O que se faz em uma biblioteca?

Albert Markovski: Você pode preservar muitos espaços abertos e criar empregos para pessoas com…
Mr. Hooten: Me desculpe Albert, mas eu não terminei.
Albert Markovski: Desculpe, senhor.
Mr. Hooten: Roupas, vídeos, brinquedos, hamburgueres, carros, uma economia funcional..
Albert Markovski: Você ainda pode ter uma economia funcional e preservar espaços abertos com um pouco de planejamento.
Tommy Corn: É.
Mr. Hooten: Socialismo.
Mrs. Hooten: Socialismo. Um completo desastre.
Albert Markovski: Theodore Roosevelt era socialista? E Yeats?
Mrs. Hooten: Theodore Roosevelt…
Albert Markovski: Henry David Thoreau, Robinson Jeffers, the National Geographic Society, todos socialistas?
Mr. Hooten: Você está falando sobre socialismo.
Albert Markovski: Não, não estou. Estou falando sobre não cobrir cada centímetro com casas e shoppings até ninguém mais conseguir lembrar do que acontece no prado ao entardecer.
Bret: O que acontece no prado ao entardecer?
Albert Markovski: Tudo!
Mrs. Hooten: Nada!
Albert Markovski: Tudo.
Mrs. Hooten: Nada!
Albert Markovski: Tudo!
Mrs. Hooten: Nada!
Albert Markovski: É lindo.
Tommy Corn: É lindo.

Algumas pessoas já buscaram pelo blog procurando não só pela expressão “o que faz um bibliotecário?”, mas também pela expressão “o que se faz em uma biblioteca?”. Há alguns dias atrás assisti de novo o filme I ♥ Huckabees (ou I Love Huckabees) na casa de uma colega. Esse filme tem a tradução horrorosa de “Huckabees – A vida é uma comédia”. Apesar de ter algumas partes sim, muito engraçadas, não consigo categorizar este filme exatamente como comédia. A categorização dele estaria pra mim num inbetween entre vários temas. Tenho um interesse (ainda que muito superficial) no conceito de existencialismo, também curto o filme Waking Life, do Richard Linklater (que também fez Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol).

Só sei que essa cena do jantar na casa dos Hooters me impressionou bastante nas duas vezes que assisti: há anos atrás e há dias atrás. E hoje fiz essa conexão meio maluca entre essa cena do filme e a biblioteca. As pessoas perguntam “o que se faz em uma biblioteca?” é porque talvez nunca tenham ido em uma (ou tenham ido e tido uma péssima experiência) ou ainda ninguém nunca as tenha auxiliado a construir um repertório nesse sentido. Como é o caso do personagem de Bret que, aparentemente, nunca sequer viu um pôr do sol na vida, pois deve passar mais tempo fazendo escolhas mais produtivas como, por exemplo, jogar vídeo game. Com pais como os dele, meio que não o culpo por isso. Igreja, vídeo-games e pornografia: uma belíssima tríade.

O que acontece no prado ao entardecer? O que se faz em uma biblioteca?

Nada.

Tudo.

Depende tanto das pessoas que fazem a biblioteca ser o que é, quanto das outras pessoas que também dão sentido à sua existência.

É lindo.

Um livro por dia, de Jeremy Mercer

um-livro-por-diaÉ difícil acreditar que uma história como a que foi contada por Jeremy Mercer realmente tenha acontecido. Seria muito mais fácil pra nós leitores acreditarmos que é uma obra de “ficção”, mas é incrívelmente mais fascinante acreditar que é uma obra “baseada em fatos reais”. Clichê, porém verdade. É um tanto quanto surreal acreditar que uma loja como a Shakespeare & Company realmente exista e tenha se mantido na ativa por tanto tempo num ambiente capitalista. Mas se levarmos em conta que o “ambiente capitalista” é a capital mundial intelectual que é Paris, na França, tudo começa a ser um pouco mais compreensível.

Pessoalmente acredito que Mercer não precisaria ter ido tão longe pra se desvencilhar dos apuros em que se meteu. Poderia ir pro interior dos Estados Unidos, ou pros recônditos mais gélidos do Canadá mesmo. Até agora me pergunto “Por que tão longe? Por que Paris?”. No livro não existe essa resposta e talvez ela não exista nem mesmo na cabeça do autor. Fato é que o jornalista resolveu refugiar-se no velho mundo, com pouco dinheiro, sem muitos recursos e sem conhecidos. Uma aventura e tanto pra um branco, de classe média, de país desenvolvido. Em seu livro, Mercer não só descreve a história da loja, como também de seu proprietário, George Whitman, um homem com uma história de vida extraordinária.

Falar dele sem falar da Shakespeare & Company (e vice versa) não faria sentido algum. Whitman pode com toda a certeza ser considerado um bibliófilo, no melhor estilo marxista-comunista. As frases que George mais costumava dizer (pois parecem ser as mais repetidas ao longo do livro) são “Não seja um mau anfitrião para os estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados” e “Dê o que puder, pegue o que precisar”. Para Mercer parecia loucura a forma com que George acreditava não só em sua ideologia, mas também na bondade inerente das pessoas. Sua livraria oferecia não apenas chás, sopa e pão, como também era um teto para escritores em hiatos criativos ou sem lugar pra ficar em Paris e turistas curiosos e afeitos ao glamour e às lendas e mitos que corriam sobre a loja, como a de George ser filho do Walt Whitman e sobre Shakespeare já ter morado lá. E George geralmente dizia às pessoas que essas coisas eram verdade por que “as pessoas ficam felizes com isso”, segundo ele.

Ao contar a história da loja, que foi aberta em 1951, o autor lembrou de frequentadores bastante famosos tais como Henry Miller, Anaïs Nin e mais tarde a turma dos beatnicks ou beats, contando com Jack Kerouack e Allen Ginsberg. Ele também citou que a Shakespeare & Company acobertou estudantes das manifestações de maio de 68, tais como foram retratados em filmes como “Os Sonhadores” de Bertolucci. Mesmo em se tratando de uma utopia socialista, a livraria não fugia às pressões de um mundo capitalista e ainda assim existia uma pequena hierarquia social lá dentro, um tipo de “política social” bastante restrita aos residentes apenas. Whitman tinha o dom anarquista de colocar as pessoas em situações desconfortáveis apenas para ver o que poderia acontecer, bem como quando pediu a Jeremy para mandar Simon embora do antiquário. Simon era um poeta com uma idade avançada, ex-alcoólatra, mas ainda assim usuário de codeína e haxixe. Além de Simon, Mercer conviveu e relatou os perfis de cada um dos vários residentes tais como Kurt, Ablimit, Eva e Elina, moça por quem acabou se apaixonando.

De qualquer forma, é possível afirmar que o autor demorou bastante a entender o “espírito” da loja, seu funcionamento e de como funcionava também a mente de Whitman. Quando foi pedir lugar pra ficar por lá, a primeira coisa que George o dissera foi “Se você realmente fosse um escritor, nem teria pedido pra ficar, simplesmente ficaria”. Querendo ou não, o autor ainda tinha concepções muito enraizadas de sua criação num país capitalista e desenvolvido. Às vezes ele reclamava dizendo “senti-me um membro que contribuía para a equipe e só lamentava que George não tivesse me visto dando duro”, sendo que, mesmo que o visse, ele não se importaria de qualquer forma. O senhor Whitman não era um homem de “trocas”, nem de “favores”. Esse não é, nunca foi, seu foco. Ele é um homem livre e acredita que as pessoas que o cercam também são livres. Whitman era um libertário no sentido mais amplo e extremo imaginável, o que sempre foi um tanto quanto inconcebível pra Mercer.

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“George tinha descoberto que o dinheiro era o maior senhor de escravos, e ao reduzir sua dependência dele as pessoas eram capazes de afrouxar a pressão de um mundo sufocante” aprendeu o autor ao final do livro. Na verdade aprendeu muito mais que isso quando entendeu para si mesmo que “Eu acordava vendo um estranho se vestindo na minha frente e aprendera a não pensar nada sobre isso. Voltava para a livraria depois de um café no Panis e descobria um novo corpo babando no meu travesseiro, e limitava-me a oferecer a ele outro cobertor”. Mercer tornou-se alguém menos preocupado com os alardes da vida moderna e tornou-se uma pessoa espiritualmente mais generosa, independente da concepção política que a loja e seu dono carregavam. Em dias de “Aldeia global”, onde um individualismo exacerbado e padronizado é a base de todas as coisas, perceber que “quanto mais forte a comunidade, mais forte o indivíduo” é pra poucas pessoas tem a coragem e esperança de acreditar num futuro melhor.

Finalizando, uma das partes mais emocionantes do livro foi o reencontro de George com sua filha, Sylvia. Só a partir do momento em que Mercer se prontifica a procurar pela filha de George é que é possível entender a importância do autor na vida da Shakespeare & Company. É impressionante perceber que o nome do livro em português “Um livro por dia” faz todo o sentido por que, mesmo que o autor não tenha de fato lido um livro por dia na Shakespeare & Company, cada dia em que ele viveu por lá ele tinha uma história diferente pra contar. E essas histórias eram mundos de pessoas diferentes e dentro de cada mundo desses era perfeitamente possível conceber um livro, caso fosse humanamente possível. E isso faz mais sentido ainda ao notarmos que ao final do livro o autor refere-se ainda, talvez sem saber, a Umberto Eco, ao dizer que “a vida é uma obra aberta”. A vida é de fato uma obra aberta, pois até a morte ela é contínua: os personagens mudam interna e externamente, os cenários e as concepções de vida se modificam como dunas. Mas a história é marcada, etérea e eterna.

Confira também a excelente matéria do Portal Literal sobre a Shakespeare and Company, por Tathiana Magalhães e Bruno Dorigatti. Nessa matéria é possível ver várias fotos da livraria.

MERCER, Jeremy. Um livro por dia: minha temporada parisiense. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007. 320 p.

(Resenha publicada originalmente em 16 de abril de 2008.)

Artistas na biblioteca: performance da Amanda Palmer na NYPL dia 20/08

Conheci a Amanda Palmer pela antiga banda dela de punk cabaret, o Dresden Dolls. Faz algum tempo já que acompanho a carreira dela. Ela é casada com o escritor Neil Gaiman (que também já foi traduzido aqui no blog). Do relacionamento dela com o Gaiman ela se inspirou para escrever o A arte de pedir (spin off do Ted Talk dela), que saiu pela Intrínseca aqui no Brasil esse ano.

O livro é praticamente uma autobiografia dela, com várias histórias confessionais onde ela também fala sobre seu processo criativo e seus relacionamentos. Enfim, não quis esperar e comprei o livro em inglês. Para uma artista que é performer, até que ela não se saiu mal como escritora. E além do livro, do relacionamento com o Gaiman ela também está esperando uma nova vida…

Enfim, tudo isso pra dizer que como performer a Amanda também tem – já teve – várias iniciativas de fazer pocket shows e aparições rápidas em bibliotecas. E tem uma marcada pra quinta-feira agora, dia 20 de agosto, às 18h, na biblioteca pública de New York. Provavelmente esse vai ser um dos últimos pocket-shows que ela vai fazer antes de se afastar um pouquinho para ter o bebê.

O legal é que nessa chamada ela pediu para quem comparecesse trouxesse como doação um livro infantil para cooperar com um programa de leitura da NYPL e disse que uma ação será feita com esses livros na hora, fazendo o maior suspense. Queria estar em NY pra ver como vai ser isso, pois fiquei bem curiosa.

Ela disse que este evento tem sido planejado em segredo por dois meses e parece que vai ter a gravação de um vídeo clipe. Para financiar esta gravação – entre outras ações dela – ela tem utilizado o Patreon ultimamente. É provável que em algum momento esse vídeo eventualmente seja disponibilizado no youtube e poderá ser visto no mundo todo.

Não sei se vem ao caso se esse tipo de ação cultural – pois não deixa de ser – partiu da artista ou da biblioteca. O que realmente importa é que: 1. Isso está acontecendo! 2. Está trazendo pessoas para o espaço da biblioteca que será utilizado para algum tipo de ação; 3. e uma comunidade (fãs da Amanda Palmer) está efetivamente ajudando outra comunidade (a de pessoas que tem acesso limitado à leitura).

Acho que seria muito interessante se inspirar em ações nesse sentido. Em eventos curtos, mas que tenham significado e que as pessoas participantes – mesmo que poucas – se sintam envolvidas e parte de algum processo. Parte de um vídeo clipe que aparecerá na internet depois, com seu artista preferido. Parte de uma ação de caridade, que ajudará outras pessoas que precisam. Parte de algo que vá além e signifique mais do que um mero evento, do que uma simples reunião, mas que seja uma experiência transformadora e que ressignifique algumas coisas que conhecem até então.

Esse é um dos papéis da arte e a Amanda sabe muito bem disso. E as bibliotecas podem – e devem – viabilizar esse tipo de ação sempre que possível.

Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Uma palestra que explica porque usar nossa imaginação e providenciar para que outros utilizem as suas, é uma obrigação de todos os cidadãos

pelo The Guardian, em 15/10/2013

Neil Gaiman
“Temos a obrigação de imaginar…” Neil Gaiman dá uma palestra anual à Reading Agency sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. Fotografia: Robyn Mayes.

É importante para as pessoas dizerem de que lado estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse em sociedade. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma indústria em amplo crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E que certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazeirosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler e mostrarmos a elas que a leitura é uma atividade prazeirosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero talvez, ou um autor e declará-los como livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

Enid Blyton's Famous Five book Five Get Into a Fix
Não existem escritores ruins… O famoso livro de Enid Blyton. Foto: Greg Balfour Evans/Alamy

É tosco. É arrogante e é burrice. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Elas podem encontrar as histórias que precisam, e elas levam a si mesmas nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para elas. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que elas estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a maçã da árvore do conhecimento, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo
A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo, Bag End. Foto: HarperCollins

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros sobre fantasmas ou mágica ou foguetes, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Menino lendo em sua escola
Foto: Alamy

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Inglaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e onde elas possam ser capazes de imaginar e compreender.

• Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

Bibliotecas: descentralização é modernização?

Ainda me repreendo por ter tantos questionamentos, mas ao invés de reprimir tento cada vez mais fazer o inverso. Além da educação repressora que tive (como todos da minha geração) acho também que por ser uma neófita na área, não é de bom tom ficar questionando demais a tudo e a todos ou até mesmo simplesmente expôr minhas inquietudes aos colegas mais experientes. Mas pode ser proveitoso questionar às vezes, só pra variar um pouco.

Há dois meses trabalho como bibliotecária em uma empresa grande e tenho aprendido muitas coisas. As atividades de adaptação à rotina, ao cotidiano, a lidar com o que sempre quis lidar e isso tudo me afeta diretamente, afeta o que leio e principalmente em que acredito. Vários mitos desaparecem, algumas certezas se consolidam. E o que ocorre é totalmente paradoxal pois ao mesmo tempo que me sinto em lua de mel com o que escolhi fazer da vida, também passo por uma bela (e boa) fase de desilusão. Interessante notar que uma coisa não necessariamente exclui a outra. É um doce fel. Mas acho que é assim com tudo o que gostamos de verdade.

Esta semana li dois textos que me fizeram criar este post.

O primeiro foi “O mercado errado para as bibliotecas”, da Christine Madsen. Fiz um comentário no Facebook mas acho mais interessante expandir a conversa por aqui. O assunto é bastante espinhoso: modernização das bibliotecas. E na boa? Ninguém aguenta mais falar disso. Sinto calafrios toda vez que leio a palavra “modernização” porque sei que a discussão vai ser que nem naquela música estúpida que diz que “o futuro não é mais como era antigamente” e parar por aí mesmo. As pessoas se bastam a observar o que acontece, a avaliar o que estamos perdendo e tudo fica por isso mesmo, tem sempre um comportamento passivo demais e uma certa preguiça de olhar para o que o futuro pode ser. Se falam em pós-modernismo então é pior ainda… A impressão que fica é que para existir algum tipo de discussão minimamente relevante é condição sine qua non que esses conceitos estejam envolvidos. E desconfio seriamente disso.

A Madsen critica o modelo de informação centralizado que as bibliotecas universitárias vêm cultivando há mais ou menos 150 anos. Diz que este modelo é mais centrado em objetos (recuperação da informação e desenvolvimento de acervo) do que em pessoas e afirma que este mesmo modelo ainda luta para permanecer relevante. E isso tudo é bem triste, mas é verdade – em partes. O “modelo centralizado” de bibliotecas universitárias me parece (não sou uma especialista) que tem sido substituido por um modelo mais setorial, de bibliotecas menores. Ainda assim, este modelo descentralizado não satisfaz a carência de determinadas demandas (que muitas pessoas sequer sabem que existe, mas aí é outro assunto).

Ilustração de Matias Adolfsson
Ilustração de Matias Adolfsson

A autora menciona as bibliotecas academicas antigas, superespecializadas e personalizadas (customizadas) que são caóticas por natureza. No entanto, achar qualquer coisa nessas bibliotecas é impossível pois a sua função é distinta: nesses pequenos mundos de livros, a obtenção de conhecimento é sempre prioritária à obtenção de informação. A organização de bibliotecas de pesquisadores, como por exemplo, a Bibliothek Warburg, só faz sentido para o próprio pesquisador por conta de sua função: criação e não recuperação. E ter e criar isso em larga escala me parece insano é um desafio e tanto, uma vez que (quer queiram, quer não) ainda estamos nessa época de transição e modelos híbridos (do papel ao digital, etc).

Bibliotecários, em princípio, trabalham com informação. Mas eventualmente podem se interessar pela área de Gestão do Conhecimento pois esta é uma escolha pessoal. Trabalho com informação (o que é concreto, objetivo, quantificável) porque é com isso que lido no dia a dia, mas o conhecimento (abstrato, subjetivo, pessoal) ainda me parece estar sempre a um passo além do que faço, embora também faça parte do que vivencio. São estudos complementares mas não se pode dar conta de tudo o tempo todo, por isso quando possível formam-se equipes com gestores do conhecimento. A autora usa o termo “Teoria de Bibliotecas” e eu realmente queria ler mais sobre isso, mas ela não se detém muito neste assunto. Coloco em destaque partes finais do texto com as quais concordei integralmente:

“Tão importante quanto a informação em si é fornecer e sustentar um ambiente que permite a transformação dessa informação em conhecimento novo. O que foi esquecido, por exemplo, é que as bibliotecas foram, e devem ser de novo, inerentemente lugares sociais. Que estes são espaços não apenas para obter acesso aos recursos, mas pessoas – bibliotecários, arquivistas, outros estudiosos – com quem o discurso pode ser inserido sobre os recursos das mesmas. (…) Não há biblioteca, por exemplo, sem uma cultura de pesquisa. (…) O resultado dos recursos aplicados na biblioteca, por conseguinte, não é medido no tamanho da coleção, ou mesmo do número ou satisfação dos utilizadores, mas nas suas experiências.”

O único equívoco da Madsen – equívoco muito comum nos dias de hoje, aliás – foi de achar que o Google é “a Internet”. A idéia de biblioteca universal é datada desde Otlet, as bibliotecas universitárias só foram parte de um processo histórico desta criação, assim como o próprio Google é parte de outra faceta deste mesmo processo. E lembrem-se: o Google não é a Internet, é só (uma grande) parte dela. Ele é muito bom sim, oferece ferramentas, oferece espaço (virtual) mas – ao menos pra mim – existe essa carência de contexto que me inquieta às vezes. Acho mais prudente talvez, usar o Google com parcimônia e ter em mente também outros modos de pesquisa, fontes de informação e experiências reais, amadoras ou profissionais, mas de vida mesmo. E é exatamente aí, neste espaço, nesta lacuna imensa, que o bibliotecário (ou insira seu neologismo cafona preferido aqui) deveria estar atuando.

Ilustração de Matias Adolfsson
Ilustração de Matias Adolfsson

E tratando deste assunto, hoje me deparo com outro texto: “Obra na biblioteca de New York é alvo de intelectuais” que pisa de novo no assunto “modernização”. Resumindo a notícia: estão querendo destituir parte da biblioteca pública de New York de seus livros pra substituir este espaço com computadores. Agressivo, não? Pois é. A primeira impressão que tenho é a de que é agressivo. A segunda, de que é a de que está sobrando dinheiro, mas faltando melhor organização estratégica a quem quer que tenha tido essa idéia que parece brilhante, mas na verdade não é.

Sou contra essa reforma na biblioteca pública de New York porque a acho ridícula. Mas não a acho ridícula por amor às traças e ao acervo, nem nada disso. Sou contra simplesmente porque tenho uma idéia que considero melhor e talvez até mais barata.

O texto da Madsen não está falando justamente sobre descentralização?

Então alguém por favor me explique qual o propósito de destruir parte do acervo físico da biblioteca pública de New York quando poderiam utilizar esse orçamento gigantesco de 600 milhões pra fazer quiosques espalhados em pontos estratégicos da cidade, com terminais que sejam diretamente ligados à biblioteca pública, aos seus serviços e catálogos?

Qual é a razão de centralizar todos esses computadores na biblioteca pública?

Por que não colocar terminais nas estações de metrô, de ônibus, nos aeroportos, enfim, onde as pessoas (que não tem dinheiro pra ter iPhones) realmente precisem? Não sei se meus questionamentos são muito pertinentes ou não, só acredito que uma reforma desta amplitude não deveria ser considerada sem levar em conta outras possibilidades.

E last but not least também é possível questionarmos: a quem estão querendo beneficiar, de verdade, ao suprimir todo um acervo bibliográfico histórico por uma cheia sala de computadores novos?

É. É de se pensar…

Chamada para Publicação – “Marketing para Bibliotecas e Serviços de Informação: uma perspectiva global”

A IFLA está organizando um livro denominado ‘Marketing para Bibliotecas e Serviços de Informação: uma perspectiva global’ a ser publicado em 2012-2, pela sua editora oficial De Deucher. A publicação fará parte da série ‘Green-Back’ de livros editados pela IFLA. Podem submeter artigos bibliotecários e profissionais da informação (praticantes, pesquisadores, acadêmicos, consultores e outros) que atuam na área de marketing e queiram contribuir com suas experiências através de artigos abordando as seguintes áreas:

1. Mudanças nos conceitos de marketing
2. Marketing para bibliotecas e serviços de informação em diferentes países
3. Marketing para bibliotecas e serviços de informação em diferentes tipos de bibliotecas
4. Educação, instrução e pesquisa
5. Marketing baseado na web

A preferência é por artigos que tenham foco em desenvolvimentos recentes no campo como: marketing de fontes online, marketing de bibliotecas digitais, marketing de bibliotecas baseados em consórcio, marketing de produtos/serviços digitais, marketing através de treinamento ou literacia da informação, marketing de serviços de bibliotecas para a comunidade global entre outros aspectos que são significativos sobre o tema que possam ser compartilhados com a comunidade bibliotecária no mundo todo.

Datas:

  • Submissão de expressão de interesse com proposta de publicação: 31 de janeiro de 2012
  • Confirmação aos autores para a contribuição: 15 de março de 2012
  • Submissão dos artigos completos: 31 de maio de 2012

Os artigos selecionados (que devem ser escritos em inglês) serão organizados em um volume pela equipe editorial que consiste de membros da seção de Gestão e Marketing da IFLA .

Com informações do texto original, Call for Submissions: Marketing Library and Information Services: A Global Outlook.