Por que revisão, edição e editoração são importantes?

(Texto publicado originalmente em janeiro de 2012)

Esses dias li um livro que era uma produção caseira. Gostei do livro, de verdade. Pode ser considerado uma biografia, mas é também profundamente histórico. No entanto, ficou bem evidente que o livro foi feito meio às pressas, pois talvez fosse o desejo do autor publicá-lo antes que 2011 terminasse. Ainda assim, acredito mesmo que a pressa é inimiga da perfeição e todo o registro ou publicação, por mais simples ou caseiro que seja, tem de ser minimamente bem feito. Às vezes o modo que um livro está organizado pode influenciar na forma que as pessoas vão ter acesso à informação que está contida nos textos.

“Sim Dora, mas às vezes não é pressa, é improviso”. É claro que entendo que, para alguns autores, o propósito é que seja tosco e mal-feito mesmo se formos pensar por exemplo, nas produções/gravações feitas por bandas tradicionais de black metal (Burzum, Darkthrone, etc.), em que os fãs do gênero consideram “as melhores” gravações as mais toscamente mal-feitas. Ok, talvez esse tenha sido um exemplo meio ruim, pois não me aventuro a pisar nesse terreno de comparar obras de arte (que são livres, abertas à interpretações, etc.) com um suporte como o livro. Talvez seja um pouco mais adequado fazer a comparação com zines, por exemplo.

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Zines são publicações periódicas que eram bastante populares pelos idos dos anos 90 e antes disso também. Os editores custeavam as publicações do próprio bolso pelo simples prazer de compartilhar e divulgar: bandas, artistas, quadrinhistas, desenhistas, HQs, etc. Às vezes faziam resenhas de discos, livros, etc. Sempre tem um apocalíptico pra dizer que “a Internet matou os zines e matou os correios”, mas eu acredito que as coisas simplesmente se transformaram e mudaram de suporte: do papel (que custava 1,50 ou 3 pra envio, com selos, etc.) para o digital (que não custa nada, pra ninguém). E até hoje não conheci um zineiro que quis lucrar com zines – este nunca me pareceu ser o propósito de sua criação, em primeiro lugar. Eu ainda adoro zines, mas faz tempo que não leio nenhum, infelizmente. E sou saudosa do tempo que os recebia pelo correio. Talvez eu deva começar a buscar mais por eles este ano.

Embora os zines sejam reconhecidamente publicações informativas, mas principalmente artísticas e feitos sempre com amor (ou seja, pouquíssimos recursos), pessoalmente nunca encontrei um que fosse mal-feito ou difícil de ler, complicado de entender. É… Me parece ser bem mais fácil comparar um periódico caseiro com um livro caseiro. Os zines podem ser feitos no improviso e ainda assim, serem compreendidos e até mesmo celebrados por toda uma comunidade. Acredito que nem sempre o improviso – e arrisco dizer, até mesmo a pressa – possa ter ligação com má qualidade. Às vezes, sim, mas isso não é uma regra. E alguns zines que já tive a oportunidade de ler considerei como verdadeiras obras de arte. Era algo que me fazia ter vontade de colecionar.

Mas peguei esse exemplo apenas pra ilustrar: não acho que a pressa nem o improviso justifiquem que um livro, mesmo caseiro, seja mal organizado. O que mais dói o coração é que o conteúdo do livro que li é mesmo incrível… Mas não havia nem mesmo um sumário, nada, então pra mim, lê-lo foi uma experiência completamente desestimulante. Me senti perdida várias vezes. Em um livro que abordava muito aspectos históricos, não havia ordem cronológica alguma. Entendo que talvez pro autor isso possa não importar, mas veja bem, não se tratava de uma obra de literatura, mas sobre fatos históricos. Confesso que é complicado ler um texto que vai e volta do passado pro presente e pro passado de novo, etc. Acho que uma boa revisão e melhor estruturação mesmo do conteúdo bastaria.

Estou bem certa que a razão de ser deste livro não era artística, mas histórica, de registro e informativa mesmo. A crítica que compreendo quando da leitura, não é por questão de eu fazer uma exigência de normalização rígida, de ter ficha catalógrafica, catalogação na fonte, nada disso… Mas a de simplesmente querer uma leitura que seja minimamente prazerosa e fluente. Eu quero querer ler o livro e eu realmente queria poder ter gostado mais dele. Não quero me contentar com o conteúdo, apenas. Conteúdo por conteúdo eu poderia trocar muito facilmente aquele livro por outro mais interessante que estivesse lendo na mesma época. Mas me peguei tendo que ser persistente em uma leitura difícil e que me confundia o tempo todo.

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Sério gente não dá.

No final do livro o autor declara então que sua intenção “nunca foi a de escrever um livro” e acho que essa frase por si só explica muita coisa. Foi aí que comecei a pensar na relação entre o pretensioso e o mal-feito. “Nunca tive a pretensão de escrever um livro”, mas veja só: você escreveu. E ele é real e existe (mesmo que seja num Kindle, meu amigo). E outras pessoas irão lê-lo e farão comentários sobre ele. Isso me lembra dos comentários pejorativos sobre alguns filmes cult que gosto: “esse filme é um lixo pretensioso”. Sim, concordo que é uma escolha difícil. O que você costuma escolher: o lixo pretensioso, bonitinho mas ordinário ou o conteúdo interessante, mas mal organizado e mal-feito? Ou pior ainda: o meio termo? O lugar comum?

A diferença é que com o lixo pretensioso, a primeira impressão é a que fica (“que filme incrível!”), apesar de, talvez meses depois, chegarmos à essa conclusão: “é, era de fato um lixo pretensioso”. Mas até chegarmos aí, o produto já foi consumido e demoramos, mas captamos a mensagem (ou a total ausência dela, enfim). Ou seja, nos foi permitido, em algum nível, ter acesso ao que foi feito. Com o conteúdo interessante mas mal-feito, o desinteresse ocorre antes que a gente tenha empatia pelo produto e às vezes a mensagem nem mesmo se completa – ou se completa pela metade. Ou seja, o acesso à informação (à cultura, ao entretenimento, etc.) fica severamente comprometido e não nos é permitido nem mesmo uma crítica ou qualquer tipo de pensamento ou discussão à posteriori… Porque simplesmente nos desinteressamos antes de qualquer coisa.

O que será que há mesmo de tão pejorativo em ser pretensioso? Porque admite-se cada vez menos “eu fiz isso e achei bom ter feito, gostei do que fiz”? Qual é o problema, aparentemente inaceitável, em receber críticas? Livrar-se da responsabilidade por ter criado/escrito/pintado/tocado algo dizendo que “não foi sua intenção” não impede que as pessoas te critiquem e achem o que você fez ruim assim mesmo. Ou seja: não há como vencer. “Fulano é tão pretensioso!”. Antes um pretensioso que seja ruim, do que um tipo fino de covardia disfarçado de ‘humildade’ (ou até mesmo de ‘revolta’), que na verdade, não passa mesmo da boa e velha bundamolice. Dica: se você irá fazer uma produção, registro, o que for, mesmo que seja caseiro, aposte em ser pretensioso.

Algo me diz que ser pretensioso vale mais a pena do que não ser coisa alguma.

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