Herdando uma biblioteca

Hoje depois do almoço passei na BS-CED pra ficar de bobeira. Tinha uma hora pra perder lá. Fui direto pra seção de literatura ver se achava algum livro legal e peguei por acaso um que tinha o título “Herdando uma Biblioteca”. Gostei da capa, gostei da textura das folhas, li as orelhas e achei interessante então por que não? É um livro pequeno, acho que consigo ler em uns 3 dias, se fizer isso continuamente. Não posso mais retirar livros da biblioteca porque já entreguei a negativa na biblioteca central e ainda não fiz pedido como aluna regressa. Enfim.

Primeiro li uma matéria sobre o ensino superior no Brasil da Carta Capital e depois comecei a ler o livro que tinha pego. Me identifiquei muito com o livro, desde as primeiras páginas. Parece que são pequenas histórias e memórias de como um leitor se tornou leitor. Ou melhor, de como lutou contra uma série de empecilhos para se tornar leitor. É uma história bastante pessoal, mas não duvido que mais pessoas se identifiquem, como aconteceu comigo:

Em casa, havia a pressão moralista da ética do trabalho de meu padrasto – a leitura fora das minhas atividades escolares seria uma forma disfarçada de vadiagem, combatida com a fúria de quem ganhava com muito esforço o dinheiro para nossa sobrevivência. (p. 15)

O autor é de Peabiru no Paraná e diz que desde pequeno é leitor e visitava a biblioteca pública. Confesso que é difícil imaginar como acontece o processo de gosto pela leitura num período de ditadura militar no interior do Brasil.. Hoje a gente tem acesso a tantas coisas, que imaginar um período de escassez é muito complicado. Mas Miguel conta a sua história e diz que preferia a biblioteca pública à escola pois “nela não havia conteúdos predefinidos, nem o desejo de me moldar” (p. 17).

Dá até uma certa ponta de inveja da forma que Miguel se relaciona e se apropria da biblioteca, é bonito de se ler:

Ali eu estava em contato com grandes homens, fazia-me contemporâneo deles, vivendo uma outra vida, distante daquela que a família e a escola insistentemente me impunham. (…) Eu meio que me sentia dono de tudo. (p. 18)

Acho que é pra esse sentido de apropriação e é pra esse lugar que uma biblioteca deve levar as pessoas, mesmo.

Não me lembro de o autor ter citado algum bibliotecário que o auxiliasse a sentir assim. Acho que uma das poucas vezes que uma bibliotecária foi mencionada, era a de sua biblioteca escolar. E ela fazia tricô durante o expediente. A relação que o autor tem com os livros e com a literatura ficou evidente quando ele fala sobre o roubo de livros. Tive uma professora que me dizia não se importar com o roubo de livros, pois isso significava que o leitor tinha “pego amor” ao livro… E isso é bem verdade.

Esse livro tem uma frase que me conquistou a terminar de lê-lo: “Roubar livros que nos solicitam amorosamente é uma forma de herder à força uma biblioteca que nos foi negada” (p. 20). Eu bem que sempre achei que todo bibliófilo é meio cleptomaníaco, rs. Olhei o relógio e vi que já estava no meu horário. Uma hora passou voando. A leitura desse livro foi quase que como uma conversa. Parei a leitura na página 31. O próximo capítulo é o “Herdando uma Biblioteca III”.

Este é o segundo livro de literatura que leio este mês. Acho este um bom sinal.

SANCHES NETO, Miguel. Herdando uma biblioteca. Rio de Janeiro: Record, 2004. 140 p.

Elogio à leitura e à literatura

Algumas vezes me perguntei se, em países como o meu, com poucos leitores e tantos pobres, analfabetos e injustiças, e onde a cultura é privilégio de tão poucos, escrever não seria um luxo solipsista. Mas estas dúvidas nunca sufocaram minha vocação e segui sempre escrevendo, mesmo em períodos em que trabalhos para sobrevivência imediata absorviam quase todo meu tempo. Acredito que fiz certo. Se para a literatura florescer numa sociedade fora preciso alcançar primeiro a cultura erudita, a liberdade, a prosperidade e a justiça, ela nunca teria existido. Ao contrário. Graças à literatura, às consciências que formou, aos desejos e às aspirações que incutiu, ao desencanto da realidade com que regressamos de uma viagem a uma bela fantasia, a civilização é, agora, menos cruel do que quando os contadores de histórias começaram a humanizar a vida com suas fábulas. Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos, mais conformistas, menos inquietos e rebeldes, e o espírito crítico, motor do progresso, sequer existiria. Tal como escrever, ler é protestar contra as adversidades da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizê-lo e, talvez, sem sequer sabê-lo, que a vida tal como é não nos basta para preencher nossa sede do absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos a ficção para poder viver, de alguma maneira, as muitas vidas que quiséramos ter, quando apenas dispomos de uma única.

(…)

A literatura é uma falsa representação da vida, que, sem dúvida, nos ajuda a compreendê-la melhor, a nos guiar pelo labirinto em que nascemos, transcorremos e morremos. Ela nos compensa dos reveses e das frustrações que nos inflige a vida real e, graças a ela, deciframos, pelo menos parcialmente, o hieróglifo que costuma ser a existência para a grande maioria dos seres humanos, principalmente para nós, aqueles que alentamos mais dúvidas do que certezas e confessamos nossa perplexidade diante de temas, como a transcendência, o destino individual e coletivo, a alma, o sentido ou a falta de sentido da história, o mais aqui e mais ali do conhecimento racional.

(…)

Esse processo, nunca interrompido, se enriqueceu, com o nascimento da escrita e das histórias; além de ouvir, puderam ler e alcançar a permanência que lhes confere a literatura. Por isto, há que repetir, sem tréguas, até convencer as novas gerações: a ficção é mais do que entretenimento, mais do que um exercício intelectual que aguça a sensibilidade e desperta o espírito crítico. (Grifo meu)

LLOSA, M. V. Elogio à Leitura e à Literatura. Tradução por: Maria das Graças Targino, dez. 2010 / jan. 2011. Versão em PortuguêsOriginal em Espanhol.

Quais as melhores fontes para ler em pdf? E em livro/papel impresso?

(Originalmente publicado em 24 de maio de 2011)

Esses dias fiz uma enquete rápida no Twitter perguntando sobre a melhor fonte para se ler em pdf. Ninguém me respondeu e eu fiquei me sentindo totalmente forever alone, mas tudo bem. Resolvi dar uma procurada no Google primeiro com termos em português e depois em inglês, mas também não obtive lá muito êxito. Joguei a expressão “quais as melhores fontes para ler em pdf” e não retornou nada de útil. Coloquei “quais as melhores fontes para ler” e apareceram algumas coisas:

Achei esses links na primeira página de resultados e não dei continuidade na busca porque fiquei com preguiça de explorar mais (mesmo porque acho que não encontraria muita coisa). Acredito que aconteça uma confusão nos resultados de busca também por conta da ambiguidade da palavra “fontes”: fontes (tipografia?), fontes (bibliográficas, de informação?), fontes (de energia?), enfim. Em inglês cacei “what’s the best font” onde me foram sugeridos: for a resume, for resumes, to use, for a novel, to use on a resume. Apareceu muita coisa e praticamente todos os resultados da primeira página foram bem relevantes e recentes, mas alguns mais que os outros. Entre eles selecionei:

Depois dessa pesquisa lembrei também do Google Web Fonts que é novo e tem fontes interessantes, mas nenhuma que eu tenha considerado adequada para o que estou procurando. Estou finalizando a edição de um artigo traduzido com 24 páginas, então a questão de uma fonte que seja adequada pra uma leitura longa tem ficado na minha cabeça há alguns dias. Lembrei também da tag “fonts” do delicious do Moreno, que tem 35 links sobre fontes (coisa pra caramba!) e enfim… Escolher uma fonte foi se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. Na verdade acho que foi que nem escolher vestido pra festa: provei o armário inteiro pra sair com a roupa que eu tinha escolhido inicialmente. rs

Não curto muito fazer ranking de nada e estou bem longe de eleger “a melhor fonte de todos os tempos”. Mas o que eu queria saber mesmo é o que as pessoas que conheço – meus colegas – acham que seja uma boa fonte (excetuando-se claro as que ninguém aguenta mais: Arial, Times New Roman e a Comic Sans, que todo mundo adora odiar). Pessoalmente eu também desgosto da Verdana, por achá-la muito oldschool – desde que o mundo é mundo todo mundo usa Verdana. Me parece que muita gente – isso consta inclusive nos posts que mencionei aí em cima – acha que as fontes serifadas são melhores para leitura de material impresso, mas eu ainda não sei o que acho disso (não sou uma especialista). Só me lembro bem de uma vez que comprei o livro de um amigo meu que estava inteiro em Garamond (a mais serifada das fontes) e ficou realmente muito RUIM (frases inteiras grudadas umas nas outras, palavras grudadas demais, itálico horroroso, etc). Pra quem ainda não sabe: serifada = letra arredondada (tipo Times); sem serifa = letra reta (tipo Arial).

Não me considerando muito satisfeita com os meus achados, saí perguntando pra algumas pessoas que conheço o que elas acham. Conversei com 5 pessoas e cada uma teve uma reação diferente com a minha pergunta: “qual a melhor fonte para se ler em pdf? (não vale arial, times new roman e nem comic sans).

Pessoa 1: “Se não vale arial, não vale a Helvetica? É que elas são ‘primas’. Particularmente, indico qualquer uma sem serifa. Gosto da Verdana e ficaria entre helvetica e verdana. Calibri acho muito miúda, Tahoma acho meio finininha. Depende também muito de onde a pessoa vai ler, se num tablet, num ebook, num pc. Achei útil o seu levantamento, costumo usar sempre Arial mesmo e é sem graça. Geralmente não penso em outras fonte por conta das normas que limitavam em Times e Arial né?”. [Tb queria uma fonte que fosse flexível no sentido de atender a diferentes suportes. Tá fácil não.]

Pessoa 2: “Olha, nunca parei pra decidir sobre isso, mas parece que fonte com serifa não é bom. A leitura de uma página depende de outra coisas também: o espaçamento entre linhas, largura da linha, mas tu já deveria saber disso né? Vou perguntar pra alguns colegas que fazem design e depois te dou uma resposta”. [ Deveria saber disso sim, mas é sempre bom saber o que as pessoas acham :) ]

Pessoa 3: “Eu gosto bastante de Arial, ahaha.. No meu e-mail eu uso Georgia, acho bonitinha e ‘confortável’. Dei uma geral no word 2007 e achei essas aqui: Bookman Old Style; Candara, Century Gothic, Ebrima, (nessa o itálico fica bem destacado, gosto disso); Euphemia, Gisha e Lao UI. Tem algumas fontes muito parecidas, são todas mais ou menos no mesmo padrão, arredondadinhas, mas acho mais gostoso de ler do que a Times, por exemplo”.

Pessoa 4: “Cadê as opções? Aqui na empresa a gente usa Tahoma e um dia usamos Futura. Prefiro a Arial, mas além disso não consigo ver outras opções”.

Pessoa 5: “A Calibri é legal, a Century Gothic não tanto, parece que dificulta a leitura. Courrier é muito máquina de datilografia, dependendo do caso pode ficar bom. mas acho que as melhores são ou Calibri, Tahoma ou Verdana. Também acho a Lucida boa. É pra artigo em revista? talvez a calibri então. Mas bom, eu ainda acho Arial e Times as melhores mais legíveis e agradáveis de ler”.

[Update – 25/05/2011]: A pessoa 2 procurou um especialista que compartilhou as seguintes dicas sobre fontes para leitura:

  • Preferivelmente fontes sem serifa. As serifas ajudam na leitura no papel, mas não é exatamente assim que acontece na tela. O formato mais quadrado dessas fontes facilita a leitura.
  • Contraste: na minha experiência, manter fundo branco e fontes pretas, como nos impressos. Alguns autores, no entanto, defendem o contrário pra leitura web (fundo preto e fontes brancas), pq diminui a emissão de luz e aumenta o conforto do usuário.
  • Tamanho: algo entre 12 e 14 pontos é legal, dependendo da fonte e do formato do material. se o usuário vai ver o meterial inteiro na tela (100%) sempre, o tamanho acima funciona. Se ele vai ser forçado a puxar o zoom, usar barras de rolagem, etc, pode ser menor (não muito).
  • Entrelinha: espaçamentos em geral devem ser maiores do que o ‘normal’. Um entrelinha mais generoso pode facilitar a leitura e tirar aquela impressão de texto muito denso pro usuário. Se for muito grande, no entanto, vai ficar mais difícil dele se achar. O espaçamento entre parágrafos também pode ser bem generoso.
  • Peso: tentar manter o regular pro geral do texto, e dosar bem os destaques em negrito/bold. Muito peso não destaca nada e ‘agride’ o usuário. Pequenos extratos de texto podem usar a versão light das fontes, por exemplo.
  • Sugestões de fontes: Myriad Pro, Frutiger, Helvetica Neue, Univers (tem uma cara mais display, mas pode funcionar), Optima (essa fonte é semi-serifada, ou seja, tem pequenas serifas que funcionam como linhas-guia, e um pouco de contraste no próprio tipo). O site ExLjbris tem algumas fontes gratuitas. A Calluna Sans e a Fontin Sans também podem ser boas pedidas.

Por que você está lendo?

Esse é o tipo de stand up comedy que eu nunca vou ver acontecendo no Brasil…

“Eu noto um certo antiintelectualismo acontecendo nesse país cara, desde 1980… Coincidentemente o bastante. Eu estava em Nashville, Tennesse final de semana passado e depois da minha apresentação eu fui numa Waffle House (uma cafeteria) certo? E eu estou sentado e estou comendo e estou lendo um livro, não conheço ninguém, estou sozinho, estou comendo e estou lendo um livro… E aí vem essa garçonete pra mim e diz “por que você está lendo?”… Uau, nunca me perguntaram isso antes… Não o quê eu estou lendo mas POR QUE eu estou lendo? Puta merda, você me deixou intrigado… Acho que leio por vários motivos mas o principal deles é pra que eu não termine como uma porra de garçonete. É… Isso seria uma priopridade na minha lista. E aí esse caminhoneiro sentado do outro lado levanta e vem até a mim e diz “Beeem… Parece que temos um leitor aqui!”.

Que porra tá acontecendo aqui?

É como se eu fosse a um encontro da Ku Klux Klan vestido de Boy George ou algo assim?

Estou saindo de um armário intelectual aqui? Eu leio, pronto, falei. Me sinto melhor.”

.

.

Parte 1 – Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc

Sobre os encontros dos Projetos de incentivo à leitura, fui em dois esta semana e apesar de ter no nome “projetos”, pessoalmente eu senti que mais se falou de mediação da leitura e de boas práticas do que da gestão de projetos propriamente dita. O que eu acho maravilhoso pois isso é raro de achar na área. A parte técnica de gestão é sim muito importante e nos ajuda a estruturar melhor qualquer projeto, mas a parte criativa de encantar as pessoas e trazê-las para o mundo da leitura, da literatura e da linguagem é muito mais atraente. É quase que literalmente o estado da arte da biblioteconomia, sem exageros.

A classificação do evento já indica À moda da casa, ou seja, o modo SESC de criar ações que atraiam público para suas bibliotecas. Os encontros estão sendo orientados pela Ana Luísa Sirota e pelo Francis Manzoni. Foram repassadas muitas informações nestes dois dias, vou tentar repassar por aqui alguns tópicos que me chamaram mais atenção.

Mesmo sendo uma organização nacional, o SESC dentro do escopo de suas atividades tem diferentes ênfases de acordo com a localidade. Em São Paulo, a ênfase é na área Cultural e de Artes. A questão do uso de diferentes linguagens artísticas para promover a leitura e a literatura foi bastante reiterada nas conversas. Embora existam diretrizes para os trabalhos, é desejável que nas ações o hibridismo entre diferentes linguagens artísticas seja viabilizado. O trabalho é sempre executado pensando na rede, em articulações e parcerias, promovendo a expansão de diálogos. Acredito que isso se torna não só possível como desejado por conta do contexto em que a biblioteca se encontra: um grande Centro Cultural.

Projeto #Tuiteratura, SESC Santo Amaro

Em se tratando de ações específicas com a literatura, existem 3 frentes de trabalho a serem seguidas: 1. Fomento à produção literária do livro (autores, editores, ilustradores e outros atores); 2. Ações culturais de incentivo à leitura; 3. Experimentações com a palavra e o texto literário, pensados enquanto linguagem artística. Durante a conversa, Francis disse que há uma pergunta que sempre é realizada para nortear algumas das ações: “onde é que as pessoas estão lendo?”. Essa é uma pergunta importantíssima, que todo bibliotecário deveria se fazer sempre. E em seguida ouvi “nós não deixamos a biblioteca em paz” e a intenção é, realmente, não deixá-la em paz, mesmo que algumas pessoas reclamem ou achem isso incomum para uma biblioteca. Ouvi também o seguinte conceito: a biblioteca como plataforma, vários suportes, várias linguagens para que a literatura possa assumir um papel público.

Para esta ação, vários autores convidados escreveram microcontos em 140 caracteres, que foram disponibilizados via bluetooth em algumas das maiores estações de metrô de São Paulo.

Um exemplo citado foi a instalação de poemas escritos em Portunhol Selvagem (arquitetura + literatura) nas paredes dos SESC de Pinheiros e Vila Mariana para a Mostra SESC de Artes em 2010. Outro exemplo é o Projeto Bibliotocas acontecendo no SESC Santo Amaro, onde há um fluxo maior de público. Há toda uma preocupação com os livros que serão disponibilizados a partir de editoras especializadas em livros infantis, tais como a Corraini, a Tara Books e a Planeta Tangerina. O projeto é simples e trata-se de uma intervenção de uma toca na biblioteca, com um recorte curatorial específico e mediadores fulltime. Além da presença em eventos externos, existem os eventos do SESC que ocorrem anualmente, como o Circuito SESC de Artes (interior do Estado) e a programação que é permanente. Foram repassados inúmeras ações, segue uma lista breve das que foram mencionadas na conversa: Tirando de Letra (Ribeirão Preto); De quem é essa história? (Araraquara); Encontro Marcado (Catanduva); Espaço Ler Escola (São Carlos); Clube de Leitura (SESC Carmo); Ateliê HQ (Sorocaba).

Ateliê HQ, SESC Sorocaba

Durante os encontros também ouvi falar muito sobre parcerias do SESC com outras instituições e com outros eventos. A organização será responsável pela programação da Bienal Internacional do Livro em 2014 e também marcará presença na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires e na Balada Literária. Participam também de outros eventos literários como a FLIP e a Feira do Livro de Frankfurt. Relacionados a todo esse mundo literário, também existe a editora Edições SESC SP e o Prêmio SESC de Literatura. Mesmo com esta forte participação em eventos, Manzoni frisa que os eventos, por si só, não formam leitores. Ressalta que a celebração da literatura é importante, mas não é suficiente. Isso indica que a mediação, e não só, mas a qualidade da mediação e a forma como ela é realizada condiz mais com os objetivos da instituição como um todo: aprendizagem informal, ampliação de repertório e estímulo a leitura.

Há algum tempo atrás eu escrevi sobre isso de que brasileiro não gosta de ler. Em agosto encontrei online um artigo muito interessante que também se pergunta sobre as livrarias cheias e as bibliotecas vazias, leitura como consumo versus transformação social. Sabemos que a mediação mercadológica existe e é muitas vezes ditada pela cultura de mídia e das livrarias (que utilizam linguagens restritivas e limitadas, visam ibope, quantidade, metas de venda, etc). Já a biblioteca, como certa vez já ouvi deve ser o lugar da exceção e não o da regra. Os best sellers e livros de auto ajuda continuarão a ser oferecidos, mas a biblioteca tem a obrigação de ir além disso e de mostrar ao seu público algo que não apenas os entretenha, mas uma experiência que de fato tenha um significado, transmita algo novo, que os retire do lugar comum.

Bem, por hora foram estas as conversas e reflexões que tive nos dois encontros. Os outros 2 encontros aconteceram nos dias 5 e 6 de novembro e foram registrados na Parte 2 – Projetos de incentivo à leitura e o Caso BiblioSesc.

Quem disse que brasileiro não gosta de ler?

Moro em São Paulo há 2 anos. Quando morava em Campo Grande, era muito difícil mesmo ver alguém lendo no ônibus. Na verdade ver gente lendo em qualquer lugar não escolar ou universitário era bem raro. Raríssimo, eu diria. Em Florianópolis era um pouco mais comum ver gente lendo no ônibus. Talvez porque a cidade girasse em torno da cidade universitária, mas eu nunca vou poder afirmar isso com tanta certeza. As pessoas de lá liam literatura mesmo, no ônibus. Em São Paulo é bastante comum ver pessoas lendo – de um tudo – nos ônibus e no metrô. Talvez seja porque aqui seja uma cidade enorme e tenha mais gente, tenha mais bibliotecas e então as pessoas tem mais oportunidade de ler (e comprar) livros legais e interessantes.

Hoje no Twitter eu vi essa campanha do Metrô de São Paulo e achei a iniciativa bastante interessante. Talvez eu mudasse algumas coisas e deixasse a proposta mais descentralizada, mais aberta mesmo: ao invés de mandar um e-mail e selecionar as melhores, deixaria aberto para que o público postasse quantas fotos quisesse e depois rolaria um álbum ou coisa do tipo para votação pública das melhores – estou falando de Facebook aqui. Algo assim. No Twitter seria ainda mais simples, deveriam ter criado alguma hashtag do tipo #lendonometro #euleionometro pra que as fotos fossem selecionadas mais facilmente. Enfim.

Curioso também que essa campanha foi divulgada pela Companhia do Metrô de SP, mas a biblioteca do metrô, o programa Embarque na Leitura, não foi mencionado. Será que em algum momento ela vai aparecer? Vamos acompanhar… :o)

brasileiro-nao-gosta-de-ler-metro

Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Uma palestra que explica porque usar nossa imaginação e providenciar para que outros utilizem as suas, é uma obrigação de todos os cidadãos

pelo The Guardian, em 15/10/2013

Neil Gaiman
“Temos a obrigação de imaginar…” Neil Gaiman dá uma palestra anual à Reading Agency sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. Fotografia: Robyn Mayes.

É importante para as pessoas dizerem de que lado estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse em sociedade. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma indústria em amplo crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E que certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazeirosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler e mostrarmos a elas que a leitura é uma atividade prazeirosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero talvez, ou um autor e declará-los como livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

Enid Blyton's Famous Five book Five Get Into a Fix
Não existem escritores ruins… O famoso livro de Enid Blyton. Foto: Greg Balfour Evans/Alamy

É tosco. É arrogante e é burrice. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Elas podem encontrar as histórias que precisam, e elas levam a si mesmas nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para elas. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que elas estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a maçã da árvore do conhecimento, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo
A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo, Bag End. Foto: HarperCollins

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros sobre fantasmas ou mágica ou foguetes, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Menino lendo em sua escola
Foto: Alamy

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Inglaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e onde elas possam ser capazes de imaginar e compreender.

• Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

O leitor do futuro, de novo

Dia 1º de junho fui a uma palestra onde falariam sobre ‘O leitor do futuro’. A palestra fazia parte da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural. Fui de curiosa. Sempre quero ouvir o que não-bibliotecários tem a dizer sobre a leitura porque, curiosamente, soa muito mais realista. Duas pessoas falaram: Lisette Lagnado e Arto Lindsay. Lisette começou falando que o leitor de hoje em dia cada vez mais luta contra a dispersão e que cenas como essa se tornarão mais raras:

Raras, não acho. Diferentes, talvez. Talvez mude a plataforma, o suporte e o tipo de material que está sendo lido / assistido / jogado. É difícil a aceitação da mescla de utilização das mídias tradicionais e tecnológicas da mesma forma que é difícil aceitar que o que era um romance acabou. “Acabou o amor, isso aqui vai virar o inferno”. Ninguém mais vai passar bilhetinho fazendo pedido de casamento: vai ser tudo por SMS. Essa cena aqui definitivamente só vai rolar em filme de 1968 mesmo:

Aliás, casar já é demodê. Enfim. Lisette me apresentou Dominique Gonzalez-Foerster e falou não tanto sobre arte, mas sobre o sujeito imerso em um espaço literário, desburocratizado e livre – que é o que de fato é cada vez mais raro de se encontrar hoje em dia. Falou-se sobre um conceito de literatura expandida, que seria uma ‘quase literatura’, onde seria possível ser autor sem escrever um grande texto. A partir desse conceito, seria possível entender a experiência literária como infinita, que não cabe em um só formato e transcende a dimensão linguística.

»Tapis de lecture«, 2000–2007 by Dominique Gonzalez-Foerster .

Eu gostei da proposta: biblioteca em chão de museu, um tapete, ambiente íntimo, doméstico. Senta-se lá, pega-se um livro, pega-se vários, perde-se uma tarde, perde-se a noção de tempo. Me lembra de longe os ecos do que poderia ser o Acesso Livre. Lisette também mencionou que há uma obra de Dominique chamada Bibliothek que trata-se de uma construção, de uma casa, uma sala, em que existem estantes, só que no entanto os livros são utilizados como tijolos, e os tijolos como livros. Simplesmente genial. Uma pena que não consegui achar nada sobre isso online.

“I want to die as I’ve lived”.

Gostei dessa passagem do filme Fahrenheit 451 (que inclusive tem na íntegra, legendado em pt-br no YouTube, pra quem tiver curiosidade). Vendo o filme a gente pensa que “poxa nessa época ainda existiam os bookpeople”. Existiam vírgula: existem ainda. Muitos acreditam que essa geração pode ser ‘a última leva’ a ter o fetiche o livro físico. Tem gente que acha mesmo que todos os livros poderiam ser queimados que nem no filme e substituídos por um Kindle ou qualquer outro e-reader. Felizmente ou não, ainda faço parte dos fetichistas. Até fantasio as maravilhas das bibliotecas do futuro, mas enquanto esse futuro não chega, confesso que acho a previsão das bibliotecas com ambientes clean e dust-free meio chatinhas na verdade…

Na boa. Acho mesmo.

Lisette disse que hoje “o leitor não apenas lê, mas ele edita sua própria linearidade” quase que como um co-produtor do que absorve. Pode até ser, em certa medida. Mas acredito que, para que o leitor possa chegar a este nível de desenvoltura, talvez seja necessário um pouco mais que isso em um kick-off. Hoje lemos – minha geração lê – em um sistema de janelas (ou abas, infinitas) de modo completamente alinear, extremamente customizado e não circunstancial. É algo aproximado do aleatório, onde as vezes acontecem umas serendipities. Mas é isso. Não há profundidade. Não há contexto. E geralmente ao fim disso tudo até podemos aprender algo, mas sempre fica aquela incômoda sensação “sensação de copy e paste” caótico. Arto Lindsay chegou a afirmar que hoje “é impossível seguir um caminho racional, linear com a leitura”. A pergunta que inquieta: é preciso? E em quais momentos? 

Dominique Gonzalez-Foerster, chronotapes & dioramas, 2009

Durante a palestra também foi recomendado o livro I read where I am: exploring new information’s culture, que é uma coletânea de artigos que tratam sobre leitura de modo geral. Percebo ser cada vez mais frequente a publicação de livros como organizações de artigos e não de um livro como um trabalho mais aprofundado, que demorou de 10 a 20 anos para que a ideia pudesse ser bem amadurecida e desenvolvida. Isso parece estar cada vez mais em extinção. Na verdade, hoje um trabalho tão longo assim é até malvisto. Ainda não sei se é possível dar crédito a todo esse dinamismo que nos é imposto, ou se é preciso observá-lo com mais ceticismo.

Flashmob produzido pelo Arto Lindsay, “Somewhere I read”, no Time Square em New York.

Arto Lindsay também comentou que a partir da década de 90, quando a gravação de CDs caseiros de qualidade começou a ser facilitada, a “qualidade de atenção” das pessoas em geral com a música diminuiu muito. Não só algumas bandas estão muito parecidas musicalmente, como a própria diversidade de música disponível faz com que as pessoas dediquem-se primeiramente às faixas, aos singles, e depois, talvez, ao álbum se gostarem. Lindsay disse que antigamente ele “se dedicava a um álbum” e isso também está cada vez mais raro. Lisette apontou um paralelo entre a escuta e a leitura, entre essas dimensões que estão se perdendo (ou se transformando, talvez). “A literatura não é apenas silenciosa. Também estamos perdendo a escuta, a atenção para a escuta. Só é possível ler se você consegue ouvir”. Retomando uma discussão inicial, Lisette ainda lembrou que é preciso diferenciar a distração, que pode ser útil, da dispersão que geralmente é nociva e promove a superficialidade.

Se formos observar a história, essas ‘mudanças cognitivas’ marcaram a história da humanidade desde sempre. Quando inventaram a escrita, imaginaram que todo o conhecimento (que era transmitido oralmente e guardado na memória) se perderia. Uma vez que as pessoas não tivessem mais memória – pois a transmitiriam toda para o papel – o conhecimento não seria mais preservado e deixaria de existir. O mesmo tipo de pensamento ocorreu quando surgiu a mídia impressa. O dinamismo dos jornais eliminaria ‘a história’ e vulgarizaria tudo o que era sagrado. Nada disso aconteceu. O mesmo ocorre hoje na transição do suporte do papel para o digital: temos medo de perder o que até hoje persiste.

 

 

A devolução

Toda vez que há um atraso na devolução, dispara-se um e-mail automático para pessoa do outro lado. Aqui nesse sistema fechado talvez este e-mail não seja considerado spam, mas para o imaginário de qualquer pessoa são como se fossem. Falo por mim também.

Ninguém gosta de lixo eletrônico, isso é quase certo. Pouca gente que conheço gosta, de verdade, de uma resposta automática. Quando gostam é porque ela é tão bem feita (e escrita) que não parece automática o suficiente: é apenas eficiente na medida certa. Por isso respondem à ela. Mas não é difícil associar uma resposta automática com um conteúdo formalmente asséptico (“Prezada”, “Att.”) a algo que você deve relegar ao lixo da sua memória (seja do computador, ou da sua mente mesmo).

van Gogh, A Novel Reader, 1888

Os que não gostam de ler, nem sequer vão se dar ao trabalho de codificar mentalmente a mensagem: vira lixo na hora e pronto, esquecem-se. Mas os que gostam muito, às vezes até ignoram o aviso por mais que ele seja disparado duas vezes ao dias para lembrá-lo, todos os dias. Parece preguiça, mas talvez seja só um tipo sutil de tecnofobia mesmo.

O livro estava emprestado desde dezembro do ano passado. Quase seis meses, sem renovação, nem devolução e nem notícias. Então escrevo um e-mail não automático, bastante singelo. “Boa tarde”, “gostaríamos”, “por favor”, “outra pessoa deseja realizar a leitura” e “obrigada” no final.

Depois de 6 meses de mensagens automáticas ignoradas, finalmente um humano respondendo. Talvez a pessoa tenha até se assustado, ou admirado. Mas a resposta foi seca, talvez por constrangimento mesmo: “Sim, claro”. Quando olhei a caixa de devolução no meio da tarde, lá estava o material que já mandei para outra pessoa em seguida.

O Leitor do Futuro

Hoje, no Centro Itaú Cultural logo mais às 17h30 vai acontecer a palestra “O Leitor do Futuro” com Lisette Lagnado e mediação de Fernando Oliva. A palestra faz parte do Simpósio Internacional Emoção Art.ficial 6.0. O simpósio ocorre do dia 31/05 ao dia 02/06, mas a exposição fica no Itaú Cultural até dia 29 de julho. Peguei estas informações do site Catraca Livre. Sinopse da palestra de hoje:

“É possível conquistar uma qualidade literária sem redigir um livro, mas, por exemplo, levando o visitante a fazer um percurso no parque? Para discutir as questão, será analisada a obra de Dominique Gonzalez-Foerster e sua afinidade com a ficção científica, presentes tanto na literatura de Adolfo Bioy Casares, Roberto Bolaño e Enrique Vila-Matas como no cinema de Jean-Luc Godard e Andrei Tarkovski.”

O evento é gratuito e não sei se oferecem certificados.

Depois atualizo este post.