Por que reprovei na prova de mestrado da USP em 2011?

[Comentário sobre a prova de mestrado em Ciência da Informação da USP de 2011]

“Como instituições seculares do conhecimento e da memória, Bibliotecas, Museus e Arquivos não só compõem, preservam e disseminam os saberes culturais e a pesquisa científica, eles tem sido historicamente, e são hoje, produtores específicos de conhecimento e de informação. Podemos dizer, mais precisamente, que eles produzem conhecimento sobre o conhecimento, informação sobre as informações, inter-documentos sobre todas as mediações e inscrições (documentos, artefatos e coleções; informações cadastrais e referenciais). Participam das formas estabelecidas de validação e credenciamento da produção do conhecimento, seus produtores e suas vinculações institucionais.

As tecnologias digitais, nômades e interativas podem alterar a atualidade e vigência dos formatos e conteúdos desse conhecimento informacional (ou meta-informacional), mas não a competência crítica e analítica de acompanhar, analisar, reconstruir os novos processos de produção, disseminação e apropriação dos conhecimentos, se exercidas suas competências de maneira crítica e inovadora.”

GONZÁLEZ DE GOMEZ, M. N. A Universidade e a “Sociedade da Informação”. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas , v.9, n.1 , p. 239, jul./dez. 2011. (Grifo Nosso)

A distinção entre meta-informação e informação é algo que precisa ser abordado com uma maior detalhação e cuidado. Em outro post no blog mencionei sobre isso rapidamente, explicando que muitos alunos decepcionam-se com a graduação em Biblioteconomia justamente por ela ter abordagens com mais ênfase no tecnicismo relativo ao processamento técnico, ou seja, à meta-informação, à criação de metadados e aos seus processos relacionados. Alguns graduandos em Biblioteconomia consideram outros cursos de humanas mais interessantes (jornalismo, história, filosofia, letras) pois estes cursos tratam de informações com menos (ou pouquíssima) ênfase em meta-informações. No entanto, no trecho acima, percebi que essa distinção não foi realizada.

Para mim, é um tanto quanto peculiar conceber Bibliotecas, Museus e Arquivos especificamente como produtores de conhecimento e informação. Acho curioso o texto abordar sobre a Universidade e a “Sociedade da Informação” oferecendo tão pouca ênfase à sociedade de fato. Afinal, que “Sociedade da Informação” será essa que existe apesar das Bibliotecas, Museus e Arquivos? Bibliotecas são queimadas e destruídas por questões políticas, Museus e Arquivos facilmente esquecidos pelo descaso de diferentes governos e deteriorados impiedosamente pelo tempo… Mas sociedades – da informação ou não – não só permanecem, como modificam-se e principalmente adaptam-se a novos tempos.

Compreendo que as Unidades de Informação, tais como as conhecemos, tem papel essencial na organização da memória e dos insumos intelectuais das comunidades nas quais estão inseridos. Mas todo o conhecimento e informação que são “compostos, preservados e disseminados” não são produzidos e nem criados por essas unidades de informação, mas sim, pela comunidade nas quais estão inseridos. O conhecimento técnico e cultural adquirido pelos bibliotecários – que tem papel central no desenvolvimento de uma comunidade – é advindo da própria universidade, dos cursos de graduação e posteriormente no aprofundamento e especialização em suas experiências profissionais.

É possível interpretar a partir do trecho exposto (talvez muito equivocadamente, pela falta de contexto) que existe um deslocamento do bibliotecário e suas habilidades junto à uma comunidade, para a instituição biblioteca, ou seja um prédio, que contém livros organizados, em categorias e classificações arbitrárias e que, por si só, entraria em colapso muito facilmente. Uma biblioteca por si só, abandonada a própria sorte (seja por bibliotecários com má formação ou conduta, seja por falta de incentivo governamental ou qualquer outro tipo de descaso grave) raramente produz qualquer coisa que seja, quanto mais informação e mais pretensiosamente ainda, conhecimento.

Relativo às tecnologias digitais, é possível perceber que a relação ainda é a de precaução, mais de desafio do que de oportunidade, uma vez que elas são colocadas em paralelo com a competência do bibliotecário, que deveria ser “crítica e analítica”. Acredito que esse paralelismo não existe na verdade, uma vez que o bibliotecário faz uso destas tecnologias digitais justamente para que elas possam auxiliá-lo (e auxiliar também sua comunidade como um todo) a “acompanhar, analisar e reconstruir os novos processos de produção, disseminação e apropriação dos conhecimentos” – substituindo-o apenas no trabalho repetitivo, “braçal”, na mão de obra, dificilmente no trabalho intelectual e principalmente social.

(…)

Este foi o trecho que deveríamos comentar na prova de mestrado da USP, a qual não passei, por motivos que agora são muito mais claros pra mim. Os comentários que fiz acima foram feitos de uns dois dias pra cá, mas são resumidamente as opiniões que emiti na prova, neste post de forma um pouco mais pontual. Na prova também citei parte da bibliografia que talvez não tenham se ajustado muito adequadamente com o assunto proposto. Mas de qualquer modo, o simples fato de ter exposto este tipo de opinião referente a um texto de uma autoridade da área, já pode ter sido considerado muito mais do que arrogante. Pois bem.

Tecer comentários sobre o texto que foi passado na prova neste espaço pode ser simplesmente considerado ‘malcriação’ ou até mesmo pode ser interpretado como discurso de ‘gente fraca e frustrada’ porque não passou na prova. E talvez seja mesmo, afinal, mesmo sabendo do risco que corri, fiquei bastante decepcionada com o fato de não ter passado. Também fiquei decepcionada com a minha imaturidade intelectual e possível falta de sensibilidade com o trecho a ser comentado. Mas sinceramente, acho que prefiro assumir essa ignorância minha por – hoje – ainda ser incapaz de enxergar isso de outro modo que não seja o qual expus aqui.

Eu sabia que algum dia este momento na minha vida chegaria. Ele chega pra todo mundo, mais cedo ou mais tarde.

Me questiono algumas vezes se poderia simplesmente ter tido sangue frio (ou talvez um cinismo patológico) e ignorado o fato de o texto me trazer afirmações muito contundentes sobre coisas que simplesmente não acredito e não vivencio. Teria que ter muito estômago pra isso e talvez não tenha. Talvez isso seja mera covardia e ingenuidade pura mesmo, falta de malícia. Falta de malandragem. Mas talvez também seja o que chamam de hombridade.

Me questiono se eu poderia simplesmente bancar – mais uma vez – o fato de ter de deixar de lado novamente quem eu sou e no que acredito para tentar conciliar (como sempre) ideias contraditórias. Ter de realizar todo um esforço externo à mim para tentar chegar a um consenso ao invés de conflito, apenas para não confrontar o que está ‘estabelecido’. Mas fracassei nisso. Terrível e felizmente. Talvez eu tenha mais sorte ano que vem. Ou esteja menos insolente.

Biblioteconomia ou Ciência da Informação?

Essa semana eu estou publicando aqui alguns conteúdos que estavam no meu antigo blog de biblio, o Dora Ex Libris. A maior parte das publicações é de 2011, quando eu estava terminando a graduação em biblioteconomia. Hoje encontrei um texto em que eu falava do meu tcc que entreguei em dezembro de 2011. Meu TCC foi um estudo sobre o tema de Organização da Informação (OI) na produção de teses e dissertações em Ciência da Informação no Brasil. Ele levantou algumas outras questões como as Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações (BDTDs), como estão organizadas em cada pós-graduação, quais softwares estão sendo mais utilizados, como é feita a armazenagem, representação e disponibilização desse tipo de material em acesso livre na Internet e etc.

Tive a ideia de republicar este post porque na época fui questionada por um colega do mestrado sobre o meu tema: “por que você está fazendo seu TCC de Biblioteconomia sobre Ciência da Informação? Por que não faz sobre bibliotecas?”. Essa é uma questão que é pertinente já há algum tempo. Muitos cursos de graduação no Brasil tomam uma coisa por outra e entendem a Ciência da Informação como uma evolução natural da biblioteconomia. Mas eu vou bater na tecla do hibridismo enquanto as bibliotecas físicas ainda existirem. Tem a discussão de que o curso de graduação precisa se modernizar etc., e talvez um dos impedimentos pra essa modernização seja justamente o mestrado: que também não tem nada de tecnologia e que é apenas uma continuação, mais teórica, do que se aprende na graduação. Não vejo uma coisa como sendo melhor ou superior à outra.

E defendo o hibridismo pois foi disso que o meu tcc tratou. Descobri no segundo semestre de 2009 que a parte que eu mais gosto na Biblioteconomia é a de Organização da Informação (leia-se, processamento técnico, técnicas de organização e representação da informação e do conhecimento, indexação, classificação, catalogação, criação de resumos, metadados, recuperação da informação). Em 2010 iniciei a execução de um projeto de pesquisa PIBIC sobre o conceito de OI a partir de material encontrado na base de dados LISA (Library and Information Science Abstracts). Uma base de dados dessa importância não deixa de ser uma referência para a área, bem como não deixa de ser um tipo de biblioteca virtual, se assim quisermos chamar. Pois bem.

Depois de ter analisado a literatura internacional, fiquei curiosa pra saber o que tem sido produzido referente à OI no Brasil. Eu poderia ter feito a análise a partir da produção nos periódicos científicos da área pois querendo ou não, divulgação científica lida diretamente com fontes de informação, e fontes de informação, ora veja, é assunto da Biblioteconomia também; mas achei mais interessante buscar pela produção da pós-graduação, uma vez que teses e dissertações são publicações mais importantes do que artigos de periódicos (é a partir das teses e dissertações que artigos são publicados na verdade, enfim).

Aí entra a questão das Bibliotecas (opa!) Digitais de Teses e Dissertações e de sua importância pra divulgação do que está sendo produzido em todo o Brasil, e de que modos as pós-graduações em CI se articulam (ou não) para preservar sua produção em ambiente online. Meu TCC não é especificamente sobre isso mas esse tema por si só, já dá um outro TCC inteiro. Bibliotecas Digitais (não vou nem entrar na questão terminológica aqui: repositórios, portais, BDTDs, etc.) são importantes pois acredito que seus usuários (nós, estudantes, pesquisadores e profissionais da biblioteconomia e de outras áreas) deveriam ter o acesso mais facilitado – a partir de qualquer computador – à produções de outros estados do Brasil. Por que continuar utilizando o COMUT se é possível com as tecnologias de hoje viabilizar um serviço deste tipo? Essa é só uma das questões, mas com certeza devem existir várias outras se persistirmos no assunto.

Pra mim, pesquisar conteúdo digital nunca fugiu do escopo da biblioteconomia. Pelo contrário: nunca foi tão alinhado ao que a biblioteconomia devaria ser. Pra mim parecia estranho evitar tratar do assunto Ciência da Informação na graduação e nunca houve escopo ideal: fiz o melhor que pude com o que tinha disponível na época. Não me parecia estranho também porque fiz disciplinas isoladas de mestrado e fui aprovada no mestrado da UFSC, mas nunca entendi nada disso como evolução e sim como mais um exercício – bem como toda pesquisa e projeto que nos envolvendo, por maior e mais importantes que sejam, sempre são recomeços. O que fiz foi tão importante quanto todos os outros trabalhos desenvolvidos pela minha classe – não houve melhor ou pior, mas são conteúdos e abordagens diferentes. A qualidade só foi julgada quando da entrega e também por diferentes motivos.

Ainda acredito que a pluralidade é mais importante do que ‘o que eu acho ser o melhor para a Biblioteconomia’ em detrimento de todos os outros tipos de estudo. Trabalhos de conclusão de curso geralmente refletem uma série de variáveis da vida da pessoa que o produz: seus interesses, suas paixões, seu foco (ou falta dele), sua rotina e seu ambiente de trabalho e também um pouco do que aprendeu em sala de aula. Tudo junto e misturado.

Seguem os títulos dos TCCs desenvolvidos pela Biblioteconomia da UFSC em 2011-2. Alguns já mudaram, outros permaneceram, mas basicamente a minha turma tratou destes temas:

  • Atuação dos Bibliotecários em Arquivos: um estudo de caso do arquivo central da Universidade Federal de Santa Catarina
  • O uso de informações estratégicas para geração de inteligência competitiva: um estudo nas agências de Publicidade de Florianópolis
  • Biblioteca Digital de Educação a Distância: favorecendo a Competência Informacional
  • Padrões de metadados para indexação fotográfica
  • A atuação do bibliotecário como disseminador de informação em bibliotecas públicas da grande Florianópolis
  • Relação entre o bibliotecário e o professor na Biblioteca Escolar
  • A potencialidade do uso das ferramentas da Web 2.0 em bibliotecas escolares no processo educativo como ferramentas para ampliar o acesso e disseminação da informação
  • A gestão de documentos no âmbito das instituições públicas do Estado de Santa Catarina
  • Ergonomia na Biblioteca Cruz e Souza (CESUSC)
  • O papel do Bibliotecário nas práticas e modelos para o desenvolvimento da competência informacional
  • Análise das publicações acerca de arquivologia nos últimos 10 anos
  • Análise do uso da coleção do ensino médio do SENAI de Tijucas/SC
  • Ergonomia e usabilidade no documento texto a digital
  • Organização da informação: abordagens nas teses e dissertações em Ciência da Informação no Brasil
  • Avaliação do Software de Automação de Biblioteca Pergamum
  • A importância dos livros de registros do Cartório do 2º Ofício de Imóveis de Florianópolis/SC: monumentos históricos
  • Atividades biblioterapêuticas para crianças
  • O Ensino de Biblioteconomia: uma análise do curso de Biblioteconomia da UFSC
  • Avaliação do Software Automotivo Doutor-ie na perspectiva do usuário
  • FRBR: uma revisão de literatura
  • Critérios para a preservação digital adotados pelos repositórios informacionais arrolados no ROAR
  • Formação e desenvolvimento de coleçõesem biblioteca especializada: análise da coleção da biblioteca do SEBRAE de Santa Catarina
  • Análise das Publicações Eletrônicas Brasileiras em Acesso Aberto na área de Educação Física
  • Arquivo em instituição pública
  • Indexação de imagens fotográficas na empresa Tempo Editorial
  • O uso da informação estratégica

Qual a diferença entre Ciência da Comunicação e Ciência da Informação?

“A ciência da informação se constituiu como disciplina no espaço do meio entre a biblioteconomia e as comunicações. A área de comunicações nunca se propôs a trabalhar a comunicação científica no interior da produção científica; ela sempre visou a comunicação científica nos meios de massa; a área de comunicações trabalha com as notícias de ciência nos jornais e na tevê, por exemplo. Mas nunca foi sua preocupação entender a produção científica enquanto uma rede de citações. Isso fez a ciência da informação. Das comunicações a ciência da informação absorveu a questão mesma do processo de comunicação; entendeu já no início que a informação flui por um processo de comunicação, concentrando-se no processo de comunicação na ciência. Como este processo passa por canais, a ciência da informação passou a ser a ciência destes canais” (MOSTAFÁ, 1996, p.2, Grifo Nosso)

MOSTAFÁ, S.P. Ciência da informação: uma ciência, uma revista. Ciência da Informação, Brasília v. 25, n. 3, 1996. Disponível em: <http://revista.ibict.br/index.php/ciinf/article/view/448/407>. Acesso em: 19 nov 2011.

Que tipo de ciência pode ser a Ciência da Informação?, por Michael K. Buckland

“Cada especialidade acadêmica desenvolve sua própria cultura de conhecimento, linguagem, valores e estruturas sociais. Em conseqüência eles são necessariamente mais ou menos diferentes um do outro em escopo e potencialmente incompatíveis, ou ao menos dissonantes. É possível que nenhuma especialidade prefira uma cultura unificada (epistemologia, terminologia) para sua própria cultura nativa que evolui, então uma tensão é de ser esperada entre um desejo pelos benefícios da compatibilidade com outras especialidades e o desconforto de lidar com as culturas mais ou menos estrangeiras de outras especialidades.”

[…]

“Pelas razões especificadas neste artigo, a ciência da informação preocupa-se com engajamento cultural. Abordagens formais e quantitativas são extremamente valorosas, mas o campo em si mesmo é incorrigivelmente cultural. Métodos formais e quantitativos, embora úteis, nunca podem ser mais do que papéis auxiliares altamente valorizados. Caracterizar a recuperação da informação e bibliometria como ciências do artificial é uma descrição, não uma crítica. (…)  No final, podemos ver que nossos argumentos têm de algum modo uma forma circular. Uma vez que escolhemos reconhecer a noção central de informação como relacionadas à aprendizagem e ao conhecimento existem conseqüências. Primeiro, há uma separação das zonas essencialmente livres de conhecimento ocupadas pela ciência da computação, física da informação e tecnologia da informação. Segundo, qualquer noção de estudos da informação envolvendo o que e como sabemos, pode ser apenas um questionamento cultural. Terceiro, aceitar o contexto cultural da ciência da informação deveria nos levar a contribuições mais realistas e mais efetivas para nossa sociedade permeada por documentos”.

Buckland, M. (2011), What kind of science can information science be?. Journal of the American Society for Information Science and Technology. doi: 10.1002/asi.2165

Texto Original disponível em: <http://people.ischool.berkeley.edu/~buckland/whatsci.pdf>

Texto Traduzido disponível em: <http://www.slideshare.net/doritchka/que-tipo-de-cincia-pode-ser-a-cincia-da-informao>

As palavras e as coisas*

por Aldo Barreto

Nossa comunicação não passa de um jogo de palavras. Palavras podem ser inventadas arbitrariamente e seu sentido fruto de convenção depende do uso que fazemos delas. O objeto de estudo da ciência da informação tem sido um constante construir de novas palavras e conceitos . A explanação teórica e conceitual das práticas já utilizadas vem correndo atrás das aplicações mutantes pelas tecnologias, mas ainda sem um consenso ou entrosamento. Mas não podemos inventar sentidos a nosso bel prazer. Apesar dos estudos sociais nos mostrarem que:

“… o elemento explicativo é a importância atribuída à presença, nas sociedades humanas, de sistemas simbólicos e sígnicos que passaram a perceber-se como, em grande parte, programando “de fora” a ação humana…. Como os processos de criação de significados, a partir dos signos e das mensagens (verbais e não-verbais) que permitem difundi-los, dependem de como sejam decodificados, pensou-se que o conhecimento humano fosse necessariamente relativo: os significados dependeriam de um processo de interpretação inescapavelmente marcado por sistemas de poder e por interesses que nunca são universais, estão sempre ligados a grupos delimitados.”**

Existe um fascínio por novas versões do mesmo significado e em um mundo de memória fraca há que contar e recontar a união entre as palavras e as coisas para evitar a palavra clandestina que quer renomear o que já foi dito mil vezes.

Este é o caso do conceitos cujo significados re-usados querem indicar um sistema de poder e a união com grupos delimitados como é o caso do conceito de capital cognitivo. O conceito parece indicar a acumulação de cognições prévias o que secularmente temos denominado de “memória”.

Um outro caso seria “engenharia da informação” que se define como o estudo da natureza da informação, dos artefatos que a manipulam e do papel de ambos na dinâmica social incluindo o desenvolvimento das tecnologias da informação. Disso trata a ciência da informação e suas ligações. O Marketing da informação vem substituir a disseminação da informação e assim outros casos.

É conhecida a história do indivíduo que por novidade gostava de trocar o nome das coisas. Assim chamou a cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, e assim continuou. As coisas começaram de fato a mudar em sua cabeça. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Com o tempo ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém. Retirou-se para casa e só falava consigo mesmo.

A substituição de conceitos busca significado em outras áreas, de modo livre e desordenado, sem instrumentos e métodos para refletir e ordenar novos nomes. Uma bagunça mistura sem coerência dando nomes novos para idéias já estabelecidas e convencionadas em códigos de comunicação.

Há sempre o perigo, como na história acima, de se ficar sem interlocutor ou de se decidir não falar mais nada, ou o que é pior, não entenderem mais nada do que falarmos em nossa área de conhecimento.

* “As palavras e as coisas” é titulo de conhecido livro de Michel Foucault

** “Mudanças de rumo na metodologia dos estudos sociais” de Ciro Flamarion Cardoso, DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação – v.5, n.5, out/04

Fonte: Lista de Discussão Lexias. Grifo nosso.

Periódicos Internacionais em Biblioteconomia e Ciência da Informação

(Lista publicada originalmente em 20 de dezembro de 2010. Não foi atualizada.)

Eu tinha feito um post sobre os periódicos em biblioteconomia e ciência da informação no Brasil e então resolvi fazer este aqui também, com periódicos internacionais em inglês. Não dava pra dizer que eram periódicos só americanos ou só ingleses por que tem outros países que publicam em inglês em conjunto. Então são todos internacionais, só que em língua inglesa. O que fiz na verdade foi selecionar alguns dos links de periódicos que encontrei no diretório do Yahoo, no Open Acess Journals  (DOAJ) e no Digital Information in the Information Research field, diretório criado pelo professor Tom Wilson, editor-chefe da Information Research.

Teve 3 blogs listados como periódicos nestas listas: 1. O Journal of the Hyperlinked Organization (JOHO) (que é do D. Weinberger, autor do Nova Desordem Digital) que parece ter sido descontinuado em 2009, mas o Joho the blog, tem uma última atualização de 18 de dezembro de 2010; 2. O Library Juice, que não é bem um “periódico do tipo que aceita submissões”, mas é um blog excelente sobre biblio e CI; 3. A Wired Magazine, que não é blog, nem periódico, é revista (sim, sou chata). Definições são chatas mas né, vamos lá. Se alguém conhecer mais algum periódico em inglês, favor compartilhar pelos comentários. :]

E ah, periódicos em espanhol (países centro e sul americanos + Espanha) fica pra um outro post e/ou fica a dica pra quem quiser fazer este post também.

Periódicos em Biblioteconomia e Ciência da Informação no Brasil

(Lista publicada originalmente em 10 de dezembro de 2010. Não foi atualizada.)

Este não é um post novo. Na verdade é uma lista que tem em vários blogs. Ela já foi feita no site do OFAJ e refeita no ExtraLibris Concursos e também tem no blog do NIPEEB. Arrisco dizer que esta que eu fiz aqui é uma lista atualizada, com 3 periódicos a mais do que nas listas que eu encontrei.

Gostaria de deixar por aqui uma lista também, pra voltar sei lá, uma vez por ano e atualizá-la sempre que aparecer um periódico novo. Pretendo deixar por aqui apenas periódicos brasileiros da Ciência da Informação disponibilizados online, em Acesso Livre. Pra ver qual é o estrato da revista é só dar uma olhada no WebQualis da CAPES. Se alguém conhecer algum periódico (brasileiro, de CI, online e em acesso livre) que não está nesta lista, pode se manifestar nos comentários.

Alguns itens que constavam na lista e eu retirei:

Boletim Eletrônico CFB (Conselho Federal de Biblioteconomia, Brasília) – Acho que é mais um repositório do que um periódico.

Revist@ CRB-7 (Conselho Regional de Biblioteconomia 7ª Região, Rio de Janeiro) – Revista institucional, desatualizada.  Última edição: v. 2, n. 1, 2006.

Revista CRB-8 Digital (Conselho Regional de Biblioteconomia 8ª Região, São Paulo) – O link não abre <http://revista.crb8.org.br/&gt;

Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação (ANCIB) – Última edição: v. 3, n. 1, 2010. – Na verdade não é exatamente um periódico, está mais para um repositório onde são armazenados os anais do evento (ANCIB). Se fosse periódico aceitaria submissões em qualquer época do ano.

Bases Filosóficas da Organização da Informação

Miguel Angel Rendon Rojas

Pesquisador do Centro Universitário de Investigações Biblioteconômicas da Universidade Nacional Autônoma do México. Doutor em Filosofia.

Lizbeth Berenice Herrera Delgado

Licenciada en Biblioteconomia pela faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Autonoma do México. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia e Estudos da Informação na UNAM.

A ordem, como categoria filosófica, provém da filosofia grega e é um dos princípios da organização da informação. Analisamos a natureza da ordem, de sua origem e de sua presença nos sistemas da classificação da Ciência da Informação. Nós concluímos que esta ordem é introduzida pelo bibliotecário, mas sem consequencias subjetivistas ou relativistas. O “documentário cosmo” construído tem bases ontológicas objetivas procedentes do “ser informativo” do sujeito, por isso tem regularidades e características que podem ser estudadas objetivamente.

Palavras-Chave: Epistemologia da Ciência da Informação; Organização da Informação; Organização Bibliográfica; Ordem bibliográfica; Sistemas de Classificação; Ordem.

Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος (no princípio era
o verbo/a palavra) João 1:1. *

Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria depois de séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). – J. L. Borges

A validade objetiva de todo conhecimento empírico repousa sobre isto e apenas isto: que a realidade é ordenada de acordo com as categorias, dado que são subjetivos, em um sentido específico. – M. Weber.

1 Introdução

O presente trabalho tem como objetivo fazer uma reflexão sobre os fundamentos filosóficos da ordem bibliográfica. Neste sentido, consideramos que as idéias e pressupostos desenvolvidos ao longo da história no âmbito da organização bibliográfica, não são independentes de outras manifestações culturais; pelo contrário, estamos convencidos que existem fortes vínculos entre o fazer bibliotecário e os desenvolvimentos e avanços na concepção do conhecimento. A partir desta abordagem, a justificativa deste trabalho consiste em tratar de mostrar que a organização é um dos princípios fundamentais que viabilizam a existência da biblioteca, pois garante a livre circulação social da informação, que leva a um melhor conhecimento da realidade. Além disso, nós pensamos a tarefa bibliotecária como um produto humano comprometido com a investigação científica e cultural, que não apenas tem suas raízes no conhecimento socialmente acumulado (e que sempre será um produto dos seres humanos); mas também está destinada a fornecer a qualquer pessoa que deseje, quando necessite, os conhecimentos e informações requeridos,  de forma ágil e prática.

Refletir sobre as bases filosóficas de organização da informação é voltar aos primórdios do mundo bibliotecário e seus construtores. Apenas basta lembrarmo-nos que a grande biblioteca da Antiguidade, a biblioteca de Alexandria, foi dirigida por grandes humanistas e cientistas [1], alguns dos quais eram filósofos, tradição a qual depois se uniriam através da história nomes como Casiodoro [2], Alcuino [3], Ockham [4], Leibniz [5], apenas para lembrar alguns. Também podemos lembrar que os princípios de classificação bibliográfica tiveram sua fonte em classificações das ciências criadas por diferentes filósofos.

Nessa linha de conexão entre as bibliotecas e a filosofia, Riaño Alonso diz que as bibliotecas na Grécia foram uma consequência direta do exercício e da prática da filosofia. Desta maneira a Biblioteca de Alexandria não nasceu apenas por capricho, ocorrência ou desejo de prestígio dos Ptolomeus, nem tinha como modelo os depósitos orientais das tábuas de argila, mas sua origem estava ligada a uma visão histórico-cultural concebida dentro das escolas filosóficas helenísticas (a Academia, o Liceu, a Estoa). A missão básica que lhe era conferida era criar e irradiar o clima político e cultural do Helenismo. É por isso que o modelo bibliotecário alexandrino, culminado pela figura de Calímaco de Cirene, teve tal êxito e se inseriu profundamente no paradigma bibliotecário, que se converteu no arquétipo dos centros bibliográficos que continuaram aparecendo no mundo grecorromano (RIAÑO ALONSO, 2005).

Nosso objetivo neste texto é mostrar que a categoria de “ordem” que cria o cosmos e a harmonia, está na base da organização bibliográfica, como seu fundamento último. Mas ao mesmo tempo que esta ordem é dada, não é dada a priori pelo objeto de maneira natural, mas a posteriori em função do sujeito de maneira artificial. O anterior não significa que essa realidade criada seja relativa e irreconhecível, mas humana; da mesma maneira que a linguagem e toda a cultura, que podem ser estudadas com metodologias e enfoques específicos (hermenêutica, pragmatismo, tipos ideais, construtivismo, teoria crítica, entre outros) e onde dificilmente se encontrarão leis que as expliquem, mas que podem ser conhecidas através de sentidos e significados que nos conduzem a sua compreensão.

Deve-se notar que utilizamos os termos ‘organização da informação’ e ‘organização bibliográfica’ de maneira distinta. Seu emprego corresponde à diferenciação que se faz no tempo e à evolução conceitual e terminológica que se estabelece em cada um dos períodos históricos. A conotação permanece sendo a mesma: em primeiro lugar a informação, como ente ideal (abstrato) mas ao mesmo tempo objetivizado (materializado) em documentos que podem ser de naturezas distintas; e em segundo lugar as formas de descrição, como se denomina e concebe na atualidade a matéria prima do fazer bibliotecário, esta informação objetivada.

2 No início era a ordem: o cosmos grego

Na cultura grega, que segue permeando nossa cultura contemporânea em política, filosofia, literatura, arte, linguagem entre outros aspectos, e também no problema que nos ocupa deste trabalho, nos ajuda a encontrar um elo para compreender o fundamento filosófico da organização bibliográfica. Este elo é a categoria de kosmos (κόσμος ou) que possuía um lugar central dentro da cosmovisão grega. O termo mencionado significa não apenas universo, mundo, céu, mas ao mesmo tempo, denota ordem, organização, disciplina. O anterior porque o universo era para os gregos frente a todo um universo ordenado, onde reinava a harmonia (lei, ordem, justa proporção). Antes do cosmos só havia o caos. Podemos lembrar o mito de Hesíodo da cosmogonia, onde o caos é o que existe antes de nada, mas depois deixa seu lugar a primeira e à segunda geração de deuses. Com o cosmos constituído não havia lugar para o caos, já que um e outro são antagônicos.

Essa ordem é presente na natureza, na arte, na conduta humana existe por que está regido pelo logos (Λόγος) que é Razão, lei, palavra, pensamento entre outros muitos significados. Um fragmento de Heráclito descreve essa cosmovisão grega onde reina a ordem, a harmonia, graças à direção de um logos: “Quando se escuta, não a mim, mas à Razão (logos), é sábio concordar que todas as coisas são uma” (HERÁCLITO, 1987).

A ordem regida pelo logos é necessária, já que o ser humano só pode viver e orientar-se em um mundo com ordem, como se adaptar as coisas à regra imposta pelo logos, se faz possível, “saber o que são as coisas agora e sempre, captar o que elas tem de eternas, o permanente em meio à mudança” (ZEA, 1993, p. 30-31). Mas ainda “na vida de cada indivíduo “ibris” (υβριξ εωξ) o excesso, ultrapassando o que é bom e adequado ao homem, traz consigo a queda e exige a correção, a volta ao equilibrio da balança, assim, por extensão ao universo, reina em tudo a lei cósmica, a conservação de um equilibrio que impede o caos e a anarquia” (COPLESTON, 1986, p. 36)

Também, durante o Medievo a idéia de um universo ordenado continuou, embora com roupagens teo-ontológicas. A cosmovisão medieval tinha agora como centro Deus e este passava a ser o ordenador, aquele que cria tudo perfeitamente; o logos grego deu seu lugar ao Deus medieval. Para Santo Agostinho e São Tomás a ordem é uma determinada relação recíproca das partes; é uma perfeição que aparece como subordinação do inferior ao superior, onde existe uma hierarquia ontológica.

Na filosofia da Idade Média podemos encontrar a harmonia do universo na doutrina tomista dos chamados transcendentes do ente, que são a unidade, a verdade, a bondade e a beleza. De acordo com esta idéia, todo ente é único, verdadeiro, bom e belo.

O ente é único por que em relação a seu ser não pode decompor-se em partes, o único que se opõe é o nada, e o nada não existe, é dizer  que o ente tem unidade em si mesmo (ou é, ou não é; mas como é, então é e ponto). Ao mesmo tempo, é não-contraditório (é e não pode ser) pode ser captado pelo intelecto e por isso é verdadeiro, apenas o ser é compreensível, o não-ser é inconcebível. A verdade se entende como a adequação do ser com o intelecto. Simultaneamente o ente como único e verdadeiro é captado pela vontade e é desejável, querido, nesse sentido é bom. A Bondade se concebe como a adequação do ser com a vontade. Finalmente, como verdadeiro e bom, o ente é belo.

Essa doutrina dos transcendentais nos mostra o otimismo e equilibrio do pensamento medieval. O mundo é criado por Deus e como este é não só onipotente mas tem todas as perfeições, entre elas a sabedoria e a bondade, portanto, esse mundo também é inteligível, bom e belo.

3 A ordem da modernidade: um olhar para a razão e o conhecimento

O mundo medieval deu lugar ao mundo moderno, isto significou uma mudança de cosmovisão onde o centro era Deus, garantia de harmonia no mundo natural, da possibilidade de conhecimento, da ordem política e social, da ética e da justiça; uma cosmovisão na qual a razão humana levantou-se com tais pretenções quase divinas. A modernidade se impôs à razão como garantia de ordem e harmonia. É por isso que se na antiga Grécia as reflexões giravam em torno de uma ontologia lógica; na Idade Média, em torno de uma ontologia teológica; na modernidade os olhares se voltaram para reflexões gnoseológicas, sobre o conhecimento, sobre como a razão conhece. Descartes, Leibniz, Bacon, Locke, Hume, Kant centram seus interesses primeiro no aspecto mais gnoseológico que ontológico pois tinham que fundamentar todo um modo de pensar de uma época, baseados na razão humana.

A transição da Idade Média para a Idade Moderna começa a acontecer a partir dos séculos XIV e XV com o movimento que se denominou Renascimento, mas se preparou quase um século antes com as lutas políticas entre o Papa e os Imperadores, levantamentos sociais disfarçados de heresias; mudanças ideológicas e filosóficas como o despertar, com Robert Grosseteste e Roger Bacon, de uma metodologia empírica e matemática. O desenvolvimento desta nova forma de investigação científica levou a um progresso vertiginoso da ciência, principalmente da Física e Astronomia, conhecido como revolução científica dos séculos XVI e XVII. Os nomes de Copérnico, Galileu, Tycho Brahe, Kepler e Newton estão ligados a essa revolução, produto de observações, experimentos, medições que levarão ao descobrimento de leis e regularidades.

Ao mesmo tempo que esses descobrimentos nas ciências particulares, se deu a fundamentação filosófica deste processo mediante à crítica aos conhecimentos medieviais, puramente especulativos, baseados no escrito de textos de certos autores, reconhecidos como autoridades (Aristóteles, Tomás de Aquino, Padres da Igreja, Bíblia) sem se tornar uma realidade, através da justificação da metodologia empírica, indutiva e matemática; assim como na ênfase do valor prático do conhecimento frente ao meramente contemplativo.

Nesta linha cabe ressaltar os pensamentos de Descartes, reconhecido como o pai do pensamento moderno, e de Francis Bacon, filósofo do método indutivo experimental. Ambos pensadores criticam o conhecimento medieval, Descartes com sua conhecida dúvida metódica “não aceitar nada como verdadeiro, antes de se obter evidência de que seja assim”; e Bacon com sua crítica aos ídolos ou prejuízos que impedem chegar ao conhecimento, os ídolos da tribo (idola tribus), próprios da espécie humana que tende a ver ordem e causas universais; os ídolos da caverna (idola specus) próprios da individualidade, que por gostos, interesses, educação introduzem subjetividade na visão do mundo; os ídolos de mercado (idola fori), que aparecem pelo contato entre os homens e problemas de linguagem, causam confusões, já que “quando os conceitos faltam, os suprem oportunamente as palavras”; e os ídolos do teatro (idola Theatri) que são os erros causados por pseudocientíficos que como atores proclamam suas falsas teorias em escolas ou universidades.

Em respeito ao método que posam estes filósofos, Descartes depois de sair de sua dúvida metódica ao encontrar a verdade “clara e evidente” no princípio de cogito ergo sum, volta o olhar para a matemática como modelo de conhecimento, por que proporciona a necessidade, evidência e clareza em seus conhecimentos buscados. Desta maneira, como disse Galileu, as matemáticas são a linguagem própria da natureza e portanto o método para investigá-la, sem sua ajuda resulta como impossível compreender uma palavra da natureza.

Por sua parte, Francis Bacon propõe uma rejeição da lógica aristotélica, que equivalia a silogística, como um método inadequado para a investigação científica, e  salienta a necessidade de encontrar um novo método de investigação da natureza. Por isso denomina sua obra como Novum Organum já que a obra lógica de Aristóteles se conhece como Organon. Bacon fundamentou o indutivismo como um método experimental. Para ele era necessário reorientar a ciência de sua época com a natureza e os fatos, bem como o uso de uma metodologia que consistiu em uma observação cuidadosa e completa dos fatos, que chama <<história natural e experimental>> realizada de acordo com tabelas de presença, ausência e comparação ou graus.

Outra característica que o pensamento moderno concedeu ao saber científico é a utilidade prática do conhecimento teórico. Principalmente Bacon estabelece a estreita relação entre a ciência e o domínio da natureza. “Conhecimento é poder” por que proporciona aos seres humanos a possibilidade de manipular a realidade de acordo com o seu desejo, e claro, a vontade se considera boa. Ela deve estar sob o controle do intelecto. Desta maneira se abrem os horizontes do progresso humano impulsionado pelo desenvolvimento científico.

Dentro deste contexto onde tudo gira ao redor da problemática gnoseológica, o interesse também se centralizou na classificação da ciência. Embora a classificação da ciência seja um tema específicamente moderno, desde a antiga Grécia com Aristóteles encontramos a preocupação de estabelecer uma divisão do conhecimento filosófico. Segundo o Estagirita, a filosofia se divide em teórica, onde se busca a verdade; prática, onde se estuda a ação dirigida a um objetivo; e poética, onde o objeto exterior é produzido por um agente. A lógica é classificada como um instrumento (organon). Posteriormente na Idade Média a classificação das ciências aparece ligada a educação que se ensinava nessa época e que incluía o ensinamento das então chamadas sete artes liberais (próprias dos homens livres e que se opunham às artes manuais). Tais artes liberais se dividiam no Trivium (Gramática, Dialética, Retórica) e no Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia, Música).

Para Descartes o conhecimento científico se divide em forma de árvore, onde a raiz é a Filosofia, o tronco a Física; os ramos são a Linguística, a Economia, a Medicina, o Direito, a Astronomia, a Geometria e a Ética.

Para Francis Bacon, as ciências se classificam segundo as faculdades do homem: razão, memória e imaginação. A cada uma destas faculdades correspondem algumas disciplinas:

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Esta classificação se tornou muito importante por que serviu como base para o sistema de classificação de M. Dewey.

Outro grande pensador da modernidade foi Leibniz, que concebe as ciências como um continuum, cujas divisões são arbitrárias e só admissíveis por comodidade. Em sua obra Novos ensaios sobre o entendimento humano Leibniz expressa a idéia de que o corpo inteiro das ciências pode ser considerado como o oceano, que é contínuo por todas as partes e sem interrupções, embora os homens possam conceber linhas e nomeações à sua comodidade. Neste continuum as ciências são equipotentes e podem se organizar de várias maneiras, segundo a função que ocupem no todo ou segundo outros critérios materiais ou formais. Leibniz deixou não menos de vinte classificações das ciências (LEIBNIZ, 1764, p. 247-250).

A idéia de que não existe uma “ordem natural” na classificação das ciências também é importante em nossa análise por que como veremos mais adiante, a ordem dada ao conhecimento científico é concedida pelo classificador, questão que Borges colocaria em evidência em seu “Torre de Babel”, onde “os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem)”.

Durante o Iluminismo as idéias de Bacon influenciaram a estrutura e a ordem que recebeu a Enciclopédie ou Dictionaire raisonné des sciences, des arts et des métiers [Dicionário fundamentado das ciências, das artes e dos ofícios]. Efetivamente, D’Lambert e Diderot, seguiram o projeto baconiano, pois deram a sua obra uma seção de história, outro para a filosofia e uma terceira para as belas artes. Assim, cada um destes grandes grupos de ciências e atividades humanas se subdividiu em muitas outras seções que configuram a árvore <<das ciências, das artes e dos ofícios>>. Adicionalmente, a diferença entre as enciclopédias antigas (a Historia natural, de Plínio, O velho, as Etimologías de São Isidoro, as Sumas dos escolásticos cristãos) e as modernas está em que aquelas, tentam conservar os conhecimentos de uma época; e estas, difundi-los [6]. Visto assim, a enciclopédia se apresentou como um sistema de todos os conhecimentos humanos; quando estes são ilimitados, busca-se uma maneira de representá-los em síntese.

O modelo científico desenvolvido na modernidade foi o das ciências naturais por que como já indicamos, foram a Física e a Astronomia nos séculos XVI e XVII as que se desenvolveram de maneira vertiginosa. Em seguida foi a vez da Química no século XVIII e a Biologia no século XIX, para que finalmente no século XX se realizasse uma revolução em todas as ciências naturais e nas tecnologias, destacando-se o desenvolvimento da computação, telecomunicações e genética. Desta maneira, tendo como modelo da ciência as ciências naturais, nasceu o positivismo, que exaltava o uso do método científico empírico, matemático e lógico para descobrir leis gerais que permitiram explicar e predizer a realidade.

Foi até o século XIX, com exceção do pensamento de G. Vico no século XVIII, que as Ciências Sociais e Humanas levantaram a mão para que fossem tidas em conta como um corpo de conhecimentos distinto ao das ciências naturais. Desta maneira para os neokantianos W. Windelband se distinguem as ciências nomotéticas (que descobrem leis) e as idiográficas (que buscam sentidos), e para H. Rickert esta distinção equivale às ciências naturais e às ciências da cultura. De maneira semelhante, W. Dilthey divide as ciências naturais, que pretendem explicar e seguem o modelo positivista, das ciências do espírito, que tendem a compreender e cujo método é a hermenêutica (interpretação para chegar ao sentidos das ações).

4 A pós-modernidade e o advento do caos

Foi dentro deste contexto onde aparaceu um novo movimento que se tem denominado pós-modernidade. Em efeito, devido ao desenvolvimento das ciências sociais e humanas; uma decepção para chegar a um conhecimento universalmente verdadeiro [7]; ao desencanto pelas promessas não cumpridas baseadas no poder da razão [8], o projeto da modernidade cambaleou e surgiu outra visão alternativa: a pós-modernidade, a qual em sua vez, também afetou o modo de organizar o conhecimento.

É muito difícil definir um fenômeno tão complexo que abarca múltiplos pensadores e esferas da cultura como a pósmodernidade. Abordaremos este problema seguindo Habermas (1989, p. 69; 1988, p. 19-36) e Beuchot (1996) que tomam como ponto de partida para sua análise das diferentes escolas posmodernas a posição que se adota frente à razão e ao ideal do Iluminismo. De acordo com este critério, segundo Habermas se pode criticar a modernidade a partir da esquerda ou direita. Em ambos os casos se aceita algo do projeto da modernidade. Mas também podemos criticá-la negando-a totalmente.

No caso da crítica à modernidade a partir da esquerda, por um lado se aceitam algumas de suas realizações, mas por outro, também se deseja superar a razão meramente instrumental com outro tipo de razão, seja através da ação comunicativa (Habermas), a hermenêutica (Gadamer), ou a pragmática (Appel). Por sua parte, os críticos da direita ou neoconservadores, aceitam a técnica, a razão instrumental; mas rechaçam a cultura, a razão ética-utópica. Entre estes encontramos C. Schmitt, Gottfried Benn, Arnold Gehlen, Daniel Bell. Finalmente, encontramos aos que negam por completo a modernidade e são críticos radicais da razão; são os chamados antimodernos, e alguns de seus representantes são o “segundo” Heidegger, J. Derridá, G. Bataille, G. Deleuze, M. Foucault, F. Lyotard, G. Vattimo, R. Rorty. Nesta mesma linha de negar a modernidade mas com a proposta de voltar a posições anteriores à modernidade como o neoaristotelismo se encontram alguns pensadores que são conhecidos como paleoconservadores ou prémodernos, entros os que podemos enumerar L. Strauss, R. Spaeman, A. MacIntyre; H. Jonas e S. Hauerwas. (BEUCHOT, 1996, p. 9)

A pósmodernidade alcança o problema da organização do conhecimento em dois aspectos; o primeiro enquanto se pode ver o sonho da sociedade da informação o conhecimento como uma vertente pós-moderna de direita, e segundo como a introdução do relativismo, subjetivismo e certa “desordem” na organização (uso de linguagem livre, lógicas difusas) como influência de uma posmodernidade antimoderna.

5 Biblioteconomia Contemporânea

Embora tenhamos visto que a prática bibliotecária data da antiguidade e da idade média, é na idade moderna que se toma consciência desta prática e ela finalmente se constitui como disciplina independente. Não é de se estranhar que o primeiro manual conhecido de biblioteconomia, obra de Gabriel Naudé Advis pour dresser une bibliothèque fora publicado no século XVII, que a criação dos sistemas de classificação apareceram no século XIX, M. Dewey se inspirou na classificação das ciências de Bacon, e a Biblioteconomia nasceu sob o modelo positivista da ciência. Todas essas circunstâncias são um reflexo de que esta disciplina é uma ciência eminentemente moderna, é produto da modernidade.

De fato, se considerarmos alguns dos valores que mais se apreciam em biblioteconomia: o universalismo para resumir todo o saber humano; o ideal do Iluminismo que prega que o conhecimento e a verdade costumavam ser melhores; a preocupação com a normalização, a organização e a sistematização; então descobrimos que esses mesmos valores são distintivos e característicos da modernidade.

Levando em consideração todo o enunciado anterior, podemos afirmar que na biblioteconomia rege o princípio da ordem, já que se respeitam os conceitos de organização, hierarquia e prioridade, posteridade e sucessão, assim como a estrita observância do conjunto padrão e sua relação recíproca. O sustentar a organização documental nas relações de documentos, seus conteúdos e a representação simbólica que os localiza e agrupa, permite que se integrem coleções documentais que façam explícito o significado de tais relações, criando um núcleo de conhecimentos acerca dos documentos que conformam a coleção, obtendo sua relevância dentro da mesma organização.

Isso leva o bibliotecário ao reconhecimento da necessidade de utilizar a classificação como ferramenta de organização. A tradução da classificação como uma regra resulta no sistema de classificação no qual a representação documental é constituída e dirigida pela atribuição e emprego de símbolos. Então, o sistema classificador tem como finalidade, servir na ordenação dos documentos mediante relações de interpretação que implicam um processo dirigido a, por um lado representar o documento e por outro dotá-lo de significado, com o qual se pretende dar coerência à diversidade documental, com o objetivo de explicar os vínculos existentes entre os documentos que formam parte da coleção.

Graças ao sistema de classificação se organiza o conhecimento em taxonomias ou categorias. As taxonomias representam mecanismos construídos para classificar as coisas em uma série de grupos hierárquicos cuja função é facilitar a identificação, estudo e localização; assim como também permite a inclusão de estruturas e aplicações. As estruturas são centradas nos termos e suas relações, e as aplicações são as ferramentas que facilitam o seu uso. Atualmente isto se traduz no processo que inicia-se com análise documental, orientado pelas regras de catalogação e os sistemas de classificação documental que pretendem obter e oferecer representações do documento, seu conteúdo e todas as possíveis relações existentes.

A classificação na biblioteconomia contida em um catálogo, tem como finalidade definir um universo cuja primeira instância permita determinar se um registro em particular pode incluir-se ou não como parte do universo de documentos, além de criar um espaço onde se estabelecem relações lógicas entre os elementos dos registros pertencentes a este universo e sirva de base para a organização física dos documentos e suas representações.

Assim como a organização física dos documentos tem lugar, encontramos a organização temática ou de conteúdo, a qual para ser visível, manipulável e organizável desenvolve o registro documental. Tal registro se baseia nos princípios de catalogação, tarefa na qual se descreve os elementos físicos e temáticos que caracterizam um documento, nomear cada uma das partes que os constitui e estabelecer a ordem que deve guardar dentro de tal registro. A ordem e as relações entre os elementos de um registro, dotam o documento de significado, sua informação e conteúdo, o que permite a relação dos elementos entre registros.

Agora a reunião de múltiplos registros dão como resultado a existência do catálogo, que em sua estrutura global, manifesta as relações entre registros documentais, documentos, agrupamento e localização espacial; fazendo evidente sua própria forma de ordenação que é guiada pela normalização em seu contínuo crescimento e reflete a ordem bibliográfico-documental da biblioteca.

Assim, o núcleo de conhecimentos se verá representado pelo catálogo da biblioteca, no qual se observa a conjunção dos três tipos de ordem até agora desenvolvidos – físico, temático e de registro -, que o convertem à porta de acesso à informação contida nos documentos organizados no acervo.

Embora em nossos dias ainda os grandes sistemas de classificação e as normas catalográficas, que inicialmente foram adotadas como resposta à sobrecarga de informação gerada devido ao descobrimento da imprensa, seguem resolvendo os problemas de arranjo temático dos documentos, e podem seguir sendo considerados como eficientes instrumentos de sistematização dos conteúdos documentais e de conhecimento, atualmente existem outras propostas para identificar, representar e ter acesso aos documentos, principalmente devido a aparição de documentos eletrônicos. Por exemplo o modelo proposto pelo Dublin Core para metadados e os alinhamentos de descrição de dados no RDA, no FRBR. No entanto não é difícil constatar que o princípio e categoria da ordem segue mantendo-se nessas novas propostas.

6 Considerações Finais

A análise do que foi aqui exposto nos permite afirmar que há semelhança do mito de Hesíodo sobre a teogonia, o caos informacional dá seu lugar ao “cosmos documental”, onde rege uma ordem, graças a qual é possível orientar-se, mover-se e atuar neste cosmos. A particularidade disso que temos denominado cosmos documental é que é construído pela atividade do bibliotecário, é pois uma criação humana e por consequencia cultural. Em outros escritos temos identificado o sistema de organização documental como objeto de estudo da biblioteconomia (RENDÓN ROJAS, 2005) e conectando esta idéia com esta reflexão sobre as bases da organização documental, podemos dizer que o bibliotecário com sua ação constrói este sistema; o qual não é um ente natural dado (pedra, planeta, elemento químico por exemplo) para o qual devemos interpretar para dotá-lo de sentido; mas mesmo incluso sua mesma existência é imediata.

O nomear (representar) o ente informativo-documental, é criar uma organização e realizar o necessário para fornecer o acesso a este, é construir o mundo informativo documental próprio da biblioteconomia; um mundo como todo o humano, cheio de sentido, mas sentidos de segunda ordem, ou seja, sentidos do mundo natural, mas sentidos de um mundo cultural que por sua vez é interpretado. Por isso a biblioteconomia não é uma ciência natural, mas seguindo a terminologia de Dilthey, uma ciência do espírito.

Se tomamos por exemplo a classificação que se realiza na organização documental, encontramos que a classificação é uma operação lógica realizada com conceitos [12] que são divididos coerentemente, com base em certos critérios, o volume do conceito inicial mediante a formação de subclasses ou subconjuntos sucessivos. Tais critérios podem ser propriedades inerentes ao objeto, presentes como características essenciais; ou podem ser características que por si mesmas não são relevantes para o objeto em si, mas que se empregam como critérios para realizar uma determinada tarefa. No primeiro caso, se pode dizer que é uma classificação natural baseada em atributos essenciais dos objetos, como é o caso da classificação dos elementos de acordo com a Tabela Periódica de Mendeleiev, onde o peso e número atômico determinam o lugar e propriedades dos elementos; ou as classificações taxonomicas dos seres vivos na biologia, onde a anatomia comparada e a evolução das espécies orientam a classificação. No segundo caso, os critérios da classificação se baseiam em características que se escolhem por que são convenientes para alcançar um fim, como seria classificar alunos por estatura, peso, ou as palavras por ordem alfabética. Neste último caso temos classificações artificiais.

O ato de criar um mundo informativo documental artificial, com classificações arbitrárias, tem levado a pensar, dentro do contexto posmodernista, onde na biblioteca e em seu cosmos reina a subjetividade total, a arbitrariedade absoluta. Mas devemos deixar claro que o artificial se contrapõe ao natural, no sentido de sua gênese, depende da ação de um sujeito o natural não; mas não é sinônimo de relativismo e incapacidade de ser estudado e conhecido. Em primeiro lugar, o sistema criado tem suas regularidades enquanto ente existente. Em segundo lugar, a mesma construção do sistema informativo documental não é uma criação ex nihilo, mas é precisamente uma construção que utiliza matéria prima inicial; e essa matéria prima: informação, documentos, usuários posuem umas características que são os suportes que dão objetividade à ordem criada. Toda interpretação, embora dependa do sujeito, deve respeitar o texto, neste caso essa matéria prima da qual falamos linhas acima. O atributo de ser uma realidade objetiva e necessária é o que temos chamado “fundamentação ontológica da biblioteconomia”, a qual temos desenvolvido previamente (RENDÓN ROJAS, 2005, p. 54-78) e consequentemente demonstrou que o cosmos biblioteconomico possui sua ontologia própria, abstrata e humana; e ao mesmo tempo não é algo inventado por um voluntarismo absoluto, mas repousa em uma ontologia de primeiro nível, ancorado em características reais do ser humano, que englobamos com o termo “ser informacional”, já que o ser humano por sua estrutura ontológica para realizar seu ser necessita criar, consumir, transformar informação como um ser dialógico, hermenêutico, histórico, simbólico, político, social, econômico, racional.

Desta maneira, se queremos seguir com a metáfora da teogonia hesiódica, podemos concluir que no princípio é o ser informacional, disto nasce o cosmos documental regido pela ordem, nascimento mediado pela atividade do sujeito; e finalmente, essa ordem possui suas próprias regularidades, que podem ser estudadas.

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* No princípio era o ‘logos’. Frase com que se inicía o Evangelho de São João que resume a cosmovião da Antiguidade. Para o pensamento grego o logos se entendia como palavra, linguagem, pensamento, mas também é razão, lei, regra, principio racional, razão suprema, conformidade com a lei, princípio que impõe ordem,…

[1] Demetrio de Falero, Calímaco de Cirene, Zenódoto de Éfeso, Apolonio de Rodas, Eratóstenes, Aristófanes de Bizancio, Aristarco de Samotracia, Apolonio Eidographos.

[2] Junto com Boécio e Isidoro de Sevilha é considerado um dos fundadores intelectuais do pensamento medieval. No início do século VI funda o monastério de Vivaruim e com suas obras De Institutione divinarum literarum e De Ortographia elabora um programa para que os monges de seu monastério se dediquem à leitura e cópia de textos “para servir à Deus”. O Vivarium desapareceu sem deixar vestígios, mas as ordens monásticas posteriores continuaram este projeto, dando assim lugar a uma das instituições medievais mais importantes: as bibliotecas monásticas com seus copistas (GONZÁLEZ CASTRILLO, 2002, p. 102-103).

[3] Clérigo de origem inglesa, conselheiro de Carlos Magno e propulsor das reformas em educação e cultura em geral no chamado renascimento carolíngio. Ao final de sua vida  montou uma importante biblioteca.

[4] Filósofo nominalista da idade média, nascido na Inglaterra. De acordo com o historiador soviético de lógica, N. I. Stiazhkin, a classificação das ciências proposta por Ockham no século XIII “comprovou ser muito firme. Basta dizer que por exemplo no atual sistema decimal de classificação de documentos, a seção “sistema científico” (índice 168) se divide nas subseções: “ciências formais” (índice 168.51) e “ciências reais” (índice 168.52), que exatamente corresponde a divisão ockhamista da ciência em racional e real” (STIAZHKIN, 1967, p. 144). Na tradução espanhola da CDU o esquema correspondente ao 168 é “O método científico” e ao 168.51 é “ciências formais” e 168.52 “ciências empíricas”.

[5] Filósofo, matemático, lógico, jurista, político, foi um dos grandes pensadores do século XVII e XVIII. Foi bibliotecário da Casa de Brunswick em Hannover, onde desenvolveu catálogos sistemáticos (ROSS, 1984).

[6] A Enciclopédia foi editada pela primeira vez entre os anos de 1751 e 1772 em Paris, França. Formada por 17 volumes editados por Denis Diderot e Jean Le Rond d’Alembert, seu objetivo geral foi difundir as idéias do Iluminismo francês.

[7] Apareceram limitações nas ciências, incluindo aquelas que pareciam as mais sólidas. Por exemplo na Física, surgiu a teoria da relatividade que destruiu a Física clássica; a física quântica, que parece falhar algumas leis lógicas; e o descobrimento do chamado princípio de indeterminação de Heisenberg. Em matemática o teorema de Gödel acabou com as esperanças de encontrar um sistema formal para a aritmética, onde todas as fórmulas universalmente verdadeiras nela sejam teoremas (teorema de completude), já que estabeleceu que qualquer teoria axiomática não contraditora, em uma linguagem de primeira ordem adequada para a teoria de números é essencialmente incompleta, é dizer, sempre existirá um enunciado aritmético verdadeiro que não se pode demonstrar na teoria.

[8] Em vez de progresso há guerras mundiais, campos de concentração, ditaduras, fome, problemas ecológicos.

[9] Especificamente no catálogo eletrônico, se visualiza a maior quantidade de relações possíveis entre os conteúdos temáticos dos documentos graças aos sistemas de pré-coordenação e pós-coordenação existentes.

[10] O sistema de classificação de Dewey, a classificação decimal universal (CDU), a classificação do Congresso (LC); as Regras de catalogação Anglo-Americanas, segunda edição (AACR2).

[11] Resource Description and Acesss (RDA); Functional Requirements for Bibliographic Records (FRBR).

[12] Entendemos por conceito a forma de pensamento que com base em certas características identifica e distingue certos objetos dentro de um universo, e os agrupa em um conjunto. Este último se denomina volume do conceito.

REFERÊNCIAS

BEUCHOT, M. Posmodernidad, hermenéutica y analogía. México: Miguel Ángel Porrúa: Librero-Editor; Universidad Intercontinental, 1996.

COPLESTON, F. Historia de la filosofía: Grecia y Roma. Barcelona: Ariel, 1986.

GONZÁLEZ CASTRILLO, R. Oposiciones a bibliotecas y archivos. (Escalas de Facultativos y de Ayudantes). Temario Básico. Madrid: Editorial Complutense, 2002.

HABERMAS, J. El discurso filosófico de la modernidad. Madrid: Taurus, 1989.

HABERMAS, J. La modernidad un proyecto incompleto. En: FOSTER, H. et al. La Posmodernidad. México: Kairós-Colofón, 1988. p. 19-36.

HERACLITO. Fragmentos. En: KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, Y. M. S. Los filósofos presocráticos: historia crítica con selección de textos. Madrid: Gredos, 1987.

LEIBNIZ, G. W. New Essays on Human Understanding. En: BENNETT, J. Early modern texts. 1764. Disponível em: <http://www.earlymoderntexts.com/pdfbits/ne43.pdfq>. Acesso em: Setembro de 2009. Disponível em : <http://www.earlymoderntexts.com/leibne.html> Acesso em fevereiro de 2011.

NAUDÉ, G. Advis pour dresser une bibliothèque. Paris: Klincksieck, [1627], 2008.

RENDÓN ROJAS, M. A. Bases teóricas y filosóficas de la bibliotecología. 2 ed. México: UNAM; Centro Universitario de Investigaciones Bibliotecológicas, 2005.

RIAÑO ALONSO, J. J. Naturaleza de la Antigua Biblioteca de Alejandría. España: Trea, 2005.

ROSS, G. M. Leibniz. Oxford: Oxford University Press, 1984.

STIAZHKIN, H. I. Formirovanie matematicheskoi lóguiki (A formação da lógica matemática). Moscou: Nauca, 1967.

ZEA, L. Introducción a la filosofía: la conciencia del hombre en la filosofía. México: UNAM, 1993.

Publicado originalmente no periódico Perspectivas em Ciências da Informação, v. 15, n. 1, p. 3-17, jan./abr. 2010.

Título Original: Bases filosóficas de la organización de la información

Versão em pdf. do artigo no meu SlideShare.

(Tradução originalmente publicada em 19 de fevereiro de 2011.)

10 Práticas Acadêmicas Irritantes

Ao longo da vida acadêmica, a partir do momento em que você tem que ler textos – tanto porque é obrigado pelas aulas, às vezes porque recomendam e outras porque você quer –  se você tem o mínimo de senso crítico (não precisa nem ser muito, mesmo porque, eu mesma não me considero uma crítica chata) você nota que alguns artigos não são exatamente bons. Claro, nem todos os artigos são criativos e nem tem insights incríveis… Alguns você nota que a pessoa apenas fez o seu dever de casa, ficou bom e aí você volta pra sua vidinha normalmente.

Mas existem os artigos que eu considero nocivos, ruins mesmo. Aliás, existem comportamentos, mentalidades que eu também considero ruins, incompatíveis com a realidade de hoje e com um ambiente acadêmico que se pretende, inclusivo, colaborativo, moderno e blábláblá. Algumas coisas são tão ruins que fica difícil entender como elas acontecem. Mas aí a nossa tendência – por sermos “meros estudantes de graduação” – é pensar “nossa, quem escreveu/fez/criou/organizou é uma doutora e o texto já passou pela avaliação de pares, então a burra aqui da história deve ser eu, mesmo”.

Um conselho dos mais sinceros: não tenha tanta certeza disso. Suspeite de tudo, até mesmo da sua ignorância – que talvez nem mesmo exista de fato.

A primeira vez que eu li sobre práticas acadêmicas irritantes foi no blog da Adriana Amaral, onde ela fez um breve post, falando sobre duas práticas acadêmicas que ela considera irritantes. Acredito que a visão dela é diferente, uma vez que ela já é professora e tem reclamações bem mais específicas que as que eu vou descrever aqui, acredito.

Resolvi guardar algumas práticas que considero irritantes no geral e deixei por hora na quantidade de 10, mas com certeza surgirão outras com o tempo, aí faço outro post.  Os comentários estão abertos, caso vocês queiram compartilhar das coisas que vocês consideram irritantes, academicamente. Esta lista não está por ordem de importância.

Tudo o que foi listado é igualmente irritante.

1. Não compartilhamento. O Tiago Murakami escreveu este post falando sobre os estudantes que enviam trabalhos para encontros, mas depois não compartilham na Internet. Existe outro post na ExtraLibris que também fala sobre compartilhamento, e eu também concordo que a precariedade na comunicação se deve a falta de cultura, o que é bizarro principalmente na nossa área – que nem mesmo se preza a preservar o conteúdo informacional de seus próprios eventos. Toda vez que pensamos em compartilhamento, sonhamos com algo que seja centralizado e todo mundo se engaje num depósito voluntário. Pessoalmente, acredito que atingir isso é bastante difícil, e é duro pois nos decepcionamos de criar uma viabilidade e então ficar esperando a espontaneidade das pessoas. Acredito que uma cultura só se cria a partir de hábitos e hábitos, querendo ou não devem fazer parte de nossas obrigações e responsabilidades. Blogar, twittar, compartilhar, comunicar-se bem é um ato de responsabilidade para com uma comunidade. Um dos grandes desafios é conscientizar as pessoas da importância de suas responsabilidades individuais para com o todo.

2. Citar por citar. “Hm, que interessante esse autor novo que eu nunca ouvi falar e na verdade, eu nem sei do que ele fala direito, mas acho que vou citá-lo/entrevistá-lo/usá-lo no meu artigo/pesquisa”. Não há envolvimento com a obra, com o autor – sim, é babaca da minha parte, mas acho isso importante. Não há envolvimento com as obras que contestem esse autor, nem a sua idéia. É possível que aconteça até mesmo uma distorção de suas idéias, na ânsia de encaixá-lo no artigo. É uma motivação superficial, só para que um autor novo ou que esteja abordando um assunto “da moda” conste nas suas referências. “Achei bonito, acho que cola se eu acochambrar umas idéias dele no meu texto”. A quebra na leitura do artigo é nítida como a luz do sol na retina e se você for um leitor um pouquinho mais atento/a, entende na hora que há algo errado ali. Acho isso detestável e muito irritante.

3. Enxergar X onde não existe. Uma coisa é bem certa nessa vida: não existe texto  que seja isento. Imparcialidade é lenda. É possível que se você seja anarquista, que seu texto saia meio anarquista, se você for socialista/comunista/marxista, se você viveu a época da ditadura (às vezes nem precisa ter vivido, basta ser uma pessoa sensível ao drama da época), se você foi hippie, enfim… É possível enxergar essas suas “marcas” no seu texto. Impossível exigir que as pessoas abstenham-se disso e, realmente, nem quero isso. Mas é sempre bom ter bom senso e utilizar estes tipos de discurso com moderação (ok, eu sou babaca). Acho comum em alguns artigos ver uma idéia sendo forçada onde ela realmente não se encontra, só na cabeça do autor (e das pessoas que pensam como ele/a). Um exemplo da biblio: enxergar biblioteca física transportada pro ambiente de computador e se achar visionário/a por isso, o que é ridículo. Enxergar ameaça, onde deveria se enxergar oportunidade. Cara, sinceridade? Sinto muito, você não é visionário: você é retrógrado por mais que seu doutorado tente nos dizer o contrário. E assim vai.

4. Teoria sem prática e prática sem teoria. Não adianta nada você ter 30 anos de experiência em biblioteca universitária, ser doutora em CI e escrever um texto fraquíssimo e sem posicionamento algum sobre tecnologias da informação porque né, convenhamos, não vai dar certo. A situação é constrangedora pra quase todos os envolvidos: os pares que vão ter que ler (e não sei porque raios acabam aprovando o artigo), as pessoas que vão ler depois (e vão ficar com vergonha do que leram, certeza), só não vai ser constrangedor pra você, que vai continuar se achando muito inteligente e segura com o doutorado debaixo do braço. Bem como também não adianta você viver aclamando determinadas aplicações, mas achar que tudo o que você lê é um lixo e nada nunca é bom o suficiente. De nada adianta ignorar a teoria se nada que você tenha tentado colocar em prática funcionou efetivamente até hoje. Esse conselho é extremamente ignorante e algum dia, posso me arrepender profundamente de ter escrito isso aqui (mas a vida é assim mesmo): atenha-se ao que você sabe fazer e não invente moda, não importa quem você seja. Quem sabe pensar diferente é porque já sabe pensar igual.

5. Carência de literatura na área. Acho que é o mimimi mais recorrente na literatura de qualquer área. Mas quando a gente lê uns livrinhos bestas e inúteis sobre a história social do conhecimento (do Burke) e percebe que tudo é muito, mas muito recente e incipiente, fica um pouquinho mais fácil de entender os porquês da literatura especializada ser tão escassa. Acho esse argumento meio fajuto, uma vez que também percebemos que sempre existem assuntos “da moda” e é sobre eles que as pessoas “gostam” de escrever (na verdade não gostam, escolhem porque é o mais fácil; gostar é superestimado, mas isso é outro assunto). Na academia isso é muito comum: não se cria viabilização para pluralidade, apenas para repetição de discurso. Certamente não é à toa que existe “carência de literatura na área”, em qualquer área – não só na Biblioteconomia não. Isso pode até ser verdade, mas escrever um parágrafo pra dizer “coitadinho de nós que não temos referências nacionais sobre esse assunto direito”, acho meio demais. Dica: não reclame da carência, apenas crie. Desbrave. Por maiores que sejam as dificuldades.

6. Textos literários demais. Este é apenas um preconceito pessoal que tenho. Certo que não concordo com todos os preceitos da “escrita acadêmica e científica”, mas poxa… Desnecessário tentar ser literário demais numa tese ou dissertação. Sinceramente, do fundo do meu coração amargurado, eu acredito que pra você ser um escritor, você precisa ser bom (olha, muito bom. na verdade você precisa ser excelente, tá?) em primeiro lugar. Considero de extrema dificuldade conciliar um texto acadêmico com um texto literário (ruim), mas tem gente que consegue e ainda, claro, consegue ser aprovado pela banca. Como, não sei. Lembrando bem que ter um estilo de escrita não tem nada a ver com ser literário, mas sim em ter sabedoria e até certa malícia, sagacidade no uso das palavras certas (eu disse palavras certas, que sejam elegantes e impactantes, não falei de chavões, que são feios e grosseiros). Eu gosto de coesão num texto e não gosto de muita viagem na maionese e riponguice. Não estou falando pra poupar palavras nem nada, mas pra ser cauteloso ao invés de estiloso. Só isso. Por favor.

7. Invenção da Roda. Se você está na graduação, ou até mesmo na pós-graduação, olha, eu sinto muito, mas você de antemão não é inovador, genial, visionário e nem vai inventar a roda. Se você é tudo isso (e está bem certo disso), a academia não precisa de você e muito provavelmente nem você dela. Não, você não está inventando a roda. Pelo menos não até o doutorado. Veja se alguém já não fez ou falou o que você pretende pesquisar. Só dê uma olhadinha e simplesmente aceite este fato. Não dói. Sério.

8. Vocabulário rebuscado só pra pagar de erudito. Não vou nem me prolongar nesta, só vou fazer uma pergunta: pra quê isso, me diz? Quem caça palavra complicada em dicionário só pra usar e pagar de erudito é simplesmente babaca. (Desculpem, não resisti em ofender).

9. “Artigos” com amontoados de citações. Infelizmente, tive a sofrível experiência logo na primeira fase do curso de biblioteconomia, de ter de encarar um texto sobre ética e deontologia (um assunto que considero difícil, tanto de ler como se escrever sobre), com um “artigo” que continha blocos imensos de citações, uma seguida da outra. Foi a coisa mais traumatizante que me sugeriram ler, em toda a minha vida. O choque foi ainda maior quando vi que tinha sido escrito por uma mestranda (mestrandos deveriam ser mais sagazes que eu né? pois é). O trauma se agravou porque o professor deu um estudo dirigido onde continha a seguinte pergunta “qual é a idéia principal da autora no texto?”. Fui sincera: a autora não tem nenhuma idéia principal sobre nada e no texto, aparentemente, ela não tem a mínima idéia sobre o que ela está escrevendo. Ah, falei sim senhor. E também dei uma de classhole e falei a mesma coisa em sala de aula, nem ligo, falei mesmo. Isso é que dá aprovar aluno CDF e “esforçado” em seleção de mestrado. Não adianta nada se o seu melhor simplesmente não é bom o suficiente.

10. Contradições descaradas. Isso não é nem sobre um artigo ou texto em si, mas sim sobre posicionamentos mesmo, que considero bizarros – por não existir palavra melhor pra descrevê-los. Dou dois exemplos: #1. organizam um livro sobre Mídias Sociais sendo que a grande maioria dos autores mal responde e-mails (provavelmente não devem ter tempo, ou coisa assim). Isso, para mim, é totalmente bizarro, simplesmente. Vejam que nem mesmo reclamei dos autores não fazerem parte de certas mídias sociais, pois é um pouco mais complicado do que imaginamos: não respondem e-mails que não sejam estritamente do interesse deles (não querem perder tempo). Ok. #2. organizam um livro tendo como tema principal e fundamental “O Livre Acesso ao Conhecimento Científico” ou sei lá sobre “Compartilhamento, Livre Acesso e Colaboratividade” e o livro além de caro, está indisponível em versão eletrônica para download. Como isso é possível? Isso é a CI, my friends. De que Livre Acesso eles devem estar falando mesmo? Sério, é inacreditável. Acho isso mesquinho, ruim mesmo, como um todo. Não é uma publicação para se ter orgulho, definitivamente.

(Publicado originalmente em 12 de janeiro de 2011.)

Desclassificação na Organização do Conhecimento, por Antonio García Gutiérrez

Li o artigo em novembro do ano passado e fiquei de traduzi-lo mas algumas outras coisas me atropelaram (TCC, tentativas de mestrado, natal, ano novo, mudança de cidade, formatura, etc.) e então só consegui pôr as mãos nele há alguns dias, cinco meses depois. Na época fiz apenas um breve fichamento das partes que achei mais interessantes do artigo e só permaneci com a intenção de traduzi-lo algum dia quando fosse possível. O texto está disponível em .pdf no meu Slideshare e também aqui no blog: separei as seções do artigo em posts, à título de teste.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Desclassification in Knowledge Organization: a post-epistemological essay. Transinformação, Campinas, 23(1): 5-14, jan./abr., 2011.

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Desclassificação na organização do conhecimento: ensaio pós-epistemológico

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Antonio GARCÍA GUTIÉRREZ.

Professor, Universidad de Seville, Faculdade de Communicación. R. Américo Vespúcio, s/n., 41092, Servilla, España. E-mail: <algarcia@us.es>.

Recebido em 16/2/2011 e aceito para publicação em 28/3/2011.

Resumo

O conteúdo da rede digital origina-se a partir de diferentes formas, lógicas e culturas de conhecimento. Uma vez na rede, no entanto, eles são todos submetidos para se unificarem em formatos e lógicas fornecidos pela própria tecnologia digital. Uma tecnologia é, em primeiro lugar, o produto de uma determinada cultura. Toda cultura e identidade classificam e nomeiam todo tipo de material e objetos simbólicos. Nos dias de hoje, o ocidente é a cultura que tomou para si a tarefa da classificação global suportada por suas próprias redes digitais. A classificação é uma ferramenta epistemológica fornecida pela racionalidade moderna, cujas estruturas internas e modos de inferência são derivados das reduções metonímicas, dicotonímicas e analógicas da diversidade dos mundos atuais. Neste artigo, um tipo de hermenêutica prática, chamada “desclassificação”, é introduzido e proposto como um caminho para um conhecimento que supera a epistemologia organizacional. A desclassificação é um sistema aberto que instala o pluralismo lógico no núcleo do entendimento e processos de enunciação, através de ferramentas metacognitivas.

Palavras-chave : Classificação. Rede digital. Epistemologia. Hermenêutica.

Resenha – Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem, por Luciana Gracioso e Gustavo Saldanha

GRACIOSO, Luciana de Souza; SALDANHA, Gustavo Silva. Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática. Araraquara: Junqueira&Marin, 2011. 160 p.

A obra Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática, é uma tentativa de mesclar pensamentos da área de CI com a disciplina de Filosofia, propondo diálogos entre estes estudos. Voltado especificamente para quem tem interesse na área de Filosofia dentro da Ciência da Informação, pode ser considerada uma obra acadêmica e com um certo nível de dificuldade na leitura, uma vez que o tema tratado é muito especializado.

São utilizadas – e brevemente elucidadas – expressões e conceitos wittgensteinianos como semelhanças de família, regras, gramática, forma de vida, jogos de linguagem, enfeitiçamento da linguagem ou jogo terminológico, etc. É recomendável que se tenha algum um conhecimento da obra de Wittgenstein, principalmente de sua obra mais frequentemente referenciada, as Investigações Filosóficas, para que a proposta do livro seja entendida com mais êxito. A leitura é recomendada para estudiosos, pós-graduandos e docentes da área, mas no entanto, pode frustrar quem busca entender especificamente as técnicas de biblioteconomia sob o prisma da Filosofia da Linguagem. O conteúdo trata mais sobre epistemologia e alguns conceitos do que aspectos práticos, mais sobre linguagens e regras do que algum tipo de linguagem, processo ou produto específico da Biblioteconomia. Não é um livro sobre práticas mas sim para se pensar sobre as práticas e suas possibilidades.

A obra faz uma contextualização da tradição pragmática na CI, revisando também a visão representacionista, advinda dos estudos da Organização do Conhecimento. O pragmatismo é uma escola de filosofia caracterizada por considerar o sentido de uma ideia como correspondendo ao conjunto dos seus desdobramentos práticos. Em um primeiro momento, pode-se compreender que a visão representacionista não é necessariamente contraposta à visão pragmatista, mas que são compreendidas como diferentes modos de se perceber a Organização do Conhecimento.

Algumas discussões foram ao encontro de tópicos desenvolvidos por Buckland (2006), quando é elucidado que “a palavra – ou a representação – enfeitiça o organizador do conhecimento pelo seu potencial representacionista. Ao cativá-lo com este potencial, ela o leva a crer que a representação pode responder, por si só, pela organização do livro no mundo” (GRACIOSO, SALDANHA, 2011, p. 33). Ao tratar das Linguagens de Especialidade, Buckland aborda produtos de organização do conhecimento como catálogos, bibliografias e índices, que cobrem materiais de interesse para mais de uma comunidade, com práticas linguísticas diversas. A exemplo, para o autor

Diferentes discursos discutem diferentes questões ou, quando discutem a mesma questão, de diferentes perspectivas. Um coelho pode ser discutido como um bicho de estimação, ou como uma peste ou como comida. Em medicina, especialistas em anestesiologia, geriatria e cirurgia podem todos buscar por literatura recente em, vamos dizer, Parada Cardíaca, mas uma vez em que estão interessados em diferentes aspectos eles não irão, na prática, querer os mesmos documentos. (BUCKLAND, 2006,  p. 9-10)

Clay Shirky (2005) também exemplifica as desvantagens de uma visão representacionista, criticando as classificações decimais (de Dewey e do Congresso) bem como a classificação ontológica, com exemplo da Tabela Periódica de elementos. De acordo com o autor, na visão tradicional representacionista, “a essência de livro não são as idéias que ele contém. A essência de livro é “livro”. Pensar que catálogos de biblioteca existem para organizar conceitos confunde o recipiente por aquilo que ele contém”. Para cada livro (conteúdo) novo, mesmo antes de ser publicado, já existe ‘um lugar lógico na estante’, uma classificação exata, já prescrita. Shirky vai ao encontro de Gracioso e Saldanha e compreende que a web pragmática descaracteriza essa realidade prescritiva uma vez que destitui os processos de classificação e categorização tradicionalmente reconhecidos, considerados antiquados para viabilidade no mundo digital.

A princípio, entre os objetivos principais de um sistema de informação estão a eficiência na recuperação e poupar tempo de busca. Há de se pensar também na diferenciação entre sistemas de informação para documentos físicos, híbridos e digitais uma vez que a busca é realizada cada vez menos nas estantes e cada vez mais por hiperlinks. No entanto, coloca-se que a questão de recuperação é mais do que uma questão de tecnologia e explicita-se que esta, também e principalmente, é uma questão cultural uma vez que “dadas as infinitas possibilidades de nos relacionarmos e interagirmos em uma situação de vida, haveria a impossibilidade de tentarmos prever as ocorrências de determinados jogos de linguagem” (p. 77).

Karamuftuoglu (1998) compreende que o processo de indeterminação na recuperação da informação pode ocorrer não apenas por desconhecimento por parte das pessoas que o utilizam, mas porque o próprio processo de busca, recuperação e filtragem da informação é decisivo para a criação de filtros e prescrição de critérios pela comunidade que utiliza este sistema. Segundo o autor,  “isso resulta no estabelecimento de conexões entre documentos até então considerados independentes um do outro e modifica o conteúdo intelectual do domínio” (p. 1072). Podemos compreender que isso ocorre não apenas em um sistema de informação, que pode se apropriar de tecnologias para atingir seus fins, bem como também na própria prática do serviço de referência. De acordo com Grogan (1995) e a tipologia de questões, em alguns casos o consulente durante a busca para a pesquisa, depara-se com outras questões, modificando sua dúvida de origem ou até mesmo o próprio assunto da pesquisa.

Esta frase apenas faz sentido quando editada no MS Paint nesta fotografia e vista neste artigo neste exato momento.

Ao evitar as tentativas de representar o real, o pragmatismo segundo Gracioso e Saldanha (2011), investiga ao invés disso as possibilidades de uso da realidade, compreendendo-a culturalmente. Tudo isso vai ao encontro do que a web pragmática tem realizado e potencializado: criação de comunidades, comunidades em rede, colaboratividade, fluência na comunicação e multiplicidade de diálogos. A obra ainda nos mostra a fina linha que separa a informação e a linguagem, uma vez que ambas constituem-se e desenvolvem-se a partir de seu uso. Os autores ainda abordam o conceito de informação como fetiche, quando compreendem que

Sob um olhar pragmatista, o homem deve ser crítico à idéia de que a informação é bela, deve ser provocado sobre como a informação é construída, deve ser lembrado de que a informação é apenas a esfera de narrativas múltiplas – demarcadamente um fetiche do século XX – e nunca será a única pedra de toque que soluciona as crises da racionalidade. (p. 125-126)

Na seção da obra que trata sobre Olhares pragmáticos na CI, especificamente na área de terminologia é mencionada a Teoria Geral de Terminologia de Wüster, que atualmente é considerada uma teoria prescritiva, em que existe uma regra geral para a compreensão de uma linguagem especializada e a definição de um conceito realiza-se a partir do uso de determinada regra. Talvez também fosse pertinente, em estudos posteriores, uma articulação entre os princípios do segundo Wittgenstein, referentes à Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) proposta por Cabré (1999), e à Socioterminologia, proposta por Faulstich (2006). Segundo Lara (2006) a função dos termos para a TCT é de representar e transferir o conhecimento em situações diversas e na Socioterminologia, enfatiza-se a relação semântica e as definições formais são preteridas em benefício das descrições mais versáteis do significado das palavras.

Acredito que outras discussões mais específicas na Ciência da Informação podem surgir a partir do que foi proposto pela obra, devido à natureza interdisciplinar da área. Uma vez que a disciplina de Filosofia da Informação já está instituída, a Filosofia da Linguagem pode ter seu espaço para relacionar-se cada vez mais com o nosso pensar-fazer.


Referências

BUCKLAND, M. Naming in the library: Marks, meaning and machines. C. Todenhagen & W. Thiele (Eds.) In: Nominalization, nomination and naming in texts. Tübingen, Germany: Stauffenburg, 2006. p. 249-260.

CABRÉ, M.T. Una nueva teoría de la terminologia: de la denominación a la  comunicación. In: La terminología, representacíon y comunicación. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, IULA, 1999. p.109-127.

FAULSTICH, E. A socioterminologia na comunicação científica e técnica. Cienc. Cult. [online]. abr./jun. 2006, vol.58, no.2 [citado 25 Abril 2006], p.27-31.

GROGAN, D. A Prática do Serviço de Referência. Brasília: Briquet de Lemos, 1995. 195 p.

KARAMUFTUOGLU, M. Collaborative Information Retrieval: Toward a Social Informatics View of IR Interaction. Journal of the American Society for Information Science. V. 49, n. 12, p. 1070-1080, 1998.

LARA, M.L.G. Novas relações entre Terminologia e Ciência da Informação na perspectiva de um conceito contemporâneo da informação. Datagramazero, v.7, n.4, ago.2006

SHIRKY, Clay. Ontology is Overrated: categories, links and tags. 2005

Pragmatismo e Ciência da Informação

“Antes de dizer há ciência para informação ou não há, o pragmatismo informacional nos convida a explorar quais contribuições científicas podem conduzir o estudo da informação para o solo das relações sociais. […] A tradição pragmática sobrevive para atentar que uma ciência para a informação, estuda, antes, narrativas, e não necessariamente delimita fenômenos, ou busca naturezas – mesmo sua meta-natureza. […] Antes, [a CI] pode refletir com suas comunidades de deliberação contextuais sobre os processos sociais que sedimentam representações. Sob um olhar pragmatista, o homem deve ser crítico à idéia de que a informação é bela, deve ser provocado sobre como a informação é construída, deve ser lembrado de que a informação é apenas a esfera de narrativas múltiplas – demarcadamente um fetiche do século XX – e nunca será a única pedra de toque que soluciona as crises da racionalidade.” (p. 125-126)

GRACIOSO, Luciana de Souza; SALDANHA, Gustavo Silva. Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática. Araraquara: Junqueira&Marin, 2011. 160 p.