Que tipo de ciência pode ser a Ciência da Informação?, por Michael K. Buckland

“Cada especialidade acadêmica desenvolve sua própria cultura de conhecimento, linguagem, valores e estruturas sociais. Em conseqüência eles são necessariamente mais ou menos diferentes um do outro em escopo e potencialmente incompatíveis, ou ao menos dissonantes. É possível que nenhuma especialidade prefira uma cultura unificada (epistemologia, terminologia) para sua própria cultura nativa que evolui, então uma tensão é de ser esperada entre um desejo pelos benefícios da compatibilidade com outras especialidades e o desconforto de lidar com as culturas mais ou menos estrangeiras de outras especialidades.”

[…]

“Pelas razões especificadas neste artigo, a ciência da informação preocupa-se com engajamento cultural. Abordagens formais e quantitativas são extremamente valorosas, mas o campo em si mesmo é incorrigivelmente cultural. Métodos formais e quantitativos, embora úteis, nunca podem ser mais do que papéis auxiliares altamente valorizados. Caracterizar a recuperação da informação e bibliometria como ciências do artificial é uma descrição, não uma crítica. (…)  No final, podemos ver que nossos argumentos têm de algum modo uma forma circular. Uma vez que escolhemos reconhecer a noção central de informação como relacionadas à aprendizagem e ao conhecimento existem conseqüências. Primeiro, há uma separação das zonas essencialmente livres de conhecimento ocupadas pela ciência da computação, física da informação e tecnologia da informação. Segundo, qualquer noção de estudos da informação envolvendo o que e como sabemos, pode ser apenas um questionamento cultural. Terceiro, aceitar o contexto cultural da ciência da informação deveria nos levar a contribuições mais realistas e mais efetivas para nossa sociedade permeada por documentos”.

Buckland, M. (2011), What kind of science can information science be?. Journal of the American Society for Information Science and Technology. doi: 10.1002/asi.2165

Texto Original disponível em: <http://people.ischool.berkeley.edu/~buckland/whatsci.pdf>

Texto Traduzido disponível em: <http://www.slideshare.net/doritchka/que-tipo-de-cincia-pode-ser-a-cincia-da-informao>

Nomeação, Tempo e Instabilidade: Tempo de Inscrição

O ato formal do bibliotecário de nomear, de registrar a descrição do assunto de um documento ou de especificar um relacionamento entre chamadas de assuntos é necessariamente realizada em algum ponto no tempo e inscrita no aparato de índices e catálogos. Uma vez que o tempo passa, este ato recua do presente para o passado. Durante o mesmo fluxo de tempo, o discurso prévio, sobre a qual a escolha do nome foi derivada, continuou, evoluiu e mudou e as práticas de nomeação evoluiriam com essas mudanças. Além disso, como o futuro se torna o presente, novos futuros continuam a ser previstos e a perspectiva antecipadora seria cada vez mais relacionada a discursos futuros cambiantes. Entretanto, um nome atribuído, uma vez inscrito, é fixado. Então, com o passar do tempo, seu relacionamento tanto com os discursos passados, quanto com os discursos sobre o então-futuro esperado precisa afastar-se da relevância para a percepção de um presente porvir. Nomes atribuídos são, portanto, inerentemente obsolescentes no que diz respeito ao passado e ao futuro. Os discursos e o bibliotecário fluem em frente como tempo, mas os nomes atribuídos têm sido inscritos para, e fixados em, um passado retrocedente.

BUCKLAND, M. Naming in the library: Marks, meaning and machines. C. Todenhagen & W. Thiele (Eds.) In: Nominalization, nomination and naming in texts. Tübingen, Germany: Stauffenburg, 2007. p. 249-260. Disponível em: http://people.ischool.berkeley.edu/~buckland/naminglib.pdf

Nomeação na Biblioteca, por Michael K. Buckland

A linguagem evolui dentro das comunidades do discurso e produzem e evocam essas comunidades. Então cada comunidade tem sua prática de linguagem mais ou menos estilizada, especializada. Tentativas de vocabulário controlado ou estabilizado devem lidar com os discursos múltiplos e dinâmicos e a multiplicidade resultante e instabilidade dos significados. A maioria das bibliografias e catálogos tem um único índice tópico, mas cobrem materiais de interesse para mais de uma comunidade. Uma vez que cada comunidade tem práticas lingüísticas levemente diferentes, nenhum índice será ideal para todos e, talvez, para ninguém. (…) Então, em teoria, índices múltiplos, dinâmicos, um por comunidade, seriam ideais. Não é, entretanto, apenas uma questão de variação lingüística, mas também de perspectiva. Diferentes discursos discutem diferentes questões ou, quando discutem a mesma questão, de diferentes perspectivas. Um coelho pode ser discutido como um bicho de estimação, ou como uma peste ou como comida. Em medicina, especialistas em anestesiologia, geriatria e cirurgia podem todos buscar por literatura recente em, vamos dizer, Parada Cardíaca, mas uma vez em que estão interessados em diferentes aspectos eles não irão, na prática, querer os mesmos documentos. (BUCKLAND, 2006,  p. 9-10, Grifo Nosso)

Encontrei esse texto do Buckland nas referências de outro texto do mesmo autor, “What Kind of Science can Information Science be?”. O texto Naming in the Library está disponível na página pessoal do autor. Como me interesso pelo tema de indexação e vocabulários controlados, achei que o texto pertinente e tentei fazer a melhor tradução possível. O texto está disponível no meu slideshare e quaisquer correções são bem vindas nos cometários.

No texto o autor trata sobre o posicionamento que o bibliotecário deve ter ao pensar a indexação (nomeação por prospecção e nomeação por antecipação) e de como tudo é tão precário e instável em se tratando de registros humanos, uma vez que o tempo de inscrição, de atribuição de termos pode influenciar diretamente na qualidade da recuperação da informação.

Buckland não trata muito sobre tecnologias de informação, mas mais específicamente sobre a linguagem e os problemas do uso das linguagens documentárias nas bibliotecas. No entanto, na citação acima, ele fala sobre índices customizados, ou seja, índices criados especificamente de acordo com as comunidades e seus discursos. Isso pode ser mais difícil de ser realizado (e armazenado) no mundo físico, mas no mundo digital essa restrição deixa de ser um problema para nós (ou ao menos deveria deixar de ser).

Essa questão de índices customizados, de informação organizada especificamente para atender nichos e comunidades tem muito a ver com um termo que tem sido usado com mais frequencia agora, o tal de “curadoria”, seja digital, artística, física, etc. O que nos remete também ao termo um tanto quanto desgastado, empoeirado e quase que esquecido, ultrapassado, obsoleto que aprendemos no curso de graduação de biblioteconomia, o famigerado DSI (Disseminação Seletiva da Informação). Abordagens idênticas, mas com nomeações (pois é) diferentes… O que faz com que as pontuações que existem no texto do Buckland sejam ainda mais pertinentes. :)

É claro que as bibliotecas físicas vão continuar mantendo o conservadorismo da CDD/CDU e todos os processamentos técnicos enquanto ainda existir papel e documentos físicos passíveis de pesquisa e apreço. Não tenho dúvidas disso e de sua importância, etc. Mas também existem outras possibilidades que, aos poucos, vão se tornando cada vez mais evidentes (só pra não dizer urgentes, beleza?). Curto muito iniciativas que “correm por fora” e essa semana mesmo vi isso, num post da Biblioteca da ECA/USP, Colocando os discos em ordem. Existe também outro blog de Teses e Dissertações da UFRJ, que faz curadoria da produção das Engenharias. Achei esse blog completamente por acaso, procurando pela BDTD da UFRJ pra fazer pesquisa pro meu TCC. Foi um achado.

As comunidades que mais têm a ganhar são as que têm bibliotecários pró-ativos, que pensam mais nas pessoas do que na pretensa ‘preciosidade’ da biblioteca. Geralmente esses bibliotecários são muito intrometidos, vivem a remar contra a maré (ainda bem!) e fazem sempre o que não é requisitado (por quem? pois é). Enfim, pessoas que tem o hábito de pensarem por si mesmas e não em si mesmas. Vida muito longa a essas pessoas. Pois bem. Por hora, são essas duas iniciativas que conheço. Certamente existem mais. Mas isso é só o começo. Os tempos estão mudando… As práticas, posicionamentos, políticas, vão se ver obrigadas a mudar daqui uns anos também. Nada vai morrer não. As coisas só se transformam… É só observar.

(Publicado originalmente em 28 de outubro de 2011)