Uma vida além do “faça o que você ama”

por Gordon Marino, para o New York Times

Orientandos ansiosos e preocupados muitas vezes vem até o meu escritório me pedindo para ajudá-los a ponderar referente às suas vidas após o término da graduação. Alguns dias atrás, um calouro veio se consultar comigo porque ele estava preocupado se deveria se tornar um médico ou um professor de filosofia. Alguns minutos depois, ele confessou nervosamente que ele também tinha pensado em dar uma chance para a stand up comedy.

Como conselheiro vocacional, minha reação automática sempre foi “o que você mais ama fazer?”. Às vezes eu até mesmo fazia um sermão sobre como é importante a distinção entre o que pensamos que devemos amar fazer e aquilo que realmente amamos fazer.

Mas “faça o que você ama” é sabedoria ou papo furado?

Em um artigo muito discutido no Slate no início do ano, a escritora Miya Tokumitsu argumentou que o ethos de “faça o que você ama” tão onipresente em nossa cultura é na verdade elitista porque menospreza o trabalho que não é feito com amor. Também ignora a ideia que o trabalho por si só possui um valor inerente e, mais importante, rompe a conexão tradicional entre trabalho, talento e dever.

Quando estou fora do campus e informalmente aconselho adolescentes pobres de Northfield, Minnesota, uma cidade de cerca de 20 mil habitantes, o tema não é “faça o que você ama”. Muitos deles estão acostumados a entregar jornais às 5 da manhã, atirar telhas durante todo o dia e carregar caminhões por toda a noite. Eles estão acostumados a fazer o que for para ajudar suas famílias. Para eles, a noção de fazer o que se ama ou achar significado no que se faz não é a primeira coisa que se vem em mente; e nem deveria ser. Pensamos juntos e consideramos, “O que você faz de melhor?” ou “Que trabalho melhoraria as perspectivas da sua família?”. Talvez ser licenciado como soldador ou eletricista? Talvez ser militar? Paixão e significado podem entrar na conversa com o entendimento de que eles afiam o seu foco e te fazem ter mais sucesso.

Meu pai não amava o que fazia. Ele trabalhou com algo que detestava para que pudesse nos mandar para a faculdade. Será que ele era tão pouco esclarecido e equivocado ao colocar o bem estar dos outros acima de seus interesses pessoais? Pode-se argumentar que a sua ideia de realização pessoal seria cuidar de sua família, mas novamente, como muitos outros menos afortunados, ele odiava o seu trabalho mas cerrava seus dentes e o fazia bem.

Poderia-se, eu suponho, argumentar que meu pai tornou sua necessidade em virtude, ou que cuidar o melhor que se pode da sua família é realmente uma forma de serviço em benefício próprio. Mas se colocar de escanteio, deixando de lado suas próprias paixões em benefício de um número maior de pessoas, seja a família ou a sociedade, não é algo que acontece naturalmente com alguém.

Nem todos tomam esse caminho. Você deve conhecer o conto do Dr. John Kitchin conhecido como Slomo, que abandonou a carreira médica por sua verdadeira paixão – andar de patins pelo calçadão da praia de San Diego. Mas será que é ético para o médico deixar de lado o seu estetoscópio e amarrar os cadarços do seu patins?

Pensadores tão profundos quanto Kant têm se confrontado com essa questão. Antigamente, antes da morte de Deus, os crentes acreditavam que seus talentos eram dádivas às quais eles estavam compelidos a dever utilizar em favor dos outros. Em seu tratado sobre ética, “Fundamentos da metafísica da moral”, Kant pondera: suponha que um homem “ache em si mesmo um talento que pode torná-lo um homem útil em muitos aspectos. Mas ele se encontra em circunstâncias confortáveis e prefere uma indulgência que lhe dê prazer ao invés de suportar as dores de ampliar suas capacidades naturais”. Ele deveria sucumbir à indulgência?

Kant bufa, não – que uma pessoa não admita que seu talento enferruje em prol de um prazer externo deveria ser uma lei universal da natureza. “Como um ser racional” ele escreve “ele necessariamente quer que suas faculdade sejam desenvolvidas, uma vez que elas o servem, e têm sido dada a ele para todos os tipos de propósitos”.Para Kant, seria irracional conceber um mundo onde respeitassem a lei do “faça o que você ama”.

Talvez, diferentemente de Kant, você não acredita que o universo esteja nadando em propósitos. Então o “faça o que você ama” ou o “faça o que tem mais significado pra você” são o primeiro e o último mandamento? Não necessariamente.

A fé de que as coisas que gostamos ou não ou que o nosso senso de significado por si sós deveriam decidir o que eu faço são a parte e o todo do evangelho da realização pessoal. A filosofia sempre esteve certa em nos instruir que podemos estar errados em relação ao nosso entendimento de felicidade como de qualquer outra coisa. O mesmo vale para a noção de realização pessoal. Suponha que a verdadeira realização pessoal aconteça na forma de desenvolver-se em um “ser humano maduro”. Isto é claro para não mencionar que devemos evitar o trabalho que amamos justamente porque o amamos. Isso seria absurdo. Para alguns, uma harmonia feliz existe ou se desenvolve na qual eles acham prazer em utilizar seus talentos de uma forma responsável, ou orientada de outro modo.

Os paradigmas universalmente reconhecidos da humanidade – os Nelson Mandelas, Dietrich Bonhoeffers e Martin Luther Kings – não organizaram suas vidas em torno de realizações pessoais e listas. Eles, sem dúvida, acharam um senso de significado em seus heróicos atos de auto-sacrifício, mas não fizeram o que fizeram no sentido de alcançar esse senso de significado. Eles fizeram – como o meu pai e como alguns adolescentes daquela cidade – o que eles sentiram que precisavam fazer. 

Dr. King ensinou que toda vida é marcada por dimensões de comprimento, largura e altura. O comprimento se refere ao amor próprio, largura o amor à comunidade e ao cuidado com outros e altura ao transcendente, a algo maior que si mesmo. A maioria das pessoas concordaria com a prescrição do Dr. King de que realização pessoal requere que a pessoa seja capaz de relacionar-se com algo maior que si mesmo. Tradicionalmente, este algo “maior” era um código para Deus, mas o que quer que seja o transcendente, ele demanda obediência e a vontade de submergir e remodelar nossos desejos.

Talvez você goste de correr maratonas. Talvez você pense em seus exercícios de rotina como uma forma de aperfeiçoamento pessoal. Mas se o seu “algo maior” é, digamos, a justiça e a igualdade, esse tipo de ideal pode fazer com que você delegue muitas das horas em que passaria batendo a faixa do seu próprio recorde, fazendo a tutoria de crianças em algum centro de juventude. Nossos desejos não devem ser os árbitros finais de nossa vocação. Às vezes devemos fazer o que odiamos, ou o que mais precisamos fazer, e fazer isso da melhor forma que pudermos.

Gordon Marino é professor de filosofia no St. Olaf College e editor do “The Quotable Kierkegaard”.

Cientista da informação? Mesmo?

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Quando digo que sou formada em biblioteconomia, as pessoas que não tem muito contato com bibliotecas fazem várias perguntas. A que todo mundo conhece e que todos os estudantes da área já estão cansados de ouvir é o famoso “biblioquê?“. A segunda pergunta é “mas quem se forma nisso faz o quê mesmo?”. A terceira “Ah! Mas então você é biblioteconomista!”, quase, na trave. E os que sabem um pouco mais perguntam “você é bibliotecária onde?”.

Tinha escrito que um nome é só um nome antes. Mas querendo ou não, nomes designam uma série de coisas. Eu não sabia se eu ia, efetivamente, trabalhar como bibliotecária depois de formada. Vários colegas bacharéis se formam e vão trabalhar no mercado de Arquitetura da Informação, por exemplo, ou de Análise/Métricas de Mídias Sociais, ou com estatística de dados. São bacharéis em biblioteconomia, mas que não precisam de CRB. São bibliotecários de alma, mas não de carteirinha.

O que é mais importante?

O contexto é importante. Categorias e classes apenas importam no contexto em que importam. Caso eu fizesse o mestrado, seria apenas uma bacharel em biblioteconomia – pois, para mim, bibliotecário é quem atua e para o CRB é quem tem CRB. Para o mercado, bibliotecário é quem tem experiência ou procedência de uma boa faculdade. Caso eu me formasse mestre em ciência da informação, me consideraria mestre em Ciência da Informação.

Este ano pretendo fazer uma pós latu sensu e devo me tornar especialista, caso tenha sucesso. A Ciência da Informação é uma grande área, mas vinculada a ela ou não, posso continuar pesquisando ‘a informação’ de modo a melhor se adequar aos meus interesses profissionais no momento. Posso ser pesquisadora vinculada à uma instituição de ensino superior ou pesquisadora independente, que é o que acredito que faço quando traduzo artigos e escrevo posts para este blog.

Vejo até hoje muitos graduandos utilizando o termo ‘cientistas da informação’ para se definirem, mas talvez as únicas pessoas que tenham ‘alvará’ para se denominar assim sejam os mestrandos e doutorandos em CI. No Brasil, não há uma graduação em Ciência da Informação propriamente dita, mas em Biblioteconomia apenas (isso explica bem o quadrinho). Há apenas uma graduação em Gestão da Informação na UFPR e ela não forma bibliotecários. Nem cientistas da informação. 

Sobre esse termo, imagino que seja apenas um nome pretensioso demais para definir algo que é muito mais simples: pesquisadores com interesse em informação de uma determinada área; ou com interesse na gestão ou fluxo de informação de um determinado ambiente ou serviço. Particularmente quando leio o termo “ciência” o que me vem imediatamente em mente são as hard sciences: química, física, etc., onde existem os cientistas propriamente ditos.

Vamos pesar no estereótipo agora: aqueles mesmo, que usam jalecos, tem cabelos esquisitos, vivem enfurnados em laboratórios com substâncias raras e utilizadas com propósitos específicos, em ambientes ultra controlados e se comunicam com demonstrações e símbolos. Nem melhores, nem piores, mas bastante diferentes das áreas de humanas. De qualquer modo o nome já existe e está consolidado enquanto área dentro da grande área das Ciências Sociais Aplicadas. Mas sim, é sempre bom lembrar que existem ciências e ciências. 

E fazer ciência, infelizmente, ainda é pra poucos.

E aí, biblioteca pra quê?

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Fotografia: Bruno Pires

Fizeram esta pergunta para o Marcello Gugu e ele disse que pensou alguns dias para respondê-la. A resposta veio em 7 textos que foram declamados dia 08/11 no seminário “E aí biblioteca pra quê?” e que publico a seguir:

(1) Sócrates

Sejam bem vindos a cúpula dos pensadores com pó de giz entre os dedos, cigarros sobre as orelhas e o perfume feito da mistura de cachaça barata e desodorante vencido, dando um cheiro ocre a filosofia e a ciência moderna. Eu venho da onde cada bar é um liceu, um laboratório e um ateliê. Onde a divina comédia de Dante Alighieri ganha vida a cada noite, e o auto da barca do inferno reflete o caráter de cada bêbado e solitário. O bar, onde o fundo dos copos, são a luneta de Galileu e os números da lousa que contam os pontos da sinuca, são equações que desafiariam Baskhara. Cada bar, o mito da caverna exposto ao mundo, onde penso, logo, existo, é bebo, logo, desisto e Descartes troca as palavras onde a mais complicada das filosofias, é diluída com doses de maria mole e bomberinho. O lar da psique depressiva, a escola de Frankfurt do gueto e aonde a razão pura de Kant se perde quando descobre o amor platônico por uma vida melhor. Cada gota de álcool é a retórica de Aristóteles e convencia os homens de que de cada alcoólatra deve ter um amor pela vida tão libertário quanto Sartre. Cada bêbado, uma caixa de pandora cujo olhar é a maiêutica um é um iluminismo em ascensão. A embriaguez era catarse, o aflorar das emoções e cada bêbado provava que Pitágoras estava certo quando geometricamente viam o mundo girar 360 graus, num teorema de semi-coma alcóolico. Assim falou Zaratustra, ponha Guilherme Arantes no karaokê. Eu tinha oito anos e conheci a mais pura filosofia. Meu tio Kiko, por exemplo, era Sócrates. Indagava sobre a vida como ninguém, colocava suas palavras no colo do vento e as espalhava pelos quatro cantos do mundo, fazendo ditos populares se transformar em frases de Confúcio. Tinha uma mente brilhante e era capaz de transformar qualquer experiência em uma lição valiosa, dizendo que se deve dar mais valor à procura do que se não sabe, do que transmitir o que já se pensa saber. Era pobre. Era frustrado. Cada bar, onde Ânito era frustração, Meleto era comodismo e Lícon era boemia, os 501 cidadãos que o condenaram a morte foram os espectros da solidão e do alcoolismo. Morreu sem saber ler. Cicuta feita de cana e Sócrates morre de cirrose.

(2) Baobá.

Escravos escreviam em grilhões nos cantos dos tumbeiros. Eles usavam a ferrugem para imprimir nos nós das correntes pedaços da sua história. Utilizavam a unha para tirar a crosta marrom das amarras e nos vãos limpos do aço, o balançar do navio, moldava a caligrafia de seus contos. Onde Deus era o La Amistad, o olhar de cada escravo tinha o reflexo do semblante do último sobrevivente de canudos, cujo único medo era de que, a história daqueles homens e mulheres fosse esquecida. O coração deles era Montezuma. Cortez não foi cortês e as pústulas de Varíola são as saudações do mundo novo aos corações partidos pela ganância. Cada escravo era Dorothy Stang lendo Corinthios enquanto o executor carregava a arma e nosso banzo, estampavam nas bocas cartazes iguais aos das mães de maio. Cada porta do tumbeiro soava como o barulho de uma escopeta, vindo da parte de trás da casa de Chico Mendes e cada onda fazia o navio parecer o karman guia de Zuzu Angel capotando. Os grilhões, Wladmir Herzog no Doi Codi, lembravam aos presos que a liberdade é uma ilusão num mundo onde justiça é uma planta que floresce bem apenas nas sombras da impunidade. Um dos homens em Yorubá, antes de se jogar ao mar, diz: Cada vez que um velho morre, perde-se uma biblioteca. Nossa tradição oral é Griot, portanto, livros me ensinaram ler pessoas. Eles irão nos confundir com maias, olmecas, com bantus, ashantis, guaranis, kaiovás, mas o que mais me entristece é saber que enquanto os leões não tiverem contadores de histórias, o mérito das caçadas será sempre do homem. Pra eles essa é a arca de Noé e nós somos os leões. Espanhóis e portugueses serão heróis nos livros. Salgueiros chorões tem esse nome por que nas árvores na frente deles, a KKK enforcavam os jovens negros no Mississipi. Nosso Harlem se chamava Serra Pelada e panteras negras foram quilombolas. A noite todo gato é pardo, mas pra PM pardo é preto. E Otávio Gambra, o Rambo é herói. Minha Rosa Parks foi uma professora, meu ônibus Montgomery era 174. Um erro do Estado e quantos se lembram do nome daquela que foi alvejada quatro vezes em rede nacional? Telhada é herói. Capitão nascimento é ovacionado no cinema. Conti Lopes é exemplo. Amarildo não. Na maioria dos livros de história os heróis populares não existem, e se existem são enterrados nas covas rasas dos rodapés. Os conselhos que seus pais lhe dão são mais velhos do que seus avós. E a professora se chamava Geisa.

(3) São Pedro

Pedro foi um dos apóstolos de Jesus segundo o novo testamento, um dos primeiros discípulos a reconhecer Cristo como filho de Deus, tinha uma devoção e fé inabalável, e foi um dos únicos a acompanhar Jesus, quando este foi preso. Quando Cristo foi colocado na cruz, Pedro, por amar demais não aguentou ver seu mestre naquele estado e saiu para chorar. As pessoas, ao perceberem isso, o abordaram e Pedro, negou cristo três vezes antes do amanhecer. Apesar da palavra não em sua boca ter gosto de fel, jamais em seu coração negou ou amargou sua fé. Pedro foi levado ao circo de Nero, foi crucificado de ponta cabeça, pois não tinha queria se comparar com Jesus nem na hora do seu fim, e no lugar onde morreu foi construído uma basílica, que fica dentro do Vaticano. No que você acredita mais: Em armas ou em livros? Eu conheci pessoas que também negaram Cristo. Meus amigos, o sonho do toque de Midas, a brisa vinda do terraço no palácio de Escobar e o cheiro das notas vindo do quarto dos fundos da casa de Abadia. Enredo leigo da vida e sonho efêmero. A pergunta é: no que você acredita mais, em cinzas ou em pó? bem, Cinzas não dão dinheiro. A ignorância é como Charles Manson, ela não atira, convence o atirador a apertar o gatilho. Amigos partem todo dia. Se nasce sozinho. Se morre sozinho. Hoje temos na mão a chance colocarmos o conhecimento como religião, Cristo, que pode ser partilhado, como um livro e o ensinar como um ato de fé. Eis minha sugestão: Que esses meninos que negaram cristo se tornem exemplos de que o conhecimento poderia ter feito á diferença. E eu não falo de santificar criminosos e sim de mostrar que existe outro caminho. Que cada jovem que se desviou tenha a chance de reparar seus erros, mesmo depois de serem cobrados pela lei do mundo. Entregamos a memoria de um que perdeu a vida no crime a São Pedro, e que, em cada local que um deles morreu se erga um templo chamado biblioteca, e que este tenha a magnitude de um Vaticano. Uma biblioteca pra cada jovem que perder a vida no crime. Ensinar por amor.

(4) Milagres

Dizem que virgens que choram sangue são consideradas milagres, então posso deduzir que a filha da minha vizinha deve ser santa, pois sangra de 3 a 4 vezes cada vez que o padrasto a toca. Ela tem 9 anos. Nenhuma igreja quis canoniza-la. Ninguém acreditou nas historias dela. O bicho papão existe. E mora no quarto ao lado. Seu silencio é uma burca. Tao brutal quanto mutilação genital. Ela é Asha Haji Elmi e sua libido foi cortada centímetro por centímetro com um caco de vidro. Quando vê seu padrasto se aproximando é Emily Davison vendo o cavalo do rei Jorge no Derby Epson, seu voto é por castidade, e se jogaria na frente do animal, sem pensar. Jack Estripador tinha mais compaixão. Existem coisas piores que a morte. Ela gostava de maquiagens. Viu o punho do seu padrasto, pintar em seu rosto, sombras em tons de lilás que nem Djavan imaginou quando escreveu a canção. A cor púrpura foi inspirada em seus hematomas. Alice Walker vive em suas cicatrizes. Sua esperança é Waris Dirie e queima em seu peito como sutiãs e pontas de cigarro. É uma flor no deserto, cujo olhar é Abeer Qassim Hamza na frente dos 5 soldados americanos que a transformaram numa nota de rodapé nos autos dos crimes de guerra. ‘Ninguém perguntou, nós não falamos’. Iraque deve ser seu quarto, pois nada do que acontece lá o mundo fica sabendo. Suas unhas eram teboris, com elas criava verdadeiras obras de arte na tentativa de arrancar da pele o cheiro do seu padrasto. Seus sonhos, tratados como as bruxas de Salem, queimavam como Pearl Harbor e ela sabia que havia perdido mais um pois, por dentro queimava como fogo e por fora pingava denso como vela. Sangue. Ouvir sua voz é quase que o mesmo que ver uma criança com asperge recitar sheakspear ou ver um velho com labirintite andar numa corda bamba atravessando um grand canyon. Numa paz talibã, cada vez que dizia algo, seu coração que era Maria da Penha se transforma em Amina, a afegã, e o apedrejamento era inevitável. Cada tapa soava como as trancas das portas da fábrica de tecidos Cotton, hoje, 8 de março ela foi sufocada. Silencio não é consenso. Sua historia se repete em outros corpos, em outras casas, em outras comunidades. Uma mulher é estuprada a cada seis minutos. A cada 18 segundos uma mulher é espancada. Três em cada quatro mulheres serão vítimas de pelo menos um crime de violência durante a sua vida. Apenas 50 por cento dos estupros são comunicados e nunca daqueles relatados, inferior a 40 por cento irá resultar em prisões. Essa é sua historia. Não a deixe morrer.

(5) Queima de livros

10 de maio de 1933 – Berlim.

Minha mãe me disse que íamos assistir a uma peça, um drama. Fomos até o centro de uma praça. Vi os primeiros caminhões chegarem. Nunca tinha visto uma fogueira daquele tamanho. Enquanto os homens bradavam saudações ao Fhurer, os livros queimavam e as cinzas se misturavam com a garoa fina que caia. Foi a primeira vez que eu vi neve cinza. Crianças brincavam com aquela mistura fazendo bonecos e anjos. Os anjos tinham a cor de chumbo, talvez essa fosse a coloração que os anjos caídos que a bíblia diz tinham. A praça da Ópera em Berlim agora criou um novo fantasma. Ele canta como fogo. Sua voz era Julio Cesar plantando a chama no primeiro livro em Alexandria, a primeira leva de bombas que beijou com intensidade as paredes da biblioteca em Saravejo, bufava como um avião Lancaster abrindo as portas do inferno em Dresden, fazendo com que o calor derretesse as letras transformando os livros de histórias em paginas em branco. era Videla destilando ódio sobre Antoine de Saint-Éxupery. Seus olhos são um genocídio culural. E eu era o pequeno príncipe. Tarde da noite, a luz da lua, a ultima noite branca, se os livros fossem pessoas, voce se sentiria no meio Jonestown assistindo Jim Jones injetando veneno em crianças e pondo fim em 918 sonhos. Cada cidadão que atirava um livro, era saudado como Nero, bem vindos ao grande incêndio de Roma!! A chuva que caia era resultado da bronquite das nuvens por causa da fumaça. Já num plano maior, era a tentativa do céu devolver a historia daqueles livros pra terra. Porem, em vão. A névoa era sufocante, e na minha frente ardia em febre o edifício Joelma, feito de madeira, livros, querosene e ignorância. Joana darc chora. Salvei um livro. Se tornou meu melhor amigo. Até o trem parar em Belzec. Hora do banho.

O livro foi encontrado alguns anos depois quando desativaram o campo de concentração. A única pagina legível tinha a seguinte frase: onde se queimam livros certamente se queimarão pessoas.

(6) Um professor afegão ensinando sobre História:

Ele risca uma frase numa lousa feita de areia. Diz para os alunos escreverem abaixo da dele, a mesma frase. Um por um escreve. Ele mostra as frases, uma diferente da outra e diz que apesar do contexto ser o mesmo e das palavras se parecerem, os grãos de areia fazem com que cada versão da história seja, em detalhes, diferente. Cada uma das escritas foi feita de uma forma, algumas mais bonitas, outras menos, algumas maiores, outras menores, o ponto é que, o vento e a areia se transformam, assim como as histórias quando são contadas. Muda-se a estética, a forma de se contar, mas a essência, essa permanece, até mesmo quando alguém não escreveu. Não estar lá, não significa não exisitir. Significa não estar presente ou não se fazer visível. Por exemplo, os cachorros tem uma audição muito mais sensível que a dos seres humanos, eles ouvem coisas que nós não ouvimos e através da audição percebem coisas que não percebemos. Não ouvir não significa que o som não existiu, pode significar que nós não percebemos. Quando uma criança abre um livro, ela faz o que Beethoven fazia com o piano depois de ficar surdo. Ela deita no chão com seu ego despido de vaidades insignificantes, lê as palavras em voz alta e as transforma em vibração. As frases passam pelo seu corpo, Benjamin Franklin numa descarga de energia e, como em de volta para o futuro, é transportada para dentro daquilo que está lendo. Um livro, a exposição de código pré-definidos pela gramática, um zoológico de fotografias analógicas, tem o cheiro da casa de vó e se falasse faria cada frase soar como Chet Baker interpretando Paulo Freire. Cada palavra é Piaget, os nomes da lista de Schindler e o diário de Anne Frank escrito por Helen Keller. A leitura é magia, David Cooperfield transformando a cartilha Pipoca nas cartas filosóficas de Voltaire e Houdini utilizando palavras, pintar o imaginário infantil, transformando os contos de grimm em uma produção de Steven Spielberg. Sem sonhos não existem contos de fadas. Cada letra que uma criança aprende é como se Dom Quixote a chamasse para uma aventura e cada livro que uma criança descobre é como se ela tivesse encontrado girassois em Treblinka. Quanto mais ela entende o que lê, mais entende que, opressão é cortar os olhos de um povo e faze-los acreditar que a escuridão é mais bonita que a luz. Cada biblioteca é um altar. Venera-se os deuses da sabedoria em silencio. Os sussurros entre a boca e as palavras cria uma espécie de transe e nossa oração é assim: que uma revolução nasça cada vez que uma criança complete uma palavra, que professores sejam libertários por natureza e que todo ato de educação seja um ato político. Que a escrita nos liberte. Amém Paulo Freire.

(7) 0.9

O que vocês acabaram de ouvir foram problemas comuns dentro das comunidades. A violência contra mulher, o abuso policial, o crime, a falta de infra-estrutura e de núcleos culturais dando espaços para bares e biqueiras, a falta de interesse e o descaso das autoridades em relação a levar cultura e conhecimento para dentro das periferias e a desvalorização do profissional da educação, que luta para que o povo tenha acesso a uma vida melhor através do estudo. Cada biblioteca representa uma chance. Quem vem da onde eu venho está acostumado a conviver com 99 por centro contra. Nos dê esse um por cento. Nos dê a chance de escrevermos novas historias. O ontem é passado, o amanhã se constrói hoje, o presente é uma dádiva e um livro pode salvar vidas. Na minha cintura eu tenho uma nove milímetros. Cabe a vocês escolherem se vai ser uma Glock ou uma Pentel. A decisão é de vocês.

Parte 2 – Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc

Depois dos primeiros 2 dias de curso, tivemos mais 2 dias de conversas sobre os projetos de incentivo à leitura no SESC e nos aprofundamos um pouco mais sobre o BiblioSesc, projeto de bibliotecas itinerantes.

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Biblioteca da Unidade SESC Sorocaba

Em relação às unidades onde o SESC têm bibliotecas, existe sempre uma grande preocupação não só com o espaço, mas também com a ergonomia e até mesmo com a estética, a beleza do local. Para isso ocorrem parcerias e conversas com outras linguagens do Centro Cultural: obras de arte podem compor o espaço de leitura e também é possível que exista uma curadoria de arte específica com o espaço de cada biblioteca. Como um dos exemplos, foi citada a inauguração da biblioteca do SESC Sorocaba, que é temática em quadrinhos. O cuidado com o mobiliário e com a acessibilidade faz com que o interesse pelo ambiente extrapole a intenção de utilizar os livros e a biblioteca se torna assim uma plataforma pra uma série de atividades relacionadas não só com a leitura, mas também com outros mundos, como o de criação, curiosidade e imaginação.

Nas suas ações como um todo, percebemos que o SESC tem preocupações que deveriam fazer parte de toda a ‘cultura de bibliotecas': uma implantação adequada, mobiliário atraente ao público, acessibilidade, atendimento a diferentes tipos de público, gestão e aquisição de acervo de acordo com políticas internas e principalmente alinhar esta composição de acervo em diálogo com o Centro Cultural como um todo, de forma integrada, sempre que possível. O diálogo também ocorre com a comunidade no entorno, como no caso da unidade SESC Bom Retiro, onde o público imigrante do bairro tem influência sobre algumas atividades. Para o ano que vem haverão três inaugurações de novas unidades do SESC e todas terão novas bibliotecas.

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Chuva de histórias, no SESC Santo Amaro

Em algumas unidades existem barreiras arquitetônicas para as bibliotecas como no SESC Santana e também no Consolação, onde a biblioteca fica atualmente no 3º andar do prédio. Neste caso é uma questão de adaptação e principalmente de criatividade para levar o leitor até a biblioteca, seja por meio de sinalizações ou exposições artistico-literárias no ambiente. Referente ao acervo, embora exista um acervo-base, no total eles não são padronizados. Algumas editoras são escolhidas e alguns livros são selecionados enquanto objetos de arte, mas também existe a preocupação com o universo do livro como um todo: com a palavra, a linguagem. Os bibliotecários envolvidos geralmente trabalham em conjunto com animadores culturais, na criação e desenvolvimento de projetos voltados à literatura. As ações das bibliotecas do SESC se baseiam fortemente na mediação e apostam principalmente em eventos formativos (aprendizagem informal).

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Caminhão do BiblioSesc

Iniciado em 2009, o projeto BiblioSesc é um projeto nacional do SESC. Procurando no YouTube, tem vários vídeos sobre os caminhões do BiblioSesc espalhados pelo Brasil. Especificamente em São Paulo, o projeto possui 6 caminhões e atende 30 bairros de periferia, tanto na grande São Paulo quanto no ABC Paulista. O projeto atende quinzenalmente bairros onde existe carência de bibliotecas e faz parte do Programa de Comprometimento e Gratuidade. Existem paradas técnicas periódicas (semestrais/anuais) para realização de inventário e outras reformas necessárias, como verificação das estantes. Em São Paulo, para o desenvolvimento do projeto, é preciso se pensar muito na parte logística (por conta do rodízio) e a quantidade de livros em circulação é entre 2000 e 2500 livros, entre literatura de ficção e clássicos.

Os bibliotecários que participam do projeto tem autonomia para compras periódicas de acordo com os critérios de desenvolvimento das coleções de acervo e segundo relatam, o extravio de materiais é mínimo. Nas periferias, justamente pela carência, a apropriação e o senso de pertencimento ao projeto é maior por parte das pessoas, então existe toda uma preocupação com o ‘cuidar para não perder’. No início do projeto a divulgação ocorre por meio de cartazes em bares, supermercados, metrô/trem e também em rádio. Sempre ocorrem parcerias com instituições locais de cada bairro como escolas públicas e municipais e outros espaços onde funciona o atendimento. A programação envolve algumas intervenções cênicas e literárias de mediação de literatura selecionadas, tendo como exemplo: leituras no tatame, Poesia ao pé do Ouvido, Realejo Poético e Mala do Autor. Para o futuro, está sendo pensado um projeto para exibição de filmes.

Durante a conversa alguns tópicos mais conceituais sobre bibliotecas e leituras foram abordados de forma mais generalizada. Comentei que é difícil encontrar na área bibliotecários com uma formação voltada para a ação cultural (isso é mais fácil de se encontrar e desenvolver na prática) e que o olhar que o SESC tem sobre bibliotecas é bastante único. Neste último encontro também foi anunciado o seminário “E aí, biblioteca pra quê?” que também participei no final de semana seguinte. Estes tipos de eventos, tanto o mini-curso, quanto o seminário, são importantes principalmente para quem desconhece essa possibilidade de atuação, bem como também para servir de inspiração para outros bibliotecários e profissionais da área de mediação.

Bibliotecas ruins fazem coleções, bibliotecas boas realizam serviços e bibliotecas excelentes criam comunidades

Post traduzido do blog do R. David Lankes. Título original: Beyond the Bullet Points: Bad Libraries Build Collections, Good Libraries Build Services, Great Libraries Build Communities

Cá está o tweet que levou a este post:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços (dos quais uma coleção é apenas um deles). Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Devido à limitação dos caracteres foi muito retwittado sem o conteúdo dos parênteses:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços. Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Entendemos que esta última é mais impertinente, mas aparentemente também é mais controversa. Houve um número de respostas dizendo que bibliotecas excelentes também deveriam criar coleções. E eu achei que valia a pena adicionar um pouco mais de nuance e profundidade à discussão para além de 140 caracteres, então cá estamos.

Antes que eu me aprofunde, se você é do tipo auditivo e visual (N. da T.: e tenha inglês fluente), eu falei muito sobre os pontos que irei abordar nesta apresentação:

http://quartz.syr.edu/rdlankes/blog/?p=1406

Agora, de volta ao tweet.

Primeiramente, não há nada que diga que diga que bibliotecas boas ou excelentes não possam ou não devam construir coleções. É uma questão de foco. Se bibliotecários se preocuparem exclusivamente ou desproporcionalmente com a coleção, isso é ruim. E isso surge de várias formas. A primeira é óbvia: aquisições com pouca ou nenhuma participação dos membros da comunidade. Você está adicionando este item à biblioteca porque ele está nos bestsellers do New York Times ou foi isso que algum intermediário enviou? Ruim. Se você não está olhando para dados de circulação, não está conversando com a comunidade, não está pesquisando em bases de dados: ruim.

Sou lembrado disso nas atuais discussões sobre ebooks. Existe muita discussão se bibliotecas deveriam ou não estar comprando ebooks. Alguém perguntou o que eu achava disso e eu disse que taticamente os bibliotecários deveriam criar o seu próprio ebook que traria muito valor aos autores, e; dois, perguntar à sua comunidade. Se você está planejando boicotar ou simplesmente não adotar ebooks, você já teve essa conversa com o seu público? A comunidade acha que é um mau negócio o que as editoras estão propondo? Para eles está ‘tudo bem’ não existir esse tipo de serviço na biblioteca? Notem que isso não é perguntado ingenuamente, mas tendo uma conversa real onde você está apresentando um argumento e mostrando à comunidade o contexto como um todo e então ouvindo o que eles têm a dizer.

Se estamos falando de foco, qual é a diferença entre bibliotecas ruins e boas? Bibliotecas boas têm foco em seu público. Isto é, eles valorizam a utilidade da coleção de acordo com as necessidades de seus usuários. O que as pessoas querem em termos da coleção e como isso se equilibra com todas as outras coisas que as bibliotecas fazem (referência, programação, fontes digitais, instrução, etc). Aqui não apenas observamos dados do público como circulação e etc., mas a experiência das pessoas como um todo.

Uma vez houve uma discussão entre os professores aqui em Siracusa se devíamos ou não ensinar desenvolvimento de coleções. Era (e ainda é) parte de uma aula que tem o título “Planejamento de bibliotecas, Marketing e Avaliação”. O instrutor na época não gostava de lá. Como garimpagem e marketing andam juntos? Bem, verifica-se que as perguntas que você faz sobre coleções são utilizadas para qualquer outro serviço: quais os objetivos? Como é utilizado? É fácil acessar (e avaliar)? A coleção é um serviço como qualquer outro – precisa de orçamento, planejamento e um motivo para existir.

Boas bibliotecas entendem que no momento que você agrega valor à experiência do usuário você está colocando um serviço à prova. Colocar livros na estante? Um serviço. Catalogar? Um serviço. Garimpar informações? Um serviço (poupar o tempo do usuário e eliminar o rápido acesso à informação datada). Eu sei que todas essas coisas estão empacotadas como “coleção”, mas ao separá-las do todo podemos melhor avaliá-las e melhor cumpri-las.

rdlankesEu escolho o termo “usuário” com cuidado nesta parte da discussão porque eu acredito que é isso que separa o bom do excelente. Veja bem, uma boa biblioteca vê a coleção como um serviço e no entanto monitora e planeja o seu uso. Uma excelente biblioteca vê a coleção apenas como ferramenta para empurrar uma comunidade para frente, e mais que isso, eles veem a biblioteca como plataforma para que a comunidade tanto consuma quanto produza. Os membros da biblioteca são coproprietários da coleção e de todos os outros serviços oferecidos pelos bibliotecários. Os serviços de biblioteca são parte de um “ecossistema” mais amplo onde sim, os membros (usuários) estão consumindo informação, mas também estão produzindo, trabalhando, sonhando e brincando. Este é o foco de uma biblioteca excelente. Eles entendem que o material que uma biblioteca abriga e adquire não é sua verdadeira coleção – a comunidade o é.

Então, bibliotecas boas, ruins, excelentes, feias tem coleções? Sim. Mas as bibliotecas excelentes percebem que a coleção não é o que está nas estantes, mas o público e seus mundos. O foco é no desenvolvimento de conexão, não no desenvolvimento de coleção. Existirão coleções a serem desenvolvidas? Provavelmente, mas estas coleções podem ser de links, de escaneamentos digitais, livros, materiais de construção, equipamento de produção de vídeo, tempo de performance num palco e/ou especialistas.

Isto está claro nas discussões nos cursos de biblioteconomia. Enquanto distritos pelo país estão desligando bibliotecários escolares, eles geralmente citam que os horários de atendimento das bibliotecas não irão diminuir. “Nós podemos manter as portas das bibliotecas abertas com todos os serviços que elas dispõem ou com os atendentes do prédio”. Eles ignoram os dados que mostram que são bibliotecários certificados, e não horas de atendimento, ou a coleção, que aumentam as notas nos testes e a retenção de alunos. Bibliotecários, e não bibliotecas, fazem a diferença.

Mais uma vez, o bibliotecário escolar usa a coleção? Certamente, mas grandes bibliotecários escolares têm coleções de lições que ensinam, equipes de estudantes que auxiliam os professores com tecnologia e coleções de boa pedagogia. Quer poupar verba em uma escola? Feche a biblioteca e contrate mais bibliotecários.

Esse tweet não foi um pedido para se jogar fora coleções de materiais – há grande valor neles – mas para mudar o foco e perceber que o valor não vem dos artefatos, mas na habilidade de melhoria da comunidade. Este valor pode vir de bases de dados licenciadas na academia. Pode aparecer ao mandar contêineres cheios de livros de papel à uma comunidade rural africana. Pode vir de materiais sobre genealogia em uma biblioteca pública, ou coleções especiais no Ivy League. Mas para algumas comunidades pode vir do rico conjunto de fontes abertas e acessíveis via dispositivos móveis ou, cada vez mais, artefatos, ideias e serviços criados pela própria comunidade.

Grandes bibliotecas podem ter grandes prédios, ou prédios feiosos, ou nenhum prédio sequer. Grandes bibliotecas podem ter milhões de volumes ou nenhum. Mas excelentes bibliotecas sempre tem grandes bibliotecários que engajam a sua comunidade e ajudam a identificar e a preencher suas aspirações.

Parte 1 – Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc

Sobre os encontros dos Projetos de incentivo à leitura, fui em dois esta semana e apesar de ter no nome “projetos”, pessoalmente eu senti que mais se falou de mediação da leitura e de boas práticas do que da gestão de projetos propriamente dita. O que eu acho maravilhoso pois isso é raro de achar na área. A parte técnica de gestão é sim muito importante e nos ajuda a estruturar melhor qualquer projeto, mas a parte criativa de encantar as pessoas e trazê-las para o mundo da leitura, da literatura e da linguagem é muito mais atraente. É quase que literalmente o estado da arte da biblioteconomia, sem exageros.

A classificação do evento já indica À moda da casa, ou seja, o modo SESC de criar ações que atraiam público para suas bibliotecas. Os encontros estão sendo orientados pela Ana Luísa Sirota e pelo Francis Manzoni. Foram repassadas muitas informações nestes dois dias, vou tentar repassar por aqui alguns tópicos que me chamaram mais atenção.

Mesmo sendo uma organização nacional, o SESC dentro do escopo de suas atividades tem diferentes ênfases de acordo com a localidade. Em São Paulo, a ênfase é na área Cultural e de Artes. A questão do uso de diferentes linguagens artísticas para promover a leitura e a literatura foi bastante reiterada nas conversas. Embora existam diretrizes para os trabalhos, é desejável que nas ações o hibridismo entre diferentes linguagens artísticas seja viabilizado. O trabalho é sempre executado pensando na rede, em articulações e parcerias, promovendo a expansão de diálogos. Acredito que isso se torna não só possível como desejado por conta do contexto em que a biblioteca se encontra: um grande Centro Cultural.

Projeto #Tuiteratura, SESC Santo Amaro

Em se tratando de ações específicas com a literatura, existem 3 frentes de trabalho a serem seguidas: 1. Fomento à produção literária do livro (autores, editores, ilustradores e outros atores); 2. Ações culturais de incentivo à leitura; 3. Experimentações com a palavra e o texto literário, pensados enquanto linguagem artística. Durante a conversa, Francis disse que há uma pergunta que sempre é realizada para nortear algumas das ações: “onde é que as pessoas estão lendo?”. Essa é uma pergunta importantíssima, que todo bibliotecário deveria se fazer sempre. E em seguida ouvi “nós não deixamos a biblioteca em paz” e a intenção é, realmente, não deixá-la em paz, mesmo que algumas pessoas reclamem ou achem isso incomum para uma biblioteca. Ouvi também o seguinte conceito: a biblioteca como plataforma, vários suportes, várias linguagens para que a literatura possa assumir um papel público.

Para esta ação, vários autores convidados escreveram microcontos em 140 caracteres, que foram disponibilizados via bluetooth em algumas das maiores estações de metrô de São Paulo.

Um exemplo citado foi a instalação de poemas escritos em Portunhol Selvagem (arquitetura + literatura) nas paredes dos SESC de Pinheiros e Vila Mariana para a Mostra SESC de Artes em 2010. Outro exemplo é o Projeto Bibliotocas acontecendo no SESC Santo Amaro, onde há um fluxo maior de público. Há toda uma preocupação com os livros que serão disponibilizados a partir de editoras especializadas em livros infantis, tais como a Corraini, a Tara Books e a Planeta Tangerina. O projeto é simples e trata-se de uma intervenção de uma toca na biblioteca, com um recorte curatorial específico e mediadores fulltime. Além da presença em eventos externos, existem os eventos do SESC que ocorrem anualmente, como o Circuito SESC de Artes (interior do Estado) e a programação que é permanente. Foram repassados inúmeras ações, segue uma lista breve das que foram mencionadas na conversa: Tirando de Letra (Ribeirão Preto); De quem é essa história? (Araraquara); Encontro Marcado (Catanduva); Espaço Ler Escola (São Carlos); Clube de Leitura (SESC Carmo); Ateliê HQ (Sorocaba).

Ateliê HQ, SESC Sorocaba

Durante os encontros também ouvi falar muito sobre parcerias do SESC com outras instituições e com outros eventos. A organização será responsável pela programação da Bienal Internacional do Livro em 2014 e também marcará presença na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires e na Balada Literária. Participam também de outros eventos literários como a FLIP e a Feira do Livro de Frankfurt. Relacionados a todo esse mundo literário, também existe a editora Edições SESC SP e o Prêmio SESC de Literatura. Mesmo com esta forte participação em eventos, Manzoni frisa que os eventos, por si só, não formam leitores. Ressalta que a celebração da literatura é importante, mas não é suficiente. Isso indica que a mediação, e não só, mas a qualidade da mediação e a forma como ela é realizada condiz mais com os objetivos da instituição como um todo: aprendizagem informal, ampliação de repertório e estímulo a leitura.

Há algum tempo atrás eu escrevi sobre isso de que brasileiro não gosta de ler. Em agosto encontrei online um artigo muito interessante que também se pergunta sobre as livrarias cheias e as bibliotecas vazias, leitura como consumo versus transformação social. Sabemos que a mediação mercadológica existe e é muitas vezes ditada pela cultura de mídia e das livrarias (que utilizam linguagens restritivas e limitadas, visam ibope, quantidade, metas de venda, etc). Já a biblioteca, como certa vez já ouvi deve ser o lugar da exceção e não o da regra. Os best sellers e livros de auto ajuda continuarão a ser oferecidos, mas a biblioteca tem a obrigação de ir além disso e de mostrar ao seu público algo que não apenas os entretenha, mas uma experiência que de fato tenha um significado, transmita algo novo, que os retire do lugar comum.

Bem, por hora foram estas as conversas e reflexões que tive nos dois encontros. Os outros 2 encontros aconteceram nos dias 5 e 6 de novembro e foram registrados na Parte 2 – Projetos de incentivo à leitura e o Caso BiblioSesc.

Eventos de biblio

De setembro pra cá aconteceram alguns eventos importantes em São Paulo para a biblioteconomia: o 6º colóquio internacional de bibliotecas digitais (SESC e Instituto Goethe), um segundo encontro sobre o Plano Municipal do Livro e da Leitura (PMLL) (que aconteceu no Centro Cultural São Paulo) e o primeiro encontro da Abrainfo, a Associação Brasileira de Profissionais da Informação. Todos os eventos tiveram propostas bem distintas, abordando temas como propriedade intelectual e bibliotecas digitais, mediação da leitura e formação de mediadores e as intersecções entre as áreas de biblioteconomia, arquivologia e museologia.

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Participantes do BiblioCamp 2013, edição de São Paulo.

No início do mês de outubro aconteceu o primeiro BiblioCamp em São Paulo. Foi um sábado bastante agradável com apresentações de trabalhos e também com relatos de casos de ações em prol de bibliotecas municipais e comunitárias. Gostei muito mesmo da apresentação da Gabriela Previdello sobre propostas não formais de documentação contemporânea para as artes digitais. Já tentei tratar de um tema que se assemelha a este assunto algumas vezes [num seminário que fiz para uma disciplina isolada de mestrado na USP e na resenha que fiz sobre o livro da prof. Luciana Gracioso e do Gustavo Saldanha], mas não de forma específica para artes digitais e também não de forma tão interessante quanto ela. :)

No mês de outubro também aconteceu na Pinacoteca uma palestra sobre Gestão de Projetos Culturais que tratou brevemente da metodologia PMBOK aplicada à projetos culturais. E no final deste mês de novembro e início de outubro, o SESC está com 2 eventos bastante interessantes: o Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc (4 encontros) e o seminário “E aí, biblioteca pra quê?” (8 e 9 de novembro). Gostei bastante do nome do seminário, porque não é só questionador, mas é também bastante provocativo. O bacana é que na comunidade já tem gente respondendo pra quê que pode servir uma biblioteca, o que já é um bom aquecimento para o evento. Sobre o evento de Projetos de Incentivo à Leitura, tem tanta coisa, que é melhor eu dividir isso em um outro post.