Instituto de neologismos

Do blog A Biblioteca de Raquel.

Li esses dias o Milagrário Pessoal, o romance mais recente do angolano José Eduardo Agualusa, lançado faz uns meses. É uma viagem, em vários sentidos, pela história do português (o idioma, bem entendido). O estopim são as agruras de uma linguista que, responsável por dicionarizar neologismos, descobre que alguém está criando numa rapidez incrível centenas de palavras – todas elas de repente imprescindíveis, um caos para a languidez com que a língua costuma evoluir.

Daí esbarrei nesse cartum do gênio Tom Gauld, que costuma publicar seus trabalhos aos sábados no The Guardian Review, e achei que tinha tudo a ver.

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As palavras e as coisas*

por Aldo Barreto

Nossa comunicação não passa de um jogo de palavras. Palavras podem ser inventadas arbitrariamente e seu sentido fruto de convenção depende do uso que fazemos delas. O objeto de estudo da ciência da informação tem sido um constante construir de novas palavras e conceitos . A explanação teórica e conceitual das práticas já utilizadas vem correndo atrás das aplicações mutantes pelas tecnologias, mas ainda sem um consenso ou entrosamento. Mas não podemos inventar sentidos a nosso bel prazer. Apesar dos estudos sociais nos mostrarem que:

“… o elemento explicativo é a importância atribuída à presença, nas sociedades humanas, de sistemas simbólicos e sígnicos que passaram a perceber-se como, em grande parte, programando “de fora” a ação humana…. Como os processos de criação de significados, a partir dos signos e das mensagens (verbais e não-verbais) que permitem difundi-los, dependem de como sejam decodificados, pensou-se que o conhecimento humano fosse necessariamente relativo: os significados dependeriam de um processo de interpretação inescapavelmente marcado por sistemas de poder e por interesses que nunca são universais, estão sempre ligados a grupos delimitados.”**

Existe um fascínio por novas versões do mesmo significado e em um mundo de memória fraca há que contar e recontar a união entre as palavras e as coisas para evitar a palavra clandestina que quer renomear o que já foi dito mil vezes.

Este é o caso do conceitos cujo significados re-usados querem indicar um sistema de poder e a união com grupos delimitados como é o caso do conceito de capital cognitivo. O conceito parece indicar a acumulação de cognições prévias o que secularmente temos denominado de “memória”.

Um outro caso seria “engenharia da informação” que se define como o estudo da natureza da informação, dos artefatos que a manipulam e do papel de ambos na dinâmica social incluindo o desenvolvimento das tecnologias da informação. Disso trata a ciência da informação e suas ligações. O Marketing da informação vem substituir a disseminação da informação e assim outros casos.

É conhecida a história do indivíduo que por novidade gostava de trocar o nome das coisas. Assim chamou a cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, e assim continuou. As coisas começaram de fato a mudar em sua cabeça. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Com o tempo ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém. Retirou-se para casa e só falava consigo mesmo.

A substituição de conceitos busca significado em outras áreas, de modo livre e desordenado, sem instrumentos e métodos para refletir e ordenar novos nomes. Uma bagunça mistura sem coerência dando nomes novos para idéias já estabelecidas e convencionadas em códigos de comunicação.

Há sempre o perigo, como na história acima, de se ficar sem interlocutor ou de se decidir não falar mais nada, ou o que é pior, não entenderem mais nada do que falarmos em nossa área de conhecimento.

* “As palavras e as coisas” é titulo de conhecido livro de Michel Foucault

** “Mudanças de rumo na metodologia dos estudos sociais” de Ciro Flamarion Cardoso, DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação – v.5, n.5, out/04

Fonte: Lista de Discussão Lexias. Grifo nosso.

Nomeação, Tempo e Instabilidade: Tempo de Inscrição

O ato formal do bibliotecário de nomear, de registrar a descrição do assunto de um documento ou de especificar um relacionamento entre chamadas de assuntos é necessariamente realizada em algum ponto no tempo e inscrita no aparato de índices e catálogos. Uma vez que o tempo passa, este ato recua do presente para o passado. Durante o mesmo fluxo de tempo, o discurso prévio, sobre a qual a escolha do nome foi derivada, continuou, evoluiu e mudou e as práticas de nomeação evoluiriam com essas mudanças. Além disso, como o futuro se torna o presente, novos futuros continuam a ser previstos e a perspectiva antecipadora seria cada vez mais relacionada a discursos futuros cambiantes. Entretanto, um nome atribuído, uma vez inscrito, é fixado. Então, com o passar do tempo, seu relacionamento tanto com os discursos passados, quanto com os discursos sobre o então-futuro esperado precisa afastar-se da relevância para a percepção de um presente porvir. Nomes atribuídos são, portanto, inerentemente obsolescentes no que diz respeito ao passado e ao futuro. Os discursos e o bibliotecário fluem em frente como tempo, mas os nomes atribuídos têm sido inscritos para, e fixados em, um passado retrocedente.

BUCKLAND, M. Naming in the library: Marks, meaning and machines. C. Todenhagen & W. Thiele (Eds.) In: Nominalization, nomination and naming in texts. Tübingen, Germany: Stauffenburg, 2007. p. 249-260. Disponível em: http://people.ischool.berkeley.edu/~buckland/naminglib.pdf

Linguagem e identidade

O terceiro descentramento que examinarei está associado com o trabalho do lingüísta estrutural, Ferdinand de Saussure. Saussure argumentava que nós não somos, em nenhum sentido, os “autores” das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste à nós. Não podemos, em qualquer sentido simples, ser seus autores. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sitemas culturais.

Além disso, os significados das palavras não são fixos, numa relação um-a-um com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras tem com outras palavras no interior do código da língua. Nós sabemos o que é a “noite” por que ela não é o “dia”. Observe-se a analogia que existe aqui entre língua e identidade. Eu sei quem “eu” sou em relação com “o outro” (por exemplo, minha mãe) que eu não posso ser. Como diria Lacan, a identidade, como o inconsciente, “está estruturada como a língua”. O que modernos filósofos da linguagem – como Jacques Derrida, influenciados por Saussure e pela “virada linguística” – argumentam é que, apesar de seus melhores esforços, o/a falante individual não pode, nunca, fixar o significado de uma forma final, incluindo o significado de sua identidade.

As palavras são “multimoduladas”. Elas sempre carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar o significado. Nossas afirmações são baseadas em proposições e premissas das quais nós não temos consciência, mas que são, por assim dizer, conduzidas na corrente sanguínea de nossa língua. Tudo o que dizemos tem um “antes” e um “depois” – uma “margem” na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas ele é constantemente perturbado (pela diferença). Ele está constantemente escapulindo de nós. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis. (p. 40-41)

HALL, S. Descentrando o Sujeito. In: A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. 100 p.

Mais referências em LusoLeituras, Linguagem e Identidade.

O Leitor do Futuro

Hoje, no Centro Itaú Cultural logo mais às 17h30 vai acontecer a palestra “O Leitor do Futuro” com Lisette Lagnado e mediação de Fernando Oliva. A palestra faz parte do Simpósio Internacional Emoção Art.ficial 6.0. O simpósio ocorre do dia 31/05 ao dia 02/06, mas a exposição fica no Itaú Cultural até dia 29 de julho. Peguei estas informações do site Catraca Livre. Sinopse da palestra de hoje:

“É possível conquistar uma qualidade literária sem redigir um livro, mas, por exemplo, levando o visitante a fazer um percurso no parque? Para discutir as questão, será analisada a obra de Dominique Gonzalez-Foerster e sua afinidade com a ficção científica, presentes tanto na literatura de Adolfo Bioy Casares, Roberto Bolaño e Enrique Vila-Matas como no cinema de Jean-Luc Godard e Andrei Tarkovski.”

O evento é gratuito e não sei se oferecem certificados.

Depois atualizo este post.