Sobre o constrangimento

Daí você tem que falar pra alguém que é bibliotecário/a ou que faz biblioteconomia. E inevitavelmente você tem que explicar um pouco o que é isso porque as pessoas não sabem. A vergonha deve estar de qual lado: seu por talvez não saber explicar direito ou da pessoa que não faz idéia do que é? Ou dos dois? Ou de nenhum?

Alguém me explica o que um geógrafo faz, além de ser professor de geografia? Mede terreno, sei lá? E um oceanólogo? Mede o mar? E alguém que se forma em letras, faz o que? Só pesquisa e dá aula? Ninguém precisa saber falar o que é, ou ficar se explicando. Quem é competente, faz. E é assim que as pessoas demonstram a que vieram. Ficar se explicando, dependendo do caso, pode ser até perda de tempo.

Concordo que acho tosco quando resolvem dar piti pelo uso ‘indevido’ (ou pelo não uso [!]) dos termos ‘bibliotecário’ e ‘biblioteconomia’ na mídia. Que nem quando falaram que a presidente Dilma parecia uma “bibliotecária solteirona” ou quando na reportagem da inauguração da Mário de Andrade em janeiro desse ano, nenhuma das pessoas que foram entrevistadas e trabalhavam lá apareciam como “bibliotecários”. Quem dá piti geralmente acha ou que: a) Estão ‘denegrindo’ a  nossa imagem profissional; b) Não estão valorizando a nossa classe como deveriam. Ou seja, reclamar com a mídia é uma forma de ‘lutar’ (wtf!) pelo devido reconhecimento. Acredito que reconhecimento seja por mérito dos nossos esforços e não como se fossemos magicamente consegui-lo ao “ganharmos a nossa causa”. O quão infantil não é isso?

Já pararam pra pensar que cada vez que alguém ‘luta’ nesse sentido o nosso estereótipo possa, na verdade, se agravar? Além de bibliotecárias solteironas mal amadas de óculos e coque, acrescentamos os adjetivos de ‘barraqueiras sem senso de humor’ ao nosso já não muito estimado estereótipo. Que as pessoas não conheçam/valorizem o que é e o que faz um bibliotecário é batata. Ninguém sabe mesmo, só quem faz faculdade e olhe lá. Fiquei até surpresa uma vez que um amigo do meu pai, do interior do Mato Grosso do Sul, me disse que não só sabia o que era biblioteconomia, mas me contou como um bibliotecário que ele contratou transformou a empresa de logística dele. Mas né… Essas histórias de gente que sabe do que os bibliotecários são capazes não são tão interessantes… Talvez por serem muito raras.

O nome é de difícil pronúncia e entendimento: a biblioteconomia só me envergonha. Talvez por isso algumas pessoas pensem que é mais interessante mudar o nome de Biblioteconomia pra ‘Gestão da Informação’ ou qualquer outra coisa mais modernosa e pomposa (ou ainda tecnológica!) pra né, ficar mais bonito. O curioso é que o nome (que é só um nome) vai mudar, mas os maus profissionais não vão. Então qual é mesmo o propósito?

O estereótipo bibliotecário que existe no imaginário coletivo quando vem à tona não é com a intenção de denegrir a classe profissional de ninguém: é SÓ um estereótipo inevitável. Nada além disso. O problema é que a extensão de significado do termo ‘denegrir’ pode ser meio ampla, aí se ofendem basicamente por qualquer coisa. Com tanta coisas grotescas que vivenciamos e presenciamos em nossa vida profissional (e fora dela também, inclusive), as pessoas parecem perder o senso do que é denegrir de verdade.

Denegrir para mim é, por exemplo, privar uma pessoa de condições decentes de trabalho (só pra citar UM exemplo, e não precisa nem ser bibliotecário). É humilhar uma pessoa por escolhas de vida. É não permitir que ela desenvolva seu potencial plenamente por algum tipo bizarro de capricho. É cercear e limitar os direitos das pessoas como um todo. Isso sim é que é denegrir uma classe profissional.

Acho que precisamos saber separar quando ocorre uma estereotipação que é de praxe e um ataque mais concreto e generalizado que pode se estender criando precedentes a toda uma classe de profissionais. Também acredito que é possível ter paciência e/ou senso de humor, sem deixar de fazer alguma reflexão crítica séria quando necessário.

 

 

 

Por que reprovei na prova de mestrado da USP em 2011?

[Comentário sobre a prova de mestrado em Ciência da Informação da USP de 2011]

“Como instituições seculares do conhecimento e da memória, Bibliotecas, Museus e Arquivos não só compõem, preservam e disseminam os saberes culturais e a pesquisa científica, eles tem sido historicamente, e são hoje, produtores específicos de conhecimento e de informação. Podemos dizer, mais precisamente, que eles produzem conhecimento sobre o conhecimento, informação sobre as informações, inter-documentos sobre todas as mediações e inscrições (documentos, artefatos e coleções; informações cadastrais e referenciais). Participam das formas estabelecidas de validação e credenciamento da produção do conhecimento, seus produtores e suas vinculações institucionais.

As tecnologias digitais, nômades e interativas podem alterar a atualidade e vigência dos formatos e conteúdos desse conhecimento informacional (ou meta-informacional), mas não a competência crítica e analítica de acompanhar, analisar, reconstruir os novos processos de produção, disseminação e apropriação dos conhecimentos, se exercidas suas competências de maneira crítica e inovadora.”

GONZÁLEZ DE GOMEZ, M. N. A Universidade e a “Sociedade da Informação”. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas , v.9, n.1 , p. 239, jul./dez. 2011. (Grifo Nosso)

A distinção entre meta-informação e informação é algo que precisa ser abordado com uma maior detalhação e cuidado. Em outro post no blog mencionei sobre isso rapidamente, explicando que muitos alunos decepcionam-se com a graduação em Biblioteconomia justamente por ela ter abordagens com mais ênfase no tecnicismo relativo ao processamento técnico, ou seja, à meta-informação, à criação de metadados e aos seus processos relacionados. Alguns graduandos em Biblioteconomia consideram outros cursos de humanas mais interessantes (jornalismo, história, filosofia, letras) pois estes cursos tratam de informações com menos (ou pouquíssima) ênfase em meta-informações. No entanto, no trecho acima, percebi que essa distinção não foi realizada.

Para mim, é um tanto quanto peculiar conceber Bibliotecas, Museus e Arquivos especificamente como produtores de conhecimento e informação. Acho curioso o texto abordar sobre a Universidade e a “Sociedade da Informação” oferecendo tão pouca ênfase à sociedade de fato. Afinal, que “Sociedade da Informação” será essa que existe apesar das Bibliotecas, Museus e Arquivos? Bibliotecas são queimadas e destruídas por questões políticas, Museus e Arquivos facilmente esquecidos pelo descaso de diferentes governos e deteriorados impiedosamente pelo tempo… Mas sociedades – da informação ou não – não só permanecem, como modificam-se e principalmente adaptam-se a novos tempos.

Compreendo que as Unidades de Informação, tais como as conhecemos, tem papel essencial na organização da memória e dos insumos intelectuais das comunidades nas quais estão inseridos. Mas todo o conhecimento e informação que são “compostos, preservados e disseminados” não são produzidos e nem criados por essas unidades de informação, mas sim, pela comunidade nas quais estão inseridos. O conhecimento técnico e cultural adquirido pelos bibliotecários – que tem papel central no desenvolvimento de uma comunidade – é advindo da própria universidade, dos cursos de graduação e posteriormente no aprofundamento e especialização em suas experiências profissionais.

É possível interpretar a partir do trecho exposto (talvez muito equivocadamente, pela falta de contexto) que existe um deslocamento do bibliotecário e suas habilidades junto à uma comunidade, para a instituição biblioteca, ou seja um prédio, que contém livros organizados, em categorias e classificações arbitrárias e que, por si só, entraria em colapso muito facilmente. Uma biblioteca por si só, abandonada a própria sorte (seja por bibliotecários com má formação ou conduta, seja por falta de incentivo governamental ou qualquer outro tipo de descaso grave) raramente produz qualquer coisa que seja, quanto mais informação e mais pretensiosamente ainda, conhecimento.

Relativo às tecnologias digitais, é possível perceber que a relação ainda é a de precaução, mais de desafio do que de oportunidade, uma vez que elas são colocadas em paralelo com a competência do bibliotecário, que deveria ser “crítica e analítica”. Acredito que esse paralelismo não existe na verdade, uma vez que o bibliotecário faz uso destas tecnologias digitais justamente para que elas possam auxiliá-lo (e auxiliar também sua comunidade como um todo) a “acompanhar, analisar e reconstruir os novos processos de produção, disseminação e apropriação dos conhecimentos” – substituindo-o apenas no trabalho repetitivo, “braçal”, na mão de obra, dificilmente no trabalho intelectual e principalmente social.

(…)

Este foi o trecho que deveríamos comentar na prova de mestrado da USP, a qual não passei, por motivos que agora são muito mais claros pra mim. Os comentários que fiz acima foram feitos de uns dois dias pra cá, mas são resumidamente as opiniões que emiti na prova, neste post de forma um pouco mais pontual. Na prova também citei parte da bibliografia que talvez não tenham se ajustado muito adequadamente com o assunto proposto. Mas de qualquer modo, o simples fato de ter exposto este tipo de opinião referente a um texto de uma autoridade da área, já pode ter sido considerado muito mais do que arrogante. Pois bem.

Tecer comentários sobre o texto que foi passado na prova neste espaço pode ser simplesmente considerado ‘malcriação’ ou até mesmo pode ser interpretado como discurso de ‘gente fraca e frustrada’ porque não passou na prova. E talvez seja mesmo, afinal, mesmo sabendo do risco que corri, fiquei bastante decepcionada com o fato de não ter passado. Também fiquei decepcionada com a minha imaturidade intelectual e possível falta de sensibilidade com o trecho a ser comentado. Mas sinceramente, acho que prefiro assumir essa ignorância minha por – hoje – ainda ser incapaz de enxergar isso de outro modo que não seja o qual expus aqui.

Eu sabia que algum dia este momento na minha vida chegaria. Ele chega pra todo mundo, mais cedo ou mais tarde.

Me questiono algumas vezes se poderia simplesmente ter tido sangue frio (ou talvez um cinismo patológico) e ignorado o fato de o texto me trazer afirmações muito contundentes sobre coisas que simplesmente não acredito e não vivencio. Teria que ter muito estômago pra isso e talvez não tenha. Talvez isso seja mera covardia e ingenuidade pura mesmo, falta de malícia. Falta de malandragem. Mas talvez também seja o que chamam de hombridade.

Me questiono se eu poderia simplesmente bancar – mais uma vez – o fato de ter de deixar de lado novamente quem eu sou e no que acredito para tentar conciliar (como sempre) ideias contraditórias. Ter de realizar todo um esforço externo à mim para tentar chegar a um consenso ao invés de conflito, apenas para não confrontar o que está ‘estabelecido’. Mas fracassei nisso. Terrível e felizmente. Talvez eu tenha mais sorte ano que vem. Ou esteja menos insolente.

Biblioteconomia ou Ciência da Informação?

Essa semana eu estou publicando aqui alguns conteúdos que estavam no meu antigo blog de biblio, o Dora Ex Libris. A maior parte das publicações é de 2011, quando eu estava terminando a graduação em biblioteconomia. Hoje encontrei um texto em que eu falava do meu tcc que entreguei em dezembro de 2011. Meu TCC foi um estudo sobre o tema de Organização da Informação (OI) na produção de teses e dissertações em Ciência da Informação no Brasil. Ele levantou algumas outras questões como as Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações (BDTDs), como estão organizadas em cada pós-graduação, quais softwares estão sendo mais utilizados, como é feita a armazenagem, representação e disponibilização desse tipo de material em acesso livre na Internet e etc.

Tive a ideia de republicar este post porque na época fui questionada por um colega do mestrado sobre o meu tema: “por que você está fazendo seu TCC de Biblioteconomia sobre Ciência da Informação? Por que não faz sobre bibliotecas?”. Essa é uma questão que é pertinente já há algum tempo. Muitos cursos de graduação no Brasil tomam uma coisa por outra e entendem a Ciência da Informação como uma evolução natural da biblioteconomia. Mas eu vou bater na tecla do hibridismo enquanto as bibliotecas físicas ainda existirem. Tem a discussão de que o curso de graduação precisa se modernizar etc., e talvez um dos impedimentos pra essa modernização seja justamente o mestrado: que também não tem nada de tecnologia e que é apenas uma continuação, mais teórica, do que se aprende na graduação. Não vejo uma coisa como sendo melhor ou superior à outra.

E defendo o hibridismo pois foi disso que o meu tcc tratou. Descobri no segundo semestre de 2009 que a parte que eu mais gosto na Biblioteconomia é a de Organização da Informação (leia-se, processamento técnico, técnicas de organização e representação da informação e do conhecimento, indexação, classificação, catalogação, criação de resumos, metadados, recuperação da informação). Em 2010 iniciei a execução de um projeto de pesquisa PIBIC sobre o conceito de OI a partir de material encontrado na base de dados LISA (Library and Information Science Abstracts). Uma base de dados dessa importância não deixa de ser uma referência para a área, bem como não deixa de ser um tipo de biblioteca virtual, se assim quisermos chamar. Pois bem.

Depois de ter analisado a literatura internacional, fiquei curiosa pra saber o que tem sido produzido referente à OI no Brasil. Eu poderia ter feito a análise a partir da produção nos periódicos científicos da área pois querendo ou não, divulgação científica lida diretamente com fontes de informação, e fontes de informação, ora veja, é assunto da Biblioteconomia também; mas achei mais interessante buscar pela produção da pós-graduação, uma vez que teses e dissertações são publicações mais importantes do que artigos de periódicos (é a partir das teses e dissertações que artigos são publicados na verdade, enfim).

Aí entra a questão das Bibliotecas (opa!) Digitais de Teses e Dissertações e de sua importância pra divulgação do que está sendo produzido em todo o Brasil, e de que modos as pós-graduações em CI se articulam (ou não) para preservar sua produção em ambiente online. Meu TCC não é especificamente sobre isso mas esse tema por si só, já dá um outro TCC inteiro. Bibliotecas Digitais (não vou nem entrar na questão terminológica aqui: repositórios, portais, BDTDs, etc.) são importantes pois acredito que seus usuários (nós, estudantes, pesquisadores e profissionais da biblioteconomia e de outras áreas) deveriam ter o acesso mais facilitado – a partir de qualquer computador – à produções de outros estados do Brasil. Por que continuar utilizando o COMUT se é possível com as tecnologias de hoje viabilizar um serviço deste tipo? Essa é só uma das questões, mas com certeza devem existir várias outras se persistirmos no assunto.

Pra mim, pesquisar conteúdo digital nunca fugiu do escopo da biblioteconomia. Pelo contrário: nunca foi tão alinhado ao que a biblioteconomia devaria ser. Pra mim parecia estranho evitar tratar do assunto Ciência da Informação na graduação e nunca houve escopo ideal: fiz o melhor que pude com o que tinha disponível na época. Não me parecia estranho também porque fiz disciplinas isoladas de mestrado e fui aprovada no mestrado da UFSC, mas nunca entendi nada disso como evolução e sim como mais um exercício – bem como toda pesquisa e projeto que nos envolvendo, por maior e mais importantes que sejam, sempre são recomeços. O que fiz foi tão importante quanto todos os outros trabalhos desenvolvidos pela minha classe – não houve melhor ou pior, mas são conteúdos e abordagens diferentes. A qualidade só foi julgada quando da entrega e também por diferentes motivos.

Ainda acredito que a pluralidade é mais importante do que ‘o que eu acho ser o melhor para a Biblioteconomia’ em detrimento de todos os outros tipos de estudo. Trabalhos de conclusão de curso geralmente refletem uma série de variáveis da vida da pessoa que o produz: seus interesses, suas paixões, seu foco (ou falta dele), sua rotina e seu ambiente de trabalho e também um pouco do que aprendeu em sala de aula. Tudo junto e misturado.

Seguem os títulos dos TCCs desenvolvidos pela Biblioteconomia da UFSC em 2011-2. Alguns já mudaram, outros permaneceram, mas basicamente a minha turma tratou destes temas:

  • Atuação dos Bibliotecários em Arquivos: um estudo de caso do arquivo central da Universidade Federal de Santa Catarina
  • O uso de informações estratégicas para geração de inteligência competitiva: um estudo nas agências de Publicidade de Florianópolis
  • Biblioteca Digital de Educação a Distância: favorecendo a Competência Informacional
  • Padrões de metadados para indexação fotográfica
  • A atuação do bibliotecário como disseminador de informação em bibliotecas públicas da grande Florianópolis
  • Relação entre o bibliotecário e o professor na Biblioteca Escolar
  • A potencialidade do uso das ferramentas da Web 2.0 em bibliotecas escolares no processo educativo como ferramentas para ampliar o acesso e disseminação da informação
  • A gestão de documentos no âmbito das instituições públicas do Estado de Santa Catarina
  • Ergonomia na Biblioteca Cruz e Souza (CESUSC)
  • O papel do Bibliotecário nas práticas e modelos para o desenvolvimento da competência informacional
  • Análise das publicações acerca de arquivologia nos últimos 10 anos
  • Análise do uso da coleção do ensino médio do SENAI de Tijucas/SC
  • Ergonomia e usabilidade no documento texto a digital
  • Organização da informação: abordagens nas teses e dissertações em Ciência da Informação no Brasil
  • Avaliação do Software de Automação de Biblioteca Pergamum
  • A importância dos livros de registros do Cartório do 2º Ofício de Imóveis de Florianópolis/SC: monumentos históricos
  • Atividades biblioterapêuticas para crianças
  • O Ensino de Biblioteconomia: uma análise do curso de Biblioteconomia da UFSC
  • Avaliação do Software Automotivo Doutor-ie na perspectiva do usuário
  • FRBR: uma revisão de literatura
  • Critérios para a preservação digital adotados pelos repositórios informacionais arrolados no ROAR
  • Formação e desenvolvimento de coleçõesem biblioteca especializada: análise da coleção da biblioteca do SEBRAE de Santa Catarina
  • Análise das Publicações Eletrônicas Brasileiras em Acesso Aberto na área de Educação Física
  • Arquivo em instituição pública
  • Indexação de imagens fotográficas na empresa Tempo Editorial
  • O uso da informação estratégica

Busca por imagem no Google

(Publicado originalmente em 30 de agosto de 2011)

Esses dias eu aprendi um truque mágico e quero compartilhar com quem ainda não conhece. Às vezes a linguagem (natural, controlada, o que for) não é suficiente pra nos ajudar a encontrar exatamente o que queremos, principalmente quando se trata de imagens, fotografias.  É difícil dizer o que se quer. É mais difícil ainda representar o que se conhece. Não preciso ir muito longe: sabe aquele meme engraçadinho que você não sabe o nome e nem mesmo a história? Ou aquela pintura linda que você encontrou por acaso no tumblr mas não faz a mínima idéia de onde é, quem é o artista e outras informações? Que nem essa imagem que encontrei ontem:

philip_govedare

Achei a imagem incrível, mas não sabia nada sobre ela e nem sobre outras imagens do mesmo artista, enfim, nenhuma informação além  do óbvio, “paisagem”, “aquarela” e “tons de azul”, que era simplesmente insuficiente pra encontrar o que eu quero nas galáxias de informações de páginas que o Google indexa. Às vezes eu não ligo, mas boa parte do tempo não saber das coisas meio que me angustia.  De uns tempos prá cá isso tem deixado de ser apenas uma angústia pessoal, mas uma necessidade de trabalho mesmo.. Mas enfim, eis o truque:

  1. Encontre uma imagem aleatória na internet, sem fazer a mínima idéia do que ou de quem seja.
  2. Salve esta imagem desconhecida em seu desktop ou em qualquer outro diretório.
  3. Abra o buscador do Google imagens.
  4. Arraste o ícone da imagem que foi salva até o campo de busca do Google imagens.
  5. Voilà.

É claro que algoritmos são tão imperfeitos quanto indexações humanas, por melhores e mais especializadas que elas sejam. A busca por um sistema  que seja perfeito é uma audácia inalcançável, mas as pessoas se divertem inventando possibilidades de organização e desorganização e é isso o que é interessante pra mim. Lógico que muito lixo vai ser recuperado e outras imagens que são apenas semelhantes, não representando exatamente o que você queria.

Muito dos primeiros links também não vão ter informações muito úteis sobre o artista em questão, mas se você persistir um pouco mais, pode acabar encontrando algo mais especializado, como por exemplo, o blog de uma ilustradora, que fala sobre o artista – Philip Govedare –  apresentando também outras obras dele. Sejam bem vindos ao futuro da  ausência total de palavras-chaves? É… É divertido acreditar que sim, apesar de ainda não estar tão certa disso… :)

Aprendi isso agora que estou tendo que indexar imagens que não faço idéia de onde foram tiradas e nem do que sejam – embora isso seja apenas parte do trabalho. Me convenço cada vez mais de que toda indexação é um profundo – e apaixonante – trabalho de pesquisa, apesar de ser tão desprezado por boa parte de quem estuda biblio. Me passam a imagem de uma praça, de cidade X, com uma fonte luminosa e uma torre.

Arrasta-se a imagem para o campo de busca e descobre-se uma miríade de outras informações: nome da praça, geolocalização, nome da torre, proximidade de outros locais, hotéis das redondezas, etc.. Informações inimagináveis, pode-se navegar por um mar quase que sem fim delas. Descubro mundos, memorizo o que vejo, vou pra vários lugares sem sair de onde estou.. É difícil entender como isso pode ser algo entediante. Bem como também é difícil se convencer de que a tecnologia é só um meio, e que o nosso fazer é bem humano.

Sobre a Googleteconomia

(Publicado originalmente em 8 de março de 2011)

Volta e meia (quase sempre) o professor Milanesi está “com dúvidas” no Twitter. Acho curioso por que, para o senso comum, um professor deveria ter mais respostas do que perguntas, mas acredito que a tentativa dele de questionar tanto é não só compartilhar, mas também compreender o que as outras pessoas pensam (partindo do pressuposto de que ele espera respostas de quem o lê). Talvez esse pensamento de que ‘os mestres tenham todas as respostas’ seja mesmo um pouco falacioso.. Os mestres sabem sempre questionar melhor, sendo que questionar nem sempre envolve necessariamente uma crítica. É a tal da coisa: perguntar nem sempre ofende.

Pode parecer muita intromissão de minha parte, afinal, estou falando sobre algo que ocorreu em uma instituição a qual não pertenço. Também não sei a quantas anda a organização de recepção aos calouros/2011 e como o CAB/UFSC está agilizando isso, mas não duvido em nada que as meninas já estejam pensando em alguma coisa. Quando fiz parte do CAB, lembro que era difícil, a UFSC não permite trotes (nenhum tipo de trote) e nenhum professor quer se responsabilizar, etc. É complicado. A única intersecção que ‘permite’ que eu dê um pitaco nesse assunto é que por acaso eu também faço biblioteconomia, apenas em outro Estado. E também por que acredito que se pararmos de ser intrometidos e enxeridos (pra não dizer metidos à besta mesmo), não vai mais ter bibliotecário no mundo.

Enfim.

Dia primeiro de março me apareceu o seguinte tweet: Uma faixa estudantil na Biblio USP: Googleteconomia. Não consegui entender o sentido disso. Parece-me uma crítica. Mas qual é o alvo?

Eis a faixa:

Aí está a faixa com a enigmática “Googleteconomia”. É tema de seminário na disciplina Biblioteca, Informação e Sociedade.

Explicando rapidamente, acho que quem criou a faixa quis fazer um paralelo entre o trabalho do bibliotecário com o trabalho do Google, no sentido de familiarizar os calouros. “Olha, o que a gente faz basicamente, é mais ou menos a mesma coisa que o Google faz, só que nós somos mais lerdos, ok?”. Enfim, de primeira, um paralelo para familiarização dos calouros.

Pessoalmente, achei a faixa engraçadinha e irônica sim. Não canso de ler por aí a tal da expressão “a biblioteconomia em tempos de Google e Wikipédia” e também “com os adventos das novas tecnologias em informação e comunicação” e todo aquele blábláblá que a gente conhece muito bem. Mas o que eu fico me perguntando aqui é: por que (e onde) a Biblioteconomia é tão diferente do Google? É bastante sedutor (mesmo) pensarmos que o Google é melhor (por que é mesmo!) e com certeza mais eficiente do que uma pessoa. Achar coisas no Google é mesmo muito fácil e muita gente até pode pensar que não tem como competir com isso.

Com o Google, você não precisa pedir a receita de polenta da sua avó, basta procurar qualquer receita por palavra-chave. Com o Google, você não precisa se matar procurando referências (boas) pra um trabalho, basta procurar, copiar e colar, talvez. Afinal, é muito mais simples fazer isso do que procurar um especialista na área e simplesmente dar a cara a tapa e conversar com ele, tomar um café, qualquer coisa.

No jornalismo falava-se do mesmo problema: “mimimi… a Internet está matando o jornalismo investigativo”. Cara… O jornalismo investigativo é que está cometendo suicídio se não deixar de ter preguiça mental e também ir fazer pesquisa de campo. E quando eu falo de “pesquisa de campo”, falo em simplesmente nos relacionarmos com AS PESSOAS e o mundo (lá fora da Internet, the truth is out there, folks), por que simplesmente são elas que tem as informações. Sim, pessoas carregam bibliotecas dentro de si, não se esqueçam.

É muito simplista querer achar um bode expiatório para a crise que enfrentamos, colocando a culpa na Internet e em qualquer tipo de tecnologia.

Usar o Google é muito bom e prático.  Digo isso sem ironia nenhuma, por que eu mesma uso. Sentamos na frente do computador, digitamos palavras chave e ele quase que magicamente “resolve o nosso problema”. Mas resolve mesmo? Notaram o padrão? Usando o Google, interage-se menos com pessoas, talvez. E talvez também percamos uma série de outras experiências que poderíamos ter, apenas para satisfazer a nossa necessidade sempre URGENTE por praticidade e imediatismo.

Pois né, as pessoas trabalham muito e são muito ocupadas e talvez não tenham mesmo mais tempo a perder com ‘experiências’ hoje em dia… Não há tempo para um olhar mais demorado, não há tempo pra reflexão (lembrando sempre que tempo é dinheiro!). Todos estão muito ocupados com seus blackberries, tentando se localizar por aí… Talvez a afetividade ou tenha mudado completamente de sentido, ou tenha mesmo se perdido em meio a isso tudo. Enfim, apenas algo a se pensar.

Não quero uma biblioteca que seja impecável em organização, mas que não tenha vida própria. Não quero um bibliotecário que só me alcance um livro na estante (isso qualquer pessoa faz, um técnico, sei lá) ou que me dê informações e instruções entediadamente e desleixadamente (automaticamente?) sobre algo que eu não saiba.

Isso é trabalho do Google.

Acho que é a partir desse tipo de pensamento é que vocês podem procurar por si mesmos ‘o que é a biblioteconomia em época de Google’ e ‘pra que serve um bibliotecário?’.

Não é a toa que estamos na área de HUMANAS e Sociais Aplicadas e não de Exatas. Não é a toa que temos um vínculo com a área de Educação. Gosta muito de lógica e classificação? Vai pra sei lá, filosofia, ou pra exatas, matemática, ciência da computação, sei lá. Por isso também fiquei meio passada com “penso, logo classifico” que estava na faixa.  Me pareceu muito, muito, muito ignorante… Como se existisse só classificação para se pensar, sendo que classificação é só um processo, é só uma ponta do iceberg! O contexto desse processo é o que é o mais importante. E e olha que eu gosto MUITO (mesmo) de classificação… Gente, vocês não são seus professores… Se eles pensam, logo classificam não papagaiem o comportamento deles, pelamor!

Pode até ser que a faixa tenha sido pura e simples TROLLAGEM da braba por parte dos veteranos. Talvez tenha sido uma crítica mesmo e o alvo tenha sido a própria biblioteconomia (ou seja, o já famoso tirinho básico no pé). Mas é bem possível que isso não tenha sido intencional, nem proposital e muito menos pensado, imagino… Que tenha sido feito “apenas na ingenuidade, na brincadeira”. Mas é sempre bom lembrar que nenhuma mensagem emitida – por mais que afirmem – é totalmente neutra: tudo é passível de interpretação. Em um primeiro momento, a faixa me pareceu engraçadinha só… Mas ao parar pra analisar e desconstruir esse pensamento para além da primeira impressão, acredito que podemos descobrir muito mais coisas.

E outra: se foi uma trollagem, considero que foi uma trollagem #FAIL uma vez que a média de idade dos calouros na USP/ECA – 2011 é 38 anos. Bem… Com uma média de idade dessas, acho que esses alunos não precisam ser exatamente “familiarizados” com o que eles irão ser, fazer ou se tornar. Acredito que essas pessoas talvez já saibam o que estão fazendo, mesmo que seja fazer biblioteconomia pra prestar concurso público depois,… mas elas já devem ter uma noção mínima do que vão enfrentar. Ou talvez não saibam mas né… 38 não é 18, convenhamos. Também acho que vão descobrir com mais facilidade a diferença entre Biblioteconomia e a Googleteconomia.. Mas isso só o tempo vai dizer :)

Por que escolhi biblioteconomia?

Estes dias, depois de ter me deparado com este post pelo Greader, pensei nos motivos de eu ter escolhido biblioteconomia. Foi uma escolha difícil e lenta mesmo por que foi pensada por tempo demais (abençoados são os que fazem escolhas sem precisar pensar demais!). Já disse isso aqui e repito: fiz biblioteconomia por teimosia, mesmo. E sempre quis desenvolver um texto sobre isso então acho que agora é a oportunidade.

Lembro-me que, nos anos anteriores da minha opção pela biblioteconomia, fui constantemente desestimulada por vários colegas da área. Me diziam (e ainda dizem) o que já venho ouvindo há praticamente uns 8 anos: que o curso era ruim, ultrapassado, que a área ia deixar de existir em 5 anos, que a ‘raça’ dos bibliotecários era chata, que não havia futuro, que ganhava-se pouco, que não havia reconhecimento e várias outras coisas desmotivadoras – tudo isso independente onde eu pensasse em fazer o curso, seja na melhor ou pior universidade. O discurso ainda não mudou muito, acredito. Quando fui prestar vestibular novamente em 2007 não tive coragem de marcar “Letras/Inglês” ou “Filosofia” por que sentiria que estaria me traindo profundamente se fizesse isso. Acho que esse é o “chamado que não conseguimos ignorar” do qual Ortega Y Gasset fala no livro Missão do Bibliotecário, o que também pode ser chamado de ‘vocação’. O curso é precário e tem mil defeitos? Ok. Challenge Accepted.

Eu já tinha cursado jornalismo e então muita gente também me dizia “mas por que você não vai direto pro mestrado?” e hoje eu percebo que isso teria sido a maior estupidez de toda a minha vida (e isso é bastante coisa, acreditem: sou uma screwup por natureza). Terminei o curso de jornalismo completamente verde e despreparada, sem muita noção de nada na verdade..  E desde antes da época do jornalismo eu já pensava em fazer biblioteconomia. Por que? Bem, me parecia uma profissão pacata, onde eu não precisava entrar em contato com muita gente e ficaria enfurnada em algum lugar com um computador catalogando livros eternamente, rs. Ah, doce engano… Lembrando disso hoje percebo o quanto mudei nesse sentido. Claro que tem gente que curte isso ainda, mas não é mais o meu caso.

Que o intelectualismo não está mais atrelado a profissão de bibliotecário não é de hoje, apesar de muita gente dizer que entra no curso por que “gosta muito de ler” (o que acho fofo!). Muita gente enxerga o curso e o ofício da biblioteconomia, apenas como uma oportunidade de carreira mesmo e trata o que vai exercer como profissão com uma impessoalidade impressionante. Bem.. As pessoas são diferentes, mesmo. Lembro que no início do curso me foi passado um artigo do prof. Francisco (1998), com uma pesquisa que eu acho que precisaria ser refeita e reavaliada em todos os cursos de biblioteconomia. Nesta pesquisa, o professor fez um perfil do ingressante e do formando onde podemos perceber que as motivações para se concluir ou se desistir do curso são as mais variadas possíveis. Isso de one size fits all é ilusão.

A expressão ‘desempenhar função’ me inquieta um pouco, mas isso é pessoal mesmo, admito. Entendo que hoje ninguém é insubstituível, não importando se é ou não um excelente profissional. Mas acho que é uma questão muito pessoal mesmo sentir-se apenas uma pecinha sem importância no meio de uma grande engrenagem, ao invés de sentir-se realmente parte de uma comunidade ou de algo. Acho que talvez esse seja o tal do dilema do “copo meio cheio ou meio vazio”.

Acho que até concordo com a frase “não é necessário gostar do que se faz pra desempenhar uma função”, pois de fato, não é necessário mesmo, absolutamente. São várias as pessoas no mundo – tantas que nem conseguimos imaginar – que vão todos os dias pra um emprego que detestam pra apenas sobreviver por mais um dia, pois aprendemos (nos resignamos?) que é assim que devemos sobreviver a uma vida desprovida de significado (eu disse significado – sendo que somos nós que fornecemos isso a ela – e não sentido, o que é bem diferente).

Desempenhar uma função – independente de qual ela for – pode ser bom, assim como também tem gente que acha que “salvar o mundo” e/ou “lutar e conquistar algo” pode ser bom. Entre o cinismo total e irrestrito e o idealismo meio lunático, prefiro os idealistas por que pelo menos eles me parecem mais abertos à conversação, apesar de serem meio malucos. Para mim, “desempenhar uma função” não é o suficiente por que considero que há baixa interação de modo geral e que também fica mais difícil  (não impossível, só mais difícil) provocar alguma mudança quando as pessoas estão muito ensimesmadas, muito especializadas. Mas enfim, esta sou eu.

Não acho que eu seja ‘a pessoa que mais contribua’ ou que eu seja ‘uma peça importante desempenhando minha função’ nem nada e nem sou melhor do que ninguém: apenas gosto, muito, do que faço e algumas pessoas tendem a considerar isso como um diferencial.  Outras me dizem que isso é ‘sorte’. Pra mim, é só natural mesmo.

Acho que as mesmas críticas que eu ouço há 8 anos são necessárias, simplesmente por que são todas verdade (depois de ter entrado no curso, apenas constatei isso). Dizer que o curso é ruim, que os professores parecem acomodados ou desmotivados, apontar as dificuldades (que sabemos que ‘não irão mudar’), é necessário. Entendemos que existem picaretagens aos montes, mas isso não se limita ao nosso curso, mas a todo um “sistema formal de ensino-aprendizagem” que praticamente nos condena a isso. O buraco é bem mais embaixo do que imaginanos e o bicho é bem mais feio do que pintam. São vários os ‘vetores invisíveis’ que nos pressionam a agir não da forma que queremos, mas da forma que nos fazem acreditar que “precisamos” ou que nos fazem conformar.

O que conta quando você vai prestar vestibular, não é o que você quer ou gosta de fazer, nem sua vocação, mas o quanto você consegue pontuar e memorizar, ou como alguns preferem chamar, sua “inteligência”.  Sinceramente, não acredito no discurso de “suei muito pra estar aqui” por que ele me parece um engodo: algo que gostamos muito de acreditar, mas que nem é verdade. Acho que isso, na realidade, me soa mais como um “já me esforcei o suficiente  antes pra poder ser medíocre o quanto eu quiser agora e pro resto da minha vida”. A nossa vida se resume a uma eterna “luta” por espaço e depois disso, uma eterna acomodação. Seria isso mesmo desejável? Por que? Acho que é algo a se pensar.

Realmente, não tive nenhum professor “instigante” no curso de biblioteconomia. Tive professores muito bons e outros não tão bons assim, tive disciplinas que poderiam ter sido abordadas de forma melhor e mais aprofundada, mas que não me desanimaram. Nem esperava por isso na verdade.. Entrei no curso com uma baixa expectativa. Na verdade, entrei no curso pensando que não aguentaria chegar até o fim. Mas depois acabei ficando muito preocupada comigo mesma tentando descobrir o que eu gostava de verdade pra, a partir disso, entender meu caminho ali dentro e  hoje, mesmo estando na “reta final” confesso que ainda está bastante difícil.

Acho engraçado como alunos de biblio tendem a achar outros cursos muuuito melhores, como sei lá, Jornalismo, ou qualquer coisa de Letras (a grama do vizinho é sempre mais verde, etc). Talvez por que nessas aulas os alunos sejam mais expostos a dados (atualidades, filosofia, história, literatura, humanidades etc. e tal) do que a metadados, que é a parte que todos consideram a mais escrota da biblioteconomia e que curiosamente para mim, é a parte mais fantástica de todas – afinal, alguém tem que achar isso legal né? O que eu acho mais interessante quando observo hoje meus colegas de classe é perceber o quanto eles estão transformados, e como e o quanto aprenderam a gostar do curso, mesmo com todas as dificuldades. Acredito mesmo que serão todos bons profissionais, independente do tipo de carreira que resolverem seguir.

Entendo que é difícil mesmo fazer a pergunta do post quando estamos a ponto de nos inscrever num vestibular, mesmo por que quando somos obrigados a ir pro ensino superior ainda estamos bem perdidos na nossa vida pra tomar uma decisão dessa magnitude. Mas é sempre interessante lembrar que ninguém se forma sozinho e que, também, a universidade não forma ninguém: quem se forma é a própria pessoa. Pessoalmente acho que hoje, mais do que nunca, o “ensino superior” deve servir como apoio teórico e não como base de / para nada. Mas essa mentalidade é compreensível uma vez que saímos de um ensino médio ultra-acomodados, e agora imaginamos que boa parte do sucesso da nossa formação é uma obrigação alheia e não algo que deveria ser uma busca por satisfação pessoal… O que eu acho… Estranho.

Não entrei na biblioteconomia pra ser entretida, nem “seduzida” (credo!) e muito menos “educada”. Universidade, pra mim, não é um centro de adestramento. Ouço a reclamação de que “a universidade não nos prepara mais pro mercado”,  então quer dizer que viramos todos produtos agora, é isso? Uma caixa de tomatinhos todos iguais? Acho curioso. Confesso sim que entrei no curso para entender como funcionam as técnicas. Mas o resto assumo como sendo de minha conta e responsabilidade: buscarei de várias outras formas e ninguém pode me ajudar com isso (e, paradoxalmente, muita gente pode me ajudar com isso: inclusive de outros cursos). Entendo que a vida – de modo geral – não é nada estimulante. Mesmo. Que dirá de um curso como esse, de ciências sociais aplicadas, das humanidades, onde pra encontrar o que é “humano” precisamos olhar mais de uma vez, com muito cuidado e atenção.

Periódicos Internacionais em Biblioteconomia e Ciência da Informação

(Lista publicada originalmente em 20 de dezembro de 2010. Não foi atualizada.)

Eu tinha feito um post sobre os periódicos em biblioteconomia e ciência da informação no Brasil e então resolvi fazer este aqui também, com periódicos internacionais em inglês. Não dava pra dizer que eram periódicos só americanos ou só ingleses por que tem outros países que publicam em inglês em conjunto. Então são todos internacionais, só que em língua inglesa. O que fiz na verdade foi selecionar alguns dos links de periódicos que encontrei no diretório do Yahoo, no Open Acess Journals  (DOAJ) e no Digital Information in the Information Research field, diretório criado pelo professor Tom Wilson, editor-chefe da Information Research.

Teve 3 blogs listados como periódicos nestas listas: 1. O Journal of the Hyperlinked Organization (JOHO) (que é do D. Weinberger, autor do Nova Desordem Digital) que parece ter sido descontinuado em 2009, mas o Joho the blog, tem uma última atualização de 18 de dezembro de 2010; 2. O Library Juice, que não é bem um “periódico do tipo que aceita submissões”, mas é um blog excelente sobre biblio e CI; 3. A Wired Magazine, que não é blog, nem periódico, é revista (sim, sou chata). Definições são chatas mas né, vamos lá. Se alguém conhecer mais algum periódico em inglês, favor compartilhar pelos comentários. :]

E ah, periódicos em espanhol (países centro e sul americanos + Espanha) fica pra um outro post e/ou fica a dica pra quem quiser fazer este post também.

Periódicos em Biblioteconomia e Ciência da Informação no Brasil

(Lista publicada originalmente em 10 de dezembro de 2010. Não foi atualizada.)

Este não é um post novo. Na verdade é uma lista que tem em vários blogs. Ela já foi feita no site do OFAJ e refeita no ExtraLibris Concursos e também tem no blog do NIPEEB. Arrisco dizer que esta que eu fiz aqui é uma lista atualizada, com 3 periódicos a mais do que nas listas que eu encontrei.

Gostaria de deixar por aqui uma lista também, pra voltar sei lá, uma vez por ano e atualizá-la sempre que aparecer um periódico novo. Pretendo deixar por aqui apenas periódicos brasileiros da Ciência da Informação disponibilizados online, em Acesso Livre. Pra ver qual é o estrato da revista é só dar uma olhada no WebQualis da CAPES. Se alguém conhecer algum periódico (brasileiro, de CI, online e em acesso livre) que não está nesta lista, pode se manifestar nos comentários.

Alguns itens que constavam na lista e eu retirei:

Boletim Eletrônico CFB (Conselho Federal de Biblioteconomia, Brasília) – Acho que é mais um repositório do que um periódico.

Revist@ CRB-7 (Conselho Regional de Biblioteconomia 7ª Região, Rio de Janeiro) – Revista institucional, desatualizada.  Última edição: v. 2, n. 1, 2006.

Revista CRB-8 Digital (Conselho Regional de Biblioteconomia 8ª Região, São Paulo) – O link não abre <http://revista.crb8.org.br/&gt;

Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação (ANCIB) – Última edição: v. 3, n. 1, 2010. – Na verdade não é exatamente um periódico, está mais para um repositório onde são armazenados os anais do evento (ANCIB). Se fosse periódico aceitaria submissões em qualquer época do ano.

33º Painel de Biblioteconomia de Santa Catarina

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Desde a época da graduação em biblioteconomia, eu já conhecia o Painel de Biblioteconomia, mas nunca cheguei a participar. Este ano fui convidada pela comissão organizadora e fiquei bem animada. O evento será no na metade de novembro e até lá vou ter tempo pra me organizar neste sentido. Esse ano foi bastante cheio em relação a eventos e particularmente acho isso bom, pois agora estou indo em eventos pra falar efetivamente do que fiz/faço – diferente dos EREBDs e ENEBDs que também foram importantes na minha formação mas mais no sentido de socialização.

O tema do grupo de discussão o qual farei parte chama-se “Biblioteconomia em Novos Espaços”. Esse tema é do meu interesse por dois motivos. Há algum tempo tenho investigado no mercado aqui de SP, as vagas para bibliotecários que poderiam ser consideradas incomuns ou como eu chamo, lato sensu. E também vou fazer um breve relato de experiência, uma vez que atualmente estou trabalhando com ecommerce e este pode ser considerado um espaço novo, ou não tradicional. Depois de quase um ano trabalhando ativamente com uma equipe de planejamento em taxonomia, me sinto bem mais confortável em falar um pouco sobre a minha experiência com organização e acesso à informação digital.

Também estou curiosa pra encontrar outros profissionais e trocar impressões sobre a profissão e sobre o mercado. E claro, rever minhas colegas de Floripa dos tempos de graduação com o tempinho que sobrar. Acredito que vai ser bastante proveitoso.

Bibliotecas ruins fazem coleções, bibliotecas boas realizam serviços e bibliotecas excelentes criam comunidades

Post traduzido do blog do R. David Lankes. Título original: Beyond the Bullet Points: Bad Libraries Build Collections, Good Libraries Build Services, Great Libraries Build Communities

Cá está o tweet que levou a este post:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços (dos quais uma coleção é apenas um deles). Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Devido à limitação dos caracteres foi muito retwittado sem o conteúdo dos parênteses:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços. Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Entendemos que esta última é mais impertinente, mas aparentemente também é mais controversa. Houve um número de respostas dizendo que bibliotecas excelentes também deveriam criar coleções. E eu achei que valia a pena adicionar um pouco mais de nuance e profundidade à discussão para além de 140 caracteres, então cá estamos.

Antes que eu me aprofunde, se você é do tipo auditivo e visual (N. da T.: e tenha inglês fluente), eu falei muito sobre os pontos que irei abordar nesta apresentação:

http://quartz.syr.edu/rdlankes/blog/?p=1406

Agora, de volta ao tweet.

Primeiramente, não há nada que diga que diga que bibliotecas boas ou excelentes não possam ou não devam construir coleções. É uma questão de foco. Se bibliotecários se preocuparem exclusivamente ou desproporcionalmente com a coleção, isso é ruim. E isso surge de várias formas. A primeira é óbvia: aquisições com pouca ou nenhuma participação dos membros da comunidade. Você está adicionando este item à biblioteca porque ele está nos bestsellers do New York Times ou foi isso que algum intermediário enviou? Ruim. Se você não está olhando para dados de circulação, não está conversando com a comunidade, não está pesquisando em bases de dados: ruim.

Sou lembrado disso nas atuais discussões sobre ebooks. Existe muita discussão se bibliotecas deveriam ou não estar comprando ebooks. Alguém perguntou o que eu achava disso e eu disse que taticamente os bibliotecários deveriam criar o seu próprio ebook que traria muito valor aos autores, e; dois, perguntar à sua comunidade. Se você está planejando boicotar ou simplesmente não adotar ebooks, você já teve essa conversa com o seu público? A comunidade acha que é um mau negócio o que as editoras estão propondo? Para eles está ‘tudo bem’ não existir esse tipo de serviço na biblioteca? Notem que isso não é perguntado ingenuamente, mas tendo uma conversa real onde você está apresentando um argumento e mostrando à comunidade o contexto como um todo e então ouvindo o que eles têm a dizer.

Se estamos falando de foco, qual é a diferença entre bibliotecas ruins e boas? Bibliotecas boas têm foco em seu público. Isto é, eles valorizam a utilidade da coleção de acordo com as necessidades de seus usuários. O que as pessoas querem em termos da coleção e como isso se equilibra com todas as outras coisas que as bibliotecas fazem (referência, programação, fontes digitais, instrução, etc). Aqui não apenas observamos dados do público como circulação e etc., mas a experiência das pessoas como um todo.

Uma vez houve uma discussão entre os professores aqui em Siracusa se devíamos ou não ensinar desenvolvimento de coleções. Era (e ainda é) parte de uma aula que tem o título “Planejamento de bibliotecas, Marketing e Avaliação”. O instrutor na época não gostava de lá. Como garimpagem e marketing andam juntos? Bem, verifica-se que as perguntas que você faz sobre coleções são utilizadas para qualquer outro serviço: quais os objetivos? Como é utilizado? É fácil acessar (e avaliar)? A coleção é um serviço como qualquer outro – precisa de orçamento, planejamento e um motivo para existir.

Boas bibliotecas entendem que no momento que você agrega valor à experiência do usuário você está colocando um serviço à prova. Colocar livros na estante? Um serviço. Catalogar? Um serviço. Garimpar informações? Um serviço (poupar o tempo do usuário e eliminar o rápido acesso à informação datada). Eu sei que todas essas coisas estão empacotadas como “coleção”, mas ao separá-las do todo podemos melhor avaliá-las e melhor cumpri-las.

rdlankesEu escolho o termo “usuário” com cuidado nesta parte da discussão porque eu acredito que é isso que separa o bom do excelente. Veja bem, uma boa biblioteca vê a coleção como um serviço e no entanto monitora e planeja o seu uso. Uma excelente biblioteca vê a coleção apenas como ferramenta para empurrar uma comunidade para frente, e mais que isso, eles veem a biblioteca como plataforma para que a comunidade tanto consuma quanto produza. Os membros da biblioteca são coproprietários da coleção e de todos os outros serviços oferecidos pelos bibliotecários. Os serviços de biblioteca são parte de um “ecossistema” mais amplo onde sim, os membros (usuários) estão consumindo informação, mas também estão produzindo, trabalhando, sonhando e brincando. Este é o foco de uma biblioteca excelente. Eles entendem que o material que uma biblioteca abriga e adquire não é sua verdadeira coleção – a comunidade o é.

Então, bibliotecas boas, ruins, excelentes, feias tem coleções? Sim. Mas as bibliotecas excelentes percebem que a coleção não é o que está nas estantes, mas o público e seus mundos. O foco é no desenvolvimento de conexão, não no desenvolvimento de coleção. Existirão coleções a serem desenvolvidas? Provavelmente, mas estas coleções podem ser de links, de escaneamentos digitais, livros, materiais de construção, equipamento de produção de vídeo, tempo de performance num palco e/ou especialistas.

Isto está claro nas discussões nos cursos de biblioteconomia. Enquanto distritos pelo país estão desligando bibliotecários escolares, eles geralmente citam que os horários de atendimento das bibliotecas não irão diminuir. “Nós podemos manter as portas das bibliotecas abertas com todos os serviços que elas dispõem ou com os atendentes do prédio”. Eles ignoram os dados que mostram que são bibliotecários certificados, e não horas de atendimento, ou a coleção, que aumentam as notas nos testes e a retenção de alunos. Bibliotecários, e não bibliotecas, fazem a diferença.

Mais uma vez, o bibliotecário escolar usa a coleção? Certamente, mas grandes bibliotecários escolares têm coleções de lições que ensinam, equipes de estudantes que auxiliam os professores com tecnologia e coleções de boa pedagogia. Quer poupar verba em uma escola? Feche a biblioteca e contrate mais bibliotecários.

Esse tweet não foi um pedido para se jogar fora coleções de materiais – há grande valor neles – mas para mudar o foco e perceber que o valor não vem dos artefatos, mas na habilidade de melhoria da comunidade. Este valor pode vir de bases de dados licenciadas na academia. Pode aparecer ao mandar contêineres cheios de livros de papel à uma comunidade rural africana. Pode vir de materiais sobre genealogia em uma biblioteca pública, ou coleções especiais no Ivy League. Mas para algumas comunidades pode vir do rico conjunto de fontes abertas e acessíveis via dispositivos móveis ou, cada vez mais, artefatos, ideias e serviços criados pela própria comunidade.

Grandes bibliotecas podem ter grandes prédios, ou prédios feiosos, ou nenhum prédio sequer. Grandes bibliotecas podem ter milhões de volumes ou nenhum. Mas excelentes bibliotecas sempre tem grandes bibliotecários que engajam a sua comunidade e ajudam a identificar e a preencher suas aspirações.

Bibliotecas: descentralização é modernização?

Ainda me repreendo por ter tantos questionamentos, mas ao invés de reprimir tento cada vez mais fazer o inverso. Além da educação repressora que tive (como todos da minha geração) acho também que por ser uma neófita na área, não é de bom tom ficar questionando demais a tudo e a todos ou até mesmo simplesmente expôr minhas inquietudes aos colegas mais experientes. Mas pode ser proveitoso questionar às vezes, só pra variar um pouco.

Há dois meses trabalho como bibliotecária em uma empresa grande e tenho aprendido muitas coisas. As atividades de adaptação à rotina, ao cotidiano, a lidar com o que sempre quis lidar e isso tudo me afeta diretamente, afeta o que leio e principalmente em que acredito. Vários mitos desaparecem, algumas certezas se consolidam. E o que ocorre é totalmente paradoxal pois ao mesmo tempo que me sinto em lua de mel com o que escolhi fazer da vida, também passo por uma bela (e boa) fase de desilusão. Interessante notar que uma coisa não necessariamente exclui a outra. É um doce fel. Mas acho que é assim com tudo o que gostamos de verdade.

Esta semana li dois textos que me fizeram criar este post.

O primeiro foi “O mercado errado para as bibliotecas”, da Christine Madsen. Fiz um comentário no Facebook mas acho mais interessante expandir a conversa por aqui. O assunto é bastante espinhoso: modernização das bibliotecas. E na boa? Ninguém aguenta mais falar disso. Sinto calafrios toda vez que leio a palavra “modernização” porque sei que a discussão vai ser que nem naquela música estúpida que diz que “o futuro não é mais como era antigamente” e parar por aí mesmo. As pessoas se bastam a observar o que acontece, a avaliar o que estamos perdendo e tudo fica por isso mesmo, tem sempre um comportamento passivo demais e uma certa preguiça de olhar para o que o futuro pode ser. Se falam em pós-modernismo então é pior ainda… A impressão que fica é que para existir algum tipo de discussão minimamente relevante é condição sine qua non que esses conceitos estejam envolvidos. E desconfio seriamente disso.

A Madsen critica o modelo de informação centralizado que as bibliotecas universitárias vêm cultivando há mais ou menos 150 anos. Diz que este modelo é mais centrado em objetos (recuperação da informação e desenvolvimento de acervo) do que em pessoas e afirma que este mesmo modelo ainda luta para permanecer relevante. E isso tudo é bem triste, mas é verdade – em partes. O “modelo centralizado” de bibliotecas universitárias me parece (não sou uma especialista) que tem sido substituido por um modelo mais setorial, de bibliotecas menores. Ainda assim, este modelo descentralizado não satisfaz a carência de determinadas demandas (que muitas pessoas sequer sabem que existe, mas aí é outro assunto).

Ilustração de Matias Adolfsson
Ilustração de Matias Adolfsson

A autora menciona as bibliotecas academicas antigas, superespecializadas e personalizadas (customizadas) que são caóticas por natureza. No entanto, achar qualquer coisa nessas bibliotecas é impossível pois a sua função é distinta: nesses pequenos mundos de livros, a obtenção de conhecimento é sempre prioritária à obtenção de informação. A organização de bibliotecas de pesquisadores, como por exemplo, a Bibliothek Warburg, só faz sentido para o próprio pesquisador por conta de sua função: criação e não recuperação. E ter e criar isso em larga escala me parece insano é um desafio e tanto, uma vez que (quer queiram, quer não) ainda estamos nessa época de transição e modelos híbridos (do papel ao digital, etc).

Bibliotecários, em princípio, trabalham com informação. Mas eventualmente podem se interessar pela área de Gestão do Conhecimento pois esta é uma escolha pessoal. Trabalho com informação (o que é concreto, objetivo, quantificável) porque é com isso que lido no dia a dia, mas o conhecimento (abstrato, subjetivo, pessoal) ainda me parece estar sempre a um passo além do que faço, embora também faça parte do que vivencio. São estudos complementares mas não se pode dar conta de tudo o tempo todo, por isso quando possível formam-se equipes com gestores do conhecimento. A autora usa o termo “Teoria de Bibliotecas” e eu realmente queria ler mais sobre isso, mas ela não se detém muito neste assunto. Coloco em destaque partes finais do texto com as quais concordei integralmente:

“Tão importante quanto a informação em si é fornecer e sustentar um ambiente que permite a transformação dessa informação em conhecimento novo. O que foi esquecido, por exemplo, é que as bibliotecas foram, e devem ser de novo, inerentemente lugares sociais. Que estes são espaços não apenas para obter acesso aos recursos, mas pessoas – bibliotecários, arquivistas, outros estudiosos – com quem o discurso pode ser inserido sobre os recursos das mesmas. (…) Não há biblioteca, por exemplo, sem uma cultura de pesquisa. (…) O resultado dos recursos aplicados na biblioteca, por conseguinte, não é medido no tamanho da coleção, ou mesmo do número ou satisfação dos utilizadores, mas nas suas experiências.”

O único equívoco da Madsen – equívoco muito comum nos dias de hoje, aliás – foi de achar que o Google é “a Internet”. A idéia de biblioteca universal é datada desde Otlet, as bibliotecas universitárias só foram parte de um processo histórico desta criação, assim como o próprio Google é parte de outra faceta deste mesmo processo. E lembrem-se: o Google não é a Internet, é só (uma grande) parte dela. Ele é muito bom sim, oferece ferramentas, oferece espaço (virtual) mas – ao menos pra mim – existe essa carência de contexto que me inquieta às vezes. Acho mais prudente talvez, usar o Google com parcimônia e ter em mente também outros modos de pesquisa, fontes de informação e experiências reais, amadoras ou profissionais, mas de vida mesmo. E é exatamente aí, neste espaço, nesta lacuna imensa, que o bibliotecário (ou insira seu neologismo cafona preferido aqui) deveria estar atuando.

Ilustração de Matias Adolfsson
Ilustração de Matias Adolfsson

E tratando deste assunto, hoje me deparo com outro texto: “Obra na biblioteca de New York é alvo de intelectuais” que pisa de novo no assunto “modernização”. Resumindo a notícia: estão querendo destituir parte da biblioteca pública de New York de seus livros pra substituir este espaço com computadores. Agressivo, não? Pois é. A primeira impressão que tenho é a de que é agressivo. A segunda, de que é a de que está sobrando dinheiro, mas faltando melhor organização estratégica a quem quer que tenha tido essa idéia que parece brilhante, mas na verdade não é.

Sou contra essa reforma na biblioteca pública de New York porque a acho ridícula. Mas não a acho ridícula por amor às traças e ao acervo, nem nada disso. Sou contra simplesmente porque tenho uma idéia que considero melhor e talvez até mais barata.

O texto da Madsen não está falando justamente sobre descentralização?

Então alguém por favor me explique qual o propósito de destruir parte do acervo físico da biblioteca pública de New York quando poderiam utilizar esse orçamento gigantesco de 600 milhões pra fazer quiosques espalhados em pontos estratégicos da cidade, com terminais que sejam diretamente ligados à biblioteca pública, aos seus serviços e catálogos?

Qual é a razão de centralizar todos esses computadores na biblioteca pública?

Por que não colocar terminais nas estações de metrô, de ônibus, nos aeroportos, enfim, onde as pessoas (que não tem dinheiro pra ter iPhones) realmente precisem? Não sei se meus questionamentos são muito pertinentes ou não, só acredito que uma reforma desta amplitude não deveria ser considerada sem levar em conta outras possibilidades.

E last but not least também é possível questionarmos: a quem estão querendo beneficiar, de verdade, ao suprimir todo um acervo bibliográfico histórico por uma cheia sala de computadores novos?

É. É de se pensar…

As bibliotecas do futuro e 17 formas de como a informação substituirá os livros

por Thomas Frey

Pergunta: Uma vez que os livros físicos estão desaparecendo e os computadores e dispositivos inteligentes tomam seu lugar, em que ponto uma biblioteca para de ser uma biblioteca e começa a se tornar outra coisa?

Em algum lugar no meio desta questão reside um medo persistente e uma ansiedade que vemos transbordar para o topo entre pessoa que se relacionam com a biblioteca.

Pessoas que acham que bibliotecas irão sumir simplesmente porque livros estão se tornando digitais estão perdendo as verdadeiras mudanças tectônicas que ocorrem no mundo da informação.

Bibliotecas não têm a ver com livros. Na verdade, nunca foram sobre livros.

As bibliotecas existem para nos dar acesso à informação. Até recentemente, os livros eram o modo mais eficiente de transferir informação de uma pessoa para outra. Hoje existem 17 formas básicas de informação que estão tomando o lugar dos livros e no futuro existirão muitas mais…

Mapas de posto de gasolina

Quando criança, eu era apaixonado pelos mapas de graça que eu podia pegar nos postos de gasolina. Ao longo do tempo eu colecionei mapas de quase todos os estados e de algumas províncias canadenses.

Junto com os primeiros dias do automóvel e um sistema rodoviário geralmente confuso surgiu a necessidade por mapas. Companhias de gasolina rapidamente perceberam que as pessoas que sabiam onde estavam indo geralmente viajavam mais, e consequentemente compravam mais gasolina.

Ao longo do tempo, qualquer um que dirigisse um carro logo esperava por mapas grátis onde quer que parassem pra abastecer, e companhias como Rand McNally, H.M. Gousha e General Drafting fizeram milhares destes mapas para ir ao encontro da demanda.

No início dos anos 70, quando eu estava recém aprendendo sobre a liberdade de ter um carro, eu não poderia imaginar uma época em que esses mapas não fossem uma parte integral da minha vida.

Hoje, como os GPS e smartphones nos dão instruções passo a passo para onde devemos ir, mapas rodoviários impressos existem como pouco mais que itens de coleção para pessoas que gostam de preservar suas memórias de uma era que já se foi.

Será que os livros impressos também passarão por um decrescimento de popularidade similar?

Nosso relacionamento com a informação está mudando

Como a forma e o sistema de entrega para o acesso à informação muda, nosso relacionamento com a informação também começa a se transformar.

Se tratarmos isso como outro tipo de relacionamento, podemos começar a ver de onde viemos e para onde vamos.

Foi-se a época em que simplesmente “flertávamos” com nossos dados, ocasionalmente olhávamos pra eles, esperando que eles prestassem mais atenção em nós.

Na escola tínhamos um relacionamento mais do tipo “namoro”, arrastávamos livros por aí, esperando que eles nos transmitissem seu conhecimento mesmo que as partes que lêssemos fossem poucas e distantes uma das outras. Bem como namorar alguém popular, nos tornávamos conhecidos pelos livros que carregávamos debaixo de nossos braços.

Quando começávamos a trabalhar, nos tornávamos “casados” com um universo relativamente pequeno de informação que envolvia nosso trabalho, companhia e indústria. As pessoas que se tornavam imersas em seu universo particular se tornaram reconhecidas como especialistas e foram rapidamente para o topo.

Hoje estamos começando a ter “casos” com outras formas exóticas de informação tais como redes sociais e conversa por vídeo. Todos estes novos modos de informação parecem muito mais vivos e vibrantes do que o mundo do livro com o qual fomos casados até o século passado.

Sozinhos, em alguma estante empoeirada, estão os livros com quem algum dia fomos casados. Em algum nível, muitos de nós nos sentimos como traidores por abandonarmos nosso passado, nunca chegando perto de um divórcio que nos deixou com lealdades misturadas  nos assombrando tanto em nível consciente como inconsciente.

Se você acha que esta é uma analogia maluca, muitos irão argumentar que não. Se qualquer coisa, a informação é o coração e a alma de nosso eu emocional. Mesmo que não possamos senti-la nos tocando como um dedo pressionando nosso braço, uma grande obra de literatura tem algum modo de acariciar nossa mente, jogar fogo em nossa raiva interior, enviar arrepios pela nossa coluna e nos dar uma sensação eufórica enquanto acompanhamos nosso herói alcançar uma conclusão climática.

Livros do passado continuam a manifestação física deste tipo de experiência e sem sua presença uma parte de nós sente-se perdida.

Substituindo Livros

A transição para outros modos de informação tem acontecido há décadas. Uma vez que formos capazes de superarmos a conexão emotiva que temos com os livros físicos, começaremos a ver como o mundo de informação está de subdividindo em dúzias de diferentes categorias.

Abaixo segue uma lista de 17 categorias primárias de informação que as pessoas utilizam no dia a dia. Enquanto elas não são substitutos diretos para livros físicos, eles todos tem uma forma de conseguir nossa confiança. Podem existir mais categorias que eu tenha esquecido, mas enquanto você pensa sobre os seguintes canais de mídia, você começa a entender como as bibliotecas do futuro precisarão funcionar:

  1. Jogos – 135 milhões de americanos jogam vídeo games por uma hora a cada mês. Nos Estados Unidos 190 milhões de casas usarão um console de vídeo game da próxima geração em 2012, dos quais 148 milhões estarão conectados à Internet. O jogador mediano tem 35 anos e eles têm jogado games por uma média de 13 anos.
  2. Livros Digitais – Em janeiro, o USA Today reportou uma “onda” de e-books pós-férias, com 32 dos 50 títulos principais em sua mais recente lista vendendo mais cópias em formatos digitais do que impresso. E-books autopublicados agora representam 20-27% da venda dos livros digitais.
  3. Livros de Áudio – Livros de Áudio é o setor que cresce mais rápido na indústria de publicações. Atualmente há uma escassez de livros de áudio no mundo todo enquanto os publicadores correm para atender a demanda. Apenas 0.75% (nem mesmo 1%) do catálogo de livros da Amazon têm até então sido convertido para áudio. Ano passado mais do que U$1 milhão de dólares em livros de áudio foram vendidos apenas nos Estados Unidos. Mais de 5 mil bibliotecas públicas agora oferecem livros de áudio para download.
  4. Jornais – A leitura online de jornais continua crescente, atraindo mais de 113 milhões de leitores em janeiro de 2012. As receitas da indústria de publicidade, no entanto, continuam a cair e estão agora no mesmo nível que estavam nos anos 50, quando ajustadas para inflação.
  5. Revistas – A indústria de revistas norte americana é composta de 5,146 negócios publicando um total de 38 mil títulos. O total de tempo gasto lendo jornais ou revistas é de mais ou menos 3.9 horas por semana. Quase metade de todo o consumo de uma revista se dá com a televisão ligada. A indústria de revistas teve um declínio de 3.5% no ano passado.
  6. Música – De acordo com o “Relatório da Indústria da Música de 2011” da Billboard, consumidores compraram 1.27 bilhões de faixas digitais ano passado, o que contabilizou por 50.3% de todas as vendas de música. As vendas de faixas digitais aumentaram 8.5% em 2011. Enquanto isso, vendas físicas declinaram 5%. De acordo com a Apple, existe uma estimativa de 38 milhões de canções no universo de música conhecido.
  7. Fotografias – Mais de 250 milhões de fotos são postadas no Facebook todos os dias.
  8. Vídeos – A Cisco estima que mais de 90% de todo o conteúdo da Internet será vídeo por 2015. Mais de cem mil anos de vídeos no Youtube são vistos no Facebook a cada ano. Mais de 350 milhões de vídeos no YouTube são compartilhados no Twitter todos os dias. O Netflix transmite 2 bilhões de vídeo por trimestre.
  9. Televisão – De acordo com o A. C. Nielsen Co.,  o americano médio assiste mais de 4 horas de T V cada dia, e tem 2.2 televisões. Uma estimativa de 41% de nossa informação atual vem da televisão.
  10. Filmes – Existem atualmente 39.500 telas de cinema nos Estados Unidos com mais de 4.500 delas convertidas para 3D. O americano médio assiste 6 filmes por ano. Entretanto, quase um terço dos lares norte-americanos usa a Internet de banda larga para assistir filmes em seus aparelhos de TV, de acordo com a Park Associates. Este número está crescendo, com 4% dos lares americanos comprando uma mídia receptora de vídeo tais como a Apple TV e Roku, na temporada de férias de 2011.
  11. Rádio – Assinantes de rádios de satélite, atualmente em 20 milhões, são projetados para alcançar 35 milhões em 2020. Ao mesmo tempo, o rádio na Internet é projetado para alcançar 196 milhões de ouvintes até 2020. Estes combinados ficarão igual ao número de ouvintes terrestres de rádio.
  12. Blogs – Existem atualmente mais de 70 milhões de blogs no WordPress e 39 milhões de blogs do Tumblr no mundo todo.
  13. Podcasts – De acordo com a Edison Research, uma estimativa de 70 milhões de americanos já ouviram a um podcast. A audiência de ouvintes de podcasts migrou de serem predominantemente “early-adopters” para se tornarem mais parecidas com consumidores de mídia mainstream.
  14. Aplicativos – Existem hoje 1.2 milhões de aplicativos para Smartphone com mais de 35 bilhões de downloads. Em algum momento este ano o número de aplicativos irá superar o número de livros impressos – 3.2 milhões.
  15. Apresentações – Liderando nesta área, o SlideShare é a maior comunidade do mundo para compartilhamento de apresentações. Com 60 milhões de visitantes mensais e 130 milhões de visualizações de páginas, está entre dos 200 websites mais visitados no mundo.
  16. Courseware – O movimento OpenCourseware tem pegado fogo com a Apple na liderança. O iTunesU atualmente tem mais de mil universidades participando de 26 países. A seleção de aulas, agora superando a marca de 500 mil, tem tido mais de 700 milhões de downloads. Eles recentemente anunciaram que estão expandindo para o mercado K-12.
  17. Redes Sociais – Seja o LinkedIn, Facebook, Twitter, Google+ ou Pinterest, as pessoas estão se tornando cada vez mais confiantes  em suas redes pessoais para informação. Existem agora mais de 2.8 bilhões de perfis de redes sociais, representando cerca de metade de todos os usuários de Internet no mundo todo. LinkedIn tem agora mais de 147 milhões de membros. Facebook tem mais de 1.1 bilhão de membros e contabiliza 20% das visualizações de páginas na Internet.  O Google+ atualmente tem mais de 90 milhões de usuários.

Cada uma destes modos de informação tem seu lugar nas bibliotecas do futuro. O fato de os livros físicos desaparecerem ou não tem pouca relevância no esquema geral das operações da biblioteca do futuro.

Steve Jobs apresentando o iCloud

A era próxima da biblioteca na nuvem

Em junho de 2011, Steve Jobs fez sua última aparição pública em uma conferência de desenvolvedores de software para divulgar o iCloud; um serviço que muitos acreditam que se tornará o seu maior legado.

Como Jobs imaginou, todo o universo de músicas, livros, filmes e uma variedade de outros produtos de informação residiriam no iCloud e poderiam ser “puxados” quando alguém precisasse de acesso a eles.

As pessoas inicialmente comprariam o produto através do iTunes e a Apple manteria uma cópia dele no iCloud. Então cada compra subsequente por outros usuários da Apple seria um rápido download diretamente do iCloud.

 Indiferente ao fato de o universo da informação se desenvolver na nuvem como Jobs imaginou, cada biblioteca precisará desenvolver a sua própria estratégia na nuvem para o futuro.

Como um exemplo, em um recente evento de biblioteca no qual eu estava palestrando, uma bibliotecária mencionou que tinha acabado de encomendar 50 Kindles e 50 Nooks para sua biblioteca. Na época, ela lidava com as restrições dos publicadores que apenas permitiam que eles carregassem cada livro digital em 10 dispositivos. Então quais dispositivos ficam com o conteúdo no final?

Ao longo do tempo, é fácil imaginar uma biblio teca com 350 Kindles, 400 iPads, 250 Nooks, 150 Xooms e uma variedade de outros dispositivos. Controlar qual conteúdo será carregado em cada dispositivo se tornará um pesadelo logístico. Entretanto, ter cada pedaço de conteúdo digital carregado na nuvem e restringi-lo a 10 downloads simultâneos será mais fácil de administrar.

Esta foto poderia ter sido preservada pela sua biblioteca na nuvem.

O valor do arquivo comunitário

Como era sua comunidade em 1950, ou em se tratando disso, em 1850 ou até mesmo em 1650? Que papel a sua comunidade desempenhou durante a Guerra Civil? O quão ativa ela foi durante as eleições presidenciais de 1960? Como os locais reagiram ao bombardeio de Pearl Harbor?

Nós temos acesso à vários livros de história que nos oferecem a “história oficial” de todos os principais eventos ao longo da história. Mas compreender a intersecção de nossa cidade, nossa vila, ou nossa comunidade com esses eventos marcantes nunca, na maior parte das vezes, foi capturado ou preservado. No futuro, isso se tornará uma das funções mais valorosas fornecidas pela biblioteca comunitária.

As bibliotecas sempre tiveram um mandato para arquivar os registros de sua área de serviço, mas raramente isso foi buscado com mais do que um entusiasmo passageiro. Arquivos dos encontros do conselho da cidade e livros de histórias locais fizeram o corte, mas poucos consideraram a biblioteca como um bom arquivo de vídeos ou fotografia.

Ao longo do tempo, vários dos jornais, rádio e estações de televisão começarão a desaparecer.  Uma vez que estes negócios perdem sua viabilidade, seus depósitos de vídeos de transmissões históricas e documentos precisarão ser preservados. Mais especificamente, cada transmissão de rádio, jornal e televisão precisarão ser digitalizados e arquivados.

Com o advento do iCloud e outros serviços similares as bibliotecas vão querer expandir sua hospedagem de coleções originais e instalar o equipamento para digitalizar a informação. A venda desta informação para o mundo externo através de um serviço do tipo iTunes se tornaria uma fonte de renda valorosa para bibliotecas no futuro.

Pensamentos finais

As bibliotecas, assim como qualquer organismo vivo, terão que se adaptar à natureza complexa e em constante mudança do mundo da informação. Como a informação se torna cada vez mais sofisticada e complexa, as bibliotecas também se tornarão.

Bibliotecas estão aqui pra ficar porque elas tem instinto de sobrevivência. Elas criaram uma relação mutuamente dependente com as comunidades as quais servem, e mais importantemente, elas sabem como se adaptar  ao mundo em mudança em volta delas.

Estou sempre impressionado com as coisas criativas sendo feitas em bibliotecas. Como Eleanor Roosevelt disse uma vez, “O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos”. Existem muitos sonhos bonitos acontecendo que ajudarão a criar as bibliotecas de amanhã.