Reflexões: Curadoria e Crítica

(Originalmente publicado em 12 de maio de 2011)

A Alegoria da Visão, por J. Bruegel e P.P. Rubens, 1617. Madrid, Museo Nacional del Prado

Terça-feira (10/05) participei do seminário Reflexões: Curadoria e Crítica, promovido pela Associação Amigos do Museu de Arte de Santa Catarina (AAMASC). Fiquei interessada pelo evento porque  achei interessante o projeto do jornalista Celso Fioravante do Mapa das Artes e então achei – meio ingenuamente – que haveria algum espaço pra discussão sobre curadoria digital, mas isso não aconteceu. Este post representa um recorte do que presenciei e aprendi no evento e não uma cobertura integral do que foi debatido por lá.

Meu interesse em ir nestas palestras foi o de entender como é discutida a questão de curadoria, tendo curiosidade em entender como funciona e é debatido o processo de curadoria tradicional, relativo às artes plásticas e visuais. Acredito que é possível entender e transpôr os conceitos que vi nos debates para outras áreas de cultura e informação: as situações são parecidas, o que muda são os ambientes e atores. Entendo que não é o ideal tratar dos assuntos em separado uma vez que eles influenciam-se mutuamente, mas prefiro tratar o que foi debatido de acordo com as características de cada um para facilitar a fluência do texto e das idéias. Pude perceber que artistas, curadores e pesquisadores da área ainda valorizam muito o ambiente onde ocorre exposições regularmente – geralmente museus de arte –  e o compreendem como um espaço necessário, vivo e de inquietação.

Crítica

Na primeira discussão, tentou-se fazer um paralelo entre a crítica, a curadoria e a exposição. A crítica de arte e a estética surgiram no pós-barroco, quando do distanciamento entre arte e religião, surgindo a partir de então novos critérios para a aceitação e o entendimento da arte. Foi também nesta mesma época que os artistas – e também o público – começou a olhar para a história da arte para desenvolver sua própria arte. Embora a crítica de arte trabalhe a partir dos paradigmas da história da arte, os debatedores fazem a diferenciação entre a crítica (que é necessariamente atual e do presente) e a história da arte (que é relativa a uma época ou período do passado). Tanto os críticos quanto os historiadores  promovem a representação do que está a ser analisado e criam valor a partir disso, na materialização de documentos de época – antigamente folhetinescos, depois e ainda catálogos, hoje blogs e sites especializados.

Definir a crítica é um desafio: embora tenha a qualidade de “transitoriedade” (de acordo com Lisbeth, que também recomendou a leitura de Patterns of Intention de Michael Baxandall), ainda assim pode ser considerada um comentário com qualidade descritiva que objetiva o ‘fazer conhecer’. Entre os questionamentos estão “qual é a função da crítica” e “para quê/quem ela serve?”. A crítica do final do século XIX ou o texto crítico assim como o conhecemos, ainda segue determinados padrões como descrever, avaliar, interpretar e expressar, não necessariamente nessa mesma ordem. Querendo ou não, esta mesma crítica, principalmente se advinda da imprensa tradicional (ou imprensa oficial, legítima, confiável entre vários outros adjetivos questionáveis)  muitas vezes é o que influencia na tomada de decisão de alguns artistas e curadores, influenciando também diretamente em suas obras, organização de exposições e até mesmo em processos criativos.

Curadoria

Vários debatedores mencionaram a etimologia da palavra “curadoria”, que vem do latim, curare, que significa cuidar, zelar,  tratar. No entanto Celso Fioravante compreende também a interpretação da origem da palavra a partir do tupi-guarani, onde curare significa um veneno de ação paralisante, com efeito letárgico. Também acredito que uma boa curadoria deveria surtir este mesmo efeito nas pessoas que dela usufruem. O jornalista também acredita que, muitas vezes, o termo “organização” pode ser mais adequado, entendendo a curadoria como um processo contínuo, que se realiza sempre a posteriori.

Lisbeth nos diz que a curadoria tem suas origens no colecionismo, que remonta ao século XVII, ao renascimento e até mesmo ao helenismo, perdurando até os dias de hoje, uma vez em que todos nos tornamos colecionadores, em maior ou menor nível. A curadoria era ocupação de grandes connoisseurs, que exibiam para um determinado público suas coleções que poderiam ser compostas de objetos arqueológicos, pinturas e esculturas. A pintura de J. Bruegel e P.P. Rubens, a “Alegoria da visão” de 1617 ilustra o colecionismo e me fez lembrar também do livro de Umberto Eco, “A Vertigem das Listas” de 2009, que aborda o colecionismo expresso em obras de arte ocidentais através da quantificação de ‘listas’, inventários, coleções expressas nas obras em figuras de santos, soldados, criaturas mitológicas, plantas medicinais e tesouros.

Entre curadores notórios, foram citados Pierre Restany e Harold Gilman (novos realistas), que também foram críticos de arte. No Brasil foram citados Sérgio Milliet e Lourival Gomes Machado.

Sandra Ramalho abordou a questão da identidade dos atores envolvidos a partir de posicionamento profissional, onde cada vez mais existe uma concepção integradora em contrapartida a uma mais individualista. Quando observamos o fenômeno do artista como curador e muitas vezes também como crítico, as divisões entre os papéis estabelecidos deixam de existir. Foi também discutido que atualmente o papel do curador muitas vezes se confunde com o papel de crítico, uma vez que os artistas muitas vezes procuram o curador para obter “legitimação” e aceitação de suas obras pelo público e pelo circuito. Antigamente procuravam-se os críticos, atualmente procuram-se curadores ou organizadores de eventos que promoverão visibilidade ao artista. Ainda, os debatedores compreendem que o curador tenha um papel social especializado e que o local dos museus  de arte tenha servido como ambiente para a institucionalização das coleções exibidas.

Além da sistematização de uma apresentação, para futura exposição, o curador tem a função de construir uma agenda do momento que lhes é atual, convergindo para a circulação das obras de arte selecionadas. Para Fioravante, o curador ideal tem perfil de pesquisador e suas características assemelham-se também ao papel de mediador entre as obras expostas e o público, uma vez que sua produção deve gerar reflexão e opiniões. Para Josué Mattos, a cena curatorial só surge quando a cena artística de determinado lugar já está desenvolvida, nunca a precede. O pesquisador acredita que atualmente existe uma certa banalização da curadoria, que deveria surgir para suprir determinados contextos e lacunas da produção artística de um determinado nicho artístico, promovendo melhorias  não em um sentido mais qualitativo.

A exposição

A exposição é a situação de comunicação entre as obras e o público e sempre foi um espaço de uso social, um espaço de saber e fruição, como era o teatro na antiguidade, um lugar de convivência, para se “fazer ver”. Entre os produtos da exposição (além da própria exposição) estão o que Lisbeth chama de “arte documental” que, para as exposições são os catálogos criados para exposições específicas (comuns na Europa) e o material intelectual de crítica (clipping) que antigamente era impresso nos jornais e hoje encontra-se na Internet, em vários formatos (blogs, twitter, podcasts, etc). As exposições revelam também a dimensão crítica da curadoria, quando propõem exposições temáticas para os artistas participantes, mostrando assim um perfil ensaístico e experimental. Podemos citar a obra A Fonte (1917) de M. Duchamp que causou polêmica ao ser submetida para apreciação da curadoria de uma exposição.

Lisbeth fala sobre a importância da arquitetura e do próprio prédio do museu e de como “a arte se ritualiza através deste templo,” que pode ser considerado um lugar específico e apropriado para uma exposição, uma vez que deve deter um modelo de apresentação que envolve o ambiente, a disposição das obras, sua identificação,  iluminação, localização, registro e critérios de acessibilidade. Já faz algum tempo que li uma opinião diferente no livro de “Art as an Experience” do John Dewey, onde o autor dizia que as artes de modo geral (teatro, música, pintura e arquitetura) nunca tiveram nenhuma conexão em particular com teatros, galerias, nem museus, mas que eram simplesmente parte significativa e intrínseca da comunidade na qual estavam inseridos. Acho que compartilho a opinião de que o templo na verdade é a própria natureza, e que podem existir propostas alternativas de ambientes de exposições sem que com isso a qualidade do que é oferecido necessariamente se comprometa.

Perguntas – Público

Em algum momento foi colocada a necessidade de um público que fosse “minimamente versado em arte” para que pudesse participar de uma exposição. Concordo, mas com ressalvas. Acredito que realmente, não é necessário ser um artista para gostar e compreender sobre determinado tipo de arte. Mas Josué Mattos tem um pensamento diferente. Ele acredita que uma pessoa que desconsidere premissas básicas de história da arte, da ‘linguagem’ da arte – que muitas vezes já pertencem até mesmo a obras datadas – tem muito a perder caso visite uma exposição. Não que um leigo não esteja ‘oficialmente autorizado’ a emitir opinião sobre o que desconhece, mas é fato que se a pessoa não tiver uma noção mínima, isso certamente enfraquecerá sua opinião e deixará seu discurso medíocre. E é justamente este discurso que “revela o que está invisível, o oculto atrás do aparente”.

Ele até citou um exemplo de uma frase muito comum que pessoas dizem quando se deparam com uma obra que as confronta: “mas isso aí até o meu filho faz” onde ele prontamente respondeu “sinto muito, mas o senhor está mediocrizando o potencial artístico de seu filho”. Mattos defende que é preciso conhecer minimamente o que ele chama de ‘código’, para assim poder estabelecer valores (positivos ou negativos) quando da contemplação e comunicação sobre o que é sentido quando somos confrontados com arte. A tendência é que a limitação de referências limita igualmente o entendimento, o discurso e principalmente a comunicação. Quanto mais referências a pessoa possuir, mais disponível e receptiva ela estará para compartilhar. Nem toda obra artística tem o propósito de apenas entreter ou embelezar o mundo, mas também tem função de fazer pensar, questionar.

A questão sobre as Redes Sociais e o papel da Internet em relação a curadoria e exposições também foi debatido, mas sem muita profundidade. Mattos entende que podem existir ferramentas positivas para divulgação, engajamento de público e para que ideias transitem entre artistas, mas a Internet não pode ser considerado o único meio. Lisbeth também entende que nas artes visuais existe um certo “imediatismo” onde as pessoas precisam ser confrontadas diretamente pelas vias sensíveis e afetivas, acreditando que o processo de experiência estética não se completa, caso seja feito  através de um dispositivo ou online. A professora também defende o intercâmbio humanista que possa existir em uma exposição, enquanto confraternização. Concordo com essa afirmação, mas também não consigo deixar de reconhecer que graças ao Google Art Project eu posso ter uma experiência – mesmo que limitada – com várias obras artísticas de alta qualidade, que estão espalhadas pelo mundo em 17 museus diferentes – isso tendo em vista que eu não tenho dinheiro pra ficar viajando para o exterior com frequencia.

Me parece que os palestrantes e debatedores num consenso compreendem o uso da Internet mais como ferramenta de comunicação com o público e outros artistas e divulgação de eventos do que como ambiente para exposições e curadoria propriamente dito, por considerarem o espaço muito limitante. Também confesso que desconheço – mas talvez por que nunca tenha pesquisado  sobre isso mais profundamente – sobre projetos artísticos que sejam voltados para a plataforma de Internet. Acredito que a curadoria artística (recitais, mostras, exposições, etc.) e de conteúdo  (músicas, fotografias, textos) devam ter semelhanças e diferenças entre suas práticas, igualando-se apenas no método:  seleção e agregação de valor ao que está sendo exposto ou exibido ao público.

Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Uma palestra que explica porque usar nossa imaginação e providenciar para que outros utilizem as suas, é uma obrigação de todos os cidadãos

pelo The Guardian, em 15/10/2013

Neil Gaiman
“Temos a obrigação de imaginar…” Neil Gaiman dá uma palestra anual à Reading Agency sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. Fotografia: Robyn Mayes.

É importante para as pessoas dizerem de que lado estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse em sociedade. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma indústria em amplo crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E que certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazeirosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler e mostrarmos a elas que a leitura é uma atividade prazeirosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero talvez, ou um autor e declará-los como livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

Enid Blyton's Famous Five book Five Get Into a Fix
Não existem escritores ruins… O famoso livro de Enid Blyton. Foto: Greg Balfour Evans/Alamy

É tosco. É arrogante e é burrice. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Elas podem encontrar as histórias que precisam, e elas levam a si mesmas nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para elas. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que elas estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a maçã da árvore do conhecimento, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo
A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo, Bag End. Foto: HarperCollins

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros sobre fantasmas ou mágica ou foguetes, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Menino lendo em sua escola
Foto: Alamy

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Inglaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e onde elas possam ser capazes de imaginar e compreender.

• Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

O leitor do futuro, de novo

Dia 1º de junho fui a uma palestra onde falariam sobre ‘O leitor do futuro’. A palestra fazia parte da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural. Fui de curiosa. Sempre quero ouvir o que não-bibliotecários tem a dizer sobre a leitura porque, curiosamente, soa muito mais realista. Duas pessoas falaram: Lisette Lagnado e Arto Lindsay. Lisette começou falando que o leitor de hoje em dia cada vez mais luta contra a dispersão e que cenas como essa se tornarão mais raras:

Raras, não acho. Diferentes, talvez. Talvez mude a plataforma, o suporte e o tipo de material que está sendo lido / assistido / jogado. É difícil a aceitação da mescla de utilização das mídias tradicionais e tecnológicas da mesma forma que é difícil aceitar que o que era um romance acabou. “Acabou o amor, isso aqui vai virar o inferno”. Ninguém mais vai passar bilhetinho fazendo pedido de casamento: vai ser tudo por SMS. Essa cena aqui definitivamente só vai rolar em filme de 1968 mesmo:

Aliás, casar já é demodê. Enfim. Lisette me apresentou Dominique Gonzalez-Foerster e falou não tanto sobre arte, mas sobre o sujeito imerso em um espaço literário, desburocratizado e livre – que é o que de fato é cada vez mais raro de se encontrar hoje em dia. Falou-se sobre um conceito de literatura expandida, que seria uma ‘quase literatura’, onde seria possível ser autor sem escrever um grande texto. A partir desse conceito, seria possível entender a experiência literária como infinita, que não cabe em um só formato e transcende a dimensão linguística.

»Tapis de lecture«, 2000–2007 by Dominique Gonzalez-Foerster .

Eu gostei da proposta: biblioteca em chão de museu, um tapete, ambiente íntimo, doméstico. Senta-se lá, pega-se um livro, pega-se vários, perde-se uma tarde, perde-se a noção de tempo. Me lembra de longe os ecos do que poderia ser o Acesso Livre. Lisette também mencionou que há uma obra de Dominique chamada Bibliothek que trata-se de uma construção, de uma casa, uma sala, em que existem estantes, só que no entanto os livros são utilizados como tijolos, e os tijolos como livros. Simplesmente genial. Uma pena que não consegui achar nada sobre isso online.

“I want to die as I’ve lived”.

Gostei dessa passagem do filme Fahrenheit 451 (que inclusive tem na íntegra, legendado em pt-br no YouTube, pra quem tiver curiosidade). Vendo o filme a gente pensa que “poxa nessa época ainda existiam os bookpeople”. Existiam vírgula: existem ainda. Muitos acreditam que essa geração pode ser ‘a última leva’ a ter o fetiche o livro físico. Tem gente que acha mesmo que todos os livros poderiam ser queimados que nem no filme e substituídos por um Kindle ou qualquer outro e-reader. Felizmente ou não, ainda faço parte dos fetichistas. Até fantasio as maravilhas das bibliotecas do futuro, mas enquanto esse futuro não chega, confesso que acho a previsão das bibliotecas com ambientes clean e dust-free meio chatinhas na verdade…

Na boa. Acho mesmo.

Lisette disse que hoje “o leitor não apenas lê, mas ele edita sua própria linearidade” quase que como um co-produtor do que absorve. Pode até ser, em certa medida. Mas acredito que, para que o leitor possa chegar a este nível de desenvoltura, talvez seja necessário um pouco mais que isso em um kick-off. Hoje lemos – minha geração lê – em um sistema de janelas (ou abas, infinitas) de modo completamente alinear, extremamente customizado e não circunstancial. É algo aproximado do aleatório, onde as vezes acontecem umas serendipities. Mas é isso. Não há profundidade. Não há contexto. E geralmente ao fim disso tudo até podemos aprender algo, mas sempre fica aquela incômoda sensação “sensação de copy e paste” caótico. Arto Lindsay chegou a afirmar que hoje “é impossível seguir um caminho racional, linear com a leitura”. A pergunta que inquieta: é preciso? E em quais momentos? 

Dominique Gonzalez-Foerster, chronotapes & dioramas, 2009

Durante a palestra também foi recomendado o livro I read where I am: exploring new information’s culture, que é uma coletânea de artigos que tratam sobre leitura de modo geral. Percebo ser cada vez mais frequente a publicação de livros como organizações de artigos e não de um livro como um trabalho mais aprofundado, que demorou de 10 a 20 anos para que a ideia pudesse ser bem amadurecida e desenvolvida. Isso parece estar cada vez mais em extinção. Na verdade, hoje um trabalho tão longo assim é até malvisto. Ainda não sei se é possível dar crédito a todo esse dinamismo que nos é imposto, ou se é preciso observá-lo com mais ceticismo.

Flashmob produzido pelo Arto Lindsay, “Somewhere I read”, no Time Square em New York.

Arto Lindsay também comentou que a partir da década de 90, quando a gravação de CDs caseiros de qualidade começou a ser facilitada, a “qualidade de atenção” das pessoas em geral com a música diminuiu muito. Não só algumas bandas estão muito parecidas musicalmente, como a própria diversidade de música disponível faz com que as pessoas dediquem-se primeiramente às faixas, aos singles, e depois, talvez, ao álbum se gostarem. Lindsay disse que antigamente ele “se dedicava a um álbum” e isso também está cada vez mais raro. Lisette apontou um paralelo entre a escuta e a leitura, entre essas dimensões que estão se perdendo (ou se transformando, talvez). “A literatura não é apenas silenciosa. Também estamos perdendo a escuta, a atenção para a escuta. Só é possível ler se você consegue ouvir”. Retomando uma discussão inicial, Lisette ainda lembrou que é preciso diferenciar a distração, que pode ser útil, da dispersão que geralmente é nociva e promove a superficialidade.

Se formos observar a história, essas ‘mudanças cognitivas’ marcaram a história da humanidade desde sempre. Quando inventaram a escrita, imaginaram que todo o conhecimento (que era transmitido oralmente e guardado na memória) se perderia. Uma vez que as pessoas não tivessem mais memória – pois a transmitiriam toda para o papel – o conhecimento não seria mais preservado e deixaria de existir. O mesmo tipo de pensamento ocorreu quando surgiu a mídia impressa. O dinamismo dos jornais eliminaria ‘a história’ e vulgarizaria tudo o que era sagrado. Nada disso aconteceu. O mesmo ocorre hoje na transição do suporte do papel para o digital: temos medo de perder o que até hoje persiste.