O Facebook ainda não acabou?

Ontem eu li o texto da Marcela (O que acontece se você deixar de curtir no Facebook?) e parei pra reavaliar meu relacionamento com esta rede. Não fiz nada como ela por hora: não testei empiricamente o que aconteceria caso eu parasse de dar curtidas nas publicações. Mas o curioso é que no dia anterior de ler a postagem dela, eu já meio que tinha decidido largar mão da rede. Ao longo do uso da rede, já fiz isso umas duas ou três vezes e sinceramente não senti tanta falta assim. Sério. Consome muito do meu tempo e não me traz um retorno que eu considere razoável, por hora. Só permaneço lá por conta de algumas – poucas – pessoas, apenas.

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Minha relação com o facebook é que nem aquele relacionamento que você não aguenta mais, mas não consegue terminar de vez.

Em relação à métricas, mais voltado para empresas, acho que o Tarcízio Silva tem publicado bastante sobre isso nos últimos tempos e tenho o acompanhado pelo Twitter. Tive aula de mídias sociais na pós com a (ótima) Regina Fazioli e acho que esse é um campo de trabalho interessante pra quem é de biblio, pois nas métricas é possível trabalhar com categorização e padronização da linguagem natural utilizada na rede e isso qualquer graduando em biblioteconomia aprende em disciplinas de linguagens documentárias. Como o Tarcízio comentou, com grifo nosso:

Neste momento, monitoramento e pesquisa digitais que englobem o Facebook se aproximam ainda mais da pesquisa acadêmica e de áreas que envolvam a compreensão profunda das estruturas linguísticas e discursivas, além da organização da informação. Áreas como linguística de corpus, sociolinguística, text analytics, computação social, NL (processamento natural da linguagem) tornam-se mais importantes. Como o Facebook vai deixar parte do trabalho “às cegas”, é importante ter o máximo de domínio destas técnicas em grande escala (big data) para que os dados sejam o mais precisos possíveis e as estratégias e táticas resultantes deem resultado.

Como não trabalho com social media e não posso falar disso com tanta propriedade quanto todo o pessoal citado acima, pessoalmente posso dizer que tenho achado a rede improdutiva (pra não dizer chata mesmo). Conservadora demais. Convencional demais. Limitante demais. Não mantenho meu Facebook organizado e nem atualizado então o que existe lá é só o caos – no máximo filtro gente que quero e não quero seguir. Só não desativo a minha conta pois a maioria das pessoas ainda não debandaram de lá. Imagino que em alguns anos isso aconteça – como aconteceu com o Orkut – ou que no mínimo a rede se transforme em outra coisa até então não imaginada (hey, não sou boa futuróloga também então nem vou me arriscar a pensar nisso).

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Gestão de conteúdo na rede, gotta catch ’em all, mas a gente sabe que se estiver tudo zoado é meio que humanamente impossível.

Lembro de um casal de amigos que gosta muito de tirar fotos de viagens e colocavam tudo – tudo mesmo, inclusive informações importantes e relevantes em comentários, textos e fotos – sobre as viagens que faziam em suas respectivas contas no Facebook. Olha só: publicar coisas na rede não é errado, mas caso você pense em reter ou procurar aquilo tudo no futuro, considero arriscado. O que as pessoas não se atentam muito é que as redes tem mais um aspecto comunicacional e de networking do que de busca e recuperação propriamente dito. Pra mim, a recuperação de qualquer informação que eu tenha publicado no Facebook é bem precária. Também não posso organizar as coisas da forma que eu quero, mas dentro do que a rede me limita. Não existe uma busca eficiente, nem uma visualização eficiente (e quando chegar em, sei lá, 30 anos de linha do tempo, vai continuar do mesmo jeito? Sério? Sem tags, nem nada?).

Enfim, em uma conta pessoal considero bem complicado fazer essa gestão de conteúdo. Por isso acho inseguro apostar todas as suas fichas somente na rede. Pra isso, acredito que existem os blogs, sites e outras plataformas pessoais de gestão de conteúdo próprio. Facebook é bom para empresas porque elas pagam por isso. Pra mim ele é bom pra saber o que meus colegas estão fazendo, onde estão indo, que tipos de projetos tem tocado. Acho impossível saber de absolutamente tudo o tempo todo (gotta catch ’em all, etc). Encontrar-se periodicamente também não é tão simples quanto parece (se aqui em São Paulo já é difícil, fica ainda mais em se tratando de amigos e colegas de outros Estados).

A rede me é útil no sentido de que ela permite essa comunicação rápida e encurta essa distância e flexibilizando um tempo que não tenho. Não é o ideal, mas é melhor do que nada e é o que temos agora.

33º Painel de Biblioteconomia de Santa Catarina

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Desde a época da graduação em biblioteconomia, eu já conhecia o Painel de Biblioteconomia, mas nunca cheguei a participar. Este ano fui convidada pela comissão organizadora e fiquei bem animada. O evento será no na metade de novembro e até lá vou ter tempo pra me organizar neste sentido. Esse ano foi bastante cheio em relação a eventos e particularmente acho isso bom, pois agora estou indo em eventos pra falar efetivamente do que fiz/faço – diferente dos EREBDs e ENEBDs que também foram importantes na minha formação mas mais no sentido de socialização.

O tema do grupo de discussão o qual farei parte chama-se “Biblioteconomia em Novos Espaços”. Esse tema é do meu interesse por dois motivos. Há algum tempo tenho investigado no mercado aqui de SP, as vagas para bibliotecários que poderiam ser consideradas incomuns ou como eu chamo, lato sensu. E também vou fazer um breve relato de experiência, uma vez que atualmente estou trabalhando com ecommerce e este pode ser considerado um espaço novo, ou não tradicional. Depois de quase um ano trabalhando ativamente com uma equipe de planejamento em taxonomia, me sinto bem mais confortável em falar um pouco sobre a minha experiência com organização e acesso à informação digital.

Também estou curiosa pra encontrar outros profissionais e trocar impressões sobre a profissão e sobre o mercado. E claro, rever minhas colegas de Floripa dos tempos de graduação com o tempinho que sobrar. Acredito que vai ser bastante proveitoso.

Por que revisão, edição e editoração são importantes?

(Texto publicado originalmente em janeiro de 2012)

Esses dias li um livro que era uma produção caseira. Gostei do livro, de verdade. Pode ser considerado uma biografia, mas é também profundamente histórico. No entanto, ficou bem evidente que o livro foi feito meio às pressas, pois talvez fosse o desejo do autor publicá-lo antes que 2011 terminasse. Ainda assim, acredito mesmo que a pressa é inimiga da perfeição e todo o registro ou publicação, por mais simples ou caseiro que seja, tem de ser minimamente bem feito. Às vezes o modo que um livro está organizado pode influenciar na forma que as pessoas vão ter acesso à informação que está contida nos textos.

“Sim Dora, mas às vezes não é pressa, é improviso”. É claro que entendo que, para alguns autores, o propósito é que seja tosco e mal-feito mesmo se formos pensar por exemplo, nas produções/gravações feitas por bandas tradicionais de black metal (Burzum, Darkthrone, etc.), em que os fãs do gênero consideram “as melhores” gravações as mais toscamente mal-feitas. Ok, talvez esse tenha sido um exemplo meio ruim, pois não me aventuro a pisar nesse terreno de comparar obras de arte (que são livres, abertas à interpretações, etc.) com um suporte como o livro. Talvez seja um pouco mais adequado fazer a comparação com zines, por exemplo.

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Zines são publicações periódicas que eram bastante populares pelos idos dos anos 90 e antes disso também. Os editores custeavam as publicações do próprio bolso pelo simples prazer de compartilhar e divulgar: bandas, artistas, quadrinhistas, desenhistas, HQs, etc. Às vezes faziam resenhas de discos, livros, etc. Sempre tem um apocalíptico pra dizer que “a Internet matou os zines e matou os correios”, mas eu acredito que as coisas simplesmente se transformaram e mudaram de suporte: do papel (que custava 1,50 ou 3 pra envio, com selos, etc.) para o digital (que não custa nada, pra ninguém). E até hoje não conheci um zineiro que quis lucrar com zines – este nunca me pareceu ser o propósito de sua criação, em primeiro lugar. Eu ainda adoro zines, mas faz tempo que não leio nenhum, infelizmente. E sou saudosa do tempo que os recebia pelo correio. Talvez eu deva começar a buscar mais por eles este ano.

Embora os zines sejam reconhecidamente publicações informativas, mas principalmente artísticas e feitos sempre com amor (ou seja, pouquíssimos recursos), pessoalmente nunca encontrei um que fosse mal-feito ou difícil de ler, complicado de entender. É… Me parece ser bem mais fácil comparar um periódico caseiro com um livro caseiro. Os zines podem ser feitos no improviso e ainda assim, serem compreendidos e até mesmo celebrados por toda uma comunidade. Acredito que nem sempre o improviso – e arrisco dizer, até mesmo a pressa – possa ter ligação com má qualidade. Às vezes, sim, mas isso não é uma regra. E alguns zines que já tive a oportunidade de ler considerei como verdadeiras obras de arte. Era algo que me fazia ter vontade de colecionar.

Mas peguei esse exemplo apenas pra ilustrar: não acho que a pressa nem o improviso justifiquem que um livro, mesmo caseiro, seja mal organizado. O que mais dói o coração é que o conteúdo do livro que li é mesmo incrível… Mas não havia nem mesmo um sumário, nada, então pra mim, lê-lo foi uma experiência completamente desestimulante. Me senti perdida várias vezes. Em um livro que abordava muito aspectos históricos, não havia ordem cronológica alguma. Entendo que talvez pro autor isso possa não importar, mas veja bem, não se tratava de uma obra de literatura, mas sobre fatos históricos. Confesso que é complicado ler um texto que vai e volta do passado pro presente e pro passado de novo, etc. Acho que uma boa revisão e melhor estruturação mesmo do conteúdo bastaria.

Estou bem certa que a razão de ser deste livro não era artística, mas histórica, de registro e informativa mesmo. A crítica que compreendo quando da leitura, não é por questão de eu fazer uma exigência de normalização rígida, de ter ficha catalógrafica, catalogação na fonte, nada disso… Mas a de simplesmente querer uma leitura que seja minimamente prazerosa e fluente. Eu quero querer ler o livro e eu realmente queria poder ter gostado mais dele. Não quero me contentar com o conteúdo, apenas. Conteúdo por conteúdo eu poderia trocar muito facilmente aquele livro por outro mais interessante que estivesse lendo na mesma época. Mas me peguei tendo que ser persistente em uma leitura difícil e que me confundia o tempo todo.

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Sério gente não dá.

No final do livro o autor declara então que sua intenção “nunca foi a de escrever um livro” e acho que essa frase por si só explica muita coisa. Foi aí que comecei a pensar na relação entre o pretensioso e o mal-feito. “Nunca tive a pretensão de escrever um livro”, mas veja só: você escreveu. E ele é real e existe (mesmo que seja num Kindle, meu amigo). E outras pessoas irão lê-lo e farão comentários sobre ele. Isso me lembra dos comentários pejorativos sobre alguns filmes cult que gosto: “esse filme é um lixo pretensioso”. Sim, concordo que é uma escolha difícil. O que você costuma escolher: o lixo pretensioso, bonitinho mas ordinário ou o conteúdo interessante, mas mal organizado e mal-feito? Ou pior ainda: o meio termo? O lugar comum?

A diferença é que com o lixo pretensioso, a primeira impressão é a que fica (“que filme incrível!”), apesar de, talvez meses depois, chegarmos à essa conclusão: “é, era de fato um lixo pretensioso”. Mas até chegarmos aí, o produto já foi consumido e demoramos, mas captamos a mensagem (ou a total ausência dela, enfim). Ou seja, nos foi permitido, em algum nível, ter acesso ao que foi feito. Com o conteúdo interessante mas mal-feito, o desinteresse ocorre antes que a gente tenha empatia pelo produto e às vezes a mensagem nem mesmo se completa – ou se completa pela metade. Ou seja, o acesso à informação (à cultura, ao entretenimento, etc.) fica severamente comprometido e não nos é permitido nem mesmo uma crítica ou qualquer tipo de pensamento ou discussão à posteriori… Porque simplesmente nos desinteressamos antes de qualquer coisa.

O que será que há mesmo de tão pejorativo em ser pretensioso? Porque admite-se cada vez menos “eu fiz isso e achei bom ter feito, gostei do que fiz”? Qual é o problema, aparentemente inaceitável, em receber críticas? Livrar-se da responsabilidade por ter criado/escrito/pintado/tocado algo dizendo que “não foi sua intenção” não impede que as pessoas te critiquem e achem o que você fez ruim assim mesmo. Ou seja: não há como vencer. “Fulano é tão pretensioso!”. Antes um pretensioso que seja ruim, do que um tipo fino de covardia disfarçado de ‘humildade’ (ou até mesmo de ‘revolta’), que na verdade, não passa mesmo da boa e velha bundamolice. Dica: se você irá fazer uma produção, registro, o que for, mesmo que seja caseiro, aposte em ser pretensioso.

Algo me diz que ser pretensioso vale mais a pena do que não ser coisa alguma.

Rapidíssimas

Oi!

De ontem pra hoje aconteceram algumas coisas e gostaria de compartilhar por aqui por que alguém pode se interessar:

  • Bibliotecários e bibliófilos: está rolando agora mesmo o Book Friday da Amazon Brasil. Acho que é uma boa chance de fazer negócio e comprar livros por um preço mais em conta. Talvez. Não custa olhar. Pra essa campanha eles fizeram um site do evento no facebook. Acho que vale conferir.

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  • O editor e blogueiro Maurício Tuffani comentou no blog da Scientific American Brasil a discussão sobre o Futuro da Biblioteconomia, que começou com o post do Gustavo no BSF. Tenho conversado com o Gustavo e com o Moreno no sentido de tornar a discussão mais ampla, mesmo porque ela concerne uma série de aspectos que são sempre abordados de forma pontual. Acho importante!

Artistas na biblioteca: performance da Amanda Palmer na NYPL dia 20/08

Conheci a Amanda Palmer pela antiga banda dela de punk cabaret, o Dresden Dolls. Faz algum tempo já que acompanho a carreira dela. Ela é casada com o escritor Neil Gaiman (que também já foi traduzido aqui no blog). Do relacionamento dela com o Gaiman ela se inspirou para escrever o A arte de pedir (spin off do Ted Talk dela), que saiu pela Intrínseca aqui no Brasil esse ano.

O livro é praticamente uma autobiografia dela, com várias histórias confessionais onde ela também fala sobre seu processo criativo e seus relacionamentos. Enfim, não quis esperar e comprei o livro em inglês. Para uma artista que é performer, até que ela não se saiu mal como escritora. E além do livro, do relacionamento com o Gaiman ela também está esperando uma nova vida…

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Ela está de 8 meses. Em tempo de internet isso equivale a milhões de anos. Parece que esse bebê não nasce nunca!

Enfim, tudo isso pra dizer que como performer a Amanda também tem – já teve – várias iniciativas de fazer pocket shows e aparições rápidas em bibliotecas. E tem uma marcada pra quinta-feira agora, dia 20 de agosto, às 18h, na biblioteca pública de New York. Provavelmente esse vai ser um dos últimos pocket-shows que ela vai fazer antes de se afastar um pouquinho para ter o bebê.

O legal é que nessa chamada ela pediu para quem comparecesse trouxesse como doação um livro infantil para cooperar com um programa de leitura da NYPL e disse que uma ação será feita com esses livros na hora, fazendo o maior suspense. Queria estar em NY pra ver como vai ser isso, pois fiquei bem curiosa.

Ela disse que este evento tem sido planejado em segredo por dois meses e parece que vai ter a gravação de um vídeo clipe. Para financiar esta gravação – entre outras ações dela – ela tem utilizado o Patreon ultimamente. É provável que em algum momento esse vídeo eventualmente seja disponibilizado no youtube e poderá ser visto no mundo todo.

Não sei se vem ao caso se esse tipo de ação cultural – pois não deixa de ser – partiu da artista ou da biblioteca. O que realmente importa é que: 1. Isso está acontecendo! 2. Está trazendo pessoas para o espaço da biblioteca que será utilizado para algum tipo de ação; 3. e uma comunidade (fãs da Amanda Palmer) está efetivamente ajudando outra comunidade (a de pessoas que tem acesso limitado à leitura).

Acho que seria muito interessante se inspirar em ações nesse sentido. Em eventos curtos, mas que tenham significado e que as pessoas participantes – mesmo que poucas – se sintam envolvidas e parte de algum processo. Parte de um vídeo clipe que aparecerá na internet depois, com seu artista preferido. Parte de uma ação de caridade, que ajudará outras pessoas que precisam. Parte de algo que vá além e signifique mais do que um mero evento, do que uma simples reunião, mas que seja uma experiência transformadora e que ressignifique algumas coisas que conhecem até então.

Esse é um dos papéis da arte e a Amanda sabe muito bem disso. E as bibliotecas podem – e devem – viabilizar esse tipo de ação sempre que possível.

Como seu trabalho molda sua identidade

Texto publicado originalmente no The Book of Life (School of Life), sob o título How Your Job Shapes Your Identity, capítulo 2 da série Trabalho: Os infortúnios do trabalho.

Quando conhecemos novas pessoas, somos tentados a perguntar: ‘o que você faz?’. Estamos levando em conta a ideia de que a nossa identidade está muito ligada às nossas atividades diárias. Mas a forma que a questão é respondida tende a bloquear as conseqüências práticas de nossos trabalhos. Aí um dentista irá explicar como ele faz para evitar placas de tártaro; um advogado corporativo irá mencionar uma fusão com a qual ele está ocupado e que está nos noticiários recentemente; um técnico de som em um estúdio irá detalhar como eles religam um equipamento, instalam novos bits de roteadores e contatos com ISPs complicados no mundo todo.

No entanto, o que é mais revelador, mas mais esquivo, são os requerimentos psicológicos e consequência do trabalho – que tipos de mentalidades um trabalho gera, o que realizar o trabalho requer da sua vida interior, como nos expande e (crucialmente) nos limita.

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© Flickr/Ernesto De Quesada

Nossa cultura geralmente contorna todo este território. Se nos perguntam: ‘qual é o caráter psicológico do seu trabalho?’ as respostas podem parecer muito diferentes. O dentista pode dizer: ‘lido muito com evasão e fraqueza de vontade; assim sendo, pessoas inteligentes e confiáveis vivem cancelando consultas o tempo todo, culpando seus horários. Quando elas aparecem, sentam na minha cadeira e mentem repetidamente pra mim sobre o quanto eles passam o fio dental e quebram todas as promessas que fizeram pra mim na última vez sobre cuidarem de seus dentes. Sou diariamente confrontado com o quão difícil adultos acham fazer coisas bem básicas que são de seu próprio interesse. Isso pode fazer de mim uma pessoa um pouco severa’.

O advogado corporativo pode responder: ‘sou diariamente confrontado com a agressividade e impaciência de meus clientes. Eles querem tudo pra ontem. Ninguém se importa com a vida particular de ninguém. Observo muita ambição crua – nada me surpreenderia em relação a capacidade humana por duplicidade’.

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© Flickr/Penn State

O engenheiro de som pode dizer: ‘problemas aparecem o tempo todo, mas você pode sempre ter certeza que encontrará uma solução se for cuidadoso e metódico. Podem ter existido sete possíveis causas para um problema e você precisa checar cada uma delas. Mas definitivamente será uma destas. Eu amo tecnologia nesse sentido, as coisas são interligadas e lógicas’.

Nós categorizaríamos trabalhos em termos de seus perfis psicológicos – de acordo com quais traços de natureza humana eles enfraquecem ou reenforçam:

Paciência versus impaciência: seu trabalho te treina para instintivamente priorizar o que está acontecendo agora mesmo e relegar o que pode acontecer daqui alguns anos como não sendo seu problema (enfermeira de emergência, editor de notícias)? Ou te faz criar o hábito de esquematizar suas preocupações na escala de anos a fio? (engenheiro aeronáutico, funcionário público responsável pela construção de uma estação elétrica)

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© Flickr/Royal Navy Media

Suspeito versus confiante: seu trabalho aguça seu senso de que algumas questões reais podem ser muito diferente das que são evidentes? Você está em um ambiente no qual as pessoas costumam manter suas cartas escondidas ou mentem deslavadamente (jornalista, comerciante de antiguidades, consultoria de gestão)? Ou será que seu trabalho geralmente te envolve com pessoas que são muito abertas sobre suas verdadeiras preocupações (psicoterapia, instrutor de esqui, controle de tráfego aéreo)?

Especulativo versus concreto: o trabalho é focado em como as coisas poderiam ser ou em atenção à forma que elas costumam ser? Será que você é recompensado por ter imaginado coisas que outras pessoas não tenham pensado o suficiente (pesquisador think tank, poeta, futurologista) ou por cuidadosa atenção aos detalhes práticos? (logística de frutas frescas, carpinteiro)

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© Flickr/wwwupertal

Buscador de consenso versus independente: alguns tipos de trabalho ensinam a habilidade de fundir-se com o ponto de vista coletivo (professor de escola, representante de férias); outros convidam o primeiro plano de um ponto de vista pessoal, uma tomada incomum em coisas onde não fazer o que os outros estão fazendo pode ser uma vantagem fundamental (treinador de tênis, empresário).

Otimista versus pessimista: como o trabalho o incentiva a ver aspectos positivos e talvez evitar deter-se sobre as desvantagens (marketing, coaching pessoal, sommelier) ou o leva a um hábito de colocar em primeiro plano os perigos, as armadilhas e iminente catástrofes? (contadores, assessores internos)

Focado em finanças versus abrigado de finanças: você pode estar em um ambiente onde o status varia enormemente de acordo com o dinheiro (advogado, executivo corporativo) e onde é instintivo pensar em termos de custos e margens de lucro; ou o dia a dia de trabalho realmente não envolvem tais considerações de forma alguma? (acadêmico, professor)

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Dignidade é frágil versus um status sólido: um artista é geralmente exposto a repulsas profundas; coisas que eles colocaram a sua alma podem muito bem acabar sendo desprezadas ou ignoradas. Mesmo que eles sejam muito bons no que fazem, eles podem não ter nenhum sucesso de público tangível. O décimo primeiro melhor poeta no Reino Unido ganhou 6.117 libras esterlinas no último exercício, em royalties, avanços, pequenos subsídios e taxas de aparição pública. Outros trabalhos significam que uma aplicação razoável e habilidade certamente serão bem recompensados: cada bacharel em ciência veterinária tem como garantia um emprego bem remunerado.

Melhor natureza versus pior natureza: alguns trabalhos, embora difíceis, continuamente o relembram da preciosidade da vida (enfermeira, parteira) enquanto outros você está sempre encontrando os lados menos admiráveis da natureza humana (polícia, direito familiar).

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© Flickr/Thomas Hawk

Lógico versus hierarquia casual: em alguns postos de trabalho, é claro o que você precisa fazer para seguir em frente e como ocorre a promoção (piloto de linha aérea, mestre); em outros trabalhos (produção de televisão, política), as regras são muito menos resolvidas e estão vinculadas com acidentes de amizade e de alianças fortuitos. No primeiro caso, há uma calma e firmeza para a alma. No último, existe uma ansiedade constante – e falta de confiança.

Estar numa industria decadente versus emergente: existem indústrias onde parece que a época de ouro foi no passado; provavelmente é menos divertido trabalhar nelas agora do que antigamente (editoração, televisão, serviço diplomático). Ou está toda a indústria em crescimento, com todos os tipos de novos empreendimentos altamente rentáveis emergindo (mídia social, tecnologia)? Você tende a trabalhar em torno de pessoas que sentem que pode conquistar o mundo ou que sentem que o mundo está prestes a vencê-los?

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© Flickr/United Nations Information Centres

Estar em um ambiente psicológico particular, todos os dias durante anos tem um impacto muito grande sobre os nossos hábitos mentais. Isso influencia o que supomos que outras pessoas são, forma a nossa visão da vida e, gradualmente, molda quem somos. A psicologia incutida pelo trabalho que fazemos não fica apenas no trabalho. Nós a levamos conosco para o resto de nossas vidas.

Somos geralmente muito cientes de que isso pode acontecer… Em locais distantes. Entendemos que um aristocrata francês em 1430 terá uma visão especial moldada pelo fato de que eles têm vivido sua vida em uma hierarquia social muito estrita, cercado por uma ética de guerreiro; ou que alguém de uma vila de pescadores do século XIX em nas Ilhas Ocidentais da Escócia, que passou anos lutando contra tempestades em Benbecula, terá têm um caráter profundamente marcado pela sua vida profissional. Nós não somos diferentes. A única diferença é que nós achamos muito mais difícil de perceber o que aconteceu no nosso caso, porque – é claro – a nossa perspectiva parece natural para nós, embora não seja nada disso. Pode demorar um encontro com um alienígena (na forma de alguém de um campo muito diferente) para nos levar a notar isso.

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© Flickr/Krocky Meshkin

Às vezes podemos entender os efeitos do trabalho sobre nossa personalidade em situações sociais. Se você perguntar a um advogado, “como você acha que os carros serão como em 2035?” Eles podem ficar intrigados sobre porque você iria querer exercitar o cérebro dessa forma. Qual é o ponto de especular sobre algo atualmente incognoscível? Obviamente, as coisas vão evoluir de maneiras inesperadas. Mas ainda haverá leis e tribunais e regulamentos. E nós podemos lidar com isso quando acontecer.

Se você perguntar a um acadêmico, “quanto você ganha por hora?” ou “qual é o retorno financeiro em suas investigações sobre a história da gramática sueca?”, eles vão achar essa pergunta tendenciosa. ‘Porque você está perguntando isso? O que isso importa?’ apesar de você acreditar que estas sejam perguntas legítimas. Ou, se você for questionar um trader de commodities sobre como seu trabalho beneficia os outros a questão pode acabar parecendo a ele estranhamente ingênua: o que faria você pensar que o objetivo desse trabalho fosse qualquer outra coisa senão a vantagem pessoal do indivíduo em questão?

Estamos amplamente conscientes de que a forma como as pessoas aprendem a pensar no trabalho pode ser rastreada em seu caráter doméstico e social. O professor de escola primária trata os seus filhos como alunos, o professor acadêmico se torna uma tagarela em jantares, o político não pode deixar de fazer discursos como casamentos.

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© Flickr/Tommy Wells

Mas estas são as pontas do iceberg, existem vários outros casos:

  • O técnico é profundamente calmo e tranquilizador. Provavelmente, eles sentem que todos os problemas da vida são um pouco como os problemas técnicos que têm dominado no trabalho. A maioria das coisas podem ser corrigidas, se você não entrar em pânico e trabalhar a partir de uma lista de verificação.
  • O executivo de TV tem um senso muito frágil do eu. Eles são bastante agressivos quando pensam que estão no topo, mas se dobram rapidamente quando sentem os ventos se movendo contra eles.
  • O dentista se torna mandão. Eles estão tão acostumados a censurar pessoas por serem negligentes consigo mesmas que isso se torna um hábito.
  • O escritor freelancer, que está sempre tendo que moldar a contragosto o seu trabalho com as demandas de outros, torna-se acostumado a sentir incompreendido e subestimado. No trabalho, as melhores partes de sua ambição tem de ser subordinadas: a sua escrita sobre arquitetura venezuelana fica marginalizada mas seu anúncio na moda para diamantes rosa tem um mercado pronto. Eles estão sempre à espera de serem mal interpretados, e tornam-se hiper alertas para quaisquer sinais de que isso pode estar acontecendo.

O trabalho pode ser muito bom pras pessoas. A mentalidade criada no trabalho pode estar criando aspectos para o eu que não foram apropriadamente desenvolvidos antes. Em um escritório onde rapidez e exatidão são crucialmente importantes, alguém que é levemente desatento pode adquirir um corretivo à sua fraqueza inicial. Um ambiente onde o compromisso parece natural pode ser altamente educacional para a pessoa que tem investido tempo demais em fazer valer os seus próprios pontos de vista.

Mas trabalho pode estreitar nossas personalidades também. Quando uma certa extensão de questões e modos de pensar se tornam arraigados, significa que outros podem começar a parecerem estranhos e até mesmo ameaçadores. Uma pessoa que se acostumou demais a implementar as ideias de outros – e talvez seja muito habilidoso nisso – pode achar profundamente desconfortável ser colocada no centro de atenção e perguntada o que ele/ela acha que os grandes objetivos deveriam ser. Eles perderam totalmente o hábito de se questionarem sobre isso. Um administrador de escolas pode ser muito afiado quando se trata em como você reorganizaria o quadro de pessoal, mas se você perguntar para ele ‘para que serve educação?’ soa desconcertante, como se perguntasse para que serve grama ou por que Londres é na Inglaterra e não na Escócia?

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© Flickr/Ozan Hatipoglu

Além disso, algo muito moral e sério pode ameaçar o executivo de TV. Ou um inquérito sobre os pontos de vista sobre a Revolução Francesa pode poderia ameaçar um personal trainer. Sente-se que tais questões são dolorosas, porque eles são lembretes de que um teve que renunciar, a fim de tornar-se focado em um determinado trabalho. Ao dar uma grande parte da vida de alguém a um determinado tipo de trabalho, entende-se que – necessariamente – a pessoa não foi capaz de fazer jus a outras áreas em potencial. Perdeu-se o poder de se envolver com questões que podem ter parecido uma vez intrigantes.

A idéia geral de que o trabalho nos molda aplica-se, naturalmente, a si mesmo. Mas precisamente porque certas atitudes e hábitos podem vir a parecerem naturais, é difícil perceber que isso aconteceu. Há uma questão fundamental que podemos nos perguntar: de que forma pode a minha própria personalidade ter sido moldada (para melhor ou para pior) por meu trabalho (assim como é importante entender como se foi moldado pela infância)? Há uma pergunta autobiográfica pungente: se eu tivesse trabalhado com algo diferente, eu teria sido uma pessoa diferente? E a resposta deve ser afirmativa. Contidos em outros caminhos de carreira estão outras versões plausíveis de si mesmo – que, se contempladas, revelam importantes, mas atualmente subdesenvolvidos, elementos de personalidade. Ela dá origem à mais complicada das perguntas: onde estão os outros pedaços de mim …?

Ter em mente como o nosso trabalho nos molda significa que nós deveríamos julgar as outras pessoas mais lentamente em relação ao que elas são. Talvez seja o trabalho delas, não ‘elas’ que as tenha feito quem são – que as tenha feito tão nervosas, raivosas ou entediantes. É o ambiente de emprego que deveríamos culpar, não elas. O executivo de televisão nem sempre foi assim, o advogado corporativo não nasceu como é hoje em dia. Eles podem ter sido outras pessoas. Nossas identidades são vulneráveis à nossos trabalhos. E isso pode abrir as avenidas da compaixão.

Curadores de conteúdo estão se tornando mais importantes que criadores de conteúdo?

por Joe Wilkert, da Olive Software

Tenho certeza que a maioria de vocês se arrepiam com o pensamento de curadores serem mais valiosos do que criadores. Afinal, o último não teria emprego se não fosse o primeiro. Concordo, mas não é como se as pessoas que criassem conteúdo estivessem desaparecendo. Na verdade, esse número de pessoas só cresce a cada mês e é isso o que está influenciando positivamente a valorização da curadoria.

Independente das suas preferências e interesses simplesmente existe muito conteúdo pra ler. Sejam livros, revistas, jornais, blogs, sites, newsletters, etc., cada ano se torna mais difícil acompanhar tudo. Confrontados com esse fluxo contínuo de conteúdo, todos nós precisaríamos de alguma ajuda na determinação de quais elementos valem a pena a leitura e quais são perda de tempo.

Separando as coisas boas das ruins, claro, onde a curadoria entra nisso. Minha revista favorida, The Week, mostra apenas o quão poderosa e útil a curadoria pode ser: cada semana seus editores selecionam as melhores e mais recentes notícias, apresentando ambos os lados de cada história e poupando os leitores de inumeráveis horas com sua cobertura resumida. Inicialmente o Flipboard fazia a curadoria do conteúdo e então eles expandiram sua plataforma e agora qualquer um pode criar uma revista Flipboard. Esta é a minha, por exemplo.

Apesar de seu sucesso, o Flipboard ilustra o fato de que a curadoria ainda tem muito caminho a percorrer na sua evolução. Digo isso porque a relação sinal-ruído do Flipboard e das revistas do Flipboard está ficando cada vez pior. Toda semana encontro menos histórias novas e interessantes do Flipboard pra ler e compartilhar para que outros descubram.

Então onde essa valorosa curadoria e consumo têm lugar no futuro? Hoje está espalhado pela web mas eu prefiro ter tudo unificado em um único stream conveniente.

A plataforma Evernote tem o potencial de se tornar um simples anotador para um serviço mais poderoso de curadoria de conteúdo, consumo e compartilhamento. Parei de usar o Instapaper porque é muito fácil clipar, anotar e guardar sites no Evernote. Também estou fazendo clipping de páginas de revistas pela minha assinatura Next Issue e colocando esses no Evernote. Pra resumir, Evernote faz com que seja fácil e conveniente a curadoria de conteúdo de uma variedade de fontes e encaixá-las todas juntas.

Aqui está a questão espinhosa que provavelmente terá que ser respondida em breve: em algum ponto, um serviço como o Evernote vai oferecer uma opção para comprar acesso à curadoria de outras pessoas? Em outras palavras, posso cobrar por acesso às minhas coleções de curadoria do Evernote, incluindo todo o conteúdo aos quais não possuo os direitos de redistribuir?

Este é mais um exemplo do Dilema do Inovador: editores tradicionais irão agressivamente lutar para prevenir isso enquanto outros que pensam mais à frente irão encontrar um modo de participar do fluxo de receitas que isso representa. E esse fluxo de receitas, aliás, será um onde os curadores são altamente valorizados e, em algum caso, se tornam a marca chave.