ficção Científica; Diferenças de Gênero; Estereótipos.

Em seguida publicarei aqui a lista comentada feita pela autora, que contém 27 itens, sendo 26 livros e 1 filme. O .pdf com a pesquisa na íntegra pode ser encontrado no meu Slideshare.

Amazon: de nada! :)

Quaisquer erros de tradução encontrados tanto por aqui quanto no .pdf, favor entrar em contato (e corrigir de preferência) via comentários. Obrigada.

Legenda:

* Obras que mencionam bibliotecários apenas em passagens
** Obras que contém uma cena memorável
*** Obras onde bibliotecários tem papéis principais

Asimov, Isaac. The Second Foundation (New York: Street and Smith, 1948). ***

Este é o volume três na trilogia da Fundação que mais tarde tornou-se uma série de futuros-distantes. O bibliotecário Homir Munn um dos cinco conspiradores da sinopse central, é um gago descrito como “frouxo”, “tímido” e “introvertido”. Quando chamado para uma missão fora do planeta Munn diz “não sou um homem de ação; e nem um herói de televisão. Sou um bibliotecário”. Quando ele retorna para revelar os resultados de sua pesquisa, Munn não mais gagueja e comporta-se com tanta auto-confiança que torna-se suspeito por seus co-conspiradores. Eles sujeitam Munn a uma análise cerebral que revela que alguém adulterou a sua mente. Ele é preso, amordaçado e não tem mais um papel principal na história. O comportamento estereótipo dá a imagem deste bibliotecário uma avaliação geral negativa. Asimov transmite que bibliotecas e bibliotecários são elementos importantes na sociedade do futuro. A série Foundations ganhou um o Special Hugo Award pela melhor série de 1966.

Bear, Greg. Eon (New York: Bluejay Books Inc. 1984). *

A história começa em 2000 quando um grande asteróide oco repentinamente começa a orbitar a Terra. O asteróide, que já tinha sido habitado, agora é deserto. A cidade do asteróide tem uma excelente e moderna biblioteca bem como terminais nos aposentos particulares dos habitantes de antes. Mais para o final da história a heroína é raptada e transportada em um milhão de quilômetros para a sociedade avançada que construiu o asteróide. Ela não tem permissão ao amplo acesso de seus dados mas oferecem-na uma pedagoga (bibliotecária) para ajudá-la com buscas e instruí-la. As bibliotecas asteróides, que contém informações chocantes para os pesquisadores, são elementos-chave neste romance estimulante.  As maravilhosas máquinas de bibliotecas certamente provêm uma visão positiva; entretanto, a breve referência àqueles que criaram essas bibliotecas resulta numa imagem neutra dos bibliotecários. A história é continuada na seqüência Eternity, que não menciona bibliotecários.

Brin, David. Sundiver (New York: Bantam, 1980). ***

Este é o primeiro livro que se tornou eventualmente uma dupla trilogia. Em 2246, a Terra é única na galáxia por ter erguido a si mesma e dois clientes – golfinhos e chimpanzés – sem orientação de uma civilização patrona. O diretor da biblioteca alienígena Branch estabelecida na Terra, Bubbaeub da espécie Phil, é um dos alienígenas mais importantes na Terra. Seu bibliotecário assistente é Culla da espécie Pring. A biblioteca opera em uma taxa exigente para a base de serviços. Ambos bibliotecários extraterrestres participam em uma investigação de formas de vida desconhecidas próximas do Sol. Os personagens e os relacionamentos entre as várias espécies são muito bem desenvolvidos. Os bibliotecários projetaram uma imagem negativa mista no romance porque ambos tornaram-se vilões!

Dick, Phillip K. Counter-Clock World (Boston: Gregg Press, c1967, 1979). ***

Um romance irônico e contemporâneo desenvolvido num mundo que começou a viver de trás pra frente em 1986. A biblioteca desta história tem o objetivo de expurgar a informação ao invés de estudá-la ou preservá-la. Os vívidos personagens incluem Mavis McGuire, bibliotecário chefe na People’s Topical Library, que tem uma equipe de 100 pessoas. Mrs. McGuire é vista como “megera”, “hostil” e “má” pelos usuários e por subordinados como administradora superiora – respeitada mas temida. Ela torna-se a vilã com agentes, incluindo crianças que cresceram no serviço da biblioteca e cometiam crimes em nome dela. As manipulações de Mrs. McGuire e sua filha eventualmente resultam na evacuação da biblioteca um pouco antes de sua destruição, com um canhão atômico de uma população com ódio. Esse complexo romance de ressurreição tem uma biblioteca de anti-informação e uma bibliotecária-chefe com uma imagem muito negativa.

Edghill, Rosemary. The Empty Crown (New York: Guild America Books, 1998). ***

Esta trilogia, escrita por uma bibliotecária, inclui três histórias de tesouros da terra de Chandrakar – The Sword of Maiden’s Tears, The Cup of Morning Shadows e o The Cloak of Night and Daggers.  Ruth, a heroína de trinta anos, é uma estudante de biblioteconomia sensível que encontra um senhor elfo machucado nas ruas de Nova Iorque. Ele é Rohannahn Melior da Casa dos Silêncios Prateados em Chandrakar, e ele deve encontrar a espada que os ladrões levaram dele ou a raça humana no Mundo de Ferro da Terra estará condenada. Ruth, que se torna biblioteária, e Melior solucionam este e outros problemas com a ajuda inteligente de amigos bibliotecários. Suas aventuras coloridamente escritas acontecem na Terra e continuam através de um portal na biblioteca em Chandrakar. A autora transmite uma imagem positiva dos bibliotecários. Os personagens apenas brevemente gastam seu tempo na biblioteca mas são frequentemente tidos como muito heróicos.

Forward, Robert. L. Dragon’s Egg (New York: Ballantine, 1980). *

Este conto trata das eras de 500,000 A. C. até 2050 D. C. de acordo com o desenvolvimento, descoberta, comunicação com e educação de e do chella fascinante que mora numa estrela de nêutron chamada “Ovo de Dragão”.  As espécies de um mundo baseado em nêutron têm dificuldade de se comunicar com humanos de um mundo baseado em elétrons porque o chella vive 100 anos a cada hora humana. A biblioteca chella contém pratos de tato que as espécies do tipo ameba lêem pressionando seus poros nas “páginas”. Quando confrontados com problema de barulho, a bibliotecária-chefe, que é membro do Conselho, faz com que os usuários fiquem quietos. O bibliotecário torna-se mais brando quando percebe que o barulho do usuário era causado quando ele percebeu que a formação do Ovo do Dragão causou a gênese dos homo sapiens. Essa história de ficção de hard science desenvolve belissimamente uma civilização inteira. A breve aparição bibliotecária resulta em uma imagem plana e neutra. Uma seqüência foi publicada em 1985 chamada Starquake.

Gerrold, David. Chess With a Dragon (New York: Walker, 1987). *

Gerrold é o pseudônimo de Jerrold David Friedman, o autor do clássico Star Trek “The Trouble with Tribbles“. Neste livro humanos da Terra caíram inadvertidamente em um grande débito intergaláctico por fazer o download de informação de alto valor do InterChange. Alguns críticos culpam os bibliotecários, referidos como hackers, por esse desastre da informação. O InterChange é descrito como o pesadelo bibliotecário uma vez que ele armazena registros completos de mais de 6 mil espécies, algumas com mais de meio milhão de anos de dados. A biblioteca é tão vasta que ninguém pode catalogá-la ou fazer o download do índice completo do computador. Os humanos eventualmente encontram uma solução inteligente ao seu dilema com a ajuda de Rh/attes, uma espécie nada atraente de “espiões” ou “delatores” que fornecem excelentes serviços de recuperação da informação por um preço. Os bibliotecários humanos, que não são completamente descritos, apresentam uma imagem de algum modo incompetente e negativa.

Gibson, William. Neuromancer (New York: Ace, 1984). *

O Cyberpunk é introduzido à ficção científica com um protagonista que protege sua consciência dentro e fora de uma rede de informação de computador. Há uma quebra na biblioteca de pesquisa Sensel/Net onde um construto tinha que ser fisicamente recuperado. Uma bibliotecária de rosto branco é encontrada encolhida entre dois armários. Suas bochechas estão molhadas e seus olhos brancos aterrorizados em reação à ameaça hoaxed utilizada para o arrombamento. A bibliotecária aparece muito brevemente e deixa apenas uma imagem neutra. Esse romance ganhou o Hugo Award e o Nebula Award em 1984.

Heinlein, Robert A. Friday (New York: Holt, Rinehart and Winston, 1982). **

Friday, uma super-mulher artificial, trabalha como uma mensageira secreta. Como parte de seu treinamento avançado, Friday deve reportar-se à bibliotecária-chefe. As chaves no terminal da biblioteca dão a ela acesso à biblioteca local e às principais bibliotecas tais como Harvard e o Museu Britânico sem necessidade de uma ligação humana ou de rede. Os livros em papel podiam ser lidos diretamente na tela do terminal se assim desejado. Sua pesquisa leva à Informação sobre a Morte Negra que é importante na trama. Ela aprende a lidar com o sistema praticamente sozinha uma vez que o bibliotecário está muito ocupado para mostrar o terminal a ela ou para responder perguntas. Entretanto, eventualmente ele disse a ela que ela poderia ter a mesma informação da biblioteca no terminal em seu quarto! Essa história de ação nos fornece uma visão breve porém memorável do futuro onde o bibliotecário tem um comportamento negativo de serviço.

Herbert, Frank. Direct Descent (New York: Ace Books, 1980).***

A biblioteca Galactica ocupa quase toda a superfície do planeta Terra no século 81. A biblioteca, o repositório de todas as coisas registradas de todo governo na história da galáxia, tem uma equipe de 8 mil pessoas auxiliadas por robôs. Pesquisadores do local recuperam imagens de páginas de materiais na coleção em telas de televisão. Os bibliotecários diretores e sua equipe encaram de forma inteligente o dilema de como preservar a biblioteca enquanto ainda aderem ao Código da Biblioteca que é o de obedecer todas as ordens diretas do governo que está no poder. Nos dois casos apresentados neste livro, o governo no poder está tentando destruir a biblioteca! O autor de Duna criou uma imagem muito positiva de uma biblioteca do futuro baseada em papel e de bibliotecários espirituosos.

Keller, David H. The Eternal Conflict (Philadelphia: Prime Press, 1949).***

Um psiquiatra e médico escreve sobre o conflito entre os sexos. O personagem principal é uma mulher, que é imortal, inteligente e poderosa. Em busca de satisfação, ela cria um castelo e traz a ele através das eras um bibliotecário e um matemático ancião. Com a ajuda da mulher, o bibliotecário cria sua biblioteca dos sonhos de um milhão de volumes, completa com arquivos de cartão. Quando ele não está jogando damas com o matemático, o bibliotecário tenta ajudar a mulher encontrar satisfação. O bibliotecário, caracterizado ao longo do romance, serve como figura paterna que projeta uma imagem positiva de serviço bibliotecário.

Laidlaw, Marc. The Third Force: A Novel of Gadget (New York: Simon & Schuster, 1996).***

A heroína é um membro da resistência e a bibliotecária-chefe da biblioteca Imperial; entretanto, essa posição não a concede liberdade de possuir cada documento na coleção nesta sociedade totalitarista. Uma identificação de impressão digital é requerida para a recuperação da informação. Todas as buscas são automaticamente gravadas e reportadas ao Departamento de Análise de Registros. Os códigos de identificação em cada livro estão sujeitos à mudança, e os livros são constantemente reorganizados pelo sistema de recuperação automática para que localizações de livros não possam ser memorizadas. Antes do final do livro a heroína deixa seu posto na biblioteca porque ela vê que a biblioteca é “uma cripta para o conhecimento agora. Ninguém pode pegar um livro emprestado sem temer por sua vida”. Essa novela baseada em um jogo de computador (Gadget) apresenta uma imagem positiva de uma bibliotecária preocupada e uma visão dramática da inutilidade de repositórios de conhecimento neste futuro potencial.

MacDonald, George. Lilith (London: Chatto and Winders, 1875).**

Uma grande biblioteca ocupa a maior parte do quarto do térreo na casa do herói. Mr. Raven, o bibliotecário antigo, aparece em intervalos regulares na biblioteca. Um dia o herói segue Mr. Raven em um mundo-espelho onde ele se torna um pássaro mas continua a dar recomendações e conselhos. Durante a jornada do herói no mundo-espelho, a perversa Lilith aparece, bem como Adam (também conhecido como Mr. Raven), a esposa de Mr. Raven Eva e uma figura materna chamada Mara. Este romance de sonho vitoriano é complexo e por muitas vezes confuso. Retrata bem uma biblioteca particular grande de antigamente e tem uma imagem positiva do bibliotecário inteligente (Mr. Raven, Adam) que remonta ao início dos homens.

McCaffrey, Anne. Dragonsdawn (New York: Ballantine Books, 1988).*

No futuro distante, seis mil colonos viajam em três espaçonaves por quinze anos para sua nova casa em Pern. A bibliotecária e historiadora oficial da colônia (General Cherry Duff) insiste que registros de todas as culturas étnicas devam ser levadas a Pern porque é impossível saber quando a informação será valiosa. Ela nota que a informação “não ocupa muito espaço nos chips que temos”. Vulcões ativos forçam os colonos a evacuarem o local de sua terra que está enterrado em poeira vulcânica. O prédio com a interface para a espaçonave recebe um selo de prova de calor. Quando o prédio enterrado é escavado, o computador (SEVIA – Sistema de Enderaçamento de Voz de Inteligência Artificial) é redescoberto no romance Os Renegados de Pern e muito utilizado no romance All the Weyrs of Pern. O autor menciona a biblioteca e o bibliotecário em uma passagem mas projeta uma imagem positiva com um bibliotecário de alto status que estabelece uma base de conhecimento excelente para os colonos de Pern.

McDevitt, Jack. Eternity Road (New York: HarperPrism, 1997).*

Esta história acontece na América do Norte depois que uma praga misteriosa destruiu o mundo. Livros são raros e apenas seis livros conhecidos sobreviveram ao desastre da praga. A heroína herda um livro de Mark Twain do líder da primeira expedição à legendária Haven na qual seu irmão morreu. Ela oferece o livro à biblioteca pública e decide buscar Haven. Uma cena próxima do fim da história ilustra vividamente a importância da biblioteca de Haven onde os livros são cuidadosamente colocados em gavetas em gabinetes. Esses livros redescobertos ajudam a estimular o crescimento da civilização. Essa aventura em ritmo acelerado dramatiza a importância de livros, bibliotecas e conhecimento. A profissão fica com uma imagem negativa quando o autor menciona em uma passagem que o papel do bibliotecário é copiar livros.

McMullen, Sean. Voices in the Light: Book One of Greatwinter (North Adelaide, South Australia: Aphelion Publications, 1994). ***

Este é o primeiro livro de uma trilogia. No século 39 na Austrália, a bibliotecária chefe chamada de Highliber, controla uma rede de bibliotecas e bibliotecários espalhados em várias nações. Ela é uma líder muito forte que mata pessoas em duelos sobre as modernizações em suas bibliotecas. Uma reorganização da biblioteca, a primeira em 505 anos, acontece pelo propósito de estabelecer um novo serviço Calculador que atua em funções do tipo computador usando ábacos e centenas de componentes humanos uma vez que não há eletricidade. Em relação a operar o Calculador, bibliotecários têm torres de comunicação Beamflash para administrar, aulas para ministrar, livros pra distribuir e colecionar e cerimônias para realizar. O autor, que é obviamente familiar tanto com o público e com aspectos de serviços técnicos de biblioteconomia, criou uma visão positiva e excitante onde as bibliotecas ainda são importantes e os bibliotecários lideram o avanço na civilização.

Miller, Walter M. Jr. A Canticle for Leibowitz (New York: J. B. Lippincott Company, 1959). **

A história acontece ao longo de vários séculos começando no século XXXII da Terra depois de uma guerra nuclear. Apenas alguns barris de livros originais e poucos textos copiados à mão, re-escritos pela memória, sobreviveram. Os monges replicaram práticas medievais em seu trabalho para preservar o conhecimento científico, que incluíam cópias, iluminuras e proteção de suas coleções. Os raros volumes em sua coleção são acorrentados para prevenir a remoção. Quando os monges reinventam as luzes elétricas, eles acabam com a biblioteca e o bibliotecário monge pergunta onde eles deveriam colocar uma biblioteca mecânica. Com outra guerra nuclear a espreita, padres selecionados e suas coleções escapam em uma nave espacial para Alpha Centauri. Esse é um romance brilhante sobre o futuro distante que sublinha a importância da preservação do conhecimento. Se monges são considerados bibliotecários, então é transmitida uma boa imagem; o bibliotecário/monge que é especificamente identificado transmite uma imagem mais inquieta, negativa. Esse romance ganhou o Hugo Award em 1961. Uma seqüência foi feita recentemente entitulada Saint Lebowitz and the Wild Horse Woman (New York: Bantam, November 1997).

Parsons, Rich and Keaveny, Tony. Colin the Librarian (Great Britain: Michael O’Mara Books Limited, 1993). ***

Colin foi promovido de auxiliar para assistente de bibliotecário na biblioteca Central de Clacton três anos depois de ter deixado a escola. Ele tem apenas 21 anos, não é muito alto, tem cabelo preto salpicado com caspa e ainda não se barbeia. O ponto focal de sua vida é a noite de sábado com jogos de RPG dos Amigos da Conqueror Society. Colin é visitado na biblioteca por Karp, o conquistador, que o envolve em aventuras no planeta Threa. Colin tem muito conhecimento sobre as Crônicas de Threa, o que é útil em suas aventuras. Eventualmente, ele é co-autor do quarto volume das Crônicas, que quando concluída com sucesso torna-se sua passagem de volta para a mesa de circulação da biblioteca. Colin é retratado negativamente como o herói fracote nesta paródia britânica de Conan, o Bárbaro.

Pratchett, T. The Light Fantastic (Buchinghamshire: Colin Smythe, 1986). **

O romance Discworld vividamente descreve o acidente mágico que transforma o bibliotecário chefe na universidade Unseen em um orangotango. Em sua mutação, o bibliotecário continua a exercer suas funções, o que não é fácil em uma biblioteca mágica onde as estantes brilham com magia e emitem cheiros azuis. Estranhas criaturas são atraídas pelo vazamento mágico entre os livros. Em uma cena incrível, o bibliotecário que é incapaz de falar, segura a mão de um usuário enquanto caminham até uma estante para localizar um livro. Ser um orangotango faz com que fique fácil para o bibliotecário escalar o topo das estantes para recuperar um livro, e o usuário o recompensa com uma banana. Essa fantasia nos dá uma perspectiva humorística em um futuro alternativo. O bibliotecário não-humano tem uma imagem positiva.

Sargent, Pamela. Earthseed (New York: Harper & Row, 1983). *

No futuro distante, uma espaçonave automatizada da Terra educa crianças para serem colocadas em um planeta não-habitado parecido com a Terra. A espaçonave opera uma biblioteca física bem equipada que contém microcircuitos com milhões de livros. A biblioteca também tem um cubo que dispõe hologramas da Terra. Uma vez que as crianças são deixadas no planeta, a espaçonave vai embora mas diz aos colonos que os deixou uma biblioteca para ajudá-los a construir uma civilização. A biblioteca da colônia tem ficas em microfichas, leitores e um bibliotecário — uma pequena caixa de metal que recomenda livros com uma voz macia. Entre os personagens principais, um deles parece viver na biblioteca, luta com suas dúvidas interiores e com outros colonizadores neste livro para jovens adultos. A biblioteca e a nave “bibliotecária” transmitem uma imagem positiva; entretanto, o bibliotecário caixa de metal deixado para os colonos cria apenas uma imagem neutra.

Soylent Green. MGM/UA Home Video, 1973, rated PG, aproximadamente de 1 hora e 37 minutos. **

Neste provocante filme ecológico que ocorre no ano de 2022 em Nova Iorque, com população de 40 milhões, Charles Heston começa como um detetive investigando o assassinado de um membro do conselho Soylent. Existe uma cena memorável na biblioteca (Exchange) que parece ser a maior fonte de informação de Nova Iorque. A respeitada bibliotecária do Exchange é chamada de “vossa excelência”. A bibliotecária é muito voltada para serviços, e a informação que ela oferece provoca uma grande reviravolta na trama. Stanley R. Greenberg escreveu o roteiro ou o filme que é vagamente baseado no livro Make Room! Make Room! de Harry Harrison (Boston: Gregg Press, c1966). Esse livro transmite uma visão muito positiva e impressionante de serviços de informação modernos onde os bibliotecários parecem ter uma grande quantidade de poder.

Stephenson, Neal. Snow Crash (New York: Bantam, 1992). **

Este romance cyberpunk acontece num futuro próximo principalmente em Los Angeles e o Metaverso, um universo gerado por computador. As cenas e personagens são descritos de modo inovador e vívido. O herói, Hiro Protagonist, um correspondente freelance da Central Intelligence Corporation (CIC) faz o upload de informações para a Biblioteca do Congresso que se fundiu com o CIC. Quando clientes encontram uso para algo na biblioteca, o fornecedor freelance consegue uma compensação. Cerca de 99% da informação na biblioteca não é utilizada; então nosso herói também trabalha como entregador de pizza da Máfia. O bibliotecário, um programa de software da CIC, aparece como um homem grisalho de cerca de cinqüenta anos, com barba e óculos. Em um momento, o herói diz ao bibliotecário para que pare de andar tão suavemente em seus sapatos de sola rastejantes. Embora suas contribuições muito enciclopédicas pareçam alongar a trama por auxiliar o herói a solucionar o mistério do metavirus chamado snow crash, o estereótipo comum cria uma imagem negativa para o bibliotecário. Este livro em ritmo acelerado estava na lista de leituras recomendadas no curso de Biblioteconomia da universidade de Kentucky no verão de 1997.

Tiptree, James Jr. The Starry Rift (New York: A Tom Doherty Associates Book, 1986). **

Tiptree é o pseudônimo de Alice Sheldon. Esse livro contém três romances do futuro distante sobre a área de espaço conhecida no Rift; cada parte do livro é introduzida pelo assistente do bibliotecário chefe, que é um anfíbio. O bibliotecário localiza a informação de modo entusiasmado para ajudar os dois jovens Comenors em sua pesquisa na grande biblioteca central da Universidade de Deneb. Os aliens apreciam o conselho e os materiais uma vez que cada novo texto é cuidadosamente colocado em invólucros à prova de água. No final, os aliens querem dedicar seu artigo ao bibliotecário por sua iluminação especial em ajudá-los ao invés de dizer para buscarem as coisas sozinhos. Tiptree cria uma imagem favorável e positiva de bibliotecários.

Van Vogt, A. E. The World of Null-A (New York: Simon and Schuster, 1984; Columbus, Ohio, Ariel Press, 1970). **

A primeira do que se tornou uma série de romances, essa história de não-Aristetolismo acontece na Terra e em Vênus em 2560. Para encontrar sua verdadeira identidade, o herói, Gossayn, deve aprender a entender e usar todo o poder de sua mente. Perto do final do livro, o herói requere uma conexão visual à fonobiblioteca mais próxima. O bibliotecário robô do atendimento dispõe e discute informações pertinentes em como Gossayn pode treinar a parte extra de seu cérebro. O herói encontra a informação que ele precisa em detalhes fornecidos pelo bibliotecário e consegue dominar seus poderes mentais super-humanos. Nesta pequena participação o bibliotecário-máquina, um especialista em armazenagem e recuperação da informação, encontra três dos quatro critérios para criar uma imagem positiva.

Vinge, Vernor. A Fire Upon the Deep (New York: Tom Doherty Associates, 1992). ***

Um grupo de pesquisa humano usa uma velha biblioteca para criar uma rede e liberta um poder do mal que pode destruir a galáxia. Depois de estudar para se tornar uma bibliotecária na Universidade de Sjandra, Ravna ganha uma bolsa de trabalho e estudo 20 mil anos luz no arquivo Relay, um ponto central de uma rede/arquivo de um milhão de mundos. Como a única humana no Relay, Ravna tem a responsabilidade de orientar Phan Nuwen, um homem reconstruído. Eles recebem a missão de destruir o poder mal da galáxia o que os leva a encontrar várias espécies incluindo o vividamente descrito Tines — aliens parecidos com cães que funcionam melhor em conjuntos. A competente bibliotecária tem um papel principal nesta vasta aventura galáctica que enfatiza a interação de aliens e humanos em vários níveis. É criada uma imagem muito positiva das habilidades técnicas e humanas da bibliotecária.

Wolfe, Gene. The Shadow of the Torturer (New York: Simon and Schuster, 1980). **

Neste futuro, a civilização está declinando e a sociedade opera no sistema de castas. O personagem principal é um membro da casta de torturadores. Em nome de uma de suas vítimas o torturador visita a biblioteca, onde ele encontra brevemente o bibliotecário. A primeira parte da história tem algumas cenas bem feitas da biblioteca que conhecemos nos livros e seus procedimentos, incluindo uma maravilhosa contabilidade do recrutamento de crianças em idade muito nova para tornarem-se bibliotecários. Essa história, volume um de um livro de quatro volumes Book of the New Sun, ganhou o prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica em 1981. A biblioteca e o bibliotecário aparecem apenas rapidamente, revelando uma imagem neutra e tradicional.

Zahn, Timothy. A Coming of Age (New York: Bluejay, 1984). **

A heroína adolescente quer aprender a ler mesmo que ler seja restrito a adultos. Em sua jornada de leitura, ela visita a biblioteca onde o primeiro piso é destinado a crianças com vídeo games e exposições sobre a natureza. No piso superior existe a sala adulta com estantes altas, cores quietas e passos ainda mais quietos. A bibliotecária alta explica firmemente a ela porque crianças não podem tocar nos livros. Embora a bibliotecária esteja sorrindo, seu comportamento e a atmosfera da biblioteca convencem a heroína que ela terá de aprender a ler em outro lugar. Quando ela aprende de fato a ler, acontecem problemas entre a heroína e a professora, mas isso também permite que ela tenha um papel principal na história. Este conto de poder e dinheiro no planeta Tigris têm um tema interessante onde as crianças possuem habilidades de telecinese. O leitor fica com uma impressão negativa da bibliotecária que oferece um tipo de serviço de modo a proteger a sua coleção.

Isto não é uma biblioteca

(Publicado originalmente em 14 de outubro de 2011)

Sabemos que quanto mais tentamos conceitualizar algum objeto de estudo, menos este objeto se torna definido e mais seu significado se torna plural e múltiplo. Ou ao menos a sua definição é quase que para sempre relativa ao tempo em que existiu/existe, à sua aplicação em determinado contexto, ao tipo de cultura de sua área ou domínio de atuação, entre outras variáveis que podem vir a existir.

Hoje de tarde deparei-me com dois textos que apareceram na timeline do G+: um da Carta Capital [As bibliotecas sem leitores] compartilhado pelo colega Marcos Ouchi da Ufscar e outro do Phil Bradley [A library is not..], compartilhado pelo perfil da biblioteca da Escuela Técnica Superior de Ingenieros de Telecomunicación, da Universidad Politécnica de Madrid. Os textos tratam sobre bibliotecas de modos dramaticamente diferentes o que é evidente tendo em vista seus autores: a) um jornalista brasileiro que só entende um pouco sobre bibliotecas através de números de estatísticas, acadêmicos e outras pessoas envolvidas com educação e b) um bibliotecário militante norte-americano. De qualquer modo vou tentar escrever algo sobre os dois textos que li e o que achei sobre suas particularidades.

Achei curioso o texto “Bibliotecas sem leitores” aparecer categorizado na seção “Política” e posso até dizer que isso me surpreendeu um pouco. Já o texto, nem tanto.. Nada diferente da mesma lamentação que ruminam há alguns anos: “a maioria das bibliotecas públicas vive às moscas” e o já então clichê “brasileiro não gosta de lerdevidamente justificado por números de pesquisas estatísticas, etc. Criar um dia da leitura como modo de estimular a leitura? Talvez estimule a venda de livros, mas a leitura, sinceramente, não vejo como. E reclamações mais pontuais e específicas como a pouca quantidade de bibliotecas e o parco horário de funcionamento das mesmas. A biblioteca-vítima da reportagem foi a biblioteca pública Roberto Santos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

No texto do Bradley ele comenta sobre características dos bibliotecários que infelizmente chegam a ser mais lamentáveis que os  estereótipos:

Por várias razões – bibliotecários não são bem conhecidos por venderem seu próprio peixe e por bradarem aos quatro cantos sobre o que fazem e talvez isso ocorra por buscarmos sempre consenso e acordo ao invés de discórdia e desacordos.

Acho uma graça, mesmo, as bibliotecárias recepcionarem as velhinhas que ainda frequentam a biblioteca por carência emocional, afetiva, etc. Mas também acho igualmente importante, principalmente em se tratando de biblioteca pública, que a biblioteca (e consequentemente os bibliotecários) não espere passivamente pela visitação e apreciação por parte do público, mas sim que busque conhecer de fato as necessidades da comunidade onde está inserida. De que adianta uma biblioteca temática de cinema em um bairro onde talvez existam outras necessidades? Claro que quem teve a idéia de biblioteca temática teve a melhor das intenções, mas sempre bom perguntar: é útil a quem e em que contexto?

Já disse que bibliotecários não podem e não devem ser definidos por coisas como o que trabalham […] mas sim pelo que conseguem alcançar. Deveríamos ser definidos pelo efeito que temos em nossa sociedade e em nossas comunidades. […] Nosso papel não se encontra em estantes, em nossos computadores, em nossos prédios ou até mesmo em nossa história, mas no que FAZEMOS. E isso não é ‘etiquetar livros’. Isso é nos definir, mais uma vez, em termos de artefatos que nós podemos ou não usar (usamos cada vez menos).

Com esse parágrafo o Bradley conseguiu me explicar brevemente que o discurso “biblioteca/bibliotecário é importante” pode ser um tanto quanto vazio. Muitas vezes me parece que as bibliotecas e os bibliotecários são importantes apenas em sua própria área e em seu próprio domínio de conhecimento. No texto da Carta Capital, de acordo com o censo da FGV, “65% dos visitantes enxergam a estrutura como uma fonte de pesquisas escolares, 26% a utilizam para pesquisas em geral e somente 8% para o lazer”. Por que a biblioteca não pode ser vista como um espaço não só de pesquisa, leitura e fruição, mas também como espaço propício para discussão e melhoria de algum bairro, alguma comunidade ou até da vida mesmo de algumas pessoas?

O que define hoje uma biblioteca? A excelente organização do catálogo, da coleção ou do acervo? Os bibliotecários que nela trabalham? O meio onde está inserida? As pessoas que a frequentam? O conjunto todo? Onde exatamente está a biblioteca?

É claro que cada tipo de biblioteca tem uma missão diferente. Tudo parece sempre muito lindo quando se fala das bibliotecas estrangeiras, no caso, da de New York e de como “as instituições estão sempre se adaptando ao cenário a seu redor para fortalecer os laços com a comunidade” e como aqui no Brasil esse tipo de coisa não acontece, etc. Essa baixa-auto estima brasileira sempre me irritou, mas tem irritado um pouco mais há algum tempo. Entendo que a questão não é meramente estabelecer laços, mas talvez um pouco mais consistente que isso: dar suporte e suprir necessidades locais de informação que uma determinada comunidade possa vir a ter, seja qual for essa demanda.

Bibliotecários estão aqui para ajudar suas comunidades, e um ataque à uma biblioteca é um ataque a uma comunidade. Pode não parecer, e claramente para vários políticos não parece, mas é exatamente o que é. Porque é dizer que o benefício que as pessoas conseguem através de suas bibliotecas/bibliotecários em questões tais como aprender a ler, conseguir emprego, achar serviços sociais que os protejam de algum modo, em dar a oportunidade às pessoas de aprender ou simplesmente curtir um bom livro – nada disso importa. E quando eles dizem que nada disso importa o que eles estão dizendo na verdade é ‘esta comunidade não importa’ e ‘esta pessoa não é importante’. – Bradley.

É fato que bibliotecários brasileiros nunca serão tão militantes quanto parecem ser os americanos e se existem talvez sejam raros e eu não os conheço. Isso é tanto uma bênção quanto uma maldição. A “militância” só parece existir por assim dizer, para garantir vagas em concursos públicos entre outros espaços – o que não deixa de ser um tipo de legítimo de luta. Fora isso me parece que a passividade e a complacência permanecem e os bibliotecários continuam com o estigma de serem apolíticos e meio que descomprometidos, o que particularmente acho bem pior do que o estereótipo de mulher idosa de cóque pedindo silêncio.

Os problemas começam quando a biblioteca/os bibliotecários não são vistos como parte da espinha dorsal de uma comunidade. Uma vez que isso acontece, se torna lógico pensar em cortá-la. As decisões de conselhos e prefeitos com cérebros pequenos são uma confusão total, quando vistos da forma que enxergamos as bibliotecas. Eles as vêem como uma fonte que não é parte de uma comunidade. – Bradley.

Também é muito fácil dizer que o cenário internacional, idealizado, perfeito, onde as coisas dão certo sempre é mesmo muito “distante da realidade brasileira”. Não acho que seja bem assim. No primeiro semestre vi muitas notícias sobre fechamento de bibliotecas nos EUA e na Inglaterra. E então? Não tá fácil pra ninguém, não é só por aqui.

E por que esta não me parece exatamente uma realidade tão distante quando percebo iniciativas – geralmente (infelizmente talvez) isoladas, mas consistentes – como a de criação de bibliotecas comunitárias  tais como a Bicicloteca e a Barracoteca (só pra citar as mais recentes que vi este ano)? Não acho que quem crie uma bicicloteca ou uma barracoteca tenha muitos recursos, bem como também não acho que quem tenha essa iniciativa queira meramente colecionar (classificar, catalogar, indexar, etc) livros. Quem tem essas iniciativas não são nem mesmo bibliotecários e eles querem mais do que tudo isso: querem criar comunidades, criar significado. Mas também é claro que isso não é preocupação e muito menos prioridade de nenhum governo – no mundo inteiro.

Contexto e postura: um olhar sobre a profissão

(Texto originalmente publicado em 10 de fevereiro de 2011)

A seguir, dois textos de pessoas um pouquinho mais esclarecidas do que eu, sobre o profissional bibliotecário e seus contextos. O primeiro texto é do prof. Francisco das Chagas de Souza e o segundo texto é da colega Claudiane Weber, que que é bibliotecária na BU/UFSC. Foi a Claudiane que me enviou os textos por e-mail e achei tão interessante que decidi também compartilhar por aqui. Todos os grifos são meus.

Colegas bibliotecários (as) e estudantes de Biblioteconomia,

Uma das coisas mais estimulantes que encontro é ver/ler/ouvir a discussão sobre a profissão de bibliotecário. Isso porque todo o meu tempo de reflexão, desde quando cursava a graduação, que foi de 1976 a 1978, o mestrado que conclui em 1982 e o doutorado que conclui em 1994, pautou-se em tentar entender como se discute uma profissão, um espaço profissional, sem discutir e tentar compreender antes a sociedade que nos abriga: suas filosofias, as relações que as pessoas vivem, as subjetividades que as pessoas têm, os valores que carregam….

Assim, sempre tentei combater a delimitação da educação biblioteconômica ao conteúdo técnico; mas mesmo tentando combater esse enfoque vejo algo que força o ensino por esse caminho e, nos últimos anos com um peso acentuado. Trata-se: 1. de um amplo mercado “escravagista” de estágios remunerados; estaginhos que servem para as empresas e orgãos governamentais reduzirem custos de pessoal evitando os encargos trabalhistas da contratação de auxiliares de serviços. E fico triste ao verificar, Brasil afora, a avidez com que os estudantes de Biblioteconomia correm em busca desses “estágios”. Traduzindo: o estudante de Biblioteconomia, em sua maioria depende economicamente desses estágios e nesses estágios ele quer mostrar que sabe algo que sirva, ou seja, alguma técnica, pois parece que para a maioria saber filosofia, sociologia, psicologia social, politica, história, literatura … não é saber; muitos até dizem, por ai, que isso é perfumaria, ou seja, não é necessário;

2. De que não há tempo para “estudar”. A grande maioria dos estudantes de Biblioteconomia, por conta de tais “estágios”, vêm à universidade que no caso da UFSC, deixa de se catacterizar como universidade para o Curso de Biblioteconomia pois por esse ser oferecido à noite a UFSC é pouco mais que blocos de salas de aulas. Ora, vir às salas de aula, ouvir aulas, cumprir tarefas em grupos nessas salas é estudar? É refletir sobre a realidade e intuir soluções? Como? Numa circunstância como essa faltam os estudos sobre o contexto. É por isso, até pela semelhança como o tópico 1, que há uma enorme cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transformar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.

Diante de tudo isso, é que pessoas de outras áreas, onde se estuda mais o contexto, onde se constroi melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais, sempre estarão mais bem preparadas para a direção de bibliotecas, pois o bibliotecário na maior parte de sua formação e atuação pensa que a sociedade deveria valorizar o seu saber operacional. E esse é o grande erro! Quando um médico, engenheiro, economista conversa politicamente não tenta fazer valer o seu discurso de médico, de engenheiro, de economista… Lideres, diretores e dirigentes de empresas, associações, sindicatos e órgãos de governo – executivo e legislativo – são políticos, compreendem e formulam o discurso político. É claro que alguns bibliotecários há que fazem esse discurso, mas são pouquíssimos.

Enquanto os estudantes de Biblioteconomia se preocuparem majoritariamente com operacional: catalogação, classificação, etc. … o choro será esse e para esse choro a sociedade prestará pouca atenção. Nos meus 27 anos de ensino de Biblioteconomia vi poucos egressos da Biblioteconomia da UFSC que carregam as convicções necessárias para construir o discurso contextual, que têm uma noção da construção do discurso político. Uns serão bons técnicos e recebem valorização como tal e os demais, são os demais: nem bons técnicos, nem políticos. Se a universidade puder mudar os valores e as limitações individuais que mudemos, pois em principio foram os bibliotecários que buscaram a universidade como espaço para desenvolver o ensino e formação de bibliotecários. Os bibliotecários do século XIX, no caso sob a liderança de Melvil Dewey nos EEUU, “cavaram” um espaço na universidade para nela instalar o Curso de Biblioteconomia e isso se reproduziu desde então.

Quer dizer, o ensino de Biblioteconomia existe como ensino superior porque bibliotecários com a compreensão de um contexto social e econômico justificaram para os dirigentes universitários que ela teria o dever social de abrigar Curso de Biblioteconomia. Demonstar esse dever da universidade, tecer os argumentos adequados é discurso para além do técnico; é discurso político. Se os bibliotecários que se “formaram” no Brasileiro perderam isso, pois isso deu-se aqui também, com Laura Russo, Marta Carvalho, Etelvina Lima, Alvaceli Braga …. foi mais por conta da correria dos “estágios remunerados”. Mas é possível mudar no Brasil inteiro esse quadro. Levará tempo quanto mais tarde começar a ser feito. Dependerá muito do comprometimento dos estudantes em quererem, buscarem e fazerem com que seu futuro não seja construído centralmente sobre o discurso operacional.

Att.

Francisco C. Souza
UFSC – Ciência da Informação

“Biblioteca”, 1955, por Maria Helena Vieira da Silva

O Ser Humano é posto pela vida para realizar plenamente o potencial de natureza que lhe é intrínseco. Uma das coisas mais importantes na vida, é ter um projeto onde investir o próprio potencial e a própria vontade. Uma amizade, um amor, a família, são sempre garantidos e regados pela eficiência da ação; uma coisa alimenta a outra.

Somente a construção da pessoa, do indivíduo, para a ação, pode transformar a associação, o conselho regional, o sindicato, ou mesmo levar ao local “onde se constrói melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais”.

Inicialmente, é necessário ter amor pelo trabalho, ao que o local de trabalho oferece, e isso não é servilismo, é um modo de ganhar a si mesmo, a própria carreira, o próprio avanço. Esta é a escola objetiva da vida. A vida é um projeto que Você mesmo constrói.

Infelizmente, apenas uma minoria entre os jovens está interessada no conteúdo intrínseco do trabalho, esta minoria é representada por aqueles que olham o trabalho não simplesmente como um meio para viver e para mudar o próprio bem-estar material, mas como um âmbito de expressão da própria personalidade.

Sobre a “cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transfromar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.”

Devemos ter a BIBLIOTECA como Centro de FORMAÇÃO, como a raiz da palavra emprega, Formar para a Ação. Isso significa para o estudante de Biblioteconomia, aprender a operação do real que as pessoas/bibliotecários de sucesso fazem. É, obter o compartilhamento de conhecimentos tácitos, àqueles que não conseguimos transformar em manuais, em apostilas ou mesmo “xerocar”.

Formar para a ação um indivíduo, passa também pelos cursos de Biblioteconomia, bem como das Bibliotecas Universitárias. É aliar a teoria à pratica e vice-versa. Porém, nada disso acontece se o mesmo não tomar para si a responsabilidade de querer. Não é com assistencialismo que se resolve, e, sim com uma pedagogia que cultive a competência pessoal, que estimule o brio de sentir-se responsável por si mesmo.

Sentir-se responsável por si mesmo, implica um exercício cotidiano de escolha e de atuação num estilo de vida: não é apenas viver biologicamente, permanecendo e repetindo o ciclo biológico, mas é exercitar o ofício de viver, rumo a um ganho mental, de personalidade, e de conhecimento.

E a formalização do conhecimento, não está alicerçada no técnico, mas está baseada principalmente na capitalização do savoir-faire. Isto é, no saber fazer. Ir em busca do conhecimento, de saber e saber fazer, para aprender de fato e realizar o que precisa ser realizado. E a biblioteca universitária pode contribuir na integração do conhecimento, a habilidade e a atitude no saber, saber fazer e o fazer.

Alguns colegas citavam o Líder. Este é o elo fundamental. “O Líder é o centro operativo de diversas relações e funções, é aquele que sabe individuar a proporção de como se movem as relações da vida e sabe aplicar, a cada situação, a fórmula justa para resolver e realizar econômica, política e socialmente.” (Dicionário de Ontopsicologia).

Para liderar, conhecer a história clássica humana, a filosofia, a psicologia, são cardinais, para compreender os acontecimentos da sociedade contemporânea. Para Meneghetti (2008)*, é imprescindível uma profunda formação cultural, que implica saber a cultura do seu país e do seu ambiente. Também uma cultura específica, ou seja, se sou bibliotecário, devo ter cultura teórica e prática. Prática significa que devo conhecer de modo manual, concreto, o objeto do meu trabalho. E por último, experiência nas relações diplomáticas. Devo ser um artista no saber orquestrar as relações com os diversos agentes do meu contexto. Que se constrói por meio das relações com as pessoas.

Mas afinal, Líder, se nasce ou se torna? Um pouco de se nasce e muito se torna (Meneghetti, 2008). E, para mim, para tornar-se Líder, é necessário responsabilidade. É encontrar o meu core business, descobrir qual é a minha vantagem competitiva. Colocar o foco principal onde se pode ser mais forte, usando o meu conhecimento para desenvolver o próprio protagonismo. E, se terá como resultado, saúde, autonomia econômica, sabedoria e boas relações sociais. Por isso, e concluindo, liderar é ser um leitor transparente da própria psicologia, é saber construir a harmonia de relações entre todos, para que exista um nível máximo de produção de valores e de coisas.

Claudiane Weber
Bibliotecária – UFSC

*Meneghetti, Antonio. A Psicologia do Líder. Recanto Maestro: Ontopsicologica Editrice, 2008.

Sobre a crise das bibliotecas

É curioso perceber que, mesmo antes de eu decidir fazer o curso de biblioteconomia em 2008, as bibliotecas já estavam agonizando e  já estavam em crise. Mas na verdade acredito que desde que a Internet começou a se tornar realmente popular (final dos anos 90, acho), várias foram as mídias que tornaram-se “agonizando e em crise”: o jornalismo (com o jornalismo online), a música (com o formato .mp3), as grandes editoras científicas e periódicos científicos impressos (com os periódicos online em acesso livre), os livros (com o Kindle e outros leitores, etc) só pra citar alguns exemplos.

Todas essas coisas “estão morrendo” faz alguns bons anos já. Mas… Estão mesmo? Ou estão apenas reaparecendo de outros modos?

Não adianta, meu otimismo é incorrigível.

Penso em até que ponto essa crise é de fato uma crise e não a oportunidade para que aconteçam mudanças que transformem – pra melhor – a vida das pessoas. Todo mundo diz que a época das grandes revoluções já passou, mas eu acho que existe sim muito ainda pelo quê lutar… As pessoas só não sabem disso, por que a maioria está acomodada. A impressão que fica é que enquanto ninguém levar um grande golpe e precisar se mexer de verdade, ninguém  irá parar de lixar as unhas ou levantar do sofá.

Faz algum tempo que tenho lido notícia ou outra sobre o fechamento de bibliotecas nos Estados Unidos, este ano também já vi que rolou  uma Anarchy in the UK por que aumentaram as taxas da educação do ensino superior e agora estão querendo fechar bibliotecas públicas por lá também, por que né, ninguém vai à biblioteca e ficar mantendo uma é muito caro. É claro que a economia dita as coisas. Mas se fossemos levar tudo desse jeito, não precisava existir mais nada: museus de arte, praças, parques, espaços públicos de lazer, por que né, tudo isso são ‘gastos desnecessários’.

Não consigo negar que, aos poucos, as bibliotecas estão se tornando museus, de fato. Digo fato, por que é algo que não pode – e não deve – mais ser ignorado. Não estou falando que isso é uma possibilidade, estou dizendo que isso está se tornando cada vez mais real, mesmo. Não estou querendo aqui desmerecer de modo nenhum a importância das bibliotecas, mas acredito que alguns problemas não podem mais ser ignorados, pelo próprio bem da sobrevivência da nossa profissão. Quando é que vão parar com essa mania de fingir que as coisas não estão mudando? Outra dica:  também acredito que só ficar promovendo “orgulho bibliotecário” é um movimento vazio de significado e também não promove mudança efetiva nenhuma.

É nítido perceber que os bibliotecários estão ficando  cada vez mais desesperados, tentando demarcar um território que acham que é de propriedade deles, pois não conseguem enxergar outras perspectivas de trabalho fora do que já conhecem (ou já têm experiência). Na verdade, neste caso específico do fechamento das bibliotecas, não são só os bibliotecários que estão reclamando, mas também são pessoas de determinada comunidade que têm – ou tiveram – uma relação afetiva com a instituição biblioteca, que tentam argumentar  ou achar um meio termo para justificar a existência e permanência delas.

Algumas pessoas acreditam que a biblioteca universitária – assim como a conhecemos – vai acabar por que vai terminar se transformando em um grande laboratório de informática dominado pelo pessoal de TI. Não sei se é bem por aí. Final de janeiro, dia 31, me encaminharam um retweet do Neil Gaiman (@neilhimself) da campanha #savelibraries (#salvemasbibliotecas), de alguém que criou posteres defendendo a permanencia das bibliotecas, estilo propaganda da primeira guerra mundial. Isso (a criação destes tipos de posteres), por si só, já é sintomático. O passado é muito bonito estéticamente? Sim, é realmente muito bonito, não discordo disso. Mas é sempre bom ter em mente o óbvio ululante de que o passado não é o futuro.  As coisas estão mudando, efetivamente.. E é preciso acordar pra isso!

Há alguns dias já vi gente reclamando, ontem mesmo vi gente chorando – o que realmente me cortou o coração, de verdade. Olha… Dizer que eu acho BACANA fecharem bibliotecas, também não acho. Acho ruim… Acho triste e acho que configura sim em uma perda grave. E eu também realmente espero que quem esteja tomando este tipo de decisão não se arrependa do que está fazendo (mas geralmente se arrependem e  só enxergam o estrago depois, mas aí o leite já foi derramado e enfim… Eis a história [mais repetitiva] da humanidade).

É curioso notar como tratam das coisas como se fossem definitivas e imperativas: “o jornalismo morreu”, “o livro acabou”, “as bibliotecas fecharam e não há nada a ser feito”, “perdemos nossos empregos pra máquinas”, etc. Daí eu começo a entender o meu otimismo: ser pessimista é pra fracos, por que ser pessimista é muito fácil. Tão fácil que chega a ser tentador. Pessoalmente, não acredito que tudo seja assim tão definitivo. Acho que agora, mais do que nunca, a época é de transição e convergência extrema… E épocas assim são bastante difíceis: é preciso saber enfrentar e não denegar.

A gente já sabe que o bibliotecário trabalha com livros, artigos, material de pesquisas científicas, educação, leitura. E em seu núcleo, não adianta negar: trabalhamos com informação. Assim como – mais especificamente – os jornalistas, os técnicos em informática, os cientistas da computação, programadores, e né, todas as outras profissões, em maior ou menor escala.

Esta intersecção existe, mas bibliotecários tem propriedades que jornalistas e outros técnicos, não tem e assim por diante. Somos únicos em nosso campo de conhecimento, não somos melhores nem piores que nada nem ninguém: fazemos (ou ao menos deveríamos fazer) parte de um conjunto de pessoas que trabalham com a informação, cada uma ao seu modo.

Tenho algumas perguntas em mente, mas elas são bem restritas. Digo que são restritas por que elas se dirigem apenas para o ambiente que mais faço parte – o universitário. Mas acho que todo mundo da biblioteconomia pode pensar nas coisas no âmbito o qual faz parte…

  • Por que as universidades são tão especializadas em fazer a sua própria assessoria de imprensa, e, no entanto, os portais ou sites universitários são sempre extremamente empobrecidos de informações úteis para quem os acessa? Quem fica responsável por isso? Pessoal de TI? Olha, não tão dando conta, viu? Fica a dica.
  • Por que ainda não existem “Políticas para Informação e Acesso” (com questões que concernem a vários ambitos de pesquisa, ensino e extensão) na maioria das universidades? Quem é que deveria ter posicionamento político sério referente à isso? Por que isso não pode ser de responsabilidade também – e principalmente – da biblioteca e dos bibliotecários? Isso precisa ser assumido.
  • Por que a maioria das universidades não tem um Banco de Dados de Teses e Dissertações (BDTD) decente? Ou se tem, eles são de difícil acesso ou estão deixados às traças virtuais? Quem deveria estar brigando pela digitalização e disseminação do conteúdo no formato digital? Quem deveria estar lidando com a padronização e com os metadados desses itens, que deveriam estar online com acesso irrestrito? Pessoal de TI instala o software, faz as manutenções e o resto eles não vão querer nem saber.  Isso não parece função de biblioteca?
  • E os periódicos das universidades? Por que é tudo deixado a deus dará? Por que a biblioteca não se encarrega de manter uma encubadora de periódicos e não se responsabiliza por manter os periódicos de sua instituição em alto nível de competitividade e em acesso livre? Por que não tem bibliotecário interessado nisso? “Isso é coisa de editora”? As editoras universitárias ainda estão na idade média, se preocupando em vender livros impressos. Cadê o bibliotecário pra dar conta desta meta-editora?

Quantos sites de universidades – federais e estaduais – que eu já vi  e considerei precários? Por que? Por que claramente não são pessoas que pensam em informação – como bibliotecários pensariam – que os criam, provavelmente. Não nego a “boa vontade” de quem tem iniciativas ruins, mas nem só de boa vontade as coisas se resolvem né? Do mesmo modo que iniciativas isoladas raramente sobrevivem, se não contarem com um apoio de muita gente.

Enfim, essas são só algumas das dúvidas que me assolam. Sim, talvez róle uma ingenuidade por que eu ainda não consiga enxergar a floresta como todo, mas só algumas árvores – mas acho que as minhas questões não deixam de ser pertinentes. Ainda acredito que existe muito trabalho pra ser feito e muita coisa pra ser mudada.

Se juntar pra chorar as pitangas coletivamente em qualquer lugar é muito fácil. Pessoalmente, eu acho esse um comportamento feio e reprovável. Pra mim já não é uma questão de “ó, coitadinhos de nós, bibliotecários, que estamos perdendo espaço”. Não, não estamos! O espaço é nosso e não estamos sabendo ocupá-lo devidamente! Existe tanto por fazer!

É uma questão de posicionamento profissional – e isso não tem NADA a ver com orgulho do que já se faz, mas sim em reconhecimento do que pode ser feito e melhorado. Se você só se lamenta, cada vez mais vai ter do que se lamentar. Se você enxerga os erros, cresce, aparece e briga pra modificá-los, mais cedo ou mais tarde alguém te ouve e as coisas mudam. Acredite.

Tipos de Bibliotecários – O que faz um bibliotecário?

(Texto publicado originalmente em 8 de janeiro de 2011 no blog Doraexlibris)

The offered me the office, offered me the shop
They said I’d better take anything they’d got
(…)
Career opportunities are the ones that never knock
Every job they offer you is to keep you out the dock
(The Clash – Carreer Opportunities)

Uma das perguntas que mais redirecionam aqui pro blog é: o que faz quem trabalha em biblioteca? Ou ainda: quem trabalha em biblioteca? Certo dia resolvi me questionar “o que um bibliotecário faz, exatamente, numa biblioteca?” e me pareceu ser tanta coisa ao mesmo tempo que pensava ser sempre necessário uma bela de uma equipe pra dar conta de tudo (e muitas vezes é mesmo). Mas acho que isso depende diretamente do tamanho da biblioteca em questão. É fato que só um bibliotecário pode dar conta de uma biblioteca pequena ou mais especializada, com a diferença é que é mais trabalhoso fazer tudo sozinho. Mas em bibliotecas de médio ou grande porte, tipo empresariais ou universitárias, acho que um bibliotecário apenas – ou dois – deve complicar o meio de campo. Para isso também ainda existem os técnicos em biblioteconomia: enquanto os bibliotecários cuidam de questões gerenciais e de estratégia, os técnicos podem realizar a manutenção e cuidar das questões práticas da biblioteca.

Imagino que as pessoas escolham o curso de biblioteconomia por vários motivos, sendo o principal deles prestar concurso, claro. Digo isso pois quando os professores perguntavam para gente na primeira fase o que pretendíamos com o curso, essa foi a resposta que mais ouvi e noto agora na sétima fase que ainda existem colegas preparando-se para concursos. Outras o escolhem pelos mais variados motivos, sendo as respostas mais comuns: porque já trabalham (ou trabalharam) em bibliotecas e querem se especializar pra entrar no mercado de trabalho de vez, porque não sabem bem o que vão fazer da vida, porque gostam de ler e também porque são tímidas e tentam o curso achando que vão trabalhar apenas com livros, sem precisarem interagir com muitas pessoas. Devem existir outros motivos, mas eles são menos comuns e eu não os conheço. Mas depois de algum tempo de curso as pessoas descobrem coisas, fazem alguns estágios, têm experiências diferentes e acabam se encontrando (ou não). Isso de se encontrar é uma questão um pouco mais difícil e complicada, pois é uma questão extremamente pessoal.

No blog Bilingual Librarian da Stephanie Rocio, ela menciona brevemente no post “Então você quer ser bibliotecário?” que existem tipos diferentes de bibliotecários (catalogadores, de referência, circulação,  para adolescentes e bibliotecários escolares).  Acho que aprendi sobre os diferentes tipos de bibliotecas (públicas, escolares, acadêmicas, especializadas), mas não sei se isso foi o suficiente, pois queria saber mais especificamente sobre os profissionais mesmo por exemplo: que tipos e quantos profissionais bibliotecários trabalhariam dentro de uma biblioteca universitária por exemplo?

No site do DirectoryM encontrei um breve post falando sobre os tipos de bibliotecários, mas ele também foi muito voltado mais para os tipos de bibliotecas do que para os profissionais em si, então às vezes me parece que há uma certa confusão nesse sentido. De qualquer modo, vou tentar listar aqui alguns tipos de bibliotecários que eu imagino que existam, seja pelo tipo de biblioteca em que trabalham ou pela sua atividade específica dentro da biblioteca. Espero não esquecer de nenhum tipo, mas caso esqueça, os comentários podem me ajudar a atualizar o post e melhorá-lo.

Tenho uma idéia para outros posts que é a de entrevistar alguns dos meus colegas que fazem estágio já há algum tempo – e também pessoas que conheço que trabalham na área – e perguntar como é feita a divisão do trabalho nas bibliotecas em que atuam, quais são as práticas, etc. A listagem que fiz aqui não é um texto original, mas sim uma mistura de textos que encontrei na Wikipédia e em outros sites, junto com opiniões minhas. Ao longo da graduação (ou às vezes até mesmo antes dela, se você tiver sorte, acho) imagino que a gente acabe se identificando com algum dos tipos de bibliotecários que listei. Às vezes não nos identificamos com nenhum deles, às vezes com vários, mas aí a história é outra.

A Evolução dos Bibliotecários

Segue a lista:

Bibliotecários Acadêmicos ou Universitários – Seriam – deveriam ser – a continuação dos bibliotecários escolares, nas bibliotecas universitárias. Bibliotecários acadêmicos geralmente coordenam  uma série de atividades referentes ao ambiente universitário (eventos, palestras, oficinas, cursos) e organizam as informações, desenvolvendo coleções de acordo com o curriculum universitário. Geralmente as bibliotecas universitárias são as maiores, desenvolvendo-se até mesmo em biblioteca setoriais, formando um sistema de bibliotecas, pra melhor abarcar o acervo de acordo com os departamentos e/ou centros de ensino. Além dos serviços correntes que existem em bibliotecas – acervo especializado de livros raros e históricos, teses e dissertações, serviço de referência, etc. – algumas bibliotecas deveriam preocupar-se com a questão de liberdade intelectual, apesar de me parecer que isto – infelizmente – ainda não é uma questão para as bibliotecas universitárias no Brasil, acontecendo mais nos Estados Unidos.

Bibliotecários de Ação Cultural – A ação cultural é mais frequente em bibliotecas públicas e também em centros culturais. O bibliotecário que atua com Ação Cultural, é consciente de sua dimensão educativa e política e visa transformar e operar mudanças na realidade da comunidade onde está inserido. Além da comunidade, seu relacionamento também pode se estender a movimentos sociais, engajando-se em projetos amplos com o objetivo de integrar a comunidade como um todo. Enquanto o bibliotecário de Instrução ensina e auxilia os usuários, o bibliotecário de Ação Cultural faz a mediação entre a comunidade e o projeto a ser desenvolvido, tratando usuários não como receptores apenas, mas como sujeitos da criação cultural. É interessante o papel de desalienação da cultura de massa e busca de uma identidade cultural própria, que pode surgir de uma idéia do bibliotecário de Ação Cultural. Em seu papel de líder, o agente deve recorrer às possíveis fontes de recursos a fim de viabilizar a implementação dos projetos, seja através de órgãos governamentais ou entidades privadas, valendo-se das leis de incentivo à cultura. Tirei estas informações do texto Ação Cultural: possibilidades de atuação do bibliotecário.

Bibliotecários no BiblioCamp 2015.

Bibliotecários de Desenvolvimento de Coleções – Acho que estes são os mais ‘administradores’ e/ou gestores dos bibliotecários e acredito que este tipo de planejamento geralmente é feito pelo bibliotecário-chefe, que também tem outras atribuições e responsabilidades. Meio raro ter uma equipe ou uma pessoa que lide exclusivamente com isso, mas talvez exista e eu desconheça. Tem gente que acha que o desenvolvimento de coleções compete apenas ao bibliotecário, outros que acham que compete à comunidade, aos usuários da biblioteca em questão e né, claro, eu sempre acho que tem uma terceira via e que tudo deve ser equilibrado. A seleção de livros, periódicos, fontes eletrônicas e outros materiais precisa de um monitoramento. Posições que lidam com orçamento são complicadas e todos os planos para aprovação tem que ser muito bem justificados para que alguma decisão que envolva certos recursos seja acatada.

Bibliotecários Escolares – Desde o início do curso nos dizem que precisamos trabalhar na biblioteca que mais tem a ver com o nosso perfil de personalidade. Para se trabalhar em uma biblioteca escolar, não tem muito jeito: pré-requisito básico é gostar de crianças e pré-adolescentes. Geralmente bibliotecários escolares trabalham em conjunto com professores – e às vezes também de forma muito parecida, como professores – estimulando a leitura e ajudando as crianças com o uso de ferramentas da internet. As atividades de um bibliotecário escolar são coordenadas de acordo com o currículo, embora não devam ater-se apenas a ele. Uma biblioteca escolar tem acervo especial com material diferenciado  – gibis, revistas para crianças, etc – e programas voltados para crianças, focando também a interação com os pais.

Bibliotecários Especiais Bibliotecários especiais são diferentes de bibliotecários especializados por suas preocupações serem ainda mais específicas. Bibliotecários especiais estendem seus serviços e benefícios a outras parcelas da comunidade, provendo serviços informacionais e culturais para grupos de minorias, tais como pessoas com deficiências (auditiva, visual, mental, etc), estrangeiros, alguns grupos de movimentos sociais, comunidades desamparadas ou de baixa renda, prisioneiros e transgressores, sem teto e comunidades rurais.

Bibliotecários Especializados – Trabalham em bibliotecas de medicina, odontologia, direito, artes, em grandes acervos de fotografias ou em bibliotecas de empresas particulares. Tive uma experiência de 4 meses em uma biblioteca de uma empresa de engenharia e percebi que é um trabalho que demanda um alto nível de comprometimento com a empresa ou área com a qual você está lidando, sendo necessário um alto senso de cultura organizacional, enxergando a área específica na qual você está trabalhando de um modo mais sistêmico, holístico mesmo. Ou seja, o trabalho de gerenciamento da biblioteca é importante? Sim, é, mas o bibliotecário especialista não deve focar-se apenas nele se quiser ser bom. Basicamente, qualquer área do conhecimento pode ter seu próprio bibliotecário, basta a pessoa ter interesse pela área em questão e ser motivada.

Bibliotecários de Instrução Auxiliam com o letramento informacional de usuários em aulas presenciais e/ou através da criação de objetos de aprendizagem online. Instruem usuários a encontrar, avaliar e usar a informação efetivamente, usarem determinados programas e bases de dados, ou indicam quais são as normas (ABNT, Vancouver, etc.) mais utilizadas e aceitas para apresentação de pesquisas ou trabalhos acadêmicos. São mais comuns em bibliotecas acadêmicas.

Bibliotecários de Processamento Técnico – Estes seriam os profissionais que trabalham “nos bastidores” da biblioteca, com catalogação, classificação e indexação de todos os materiais do acervo.  Por ser um trabalho muito recluso, repetitivo e que lida com  uma série de materiais auxiliares (AACR2, CDD, CDU, Cutter-Sanborn), ele tende a ser menosprezado por quem tem uma personalidade mais ativa e crítica, como coisa que “qualquer pessoa ensinada pode fazer”. Concordo que até pessoas não ensinadas podem trabalhar com processamento técnico, mas a maioria  – dada a oportunidade – simplesmente não se dará a este trabalho (ao menos não numa biblioteca física, rs). Quem é bibliotecário faz isso por que gosta, por que acha curioso descrever itens diferentes, porque acha o processo de classificação algo criativo, por mais que aparentemente não seja.  E quem considera estas coisas inúteis é porque talvez tenha preocupações muito mais nobres que estas. Pessoalmente, considero este tipo de serviço o núcleo, pois se eles não existissem tais como são, a biblioteconomia provavelmente se descaracterizaria e se tornaria outra coisa que talvez ainda não exista (que é o que provavelmente acontecerá, algum dia). Aliás, foi justamente aprender como funciona o processamento técnico que me motivou a fazer o curso de biblioteconomia. Mas também acredito que organizar informação é apenas mais uma parte de todo um processo e não o processo principal ou ainda, o menos importante. É apenas essencial  – pra não dizer, o mínimo – para uma biblioteca (física) que se pretende razoavelmente organizada.

Bibliotecários de Referência ou de Pesquisa– Trabalham diretamente com o público, com pessoas de todas as idades e vários tipos de materiais. Ajudam as pessoas a realizar levantamentos bibliográficos para uma pesquisa e encontrarem as informações que precisam, muitas vezes através de uma conversa estruturada,  tipo uma entrevista de referência. A ajuda pode tomar forma de pesquisa sobre uma questão específica, promovendo um uso mais direcionado de bases de dados e outras fontes eletrônicas de informação. O bibliotecário de referência ainda pode obter materiais especializados de outras fontes ou prover acesso a materiais delicados ou raros.

Bibliotecários de Restauração – Alguns cursos – inclusive o curso de biblioteconomia da UFSC, há alguns anos – ofereciam disciplinas optativas de restauração de livros, especificamente. Esta disciplina não consta mais no currículo e também tem se tornado rara nos cursos de graduação talvez pelo baixo interesse e também por conta dos materiais de restauro, que são caros. Mas por incrível que pareça, ainda tem gente que faz restauração de livros. Algumas pessoas nem chamariam de bibliotecários, mas talvez bibliófilos-restauradores que entendem de técnicas de restauração de livros antigos. As pessoas que trabalham com isso compreendem que, além do apego sentimental aos livros – que muita gente ainda tem –  questões como a preservação e a memória também tem sua relevância, em alguns contextos.

Bibliotecários de Sistemas – Desenvolvem, reparam e mantém os sistemas de bibliotecas, fornecendo bases para a organização das informações a partir do computador, sejam elas feitas por bibliotecários ou usuários. O trabalho de um bibliotecário de sistemas pode incluir o catálogo, bem como outros sistemas relacionados, tendo como principal foco a qualidade na recuperação das informações e auxílio no desenvolvimento de interfaces amigáveis que auxiliam na autonomia de usuários, na busca por informações. Para este tipo de bibliotecário, conhecimentos de informática (bancos de dados, sistemas operacionais, programação, software livre, etc.) não são apenas desejáveis como inatos – não aprende-se isso no curso de biblioteconomia: usa-se o que já se aprendeu (de um modo ou outro, às vezes com autodidatismo mesmo) para aplica o que já se sabe ao que se aprende ao longo do curso de biblioteconomia. Mas isto é só o que eu acho, enfim…  Tudo o que escrevi aqui encontrei em um pdf. da FURG, que fala um pouco sobre o bibliotecário de sistemas.

Bibliotecários Virtuais – Ou em inglês, os weblibrarians (pois pessoalmente não gosto da palavra cibertecário). Como exemplo de biblioteca virtual que me lembro de primeira, é a  Biblioteca Virtual do  Governo do Estado de São Paulo, onde trabalham os colegas @weblibrarian e a @refazioli. De acordo com a descrição que encontrei, bibliotecários virtuais administram bases de dados e trabalham para organizar e preservar uma série de informações que encontramos disponíveis online. Esses bibliotecários são tipicamente classificados como Arquitetos da Informação e este tipo de trabalho pode ser bastante inovador, principalmente quando aplicado em conjunto com bibliotecas físicas. Eles podem desenvolver meios novos e incomuns de arquitetura de informação e linkar dados de uma fonte com outra.

Biblioterapeutas – As áreas interdisciplinares que corroboram com a Biblioterapia geralmente são a enfermagem e também a psicologia.  A biblioterapia pode ser conceituada como a prescrição de materiais de leitura com função terapêutica. A prática biblioterapêutica pode ser utilizada como um importante instrumento no restabelecimento psíquico de indivíduos com transtornos emocionais. O foco do biblioterapeuta é bastante  voltado para os pacientes que estão sendo atendidos, e as atividades de biblioteca (administração, processamento, gestão), apesar de também serem importantes, ficam sempre em segundo plano.

Ainda existe também a discussão de bibliotecários que trabalham como arquivistas e documentalistas, – e na Wikipédia também diz que arquivistas podem ser “bibliotecários especializados que lidam com material arquivístico, tais como manuscritos, documentos e gravações, embora isso varie de país para país, e existam outras rotas para a profissão de arquivista” –  e toda aquela discussão sobre os “profissionais da informação”, que trabalham nas “unidades de informação”, mas acho que este não é o propósito deste post.

Entendam que este não é um post que define nada… Estes tipos de bibliotecários não são “definitivos” como a táuba(sic) dos dez mandamentos não.

Só criei este o post por que 1. Sou curiosa 2. Notei que algumas pessoas procuram e acham o blog por expressões de busca como “o que faz um bibliotecário” ou “tipos de bibliotecários”, 3. Notei que não havia nenhum post com informações suficientes sobre isso. Simples assim.

Missão do Bibliotecário, por José Ortega y Gasset

José Ortega y Gasset (Madrid, 9 de maio de 1883 — Madrid, 18 de outubro de 1955) foi um intelectual, filósofo espanhol. Também atuou como ativista político e como jornalista. Voltado principalmente para aspirantes da área de biblioteconomia, o texto Missão do Bibliotecário discorre um pouco sobre o contexto histórico e a natureza da profissão: como ela se deu, quando teve seu início e como foi então a sua evolução. Ortega y Gasset por ser filósofo, tem uma perspectiva um tanto quanto existencialista acerca da profissão de bibliotecário, mas o autor não chega a ser um idealista, delineando apenas os caminhos para qual seus argumentos evoluem.

MISSÃO DO BIBLIOTECÁIRO ORTEGA Y GASSETEncarando a profissão estritamente como uma “Missão Pessoal” o autor elucida pensamentos que, em primeira instância, ao leitor leigo, parecem muito óbvios tais como “Missão significa, antes de tudo, aquilo que um homem deve fazer em sua vida” (2006, p. 3). O leitor que não estiver a par de um contexto de uma linha filosófica mais existencialista, imaginará que o autor e seus argumentos são um tanto quanto ingênuos. Porém isso não se aplica quando o autor fala da necessidade humana acerca da profissão pois “este chamado que ouvimos rumo a um tipo de vida, esta voz ou grito imperativo que se eleva de nosso íntimo mais radical, é a vocação” (2006, p. 6).

De qualquer forma o autor faz uma crítica não a profissão bibliotecária em si, mas ao que ela fez de si mesma, o que se tornou. No tópico “Missão Profissional” o autor reitera que na atualidade em que vivia (o que não difere muito dos dias de hoje), não se fazia mais biblioteconomia por vocação, mas pelo simples fato de exercer uma função e ter um trabalho. O intelectualismo não estava mais atrelado à profissão. Nos dias de hoje é possível enxergarmos que o que impera é a impessoalidade ao tratarmos da biblioteconomia de uma maneira um tanto quanto asséptica, preocupando-se mais com dados e técnicas do que com o lado humano ou social, enxergando o ofício puramente como uma carreira. Ortega y Gasset defende o que hoje é evidente: são raros os apaixonados pela profissão, que a fazem por convicção e vocação.

(…) o homem faz aquilo que ele e somente ele deve fazer, com total liberdade e sob sua exclusiva responsabilidade. Por outro lado, esse mesmo homem, ao exercer uma profissão, compromete-se a fazer o que a sociedade necessita. (p.13)

Remontando a história da profissão do século XV ao século XIX, o autor indica que foi apenas no início do Renascimento que a figura do bibliotecário começou a delinear-se na esféra pública (p. 18). Já no século XIX, a carência de livros que existiu nos séculos anteriores havia sido suprida, existia uma maior freqüência de publicação e a impressão tornou-se mais barata, o que fez por sua vez surgir a necessidade da catalogação (p. 21). Embora os avanços tenham sido evidentes, a profissão ainda era considerada social e espontânea, pois o Estado ainda não a tornara oficial (p. 22). “O incidente mais importante – certamente pensareis comigo – que pode acontecer a uma profissão é passar de ocupação espontaneamente fomentada pela sociedade a burocracida do Estado” (p. 23).

Em “O livro como conflito” Ortega y Gasset faz três colocações que ainda na atualidade são temas de debate e controvérsia. Suas colocações, explanando grosseiramente, são as de que 1. Existem livros demais – há informação demais; 2. Existe também uma super-produção de livros de “conteúdo irrelevante”; 3. Propõe a figura do bibliotecário como filtro de conteúdo. É possível perceber que o autor mantém seu foco muito no objeto livro e não no livro enquanto suporte de informação. No entanto não é difícil imaginar e visualizar o discurso do autor ainda sendo debatido nos dias de hoje. A nova missão da profissão de bibliotecário, ao mesmo tempo que deveria ser uma continuidade das habilidades já existentes, precisa de um novo recomeço, uma reconfiguração.

A proposta de Ortega y Gasset acerca do bibliotecário como “filtro de conteúdo” do meio científico já é uma realidade quando observamos os profissionais que decidem por especializar-se em uma área específica como a de leis ou de saúde. Em todo o caso, não é possível convir que a figura do bibliotecário possa limitar-se a ser um “especialista em generalidades”, pois esse tipo de profissão não nos permitiria a credibilidade e muito menos daria autoridade alguma no sentido de censurar a informação de qualquer forma. O autor finaliza fazendo uma crítica não à profissão em si, mas ao anti-conhecimento e aos maus profissionais de uma forma um tanto quanto generalizada, condenando também a arrogância intelectual quando diz que “infinitas vezes damos como ‘certo e sabido’ o que é essencial, o substantivo. Essa é uma das mais graves doenças do pensamento” (p. 47).

ORTEGA Y GASSET, José. Missão do Bibliotecário. Tradução e pósfacio de Antonio Agenor Briquet de Lemos. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2006. 82 p.

(Resenha publicada originalmente em 17 de abril de 2008.)

Um robô vai roubar seu trabalho?

Saiu dia 11 de setembro agora na BBC uma matéria interativa chamada “Um robô vai roubar seu trabalho?” (Will a robot take your job?).

Esse link apareceu pra mim semana passada no Twitter e é claro que a primeira coisa que fiz foi colocar “Librarian” (bibliotecário/a) no search deles. A estimativa dessa pesquisa é verificar a porcentagem que as profissões selecionadas têm de serem automatizadas em cerca de 20 anos. Achei que viria 99,99% de chance de bibliotecários serem automatizados, mas não: foi 52%, o que não deixa de ser uma porcentagem considerável.

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Curti os bonequinhos andróides.

Achei curioso bibliotecários estarem quase que exatamente no meio do caminho, de acordo com essa pesquisa. Em um outro quadro abaixo desse tem as estatísticas que mostram que a estimativa é de que no Reino Unido hoje trabalhem cerca de 20 mil bibliotecários. Mas fiquei inquieta com a resposta apenas para bibliotecários e fui verificar profissiões relacionadas na lista que eles disponibilizam bem no finalzinho da matéria.

  • Book-keeper, payroll manager or wages clerk = 97% (guardadores de livros)
  • Library clerk = 96.7% (atendentes de biblioteca)
  • Archivist or curator = 38.3% (arquivista ou curador)

Parece haver uma diferença entre trabalhos que lidam com o mundo físico (guarda de livros propriamente dita, entre outros procedimentos) e trabalhos que lidem com informação independente de suporte. De acordo com a pesquisa, o que tem maior probabilidade de ser automatizado são os trabalhos braçais e repetitivos, bem como os mais arriscados como por exemplo, ter que ficar confinado em lugares muito apertados ou ainda manipular objetos pequenos (construção de automotivos e cirurgias complicadas, por exemplo).

Os dados desta pesquisa são baseados no artigo “O futuro do trabalho: quão suscetíveis à automação são os empregos?”. Para os autores, trabalhos como os de assistência social, enfermagem, terapia e psicologia estão entre as profissões menos prováveis de sofrerem automação uma vez que cuidar e auxiliar outras pessoas envolve empatia, uma habilidade que é crucial para o trabalho. Já algoritmos sofisticados estão desafiando várias vagas de apoio administrativo, particularmente em serviços legais e financeiros.

Acho interessante ler sobre isso porque retorna à questão do futuro da área, uma vez que acreditam o processamento técnico vai acabar e a guarda e a organização de material físico também vai acabar sendo substituída – caso ainda exista. E a pesquisa corrobora com a ideia de que trabalhos que envolvam gestão da inovação e criatividade, que sejam relevantes e ajudem as pessoas, têm menos chances de serem substituídos por máquinas.

De qualquer modo, ainda há muito trabalho a ser feito. :)

Eventos de bibliotecários para bibliotecários

Ainda não tive tempo pra digerir direito tudo o que aconteceu em 2015-1 ainda, mas aconteceu bastante coisa. Desde que vim pro famigerado mercado de trabalho, nunca fui tão chamada pra participar tanto de conversas e eventos. Não acho que isso seja um reconhecimento do meu trabalho ainda – mesmo porque ainda acredito que não cheguei nessa fase – mas é muito bacana poder falar sobre o que tem sido feito e conversar com pessoas da área pra que as pessoas vejam que se manter e persistir em uma carreira não é tão simples quanto parece.

O complicado é que durante essas conversas é possivel também que eu me auto-avalie, vendo em que contexto me sinto mais confortável falando e em quais outros ainda tenho muito a melhorar.

Em abril esse ano fui chamada pela colega Claudiane Weber (doutoranda na USP) e pela professora Dra. Sueli Mara para conversar com os alunos de biblio da USP Ribeirão Preto sobre Organização da Informação na internet, um pouquinho de folksonomia e também sobre carreira. A conversa foi feita pelo Google Hangouts, pois não tive tempo hábil de sair do meu trabalho para ir até Ribeirão Preto. Foi bem bacana e tiveram duas perguntas sobre como funciona o mercado de trabalho e o mundo corporativo e falei sobre a minha experiência pessoal.

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Em maio, teve o BiblioCamp no Rio de Janeiro (foto acima), onde falei brevemente sobre o meu percurso na biblioteconomia e sobre o meu “nomadismo” na área. O Moreno me convidou e eu fui. A minha fala não serviu pra me assegurar de nada, mas sim para eu entender que a vida não é estática e que minha carreira também não precisa ser. Acho que o mais bacana do BiblioCamp foi o fato dele ser quase um EREBD fora de época… Só que todos os meus colegas hoje estão formados e também tinha um pessoal que eu conheço há décadas. Foi bem bacana sair do evento e ir pra Lapa sentar numa mesa de bar e me sentir como se eu estivesse em família, sentir que aquelas pessoas não são só minhas colegas de profissão, mas minhas amigas também.

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Duas mesas num boteco da lapa, só com bibliotecários de todo o Brasil. :)

Acredito que podiam acontecer mais BiblioCamps… Alguém poderia criar uma plataforma ou até mesmo uma enquete de boas práticas, e os trabalhos mais interessantes seriam selecionados pra apresentação. Esse ano terá um BiblioCamp em Curitiba, mas ainda não tenho certeza de que vou participar.

Ainda em maio, fui conversar sobre carreira novamente com o pessoal do Curso Técnico em Biblioteconomia do SENAC, a convite do meu amigo Lucas Oliveira. Mas diferente do BiblioCamp, eu foquei mais nos contextos corporativos em que estive até agora e em qual foi o meu papel em cada uma das empresas pelas quais passei. Depois da minha apresentação, tive uma conversa informal com os alunos e disse que, para quem tem um objetivo em mente, o mercado pode estar aquecido. Pra quem quer emprego, também, só que o mercado não costuma manter quem só quer um emprego. E esse é o diferencial. É importante que levem seus objetivos a sério e se especializem, caso sintam que podem fazer a diferença na área.

Em junho, a convite da ABRAINFO, eu e a Ana (minha colega de trabalho) fomos chamadas para falar sobre carreira na UNIFAI, para os alunos da graduação em biblioteconomia. A apresentação da Ana foi mais conceitual e bem diferente da minha, que foi objetiva até demais. Desta vez eu não falei das minhas experiências profissionais passadas, mas do que venho fazendo e criando atualmente no Walmart com a equipe de taxonomia. Falei sobre a importância de manter o currículo online com o LinkedIn e de estarem em projetos que você efetivamente trabalhe, mas que também “veja acontecer”, enxergue os resultados. Foi bacana e acho que no final, com as dúvidas dos alunos, consegui me aproximar um pouco mais do pessoal por descrever minhas experiências pessoais com bibliotecários e de como entendo a profissão hoje em dia. Nesse evento também conheci duas colegas de profissão que fazem trabalhos muito interessantes, seja empreendendo ou se especializando em um processo específico.

No início de julho, voltei ao Rio de Janeiro dessa vez para ministrar um minicurso sobre Curadoria Digital. Pra mim isso foi o mais desafiador de tudo, pois nunca forneci um minicurso antes – acredito que não tenho didática e para ficar falando de um mesmo assunto por 4 horas. Gostaria de ter explorado mais coisas, de ter interagido mais com quem participou, mas enfim… Essas são habilidades que vou ter que buscar com o tempo. E embora o meu conceito de entendimento de curadoria seja bastante específico, não consegui deixar de mencionar – inclusive com exemplos práticos – o “trabalho de curadoria” da informação que tenho feito com uma equipe de taxonomia há quase um ano na empresa em que estou. Sempre vou achar que poderia ter feito melhor, mas no final foi uma experiência bastante válida.

Final de julho agora teve o CBBD, mas não participei. Achei peculiar terem chamado o Pondé para falar sobre ética. Acredito também que o mínimo que deveria ter sido feito – talvez como contraponto – seria chamar o Safatle para falar sobre o mesmo tema. Alguns colegas de Florianópolis e do Rio vieram para o evento e pela movimentação que acompanhei no Facebook, gostaram bastante – inclusive falando sobre apresentações de melhores práticas. Talvez no próximo ano ou em outro momento em que o que eu faço hoje estiver mais amadurecido, eu envie um trabalho que acredito que pode ser interessante para os colegas.

Ainda falando sobre eventos, percebo que os eventos da área são, por vezes, muito ensimesmados. Claro que quando é para se falar em cursos de graduação, isso é necessário: o público, os alunos, precisam ter contato com experiências de profissionais para terem uma ideia do que seria a prática. Mas tudo é questão de contexto e eu acredito que a biblioteconomia pode se aplicar em vários contextos. Às vezes eu tenho a impressão de que todas as outras áreas nos enxergam apenas como burocratas, ou que fazemos apenas a parte operacional e de gestão de determinada demanda, sem contribuir efetivamente para se pensar a informação. Não seria interessante participarmos de eventos de outras áreas, pra verificarmos possibilidades e oportunidades para o nosso trabalho? Tenho pensado nisso e esta é uma pergunta boa de nos fazermos vez  outra:

O que faz com que um evento tenha relevância pra nós?

Cientista da informação? Mesmo?

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Quando digo que sou formada em biblioteconomia, as pessoas que não tem muito contato com bibliotecas fazem várias perguntas. A que todo mundo conhece e que todos os estudantes da área já estão cansados de ouvir é o famoso “biblioquê?“. A segunda pergunta é “mas quem se forma nisso faz o quê mesmo?”. A terceira “Ah! Mas então você é biblioteconomista!”, quase, na trave. E os que sabem um pouco mais perguntam “você é bibliotecária onde?”.

Tinha escrito que um nome é só um nome antes. Mas querendo ou não, nomes designam uma série de coisas. Eu não sabia se eu ia, efetivamente, trabalhar como bibliotecária depois de formada. Vários colegas bacharéis se formam e vão trabalhar no mercado de Arquitetura da Informação, por exemplo, ou de Análise/Métricas de Mídias Sociais, ou com estatística de dados. São bacharéis em biblioteconomia, mas que não precisam de CRB. São bibliotecários de alma, mas não de carteirinha.

O que é mais importante?

O contexto é importante. Categorias e classes apenas importam no contexto em que importam. Caso eu fizesse o mestrado, seria apenas uma bacharel em biblioteconomia – pois, para mim, bibliotecário é quem atua e para o CRB é quem tem CRB. Para o mercado, bibliotecário é quem tem experiência ou procedência de uma boa faculdade. Caso eu me formasse mestre em ciência da informação, me consideraria mestre em Ciência da Informação.

Este ano pretendo fazer uma pós latu sensu e devo me tornar especialista, caso tenha sucesso. A Ciência da Informação é uma grande área, mas vinculada a ela ou não, posso continuar pesquisando ‘a informação’ de modo a melhor se adequar aos meus interesses profissionais no momento. Posso ser pesquisadora vinculada à uma instituição de ensino superior ou pesquisadora independente, que é o que acredito que faço quando traduzo artigos e escrevo posts para este blog.

Vejo até hoje muitos graduandos utilizando o termo ‘cientistas da informação’ para se definirem, mas talvez as únicas pessoas que tenham ‘alvará’ para se denominar assim sejam os mestrandos e doutorandos em CI. No Brasil, não há uma graduação em Ciência da Informação propriamente dita, mas em Biblioteconomia apenas (isso explica bem o quadrinho). Há apenas uma graduação em Gestão da Informação na UFPR e ela não forma bibliotecários. Nem cientistas da informação. 

Sobre esse termo, imagino que seja apenas um nome pretensioso demais para definir algo que é muito mais simples: pesquisadores com interesse em informação de uma determinada área; ou com interesse na gestão ou fluxo de informação de um determinado ambiente ou serviço. Particularmente quando leio o termo “ciência” o que me vem imediatamente em mente são as hard sciences: química, física, etc., onde existem os cientistas propriamente ditos.

Vamos pesar no estereótipo agora: aqueles mesmo, que usam jalecos, tem cabelos esquisitos, vivem enfurnados em laboratórios com substâncias raras e utilizadas com propósitos específicos, em ambientes ultra controlados e se comunicam com demonstrações e símbolos. Nem melhores, nem piores, mas bastante diferentes das áreas de humanas. De qualquer modo o nome já existe e está consolidado enquanto área dentro da grande área das Ciências Sociais Aplicadas. Mas sim, é sempre bom lembrar que existem ciências e ciências. 

E fazer ciência, infelizmente, ainda é pra poucos.

You say goodbye and I say hello!

Este texto é a minha resposta pessoal para a nota que li do Luís Antônio Girón, Dê adeus às bibliotecas, publicado em 15/05/2012 na revista Época Online.

O título é um pedido difícil de ser cumprido, até mesmo para o autor: “Dê adeus às bibliotecas”. É imperativo: dê adeus, despeça-se e logo! (Importante notar que, ao final do texto, ele diz que tem a intenção de dizer adeus, mas que, efetivamente, não consegue. E não diz. Sim, é difícil)

Recebi o link na terça mesmo, mas não achei o que o buzz em torno do texto seria tanto. Nessas circunstâncias, o diálogo com bibliotecários é quase sempre tão inviável devido à toda a balbúrdia, que muitos que têm uma opinião levemente distinta da maioria acabam desistindo dele. Mas eu ainda não desisti, mesmo lendo mais uma matéria que coloca do dedo na ferida da biblioteconomia brasileira. Enfim…

Esse texto terá duas partes. Na primeira, responderei o que mais me inquietou no texto do Luís. Na segunda, tentarei argumentar com as reclamações que li dos bibliotecários, referentes ao texto.

Leiam o que eu tenho a dizer por sua própria conta e risco.

É fácil recair no estereótipo, na ‘descortesia típica’, nutrida por anos a fio, advinda de um ensino formal tipicamente tecnicista (e ninguém pode negar isso), voltado mais para a organização e preservação de acervos do que para as pessoas. É isso o que somos, ainda, em nosso “núcleo duro”, de fato. Mas isso está mudando, a passos de formiga, mas está (sejamos otimistas, né?). Bibliotecários estão se vendo obrigados a ser cada vez menos técnicos e mais sociais e sociáveis. Quanto a qualquer adjetivo referente aos bibliotecários do passado, eu me abstenho: vivo o hoje e sou outro tipo de profissional. Ao menos isso não mexe mais com meus brios.

Confesso que fiquei bastante chocada quando a suposta bibliotecária te disse “Por que não consultou o catálogo pela internet?”. Você definitivamente teve um dia de azar ao se deparar com alguém tão pouco profissional em um ambiente que ainda lhe é tão caro.

Quanto aos volumes raros Luís, eles não são ocultados, mas preservados. E de fato é simplesmente uma norma: não realizarmos o empréstimo deste tipo de material tão especial. Sim, somos chatos e respeitamos as normas, na maioria das vezes, sempre que possível – isso ainda faz parte da nossa profissão. Quanto a políticas específicas de digitalização para este acervo mais que especial, qualquer movimento nesse sentido exige um budget um tanto quanto alto eu diria, ou seja, isso não é viabilizado com tanta facilidade (embora seja muito interessante). Sim, as coisas são um pouquinho mais lentas e mais difíceis de se conseguir do que imaginamos – ainda mais quando se trata de bibliotecas públicas brasileiras.

Luís: estantes secretas ou vetadas para visitações, embora te espante muito, ainda são bastante comuns sim. Inclusive a Biblioteca Nacional (BN), pelo que me parece, já é vetada à consulta “em carne e osso” (LOL!) sem acompanhamento de alguém do staff. Também acho que a BN deveria não só ser digital mas mais atrativa fisicamente, mas isso é apenas um sonho meio distante…

E você não é tão velho, nem tão antiquado, nem tão saudoso e nostálgico quanto imagina. Pelo contrário: é completamente normal que alguém com tanto acesso irrestrito à tudo através da internet e do uso constante de gadgets e etc. – ache esse tipo de preservação no mínimo estranha, pra não dizer completamente datada e desnecessária. É bastante compreensível mesmo. Só acho que há um certo exagero no seu tom quando você diz que “graças às bibliotecárias, você jamais chegará” às obras especiais, raras, mas suspeito que você faça isso só pra me provocar.. Tudo bem.

Eu entendo que é um tanto quanto difícil ouvir um sonoro não de um reles e mortal humano, quando tudo o que a tecnologia só sabe te dizer é sim o tempo todo hoje em dia, não é mesmo? Faço a compreensiva: Luís, eu te entendo. De verdade. Mas por favor, também compreenda: visitas frustradas acontecem, mesmo. Não encontrar o que se deseja, acontece também. Apenas lide com isso (no bom sentido).

No geral, achei seu texto triste Luís, porque a realidade é mesmo triste assim, como você descreveu. Toda nostalgia é um pouco perda e toda perda dói mesmo. Dóem mais ainda as perdas de coisas que jamais possuímos direito. Mas achei mais melancólico ainda quando li “As bibliotecas não servem mais para nada nem a ninguém. Nem mesmo a mim, que sempre as amei”. Essas frases me soaram quase que como um divórcio de alguém que se ama muito. E como todo divórcio, há também os mesmos sentimentos: a vontade, a intenção e a decisão de se dizer adeus definitivo e sem volta (não te quero mais, te dou um adeus) e a incapacidade e impossibilidade do adeus perene e sustentável (mas ainda preciso muito de ti). Achei super sensível. E fofo também.

Há um certo padrão na forma como enxergam o Luís: jornalista, editor, formador de opinião de veículo de comunicação de massa, mestre, dotô… Perceberam que quanto mais “pomposo” o cargo dele ou quanto mais títulos ele tiver, pior e/ou mais humildes nos sentimos? Pois é.

É claro que ele é tudo isso e tem seus interesses: escrever um texto obviamente provocativo pra gerar um puta buzz, pra gerar visitações e, só de quebra, gerar uma moção de retratação de bibliotecários muito do indignados, o que pode não deixar de ser um motivo de orgulho para um jornalista, assim como um guerreiro tem orgulho das suas cicatrizes e aquela história toda de “falem mal, mas falem de mim”, etc.

Os bibliotecários, por outro lado, parecem na verdade gostar de se sentir mal o tempo todo. Ficam loucos quando falam mal deles, mas, em contra-partida ignoram os trabalhos e avanços dos próprios colegas de profissão e qualquer comentário positivo acerca de coisas boas que tem sido feitas. E justamente por conta dessa baixa auto-estima, no geral preferem enxergar o que chamam de detratores da biblioteconomia (o que eu acho um exagero) por cima da carne seca. Por que será?

No caso desse texto, prefiro enxergar a pessoa que o escreveu nem mesmo como um usuário, mas como uma pessoa mesmo. Alguém que quer me dizer algo e conversar comigo. Nada além disso.

Bibliotecários são os ególatras com mais baixa auto-estima que eu conheço, o que é bizarramente contraditório, mas analisando o grupo no geral, é bem isso mesmo. No entanto, reluto em compartilhar desse recalque todo: faço parte da categoria mas não faço parte disso porque não acredito que este seja o caminho. Será possível conseguirmos, algum dia, termos algum tipo de diálogo minimamente civilizado e razoável? É sempre esse vociferar antes de pensar, o que me irrita profundamente.

Tentei ler os comentários do texto do Luís mas como eles eram muitos e se tornaram repetitivos, desisti. Peguei apenas as afirmações mais inquietantes e tentei elucidar um pouco mais por aqui. Só não continuei a ler os comentários pois, no final, todos só se limitavam a xingar o autor ou repetir mais do mesmo – não existiam opiniões muito divergentes.

Parece que não há espaço pra pluralidade de opiniões pois isso pode ferir de algum tipo de homogenia da classe, o que discordo. Sou bibliotecária, não me ofendi com o texto do Luís e não acho que ele está denegrindo nada nem a ninguém.

Vou tentar pontuar rapidamente alguns comentários que li e comentar na medida em que achar pertinente:

O autor acha que as bibliotecas vão acabar. O autor acha que devem acabar com as bibliotecas.

(Não farei questão nenhuma de ser delicada nesta resposta ok?) Não. Ele não acha nada disso. Volte para a pré-escola e tenha mais aulas de leitura e interpretação de texto novamente.

Ele não conhece nada sobre a nossa profissão, então nem deveria estar falando sobre isso.

Essa (anti)lógica é tão errada que é quase como dizer: “ele foi mal atendido, mas a culpa é dele se ele acha isso”. Juro que não entendo. A questão não é esta: o jornalista conhecer ou desconhecer o que a nossa profissão faz ou deixa de fazer. Ele não está escrevendo uma reportagem sobre biblioteconomia, ele está relatando o que SENTIU ao visitar uma biblioteca pública. O que importa é que ele foi mal atendido e tem o direito de expressar sua opinião quanto a isto.

Talvez não tenha sido uma bibliotecária que o atendeu, mas sim uma auxiliar.

E daí? E quem será que contrata estagiários? Não é a bibliotecária-chefe? Que se responsabilize mais por quem contrata então. Se eu visitar uma biblioteca e quiser ser atendida, pouco me interessa se for bibliotecária ou auxiliar. Eu quero é ser bem atendida, independente de quem for. Isso nem é passível de discussão. Desculpem.

O autor ofendeu, desrespeitou e denegriu a classe bibliotecária.

Isso não ocorreu durante o texto. O tom pode ter sido irônico, mas isso não é ofensa e o autor fez isso proposital e estilísticamente talvez (valeu Guilherme Lourenço) com o propósito de gerar discussão. O autor não desrespeitou ninguém e nem denegriu classe nenhuma: apenas passou por um mau atendimento em uma biblioteca pública. Sejam mais maduros e aceitem este fato. Quer continuar mantendo seu prestígio como bibliotecário/a? Faça por merecê-lo. E principalmente não contrate estagiários que odeiem a profissão. Fica a dica.

O autor generalizou demais. Ele não pode tomar um caso isolado como perfil de toda uma profissão.

Em momento algum o autor falou sobre A CLASSE bibliotecária em si, mas sim da senhora que o atendeu. Quando ele fala “típico desta categoria”, o autor na verdade, sem saber, refere-se ao estereótipo e não à classe. E estereótipos mudam, categorias permanecem: por isso não me ofendi com o que ele disse, mesmo sendo também bibliotecária (valeu Marchelly). Ou seja, não houve generalização em momento algum. Foi a PRÓPRIA classe bibliotecária que, deliberadamente, resolveu, por conta própria, tomar as dores de uma MÁ profissional para si. E então eu lhes pergunto: por que?

– Generalização é errado.

Qualquer generalização é perfeitamente válida quando diz respeito a grupos. Aliás, é a única maneira de se levar em conta a avaliação de um grupo. O que não é válido é aplicar a generalização a um indivíduo. Porque cada indivíduo é avaliado como uma exceção ao grupo. Se estamos tratando de um grupo, temos que levar em conta o comportamento da maioria, da regra, do geral. Exceções são devem ser tratadas como um caso à parte. Generalização não é errado. Vocês é que são politicamente corretos demais pro meu gosto. (Obrigada Milena Mattos por me esclarecer de novo este ponto).

O autor transgrediu o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros nos artigos 2º, 7º e 14º.

Acho que vocês não tem muita noção do quão grave é acusar alguém de falta de ética por motivo fútil. Mas em se tratando de primeiro-anistas do curso de biblioteconomia, podemos até relevar – mas não muito, tendo em vista que são influenciados diretamente pelos professores doutores que tanto admiram. E desta vez não foi diferente: bem como todas as outras, isso foi bastante precipitado. Achei de um exagero vergonhoso e desproporcional. O autor não agiu com falta de ética, ele apenas expôs sua opinião. É sério mesmo que vocês vão censurar um usuário, bibliotecários? Vão fazê-lo se retratar por ter sido mal atendido? Me desculpem, não enxergo a lógica aqui.

Ninguém gosta de ser mal atendido em nenhum lugar e matérias opinativas sobre bibliotecas com um atendimento pobre sempre serão notícia, acostumem-se. Algum bibliotecário, em algum momento, SEQUER pensou em perguntar ao jornalista que biblioteca é esta que ele foi? Alguém pensou em ir lá e repreender a pessoa que o atendeu mal, em algum momento? A questão é: o que NÓS faremos em relação a notícias assim? Pensaremos sobre as questões que uma materia dessas possa vir sucitar ou simplesmente censuraremos o usuário e ficaremos histéricos a respeito disso? 1969 mandou um beijo à todos.

 – Exigimos retratação.

Retratação de quem? Quem deveria se retratar é a pessoa que o atendeu mal.

É um absurdo ele comparar uma biblioteca a uma lan-house.

Bom, provavelmente na época em que o autor fez mestrado e doutorado, a Internet não deveria ser tão popularizada quanto hoje em dia. Isso justifica em parte o saudosismo dele e o fato dele perceber o esvaziamento das bibliotecas (sem computadores) e a proliferação de Lan Houses, que não são exatamente lugares de pesquisa e estudo, mas na falta de uma biblioteca decente, certamente são melhores. Não acho que ele tenha comparado nada, só acho que nos mostrou uma possibilidade que deveria ser melhor explorada.

Enquanto a biblioteca se comportar apenas como uma biblioteca, ela não potencializará nem seu acervo e muito menos seus serviços tão em breve. E também perderá oportunidades de criar uma comunidade mais consistente, que a faça crescer. Se queremos ser profissionais melhores, temos que ter em mente que precisamos oferecer também o melhor para as pessoas e acho bastante tacanha essa mentalidade tecnófoba na biblioteconomia tendo em vista que inclusão digital é um dos assuntos que também constam na nossa agenda.

Enfim… Enquanto existem bibliotecários que preferem gastar seu tempo e energia se preocupando (talvez exagerada e desnecessariamente) com a imagem de outra pessoa com a qual nem mesmo se identificam, o prof. Francisco das Chagas de Souza (UFSC) tem promovido uma campanha política no Facebook de um abaixo-assinado em favor da abertura de um sistema de bibliotecas públicas em Florianópolis. Confesso que é mesmo bastante difícil ver bibliotecários, que se acham tão auto-importantes, tão vitais e tão necessários à comunidade se movimentando minimamente que seja em favor iniciativas como esta.